As aventuras de uma Docete Ciclope
55 Chapeuzinho adormecida no pais das maravilhas - Parte 2
Notas iniciais

—Sim, ele tinha um rifle...
—E ainda assim ele correu. -Chapeuzinho estava incredula.
—Sim, ele correu... -nenhum dos dois pareciam acreditar na proficiência para maratonista que o jovem lenhador acabara de apresentar, mesmo tendo uma arma de grosso calibre em mãos.
Repentinamente a jovem envolta no manto vermelho foi puxada devolta a realidade.
—Senhor lobo por favor, não faça nada comigo- Chapeuzinho implorava com os olhos cheios de lagrimas e se afastando lentamente do lobo e seu olhar malicioso.
—Acalme-se querida. Eu não irei fazer-te mal algum. Vou te proporcionar um prazer inesquecível. Te apresentarei uma maravilha sem igual, que ficará gravada para sempre em sua mente! Uma não, diversas maravilhas! Um país inteiro de maravilhas! Sua avozinha já teve a vez dela, agora é sua vez. — O sorriso do lobo era uma mistura de malicia explicita e escarnio profundo.
Mais uma vez posicionado contra a luz, a sombra do lobo tomava o quarto e o brilho de seus olhos adentravam a alma da pequena donzela.
—Eu mencionei como seu nariz é grande, vovó? -Perguntou chapeuzinho pegando o lobo de surpresa.
—Que que tem o meu nariz agora!? Qual o problema do tamanho dele. — Perguntou o lupino indignado.
—Problema nenhum senhor lobo. -Respondeu chapeuzinho com um olhar que até o momento o lobo desconhecia.
—Só é mais fácil de acertar ele! -Gritou Alice jogando a torta da mesa contra o rosto do lobo, que momentaneamente cego, nada pode fazer além de sentir enquanto punho da jovem chocava-se com seu nariz.
Com um urro de ódio a fera levou as mão ao rosto limpando-o a tempo de, em vão, ver o próximo movimento da jovem.
O urro que veio em seguida foi abafado e silencioso. Chapeuzinho atingiu o joelho na parte mais sensível do corpo do lobo, que caiu de joelhos no chão. Aproveitando a oportunidade a mesma socou-o mais uma vez derrubando-o por completo e correu em direção a porta.
Em um ultimo esforço o lobo uma agarrou a vassoura próxima a ele e jogou de forma desajeitada contra a jovem. Para o espanto do mesmo, sua ação surtiu efeitos melhores que o esperado.
Alice sentiu algo acertar suas pernas fazendo-a tropeçar. Sem seu ponto de equilíbrio, a garota viu a parede aproximar-se rapidamente de seu rosto enquanto caia. Quando notou estava acordando de um curto desmaio. Sua cabeça doía devido ao impacto com a parede. Viu o lobo aproximar-se e ajoelhar-se sobre ela, diminuindo gradativamente a distancia entre seus rostos.
—O que você vai fazer comigo? -perguntou Alice, ainda atordoada.
—Vou lhe apresentar Maravilhas. -Respondeu o lobo erguendo a garota pelo braço esquerdo e empurrando um lenço cheio de clorofórmio contra o rosto da garota.
Alice desfaleceu rapidamente. Sua ultima visão foi sorriso de vencedor do lobo. Conhecia aquele sorriso. Era o sorriso de um animal satisfeito ao abater sua presa após uma longa caçada.
Ao acordar, Alice sentiu que estava sendo carregada no meio da floresta. Suas mãos e pernas amarradas. Estava tonta, totalmente embriagada. O mundo girava ao seu redor de forma que ela não conseguia fixar a visão em um único ponto. Notou uma grande árvore a diante e ouviu o lobo falar algo que não compreendeu. Então o lobo a colocou em um buraco e soltou sem qualquer cerimonia.
Alice sentiu seu corpo cair e em meio as trevas de forma constante. Seu estomago estava vazio e se estivesse menos tonta estaria grata, pois estaria vomitando certamente.
A queda pareceu infinita, estava tonta, não sabia mais onde era cima, baixo esquerda ou direita. Era como estar no meio do espaço, flutuando perdia. Definitivamente ainda estava desacordada. Torcia para estar, ou estaria morta em breve.
Mas para a surpresa de Alice, a queda finalmente teve um fim. Não um fim brusco ou doloroso, tão pouco letal. A queda teve um desfecho delicado e suave, como uma pluma que cai lentamente sobre a água.
