As aventuras de uma Docete Ciclope
182 As aventuras de um rei milenar
Notas iniciais

Por fim a hora que tanto esperei havia chegado. Por incontáveis anos aguardei pacientemente por este momento. A princípio eu não entendia o que estava acontecendo. Desorientado como eu estava, passei muito tempo achando que estava alucinando, que por fim minha sanidade havia cedido frente a todas as pressões que tem alguém que é responsabilizado por todas as desgraças que assolam um reino. Mas passado algum tempo pude perceber que a realidade ia muito além do que minha mente limitada era capaz de compreender. Um reino de vidro espelhado e metal reluzente estendiam-se em minha frente. Carruagens e pássaros de metal cruzavam estradas e cortavam o céu para meu espanto.
--Bem vindo ao mundo que não existe. --dizia meu jovem sequestrador. Palavras que por muito tempo não me fizeram sentido. Entretanto com o tempo tudo foi se esclarecendo e logo descobri que eu havia sido decapitado a mais de um milênio. Pelo restante da existência da humanidade meu nome seria repassado como o nome de um vilão, um fraco que abandonou seu povo e destruiu o legado de meus antepassados por mera incompetência. Sem que ao menos soubessem a verdade.
Por séculos eu estudei a história secreta da humanidade. Desde o conhecimento dos antigos egípcios, dos cavaleiros templários, dos druidas nórdicos e todo outro tipo de cultura perdida. Viajei por incontáveis eras, e como expectador vivi a história como nenhum outro homem. Talvez meu benfeitor pudesse ter feito o mesmo, mas sua mente funciona de forma extremamente diferente da minha. Independente de sua idade, fosse ele um jovem ou um ancião, a irresponsabilidade e a inconsequência sempre estariam presente em sua personalidade ensandecida. E a cada vez que nos sentávamos a mesa eu admirava ainda mais a forma como ele, mesmo frente a frente com um mundo louco, usava-se de seu espírito infantil para ser capaz de manter sua mente sempre sã.
Tantas viagens trouxeram conhecimentos perdidos que foram se acumulando e com eles vieram poderes que a história "moderna" sempre taxou como contos de fadas. Bem... eu, melhor que muitos, sei como a história é capaz de taxar as coisas de maneira errônea. Me pergunto às vezes se aquele jovem que sonhava ser desenhista realmente arquitetou a morte de milhões ou se não teria sido só mais uma "tentativa" de minha querida esposa e seu namorado de alcançarem seja lá o que almejavam.
"Bem vindo ao mundo que não existe."
Não importava o conhecimento que eu adquirisse. Não havia estudo, não havia poder sobre a terra que me permitisse entender essa frase plenamente. E foi quando aprendi seu verdadeiro sentido que meu desejo de vingança cedeu espaço a um propósito maior.
--Ei velho, não acha que já está na hora de ir para a máquina? Um corpo novo cairia bem. Quando foi a última vez que fez um backup? --puxei assunto de forma corriqueira.
--Você não veio aqui para apreciar minha beleza hexagenaria, veio? A mais de um século você está viajando constantemente, grindando e upando suas skills para poder enfrentar seu last boss, também conhecido como sua querida esposa.
--Você sabe que esse vocabulário não combina com uma cara cheia de rugas e cabelos grisalhos não é? -- caçoei dele.
--E você já foi mandado pra puta que pariu por um presidente? Acho que isso também não combinaria não é?
--De fato não combinaria. --falei sorrindo enquanto o abraçava.
--Malditos assessores. Eles acham que a imagem de um velho grisalho combina mais com um posto de liderança que a de um jovem. Eles parecem ter vindo da Grécia antiga! Eles acham que isso aqui é o Olimpo e que eu tenho que parecer Zeus para governar?
--Você está me parecendo mais o presidente Laguna...
A cara de raiva em minha frente se transformou em um sorriso na mesma hora. Eu também tive minhas horas de lazer para acumular um pouco de conhecimento inútil com ele.Eu sabia como agradar aquele moleque em corpo de velho.
--Olha, olhando por esse ângulo... Final Fantasy VII nunca foi meu favorito, mas perto da aberração que foi o XXII... eu aceito o título de Presidente Laguna. Uns quinze anos mais velho... mas ainda assim. Cadê minha metralhadora?
Rimos juntos por mais alguns momentos e quando o clima estava suficientemente descontraído entrei no assunto que de fato me interessava.
--Armin...
--Presidente Laguna! -- corrigiu ele.
--... ok. Presidente Laguna. Quando você me trouxe aqui pela primeira vez você me disse: "Bem vindo ao mundo que não existe". -- a expressão dele ficou séria instantaneamente. --e agora, depois de tanto tempo essa frase me voltou repentinamente a mente.
--Louis...
--Philippe. -- corrigi.
--Tanto faz.
--Essa frase é do Squall, não do Laguna. --debochei sem mudar a expressão
--Foda-se. -- respondeu ele também sem mudar o tom.
--Ok, fale.
