Ascensão Infernal
10 Investigando
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol entravam pela janela do quarto de hotel, quando Natalie começou a despertar. Após abrir os olhos devagar e respirar profundamente, ela tentou se esticar na cama. Porém, a caçadora mal conseguiu se mexer e logo entendeu o motivo. Dean estava a abraçando enquanto dormia profundamente.
Um dos braços dele estava em volta da cintura da loira, uma de suas pernas estava sobre ela também e, para piorar, Dean estava com o rosto encaixado entre o ombro e o pescoço de Natalie. Assim, cada vez que ele expirava o ar contra a sua pele, ela sentia um arrepio desconcertante percorrer o seu corpo.
A cama quebrada embaixo dos seus corpos envoltos apenas por um lençól fazia Natalie se lembrar do que havia acontecido entre eles na noite passada. E ao pensar nisso, a caçadora sentiu uma onda de arrependimento invadí-la pouco a pouco.
Natalie não ia ser hipócrita. Ela não podia dizer que Dean provocou aquela situação sozinho, que ela não estava com muita saudade dele também e que, portanto, ela também quis aquilo. Mas, ao despertar e se ver naquela situação, Natalie se convenceu de que aquilo não podia ter acontecido.
Passar aquela noite com Dean tinha sido... Awesome, como costumava ser as brincadeiras entre eles, mas tinha sido apenas uma recaída que em nada mudava a atual situação dos dois: eles estavam separados e continuariam assim. Ponto final.
Pensando desta forma, Natalie respirou fundo e, com cuidado, começou a se desvencilhar do abraço inconsciente de Dean. Quando finalmente conseguiu, a loira se levantou do que sobrou da cama, procurou suas roupas pelo chão e se vestiu, novamente tomando muito cuidado para não fazer qualquer ruído que despertasse o caçador.
Minutos depois, ela colocou alguns pertences dentro de sua mochila e abriu a porta do quarto lentamente. Antes de deixar o recinto, Natalie olhou para trás com tristeza e observou Dean dormindo por alguns instantes.
XXX
Mia mantinha o olhar fixo na tela de um dos computadores do Cyber Café, onde já estava há cerca de meia hora, e lia atentamente uma matéria de três anos atrás que dizia:
"Estudante de Minnesota é achado morto em quarto de república
O jovem Ric Mathis, 23 anos, foi encontrado morto, esta manhã, em uma república da Universidade de Minnesota.
Testemunhas afirmam terem visto um homem, branco, de aproximadamente cinquenta anos e vestindo roupas pretas, deixando a república no dia anterior.
Tudo indica que foi este homem que, por motivos ainda não esclarecidos, assassinou o estudante, encontrado com o pescoço quebrado sobre o carpete do quarto que pertencia a estudante de Comunicação Social, Mia Clarke.
A Polícia busca agora localizar a jovem que, segundo testemunhas, era amiga da vítima, para tentar esclarecer o ocorrido.
Ric Mathis era órfão e não deixou outros parentes."
Foi com surpresa, confusão e até certa tristeza que Mia terminou de ler esta notícia. Sua antiga vida podia até ser um porre, mas ela tinha boas lembranças de Ric e estava surpresa por descobrir que ele tinha sido assassinado em circunstâncias tão misteriosas.
O que mais intrigava Mia, no entanto, era que de acordo com aquele texto, o seu melhor amigo tinha morrido há três anos. E isso não condizia com as suas lembranças, já que para Mia, ela tinha deixado a Universidade de Minnesota há uns quatro meses no máximo. Inclusive foi quando ela pensou ter visto Ric pela última vez.
Mesmo sem querer duvidar de Crowley, em quem confiava cegamente, Mia não podia negar que a morte de Ric confirmava as coisas que o tal Castiel lhe disse na noite anterior. Que havia um período de tempo sobre o qual ela não tinha qualquer memória.
Três anos. Três anos de sua vida que lhe foram roubados de alguma forma e Mia não entendia como ou por que isso tinha acontecido. Tudo o que ela sabia era que Crowley devia ter a resposta.
Crowley... Branco, aproximadamente cinquenta anos e predileção por roupas pretas. Será que ele tinha matado Ric? E por quê?
