Asas

3 Estigma


Há muito tempo fui marcado por aquele acontecimento. Eu nunca chorara tanto antes, mas, depois de tudo aquilo, não houve um dia em que eu não derramasse ao menos uma lágrima.

Havia cometido um erro. Um erro tão simples, um pequeno pecado que facilmente eu poderia apagar, no entanto, o que aconteceu foi o contrário. Eu precisava pagar por aquilo, e pagaria com martírio, com o flagelo do meu pequeno corpo.

Aquele homem que se tornara meu pai vinha trôpego e alterado carregando uma garrafa. Mas não se engane. Não fui eu quem sofreu punição naquela noite.

Aquela mulher. Eu via em seu rosto as marcas da tristeza e da desilusão. Ela sofria por mim. Ela sofreu por mim como já havia feito uma vez. Eu, porém, não podia aguentar. Como aquilo aconteceu? Eu não me lembro.

O que me lembro... Lembro-me do sentimento. Do medo. Da tristeza. Da angústia. Do desespero. Da raiva.

Lembro-me da garrafa quebrada. De um impulso enquanto aquela mulher tão importante para mim era continuamente marcada. Do sangue vermelho vivo em minhas roupas. Do olhar espantado.

Meu pequeno pecado. Ele continua a sangrar em algum lugar dentro de mim. Uma ferida que não se fecha, que não cicatriza. Um pequeno pecado que me engoliu.

Eu pensava por que ela teria que pagar por minhas criancices. Não eram maldades, eram impulsos de uma criança feliz. Mas ela pagava caro. E eu... eu cometi aquele delito por não aguentar vê-la chorar. Agora, no entanto, continuamos a chorar lágrimas que nunca se secam.

Notas finais
Obrigada por ler. ^. ^