--Pois bem minha querida rainha Elizabeth --prosseguiu ele como sempre tentado dar a alfinetada final, a qual deixei passar para evitar que a situação se prolongasse por horas como de costume. --você viajou por incontáveis eras e já viveu o equivalente a mais de uma dúzia de vidas de pessoas de sua era. Cada viagem sua gera alterações na linha do tempo e cria uma nova linha. Entretanto...
--Eu sempre sou capaz de voltar para esse mesmo lugar que permanece inalterado.-- falei realmente pensativo.
--Exato. Este é o último refúgio da raça humana.
--Como você pode estar tão certo disso? Como diria Jake Chambers, "...existem outros mundos além deste." e você sabe disso melhor que ninguém. Eu vi a criação destes mundos. Você me levou para ver a criação da Osciladora de Fluxo Quântico em sua primeira tentativa de dobra espacial...
--Tardis! --Interrompeu ele novamente.
--Não sou fã de Doctor Who...
--Nem eu de Stephen King, e ainda assim você parafraseou Jake Chambers.
--Se você não fosse não reconheceria de onde veio a frase.
--...filho da puta...
--Continuando... eu vi a destruição da linha original, eu senti a presença das trevas durante a execução do projeto. A mesma presença que eu sentia em meu quarto, a mesma presença que acompanhava minha esposa...
--Sim sim, a força extra planar que vem guiando a história da raça humana de forma entrópica para esse desfecho desde que você foi "executado". Não deixe sua sede de vingança mudar o rumo da conversa, seja objetivo.
--Desculpe-me. Pois bem Armim. O ponto é. Eu vi as linhas serem criadas. Existem milhares de alternativas e muitas outras linhas que ainda não foram tocadas pela onda entrópica do oblívio. Definitivamente esta não é o único lugar do multiverso.
--Você tem certeza?
Naquele momento as luzes do salão presidencial se apagaram e tudo que restou foram algumas poucas luzes azuladas dos monitores e feixes decorativos ao redor das mobílias da sala. Tudo para "climatizar" a cena. Típico dele.
--Philippe...--ele olhava nos meus olhos profundamente.-- você sabe com o que estamos lidando?
--Com a mulher que destruiu a família real francesa e que se usa de uma força extra planar para controlar os eventos ao seu redor?
--Não.
--Então?
--Estamos lidando com alguém poderoso o suficiente para manter sua consciência existindo em meio a inexistência. Alguém que conseguiu influenciar a história em direção ao fim da existência em vários planos. Alguém cujo o qual o único lugar que ele não consegue tocar se quiser é esta cidade, pois ela está inexplicavelmente imune as oscilações temporais, como se existisse fora de qualquer linha temporal. Alguém que assim como a usurpadora de sua esposa, tinha um dom, um poder latente que, diferente dela que trabalhou o mesmo, atribui tudo isso a sua crença e definiu seu potencial como meramente um milagre ou uma dádiva divina.
--O que você quer dizer com isso? --perguntei esperando sua virada enfática, como quem apresenta o grande vilão de uma crônica épica em um tom de voz potente. Entretanto tudo que recebi foi um pequeno sorriso com um ar de tristeza e um olhar desolado.
--Estamos lidando com mais uma vítima de uma das minhas várias personas de tempos diferentes. --Seu olhar tinha uma tristeza incomum... -- É só um velho amigo meu o qual não tive a chance de conhecer... Talvez se eu tivesse tido a oportunidade de conhece-lo as coisas fossem diferentes agora...
Agora, ali eu estava... séculos de vida e conhecimentos místicos. Um regente, um viajante, um pesquisador, um feiticeiro... e nada mais disso me importava. Naquele momento eu era pai vendo sua filha morta no chão ao lado da mulher que por tanto tempo desejei destruir. Entretanto tive que esperar por esse momento, pois sabia que somente ela poderia me levar a este homem. A verdadeira origem de tudo. O verdadeiro responsável por toda desgraça que vivenciei no passado, presente e futuro.
A hora havia chegado... a cortina se abriu... o último ato começa agora.
"Seja bem vindo... Nathaniel."
Não houveram discursos de boas vindas, apresentações ou qualquer tipo de interação. Castiel investiu ferozmente contra aquele que havia saído do portal em um acesso de fúria. Minha filha "mais velha" tentou segura-lo, o movimento do garoto foi mais rápido que suas mãos.
-- FILHOS DA PUTA!!! --urrou Castiel enquanto avançava.
Com uma fúria barbara ele pulou e socou o recém chegado, que segurou seu braço com uma unica mão. Antes que Castiel pudesse sequer pensar em tomar uma nova ação, Nathaniel arremessou-o pelo braço através da janela. Seu esforço era o mesmo de quem jogava um travesseiro.
Ao retornar a mão para perto do corpo, senti um fluxo de energia instável crescendo em uma velocidade descomunal.
--SAIAM DAQUI! AGORA!!! --gritei.
A versão mais nova de Armin pareceu hesitar sem reação, mas os mais velhos o puxaram porta a fora. Minha filha e eu saltamos pela janela, pela qual Castiel havia sido arremessado. Foi então que a sala da casa simplesmente explodiu com um clarão vermelho, arremessando a todos para longe.