Recusando-se a acreditar que o seu mentor tinha qualquer relação com aquilo, Mia sacudiu a cabeça levemente e afastou tal possibilidade de seus pensamentos. Mesmo assim, por via das dúvidas, ela decidiu imprimir aquela matéria para questionar o Rei do Inferno em um momento oportuno.
Em seguida, tomada por uma onda de curiosidade, ela digitou o seu nome em um mecanismo de busca. Instantes depois, Mia se assustou quando um link, para um hospital de uma cidade no interior da Virginia, surgiu na tela.
Tomada por uma curiosidade ainda maior, ela clicou no link e acessou uma lista de Certidões de Óbitos emitidas no Hospital de Mystic Falls, há aproximadamente dois anos.
Confusa e atônita, Mia localizou o seu próprio nome na lista. Mas, por algum motivo, a sua Certidão de Óbito foi cancelada no dia anterior ao da emissão.
Sem entender mais nada, Mia resolveu imprimir aquela página também e depois encerrou a sessão de uso do computador.
Em seguida, ela deixou aquela área do Cyber Café e se aproximou de um balcão do outro lado do estabelecimento. Logo, uma funcionária veio atendê-la e Mia lhe disse:
— Oi, eu enviei algumas impressões. Você pode checar?
— Claro. — assentiu a funcionária, antes de se afastar e caminhar na direção de uma enorme impressora.
Enquanto ela pegava as folhas e as contava, Mia olhou um pouco para cima, na direção de um painel com os nomes das bebidas e comidas servidas ali.
Automaticamente, se lembrou do tal Castiel, lhe dizendo que ela amava café. Na sequência, Mia se lembrou do que respondeu para o anjo. Ela lhe disse que odiava café. Mas agora, por algum motivo, Mia não tinha mais tanta certeza disso.
Então, quando a funcionária se reaproximou, ela lhe pediu:
— Eu vou querer um café expresso também. Para a viagem, por favor.
Instantes depois, Mia empurrou a porta de vidro do Cyber Café e guardou a sua pequena pesquisa em uma bolsa a tiracolo.
Depois disso, ela deixou o lugar para trás, enquanto tomava goles generosos da bebida.
— Humm... Eu não odeio café. — falou consigo mesma ao terminar e, em seguida, jogou o copo descartável em uma lixeira.
XXX
Dean começou a acordar e instintivamente se moveu na cama procurando por Natalie, mas como sua mão tocou apenas um lugar vazio ao seu lado, ele abriu mais os olhos e ergueu um pouco a cabeça, dando uma boa olhada pela cama.
Percebendo que estava sozinho ali, o Winchester se sentou entre os lençóis bagunçados e olhou tudo em volta com atenção. E logo constatou que não havia nem sinal de Natalie, de suas roupas ou de seus pertences, como o notebook, por exemplo.
Intrigado e imaginando o que tinha acontecido, Dean passou as mãos pelo rosto, pressionando os olhos por alguns instantes e tentando espantar o sono que ainda sentia. Depois disso, ele levantou da cama, vestindo apenas uma cueca boxer preta, caminhou até o banheiro e, com um resquício de esperança, bateu na porta e chamou:
— Naty? Você está aí?
Como não houve resposta, o caçador girou a maçaneta e abriu a porta. Ele a fechou instantes depois, quando viu que o lugar estava vazio também.
Com tristeza, mas ainda se recusando a acreditar que Natalie tinha mesmo ido embora daquele jeito, Dean caminhou até a janela, afastou um pouco a cortina e procurou pelo Camaro da loira no estacionamento do hotel.
Porém, para sua tristeza, o carro não estava mais lá, o que indicava que Natalie tinha mesmo ido embora, apesar daquela noite... Awesome que os dois passaram juntos.
Sem outra escolha, Dean fechou a cortina e voltou a olhar para o quarto. Inevitavelmente, sentiu-se completamente vazio diante daquele cenário e mexido pelas lembranças da noite anterior.
Por um momento, Dean chegou a pensar que ele e Natalie estavam se entendendo de novo, que ela lhe daria uma segunda chance, mas pelo visto, ele havia se enganado feio.