Chapeuzinho ali ficou, tonta e sem forças para se mover. Fechou os olhos e ao abrir novamente estava deitada em um quarto desconhecido, em uma cama tão desconhecida quanto. Levantou-se e olhou ao redor. Sentindo a cabeça doer, foi em direção ao espelho e notou que estava descaracterizada. Parecia uma boneca de porcelana em um vestido azul cheio de babados e decorações.
Inesperadamente a porta do quarto se abre e o lobo entra pela mesma. Em suas mãos, uma bandeja com algo que parece ser café da manhã.
—Onde eu estou? -Perguntou a jovem em tom ríspido.
—No país das maravilhas querida- O lobo respondeu calmamente, sem qualquer sinal de rancor pelas agressões anteriores.
Alice deu um pulo para trás assustada.
—Espera, essa historia de País das Maravilhas é literal? -Alice indagou pasma.
—Claro que é! O que estava pensando que eu ia fazer? Te comer? -Respondeu o lobo rindo.
—Nada... Espera! Então onde está minha vózinha??-Ela falava desesperada. -Ela está aqui?
—Estava. -disse o lobo colocando a bandeja sobre a mesa. -Sabe, eu até tive uma boa oferta por ela no mercado negro. Tinha um grupo de anões pagando uma boa quantia, mas como eu estava devendo um escravo para a Rainha de Copas depois do acidente na última lua cheia, tive que abrir mão do dinheiro e...
—NÃO! Minha vózinha! Por favor, deixe-me ir no lugar dela!- ela chorava enquanto segurava o lobo.
—Tarde demais, já levaram. E além do mais, o que eu faria com uma obsoleta feito ela em minha posse? Ela é inútil para mim. Enquanto você, será muito útil- Os dedos do lobo correram o rosto de Alice de forma maldosa.
A garota caiu de joelhos no chão chorando intensamente enquanto o lobo se afastava.
—E a proposito -continuou o lobo acendendo um cigarro em uma longa tragada. — sabia que você fica muito mais bonita com raiva? Prefiro você com aquele olhar ardente. Gosto desse ar selvagem se é que você me entende. -completou com o sorriso mais debochado que alguém pode dar, fechando imediatamente a porta para se defender de uma bandeja voadora e mais alguns objetos aleatórios.
—É desse olhar que estou falando! -Falou a voz debochada do outro lado da porta.
Alice ficou por horas chorando em um misto de raiva e desespero dentro da pequena sala cheia de brinquedos de teor obsceno.
—Alice meu bem, fique quietinha ai, vou ao castelo resolver minha divida. Tente não quebrar mais nada, ok?
Alice jogou uma cadeira contra a porta fazendo um estrondo notável.
—Ok querida, vou tomar isso como um sim. -Respondeu o lobo com sarcasmo enquanto partia.
Alice percebeu que aquela seria sua ultima chance de fugir. Tinha que fazer algo de imediato. Foi até a porta e analisou a fechadura. Não avia espaço para chave, logo, a mesma devia ter trancas por fora. Voltando-se para a janela, viu que a mesma estava trancada com dois cadeados. Procurou por ferramentas, algo que pudesse usar, mas todas as tentativas foram em vão. Notou que haviam grampos em seus cabelos e tentou usá-los para abrir os cadeados. Após exaustivas tentativas, notou que jamais conseguiria. Por horas estava tentando arduamente encontrar uma saída, mas não havia como fugir. Tinha que aceitar os fatos: era prisioneira do lobo e não havia como escapar. Logo ele estaria de volta. Lembrou-se de seu mal halito e sentiu estomago embrulhar. Lembrou-se de suas mãos tocando sua pele e sentiu seu sangue ferver. Lembrou-se de seu olhar e sentiu repulsa. Tudo nele era irritante, mas principalmente, acima de tudo, estava o seu “jeito de cafajeste”.
Em um acesso de fúria Alice pegou a cadeira e começou a atacar a porta com a mesma, usando palavras que jamais pensou que iria dizer em sua vida. Então em meio a toda sua fúria virou e arremessou a cadeira contra a janela, que se espatifou em milhares de pedaços de madeira e vidro.
Alice ficou parada em frente a janela durante um tempo indeterminado. Olhava o castelo ao longe, claramente visível do alto da colina onde estava. Olhava também a floresta, estranhamente colorida em demasia, que separava-a de seu destino. Mas nada disso importava para ela nesse momento. Apenas um pensamento ecoava em sua mente:
—Como eu não pensei nisso antes...
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