As aventuras de uma Docete Ciclope
54 Chapeuzinho adormecida no pais das maravilhas - Parte 1
Notas iniciais

Em um pequeno bosque encantador, isolado das malicias do mundo moderno pelas graças da mãe natureza , existia um pacato vilarejo onde todos se conheciam bem, como se de fato fossem uma grande família.
Nesse pequeno mundinho feliz, residia uma jovem arteira, doce e com um coração incomensuravelmente bondoso. Sua beleza seria capaz de irar até mesmo rainhas malignas e ciumentas, as quais fariam de tudo para ter seu coração em suas mãos. Seriam porem, muito provavelmente, dissuadidas pela esplendorosa sinceridade de seu sorriso, capaz de derreter o mais gelado dos corações, como se a própria luz do sol estivesse aquecendo-os com seu toque gentil. Mas não era sua capacidade de aprontar, sua doçura, ou sua bondade nata, sua beleza ou seu sorriso que marcavam aquela jovem, como uma espécie de estigma bem vindo. Este era o papel de seu manto, um lindo "Chapeuzinho Vermelho" que a todo momento, como um companheiro fiel, sempre lhe acompanhava.
—Bom dia- Repetia a jovem a cada dia à cada camponês do vilarejo quer cruzasse seu caminho.
Eles enchiam-na com mimos e guloseimas, pequenas prendas como demonstração de de afeto pela mesma.
E assim era o dia a dia da portadora do “chapeuzinho vermelho”. Uma felicidade transbordante em forma de garota, em um isolado mundo particular. Um verdadeiro presente da mãe natureza.
—Alice! Venha faça-me um favor.- Solicitava a mãe da doce chapeuzinho.
—Já vou mamãe!- Respondia de prontamente o chamado de sua querida mãe, que sabia como a maior parte dos pais, que um “já vou”, vindo de uma jovem daquela idade poderia significar tanto “estou a caminho” quanto “chego em duas horas.”
—Agora! — Proferiu a jovem mãe, sem perder a ternura abundante em sua voz. -Pois não mamãe. — Falou chapeuzinho surgindo rapidamente, com as mãos dadas atrás do próprio corpo. Estava visivelmente descabelada e com o rosto sujo. -Querida, eis aqui uma torta de framboesa. Poderia levá-la até a residencia de sua querida avó? Você sabe, ela esteve um tanto quanto debilitada e creio que seria uma lisonjeira surpresa receber uma torta...
—Mas mãe, é que eu... -tentou interromper chapeuzinho, mostrando por impulso as mãos extremamente sujas de terra que tentava esconder.
—...de sua queridíssima neta que à tempos não lhe faz uma única visita sequer.- Completou docemente segurando as mãos imundas de chapeuzinho e encaminhando-as para a água.
—Mas mãe, eu, err...
—Simplesmente faça o que lhe pedi minha querida, e eu prometo não procurar saber o que você estava aprontando para estar imunda dessa forma.
—Mas eu não estava... -insistiu chapeuzinho.
—Querida – interrompeu mais uma vez sua mãe, olhando seria e serenamente nos seus olhos. Aquele olhar era imperativo. “Você vai, estamos conversadas.”
De fato Chapeuzinho adorava ajudar as pessoas do vilarejo, por mais que estivesse ocupada tentando concertar a porta do galinheiro do vizinho que havia quebrado pela décima vez tentando subir em uma árvore para resgatar seu gato. Ao menos estaria longe dali quando o vizinho viesse reclamar com sua mãe outra vez.
Rapidamente ela se limpou e vestiu inseparável capuz, apossou-se da torta e como um relâmpago adentrou a vasta e densa floresta, ainda em tempo de ver o vizinho vermelho como uma beterraba, correndo atrás de suas galinhas enquanto proferia algumas duzias de pragas que, mesmo que momentâneas e impulsivas, sabia que eram direcionadas única e exclusivamente a ela. Por mais engraçada que fosse a cena, desejava de coração, ajudá-lo, mas não havia tempo.
Seu caminho, por mais que um tanto tortuoso, foi tranquilo como sempre. Deparava-se com alguns poucos animais, atraídos talvez por sua límpida voz enquanto cantarolava uma antiga canção. Talvez por sua bondade, ou pela forma como ela os tratava, a jovem conseguia de forma demasiadamente simples se comunicar com os animais.