Mesmo sabendo que tinha errado e magoado Natalie profundamente, Dean não conseguia mais mentir para si mesmo. Desde a situação envolvendo Cole Trenton, ele percebeu que estava errado quando terminou com a loira. E, apesar de saber que não merecia uma segunda chance, era exatamente isso que o caçador queria. Dean queria Natalie de volta, queria consertar as coisas entre eles e recomeçar de onde eles pararam. Mais do que querer, ele precisava disso.
Desta forma, ele não podia se conformar com aquele desfecho. Não podia e não iria.
Sendo assim, enquanto se vestia, Dean pegou o seu celular dentro do bolso da calça e ligou para Natalie. Como ela não atendeu, ele continuou tentando até o momento em que saiu do hotel e entrou no Impala no estacionamento.
Longe dali, Natalie estava dentro do Camaro, em frente a uma loja de conveniência, onde tinha comprado alguns pacotes de Skittles. Depois de olhar para a tela do celular e ver que Dean estava lhe ligando pela milésima vez, a caçadora soltou um suspiro de impaciência e resolveu atender de uma vez.
No entanto, antes que ela dissesse qualquer coisa, o Winchester se antecipou:
— Você fugiu de novo.
Irritada com o tom acusatório daquela frase, Natalie esclareceu duramente:
— Não, Dean, eu não fugi. Eu simplesmente fui embora. De novo. Neste ponto, você está certo.
Tal resposta fez o caçador repensar o jeito que iniciou aquela conversa. Então, convencido de que bater de frente com a loira não ia adiantar nada, ele recomeçou mais calmo:
— Natalie... Nós precisamos conversar.
— Sobre o quê? — indagou ela, sem conseguir conter uma nova onda de irritação, agora diante da calma forçada de Dean.
Também se alterando um pouco, o Winchester respondeu sem pestanejar:
— Sobre aquela cama quebrada, por exemplo.
Automaticamente, Natalie sentiu o seu rosto enrubescer e o seu coração acelerar rapidamente. E ela odiava se sentir assim. Odiava sentir que Dean ainda mexia com ela e que aquela noite tinha provado isso.
Então, tentando se preservar e encerrar o assunto, Natalie retrucou com certo desdém:
— Foi só uma recaída.
— Não foi não. — discordou Dean prontamente. — Para mim não foi e eu sei que para você também não. Você pode até dizer que sim e tentar enganar a si mesma com isso, mas eu senti, Naty... Esta noite, eu senti que você ainda me...
— Convencido! — interrompeu a caçadora, indignada com a presunção de Dean.
— Você vai negar? — desafiou ele, deixando claro que não se tratava de presunção, mas de uma realidade.
— Não, Dean, eu não vou negar! Eu vou desligar, isso sim! — anunciou a loira ainda mais nervosa.
— Espera! — pediu ele, temendo que a conversa terminasse daquele jeito e que Natalie não o atendesse mais. — Por favor, me diz onde você está. — pediu mais calmo e aliviado por Natalie ainda estar na linha.
Um longo silêncio se seguiu até que a loira se acalmou um pouco e respondeu:
— Eu não posso. — e após mais um momento de silêncio, Natalie justificou tal recusa: — Eu não posso te ver de novo, Dean.
— Por que não? — indagou ele. E irritado com mais um longo silêncio, insinuou: — Por acaso você está com medo de outra recaída?
Natalie podia ter ficado irritada com tal insinuação presunçosa, mas, ao invés disso, ela preferiu manter a calma e respondeu com uma sinceridade que deixou a si mesma surpresa:
— Não, Dean. Eu só não quero sofrer de novo. É disso que eu tenho medo. — depois de uma pausa, esperando que o caçador dissesse alguma coisa, a loira percebeu que ele tinha ficado surpreso com aquela resposta e, provavelmente, sem argumentos diante do que ouviu. Então, Natalie respirou fundo e decidiu prosseguir: — Olha, você me conhece e sabe como eu sou orgulhosa, mas eu juro que agora não tem nada a ver com orgulho, ok? Eu também não estou sendo vingativa, nem nada do tipo. Eu só quero me preservar, Dean, porque eu tenho medo de voltar para você hoje, e amanhã, ao menor sinal de perigo, você mudar de ideia de novo. Eu não vou aguentar se você me mandar embora de novo, entendeu?
