Asas
4 Primeiro amor
Minha mãe preparava o almoço sempre com a mesma alegria. Eu a observava enquanto desenhava. Ela sempre dava um jeito de colocar legumes e saladas nas refeições. Dizia que eram bons para nos mantermos saudáveis.
Minha mãe também gostava de manter a casa sempre um brilho. Encerava o chão, limpava as cômodas, as estantes e, por último, sempre passava um pano num piano que ficava no canto da nossa sala.
Aquele piano. Aprendi a tocá-lo muito cedo. Mesmo sendo pequeno eu tirava dele melodias doces enquanto minha mãe me olhava e sorria. Ela me ensinava. E eu amei aquele instrumento tão instantaneamente como amei minha mãe.
Quando cresci um pouco algo mudou em minha mente. Eu não lembro quando me afastei da minha amada mãe e de toda a minha família, mas penso que foi o meu maior erro. Por algum motivo que não posso me lembrar, pois já não parece ser tão importante, eu a abandonei. Ela e meu velho piano.
O que me toca até hoje quando penso nesses momentos é que quando voltei para minha casa, depois de perceber que eu não podia viver sem aqueles que me criaram, aqueles que me viram crescer, quando eu entrei pela porta, eu a vi sentada ao piano, limpando chave por chave.
Aquele olhar eu nunca mais esquecerei. Seu rosto já apresentando leves marcas da idade, o sorriso que abriu ao se virar para mim. Eu ali, parado, encarando-a, não puder conter o choro ao ouvi-la dizer:
“Até que enfim... você demorou”.
Nosso laço nunca se desfez, apenas ficamos distantes pelo que pareceu um longo tempo. Mas meu primeiro amor eu jamais poderei esquecer. E ela sabia. Sabia do quanto eu a amava. Do quanto amava sua comida, seu abraço, sua mania de limpeza, e do quanto amava aquele piano.
Naquele mesmo canto da nossa sala, aquele piano era mantido sempre limpo. Aquela velha paixão que eu jamais poderei esquecer era constantemente lustrada. E aquelas melodias, eu ainda as tocaria ao lado da minha mãe por muito tempo.
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