De fato, jamais caminhou sobre essa terra, alguém que enxergasse a fauna com o olhar tão puro quanto o de Alice. Eram para ela como humanos, só que com formas diferentes. Ao menos era assim que ela encarava todos os seres. Como iguais.
Por mais que o universo ao seu redor fosse esplendoroso, bastou uma visão inesperada em um momento tão inesperado quanto toda graça e leveza em sua alma fosse rasgada como seda. Havia um lobo em seu caminho.
Alice sabia que existia gente de todos os tipos. Sabia também que o mesmo aplicava-se para os seres. Seus conterrâneos temiam os lobos, porém, corajosa como era, foi até o lobo.
Assim como fizera com os outros animais, sem qualquer discriminação, Alice cumprimentou o ser a sua frente:
—Está um lindo dia, não acha senhor lobo? — A pequena Alice falou.
—Sim, está. E está mais bonito a cada momento que passa.- Respondeu o lobo olhando Alice de cima a baixo com um olhar que lhe deixava estranhamente inquieta.
—O que uma garotinha tão frágil faz em uma floresta tão... perigosa como essa?- o lobo respondeu.
—A floresta não é perigosa senhor lobo, veja bem, tem apenas animais bondosos por aqui, como o senhor por exemplo. Não há o que temer.- Alice respondia com um enorme sorriso no rosto.
—E para onde este lindo capuz vermelho está indo?- O lobo perguntou curioso, sentindo a inquietação transparecer no sorriso da jovem.
—Irei visitar minha avozinha que à tempos não vejo. Ela estava enferma até pouco tempo atrás e estou indo até sua residencia para fazer-lhe um agrado- Respondeu inocentemente a infante.
—Pois bem, siga então seu caminho. Mas tome cuidado com com a floresta. Nem todos os seus habitantes são assim como eu... bondosos. — Aconselhava o lobo enquanto sumia na na vegetação mais densa.
—Obrigada pelo conselho senhor lobo!
Após o encontro com o lobo, Chapeuzinho desviou-se um pouco de seu caminho, optando por um caminho mais florido, com o intuito de colher algumas flores para sua avó. Sentia-se mal por ter feito mal juízo do lobo. Sabia que havia deixado-se guiar por esteriótipos e isso estava incomodando-lhe ao ponto de que a mesma não foi capaz de notar o estranho que aproximava-se dela.
—Bom dia pequena- Disse o homem.
O susto de Alice foi tanto que a mesma chegou a deixar escapar um pequeno grito.
—Me desculpe, não queria assustá-la. -Disse o homem aproximando-se sem graça.
—Perdão, estava distraída... -respondeu Alice recuperando-se- ...e sim, sim, bom dia para o senhor também.
O homem riu timidamente, notando que a jovem estava mais sem graça que ele.
—Me desculpe senhor, mas minha família não permite que eu fale com estranhos- Ela respondeu tentando ser o mais gentil possível.
—Faz bem pequena. Mas se parar e pensar um pouco, você já está falando comigo.
Alice riu docemente um riso um tanto tímido ao notar que ele tinha razão
—Mas você faz bem e obedecer esse conselho de seus familiares. — o desconhecido já se afastava seguindo seu próprio trajeto. -Só tome cuidado com o caminho! — completou.
—Obrigada! — Respondeu Alice vendo-o partir. Notou então o rifle em suas costas e percebeu tratar-se de um caçador. Não era seu tipo favorito de gente, mas visivelmente não era má pessoa.
Após muito caminhar, a pequena Alice, em fim, alcançou o seu destino.
“Aposto que minha avozinha vai ficar muito feliz com essa torta, as flores e minha presença.” pensava a garota já batendo, calmamente, na porta da casa.
— Vovó, sou eu!
— Entre querida.- respondeu do interior uma voz fraca e tremula.
Chapeuzinho entrou e notando que a mesma estava deitada se prontificou a separar um pedaço da torta para que sua avó não precisasse levantar.