Sentindo-se péssimo por ouvir aquilo, mas sabendo que depois do que ele fez, Natalie tinha todo o direito de pensar daquele jeito, Dean hesitou por alguns instantes.
Em seguida, tentando deixar claro que estava arrependido de verdade da escolha que fez há alguns meses e de que Natalie podia voltar a confiar nele, Dean assegurou:
— Eu não vou fazer isso de novo. Eu juro.
Sentindo um aperto em seu peito, Natalie respondeu:
— Eu não consigo acreditar... Desculpe.
— Natalie...
Antes que Dean prosseguisse, a loira respirou fundo mais uma vez e expôs firmemente:
— Olha, eu respeitei a sua decisão quando você terminou comigo daquele jeito. Mesmo sendo difícil, eu respeitei. Então por favor, respeite a minha decisão agora. Eu e você... Não tem mais volta. — e após um instante em silêncio, fazendo um esforço para conter a vontade de chorar, ela encerrou dizendo: — Por favor, Dean, não venha mais atrás de mim. Vai ser melhor assim.
Imediatamente, Natalie finalizou a ligação, deixou o celular em seu colo, se recostou no banco, fechou os olhos e passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos, enquanto tentava se recompor e parar de sentir um vazio doloroso que se alastrava dentro de si. Não conseguiu.
Dean, por sua vez, ainda permaneceu com o celular contra o ouvido por alguns instantes, até que finalmente o afastou e admitiu para si mesmo que aquela tinha sido uma conversa definitiva.
Então, engolindo o gosto amargo da derrota e sentindo a mesma dor que Natalie sentia naquele momento, Dean jogou o celular no porta-luvas de qualquer jeito, fitou a estrada a frente do estacionamento com um olhar vazio e, sem outra escolha, deu partida e começou a viagem de volta ao bunker.
XXX
Enquanto tomava mais um café que comprou no caminho, Mia entrou em uma pousada de uma uma cidade próxima a Waterville.
Instantes depois, ela destrancou a porta do quarto que tinha alugado naquela madrugada, entrou e fechou a porta novamente. Assim que acendeu a luz e se virou com a intenção de adentrar mais o recinto, uma voz fez Mia ter um sobressalto e deter o passo:
— "Oi, eu estou com problemas. Um anjo veio atrás de mim e, pelo o que eu entendi, ele não está sozinho. Estou indo embora de Waterville. Acho que os seus demônios foram mortos. Assinado: Futura Princesa do Inferno." — assim que terminou de ler a mensagem de Mia em seu celular, Crowley guardou o aparelho no bolso do terno, se levantou da poltrona que havia no quarto, deu alguns passos a frente, parou no centro do recinto e começou de fato: — Eu vim o mais rápido que pude, Sweetie, mas eu pensei que nós tivéssemos um acordo. Se algum anjo ou caçador viesse atrás de você, você resolveria o problema sozinha. Foi por isso, inclusive, que eu concordei quando você pediu que eu diminuísse o número de demônios cuidando da sua segurança. Você me garantiu que podia se defender sozinha, se fosse necessário. E eu acreditei em você.
Após um breve instante, avaliando aquela crítica velada, Mia argumentou tranquilamente:
— O tal anjo, Castiel, não me pareceu uma ameaça. Na verdade, ele só parecia um pouco perdido. Além disso, ele beija muito bem. Seria um crime acabar com alguém assim.
— Ele te beijou? — indagou Crowley, sem conseguir esconder certo assombro. E quando Mia assentiu com um meneio de cabeça, ele questionou preocupado com o que aquilo podia ter significado para ela: — E você simplesmente deixou?
— Que maluquice, não é? — admitiu a garota, também sem entender direito por que tinha deixado as coisas chegarem naquele ponto. Então, tentando se justificar, ela acrescentou: — Sei lá... Eu achei ele uma gracinha. E não resisti, me julgue. — e sentindo uma necessidade enorme de mudar o foco da conversa, Mia recomeçou: — Ah! O tal Castiel disse coisas que me deixaram bem... Intrigada.
