Asas
2 Mentira
Notas iniciais
O corpo dele girava de um lado para o outro. Os movimentos ora leves, suaves, ora rígidos. Os passos firmes sabiam o caminho da dança e guiavam o corpo para lá e para cá.
O rapaz carregava as expressões que a música transmitia. Sentia aquele aperto cruel de uma mentira que o envolvia até o âmago e o sufocava até a morte. E nesse aperto sentia o peso de sua própria farsa. Estava exposto.
Seu corpo se contorceu. Saltou. Foi de um lado para o outro, movendo o tronco para frente e para trás. Levou as mãos ao pescoço, a cabeça pendeu para trás e os braços se agitaram no ar. Respirava profundamente enquanto seu interior clamava que alguém o salvasse.
Mentia como a canção. Como o maldito eu-lírico, o poeta. Como ele sabia ser aquela a sua realidade? Sentiu que a canção o expunha.
A beleza de seus movimentos encantava os que ali apreciavam a dança. Porém em seu íntimo se esforçava por reter as lagrimas que estavam prontas para banhar seu rosto.
Então veio o refrão. Seus movimentos ficaram mais fortes. Sentia que também fora pego numa mentira. Aquela dança. De repente, o branco do piso parecia um grande nada onde ele caia, ainda se movendo numa dança frenética.
Caia para o inferno. Sua dor, sua agonia, a música verbalizava seu sofrimento. Ele dançava ao som do que tocariam em seu funeral. A música o denunciara. E a dança era sua fuga e sua farsa.
Onde estava a verdade por trás dele e daqueles movimentos? Lembrou-se de que a paixão o dominava no início. Dançar era sua única verdade, então por que ele reduzira aquilo a uma farsa?
O amor puro que sentia no começo agora não existia mais. Ele era ganância. Desde quando se deixara corromper? Ele não sabia, mas sabia desde quando passara a pensar em sua triste mudança.
A música chegava ao fim. Ele sentia que seu fim também estaria próximo se não fosse salvo da crescente dor de não ser mais o que era. E com os joelhos no chão, a cabeça baixa, decidiu que sua salvação... seria a morte de sua ganância... pois o ele de antigamente ainda estava lá, sufocado por aquilo que passara a ser.
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