—Vozinha a senhora está bem? Mamãe havia dito que já não estava mais de cama. Eu trouxe uma torta de framboesa para a senhora à mando de minha mãe. Com certeza os camponeses mandariam doces se soubessem que eu estava vindo, mas como eu sai, digamos, meio que fugindo de lá... — falou chapeuzinho tirando a torta da cesta e colocando-a na mesa.
—Aprontando? -perguntou a avó, com a voz um tanto rouca.
—Sempre... -respondeu chapeuzinho com o mesmo apaixonante sorriso sem graça de sempre. -Trouxe também essa flores que eu mesma colhi duran...
—Tire essas flores de perto de mim! Eu sou alérgica!- Esbravejou com a ferocidade de um animal selvagem, de forma que a pequena Alice, nada mais pode fazer além de ficar cabisbaixa e sem palavras.
Alice afastou-se um pouco, em direção da janela e tentou reconstruir o clima amistoso.
—Desculpe vovó, eu só quis agrada-la... você sempre gostou tanto de flores, então eu... — a jovem interrompeu sua frase e rapidamente virou-se para sua avó apontando desesperadamente para a janela -Vovó! Tem alguém ali fora!
Sua avó, em um único impulso, levantou-se de uma vez. A visão que chapeuzinho teve entretanto foi um tanto diferente da que ela guardava em sua memoria em relação à sua sua avó.
—Vovó, porque está tão... musculosa?- Chapeuzinho perguntou.
—É que o médico me mandou começar a fazer academia para melhorar a artrite- Sua avó respondeu.
—Vovó, porque a senhora está com as orelhas tão grandes? -Chapeuzinho tentou perguntar de tal maneira que não fosse indelicada.
—Velhice querida, velhice faz as orelhas crescerem- Sua avó parecia estar impaciente.
—Vovó, porque a senhora está com a boca maior?- A chapeuzinho perguntou.
—Pra beijar seu pescocinho lindo- sua avó respondeu com um sorriso promiscuo.
Alice definitivamente fora pega de surpresa pela ultima resposta ultima resposta de sua avó. Estava encabulada e definitivamente muito confusa mas prosseguiu com suas perguntas.
— É mais você está com um péssimo halito... e Vovó, porque suas mãos estão grossas e brutas? Suas unhas estão horríveis e sujas. E...
—Dá pra parar de ficar procurando defeito em mim caramba!? -Interrompeu a avó em um urro. — Sua mãe não te educou não? Isso magoa sabia!? Pode deixar traumas pra vida toda!
Nesse momento a porta se escancarou e da mesma surgiu o caçador com o qual Alice havia esbarrado mais cedo.
—Saia de perto da menina seu lobo asqueroso!- O rapaz segurou a Alice com um braço e sacou sua faca com o outro braço.
Ele apontava a faca de forma ameaçadora para o lobo.
—Quem é você? Como ousa entrar na casa de uma fraca senhora dessa forma? Não tá vendo que eu estou desenrolando com minha netinha?- A avó de chapeuzinho esbravejava.
—Não se faça de idiota!Você não me engana lobo! — O rapaz nesse momento puxou a manta da pobre senhora que se revelou um lobo.
—Meu Deus! É o bom lobo que eu encontrei na floresta!- Chapeuzinho clamou assustada.
—Sim! Sou eu! Eu falei para não confiar, não foi Alice?- O lobo falava de forma ameaçadora para Alice.
—Desista seu monstro! Não deixarei toque em um único fio de cabelo desta jovem antes que me prive de minha vida!- O caçador gritou.
Foi então que o lobo se silenciou. Calmamente caminhou até o caçador, passo após passo olhando profundamente dentro dos olhos do mesmo. Era como se as sombras do quarto aumentassem junto com a proximidade do lobo. Alice sentia o aperto do abraço do caçador aumentar a cada passo do lobo a um ponto que o mesmo chegava a tremer de tanta força que fazia em seu aperto.
Olhando dentro da alma do caçador o lobo abriu levemente sua boca e disse:
—Boo!
Como que em um passe de mágica, o caçador sumiu. O jovem rapaz correu de lá como um recordista de uma prova de 100 metros rasos, deixando a pobre chapeuzinho para trás.
—Pra que ele tinha um rifle? -Indagou indignada a jovem no capuz vermelho esquecendo por um instante a situação em que se encontrava.
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