— Eu tenho certeza que ele disse. — replicou Crowley nem um pouco surpreso, já que era bem óbvio que na primeira oportunidade que tivesse, Castiel ia contar a verdade para Mia. — Não importa o que ele te contou. É tudo mentira. — completou de um jeito firme.
Por mais que quisesse acreditar em Crowley, Mia tinha ficado mesmo mexida com a história que ouviu do tal anjo. Sendo assim, ela indagou:
— Então eu não fui casada com ele?
— O bastardo inventou isso, foi? — rebateu o Rei do Inferno, fingindo indignação. — Bem, não dá para negar que ele foi bem criativo. Uma humana e um anjo? Acho que não.
Depois de estreitar o olhar sobre Crowley, em busca de qualquer sinal de hesitação, Mia prosseguiu ainda desconfiada:
— Ele me disse outras coisas também.
— Como o quê? — perguntou o demônio, tentando transparecer tranquilidade.
— Que eu não devia confiar em você, por exemplo. — relatou Mia prontamente, enquanto o observava mais atentamente, em busca de qualquer reação suspeita. Como Crowley permaneceu incrivelmente calmo, ela continuou: — Que você está me manipulando, mexendo com a minha cabeça e até com as minhas memórias.
— E você acreditou nele? — questionou o Rei do Inferno, fingindo-se de ofendido.
Após um momento em silêncio, se fazendo aquela mesma pergunta, a garota confessou:
— Eu não sei no que acreditar, mas como eu disse, eu fiquei... Intrigada.
Percebendo que tinha que ser mais convincente, Crowley deu mais alguns passos a frente, parou diante de Mia, a olhou nos olhos e desafiou:
— Do que você se lembra, Sweetie? — e quando Mia revirou os olhos, sem gostar daquele joguinho, ele insistiu: — Sério, responda. Quando e como eu entrei na sua vida?
Mia encarou o demônio por algum tempo, enquanto pensava um pouco se devia responder ou não. Por fim, ela decidiu responder e ver no que aquela conversa ia dar:
— Há quatro meses, você foi me procurar na minha faculdade, me fez uma proposta tentadora e eu aceitei.
Esboçando um leve sorriso para ela, Crowley articulou:
— Então, foi exatamente assim que aconteceu. Qualquer outra coisa que te digam não é verdade.
No entanto, para desespero de Crowley, Mia não pareceu completamente convencida disso. Então, ainda desconfiada, ela recomeçou:
— Não me leve a mal, Crow. Entre o Rei do Inferno e um anjo bonitinho e beijoqueiro, é em você que eu vou confiar sempre, mas.. Como você me explica isso?
Então a garota abriu a bolsa e entregou a sua pequena, mas importante pesquisa para Crowley.
Imediatamente, o Rei do Inferno folheou as páginas e viu do que se tratava. Em silêncio, ele amaldiçoou Castiel por ter mexido tanto com a cabeça de Mia, a ponto dela ter tomado aquela iniciativa e feito uma breve investigação sobre o seu passado.
Sabendo que tinha que acabar com qualquer suspeita que Mia tinha, antes que a situação fugisse do seu controle, Crowley lhe entregou a pesquisa e explicou:
— Anjos podem manipular a realidade.
— Demônios também. — retrucou Mia.
— Até certo ponto sim, mas não criando coisas neste patamar de realismo. Isso, definitivamente, é trabalho de anjo, Sweetie. — articulou o demônio.
Por um instante, Mia até que ficou satisfeita com essa resposta, mas em seguida, e ainda cheia de dúvidas e desconfianças, ela questionou:
— Mas por que Castiel inventaria uma história assim?
Percebendo que devia ser ainda mais convincente, Crowley expôs com naturalidade e segurança:
— Não é óbvio? Porque ele quer te desestabilizar, abalar a nossa relação e assim atrapalhar os nossos planos. Ele quer ganhar a sua confiança, para que você me entregue. — e notando que desta vez, Mia estava aceitando melhor os seus argumentos, ele decidiu ser mais incisivo: — Nós vamos abrir todos os portais do Inferno, Sweetie. O que você acha que os anjos estão pensando disso? Eles estão desesperados e vão fazer qualquer coisa para nos impedir. Até mesmo esse jogo sujo.