A explosão fora suficiente para atordoar a todos nós. Ao abrir os olhos vi minha filha ao meu lado, também um tanto atordoada e os garotos, que foram arremessados para o lado oposto da casa, ao longe, se arrastando e tentando tomar uma distancia segura da casa. Armin, a versão mais velha, sabia exatamente o que fazer e sabia também que aquele local era extremamente desfavorável para nós.
--VAI!!! NÃO SE PREOCUPE COM A GENTE! VOCÊ SABE O QUE FAZER! --gritei para ele.
Pude ver o namorado de minha filha "mais velha" protestando contra nos abandonar ali, mas nada que um soco de surpresa na boca estomago por parte de seu "irmão mais velho" não resolvesse.
Eu me levantei e senti minha filha fazer o mesmo atrás de mim. Ao olhar para a casa pude ver a imagem da senhora idosa e frágil por trás que escondia uma das maiores vilãs da historia da França, senão do mundo. Ela se aproximava de mim despreocupada, com um sorriso calmo no rosto.
--Philippe, Philippe. Quantas vezes eu lhe disse para cuidar do temperamento da sua filha? Bem presumo que tenha vindo aqui para busca-la certo? Bem, como vê, eu tive que aplicar algumas medidas extra-curriculares, para, digamos... corrigir, o temperamento dela. Você sabe que os alicerces da educação são construídos em casa, não sabe?
--Bem, presumo que você não queira falar comigo, afinal você veio pela sua filha, não? Não se preocupe, você logo vai poder falar com ela. -- disse a maldita mulher com um sorriso escarnado.
--Na verdade não. --dei dois passos para trás, tropeçando em um escombro da explosão e caindo sentado no chão. --Eu vim aqui pela senhora.
--Por mim? O que foi, sua mulher não consegue mais te agradar e você como o fracassado fraco e impotente que é está desesperado? Pois saiba que sempre tive pena da sua mulher e sua filha. Você cheira fracasso. O tipico homem submisso e sem personalidade. Pensar nisso me faz me sentir bem enquanto livro o mundo da sua existência. Se tem algo que eu odeio são homens fracos.
--Fraco e impotente? --perguntei deixando escapar uma pequena risada.
--O que tem de engraçado nisso? Alem de...
--Não era isso que você dizia quando dividíamos nossa cama minha querida Marie-Antoinette. --respondi em seu ouvido, revelando assim que o tempo todo ela estivera falando com uma imagem falsa minha.
Ao ver meu "falso eu" desaparecer bruscamente e ouvir minha voz em suas costas a maldita mulher virou rapidamente, somente para sentir minha adaga atravessando seu estomago.
--...co...como...
--Você não é a unica que pode aprender feitiçaria minha querida Marie-Antoinette.
--Mari.. urgh... Marie... --falou com o sangue começando a sair escorrendo pela boca.
Então seus olhos arregalaram e por fim ela pareceu notar quem estava em sua frente. O pânico no seu olhar era de alguém que parecia estar vendo alguém havia morrido a seculos atrás, o que tornava o pensamento extremamente irônico.
--Essa adaga foi especialmente preparada para você meu amor. Você não vai se curar. Para ela você é uma simples mortal.
--Seu mal...di..
--Isso foi pela França. E isso-- falei puxando seu cabelo para trás. -- é pela minha filha, sua vadia.-- Completei puxando a adaga de seu estomago e cortando seu pescoço em um único movimento rápido.
Ao solta-la ela levou as mãos ao pescoço tentando em uma esperança vã de suprimir o sangramento. Em questão de segundos ela cambaleou em direção a Boreal e caiu de joelhos em sua frente. Olhou então, agonizando, uma ultima vez para o céu e caiu. Seu corpo se tremeu em uma convulsão rápida e por fim parou. Inerte. Em fim morta. Agora tudo que restava era me assegurar que ela não voltaria jamais, e para isso, eu tinha que cuidar do nosso verdadeiro problema.
Ao me virar pude ver o homem que parecia estar desatento a toda a cena. Ele parecia apreciar todo o ambiente e não prestava atenção em nós.
--Você sabe que como as coisas nós não temos chances com ele no momento, certo?-- falei encarando a Boreal.
--Não sei, você consegue desaparecer, de um lugar e aparecer em outro igual a esses desenhos japoneses e...--ela começou a responder-me sendo abruptamente interrompida.
Naquele momento tudo que pude sentir foi a pressão gerada pelo deslocamento do ar. Em uma fração de segundos aquela versão errante do colega de classe de minha filha desapareceu de onde estava e surgiu na frente dela.
--Boreal! Cuidado!
Os olhos dele olhavam para ela com um ódio mais intenso que qualquer coisa que eu já havia visto em toda minha longa jornada.
--Você... você é a culpada! VOCÊ! --gritou a figura com uma voz potente o suficiente para quebrar uma vidraça.
Pude notar minha filha encarando-o continuamente. Até que seu olho por fim se fechou e sua cabeça caiu para frente, desacordada, enquanto sangue saia de sua boca. Só então notei a mão daquele demônio dentro de seu peito.
Pela segunda vez em alguns minutos, eu estava vendo minha filha sendo assassinada...
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