Depois de encarar o demônio por alguns instantes, Mia cruzou os braços contra o peito e inquiriu um pouco mais relaxada:
— Então você não matou o Ric?
— O seu melhor amigo? É claro que não. — assegurou o Rei do Inferno.
— Nem apagou as minhas memórias? Nem está mexendo com a minha cabeça? Me manipulando? Eu realmente deixei a faculdade há poucos meses e não há anos, certo? Eu nunca morri e ressuscitei em uma cidade chamada Mystic Falls, não é? — despejou Mia, querendo esclarecer aquelas coisas de uma vez por todas. — Eu não gosto que mintam para mim, Crowley. Nem mesmo você pode fazer isso, entendeu? — avisou seriamente.
— Eu jamais mentiria para você. Aliás, eu já menti alguma vez? — rebateu ele, sendo o mais natural e convincente possível.
No entanto, a conversa com Castiel tinha mesmo mexido com Mia. Mais até do que ela tinha percebido na hora. Aquela conversa no toalete do bar tinha feito Mia se questionar sobre como ela se sentia realmente em relação a Crowley e a si mesma. E Mia não sabia o que era exatamente, mas ela sentia que tinha alguma coisa muito mal contada naquela história.
Por tudo isso, ela sentou na cama, passou as mãos pelos cabelos e tentou explicar como se sentia em relação a tudo aquilo:
— Olha, eu não quero duvidar de você, mas... Eu sinto que a minha cabeça está mesmo uma bagunça. Eu me lembro do Ric, mas não me lembrava que amo café. Eu sei que os meus pais morreram e eu sei que eu estava lá quando aconteceu, mas eu não consigo me lembrar como foi exatamente. E... Às vezes, eu sinto...
Mesmo temeroso, quando Mia parou de falar, Crowley a incentivou a prosseguir:
— Sente o quê?
Mia pensou um pouco, buscando a resposta dentro de si, dentro de uma Mia que ela costumava ser, e então respondeu:
— Um vazio. Como se faltasse uma parte de mim. Ou alguém. Ou as duas coisas. Eu me sinto vazia. — e depois de erguer o olhar na direção do Rei do Inferno, ela questionou aflita: — Por que eu estou sentindo essas coisas, Crowley? O que está acontecendo comigo?
O demônio sabia exatamente por que Mia estava se sentindo daquele jeito. Ela estava sentindo falta de sua antiga vida, falta de Castiel, dos Winchester, de quem ela era.
Mia estava fraquejando. Uma simples conversa com Castiel e um maldito beijo podia colocar tudo a perder. Bastou um momento com o anjo, para o lado obscuro de Mia fraquejar e o lado humano dar sinais de que ainda estava ali, em algum lugar da sua mente perdida.
Apesar de não poder demonstrar, Crowley estava furioso com isso. Depois de todo o trabalho que ele teve para conseguir a rendição de Mia, de toda a jornada até ali, ele não podia simplesmente perder a batalha. Perder a batalha, naquela altura do campeonato, podia significar perder toda a guerra. E Crowley não podia aceitar isso, não podia se conformar com isso. E não iria.
Sendo assim, ele manteve sua característica frieza e anunciou:
— Eu tenho uma teoria. — e quando percebeu que tinha a atenção de Mia novamente, revelou: — Abstinência. Faz muito tempo que você não bebe o meu sangue e isso está te deixando fraca. Suscetível a qualquer história que um anjo qualquer te diga e confusa.
No fundo, Mia não sabia se Crowley estava certo ou não, mas uma coisa não dava para negar: fazia mesmo um bom tempo que ela não bebia do sangue dele e estava sentindo falta disso. Talvez fosse esse o problema, certo?
Por algum motivo que desconhecia, Mia não conseguia se convencer disso. Porém, mesmo assim, ela não se opôs quando Crowley caminhou até uma pequena copa dentro do quarto, pegou uma faca e um copo em um pequeno armário, cortou o centro de sua mão e sangrou no recipiente.
Mia também não se opôs quando o Rei do Inferno se reaproximou e lhe entregou o copo. Na verdade, ela simplesmente o segurou com as duas mãos, observou o líquido em seu interior por um instante e se preparou para dar o primeiro gole.
No entanto, algo a fez hesitar. E sem querer que Crowley percebesse o real motivo da sua hesitação, Mia afastou um pouco o copo e se explicou:
— Você sabe muito bem que eu não gosto de fazer isso na sua frente. Eu me sinto como uma vampira imunda.
Apesar de um pouco desconfiado, Crowley estava convencido de que a garota não ia conseguir resistir ao ímpeto de saciar o seu vício. Sendo assim, o demônio assentiu:
— Tudo bem, eu vou te dar um pouco de privacidade, Sweetie. — e após um instante, a encarando profundamente, ele lembrou: — Eu ainda tenho que localizar aquela bruxa. E você ainda tem que conseguir aqueles pactos.
Querendo convencer Crowley de que agora estava tudo bem e de que ela havia se convencido de cada vírgula que tinha ouvido, Mia assentiu:
— Tudo bem, pode ir. Eu vou fazer a minha parte. E não se preocupe, se por acaso aquele anjo ou qualquer pessoa vier atrás de mim, eu vou resolver a situação sozinha. De forma definitiva.
Um pouco mais tranquilo por ouvir aquilo, Crowley assentiu brevemente e sorriu de um jeito torto. Antes de deixar o quarto, observou o copo nas mãos da garota e percebeu que ela estava um tanto trêmula.
Assim que ficou sozinha no quarto, Mia olhou para aquele líquido avermelhado e teve um ímpeto de bebê-lo imediatamente. Porém, fazendo um grande esforço, ela conseguiu resistir. Então, correu até a pia e derramou todo o sangue no ralo. Em seguida, lavou o copo rapidamente e voltou para a cama. Se encolheu contra a cabeceira e tentou conter um tremor que reverberava por seu corpo.
Crowley estava certo. Mia estava mesmo sofrendo devido ao período de abstinência. E em outros tempos, ela teria simplesmente aceitado o sangue de bom grado e bebido sem pestanejar. Porém, agora, por algum motivo, Mia não conseguiu fazer isso.
Ela não queria mesmo duvidar do Rei do Inferno, mas ao mesmo tempo, não achou os argumentos dele muito convincentes. No fundo, Mia queria descobrir o que aconteceria se ela parasse de vez com aquele vício. Será que ela ia se lembrar dos três anos que Castiel disse que Crowley lhe roubou? Ou será que aquilo tinha sido uma mentira do anjo para abalar mesmo a relação dela com o Rei do Inferno?
Sabendo que só tinha um jeito de descobrir quem estava mentindo naquela história, Mia se encolheu na cama, abraçou o travesseiro com força e se obrigou a pensar em outra coisa que não fosse o sangue que ela simplesmente jogou fora.
Com a garganta seca e o coração acelerado, Mia olhou para a poltrona ao lado da cama e, inexplicavelmente, sentiu aquele vazio, que mencionou na conversa com Crowley, se alastrar dentro de si. Cada vez mais.
XXX
Enquanto isso, Claire dirigia por uma estrada do Kansas, rumo ao bunker dos Homens das Letras, com Sam ao seu lado e Castiel no banco de trás.
Com uma expressão triste e um olhar vazio, o anjo observava a paisagem pela janela lateral e pensava em Mia continuamente.
XXX
Depois de atravessar a rua da pousada onde Mia estava, Crowley se aproximou de um homem sentado em um banco perto de uma loja de conveniência e ordenou:
— Fique de olho na Mia.
Os olhos do tal homem ficaram vermelhos, quando ele assentiu:
— Sim, senhor.
Depois de olhar uma última vez para a pousada onde a garota estava, o Rei do Inferno dobrou a esquina e desapareceu com um pensamento em mente: era uma questão de tempo para que Castiel e os outros tentassem se aproximar de Mia novamente e, por isso, ele precisava fazer alguma coisa para mantê-los distraídos e sob controle por um bom tempo. Mas o quê?
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