As Três Faces do Medo.
3 Capitulo 2: O poder do medo.
Notas iniciais
Terminou de se arrumar e desceu calmamente as escadas, o cheiro do café-da-manhã o deixando deliciosamente entorpecido. Ele até poderia ser classificado como um perfeito garoto problema, um demônio e até mesmo ser considerado inexistente, mas isso não o tornava menos humano, com gostos e vontades humanas.
— Bom dia, Kushina-san, Minato-san — as palavras eram educadas, mas o tom, seco e sombrio.
— Bom dia — o casal respondeu calmo. Há muito haviam se acostumado com a presença de Kyuubi, não que tenha sido fácil.
— Meu pai ligou hoje cedo e perguntou se você, digo, se Naruto está bem e avisou que já tomou providências sobre o incidente de ontem — Minato ficou levemente inquieto. — Você não irá nos contar o que houve?
Kyuubi o olhou em silêncio e depois voltou sua atenção para o chá que tomava, o ignorando por completo.
— Kyuubi... — o mais velho soltou em tom de aviso.
— Perguntem ao Kakashi, já que estão tão curiosos — levantou-se, pegou a mochila e saiu rumo à escola.
— Kakashi? — Kushina olhou para o marido, que rapidamente pegou o celular e ligou para o Hatake.
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Andava lentamente, postura altiva, mãos nos bolsos e olhar gelado. Estava atrasado, mas não importava, afinal, pelo incidente do dia anterior o normal seria que faltasse, por medo. Deu um meio sorriso. Medo? Aqueles pirralhos mimados não poderiam lhe causar medo. Conhecia o verdadeiro medo e eles estavam longe de causar tal sensação em si.
Logo que chegou à entrada do prédio deparou-se com Jiraya, que o esperava no portão.
— Está atrasado! — o homem cruzou os braços e entrou. Kyuubi o seguiu em silencio.
— Os garotos que atacaram Naruto irão fazer serviços comunitários. Sobre a fotografia, eu esclareci o mal-entendido diretamente com os pais deles — parou em frente a uma sala e bateu na porta, depois entregou um papel ao loiro. — Entregue isso para seu professor, é a permissão para você assistir à aula — saiu antes de porta se abrir.
— Velhaco... — murmurou.
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Sasuke olhava tediosamente a paisagem além da janela da sala. Em frente ao quadro, o professor Gai explicava sobre o torneio de lutas interescolar, que iria acontecer no próximo mês. Como sempre, estava excessivamente empolgado, até ser interrompido por batidas na porta.
— Entre... — permitiu.
— Com licença, sensei — um jovem entrou na sala.
Todos o olharam curiosamente, uns demonstrando mais que outros. Nenhum boato havia surgido sobre algum aluno transferido, mas de forma alguma aquele aluno passaria despercebido.
Cabelos loiros e arrepiados, olhos azuis, finas cicatrizes nas bochechas, relativamente alto e corpo esguio. A camisa branca do uniforme estava com os três primeiros botões abertos, a gola levantada e os punhos dobrados até os cotovelos. Usava uma corrente prateada pendurada na calça negra e, como calçado, um coturno. Diferente... Alguns o olharam “torto”, mas outros o olharam com admiração.
— Aluno novo? — Gai indagou confuso.
— Não, sensei. — entregou ao mais velho a autorização para assistir a aula. — Sou Uzumaki Naruto, não me reconhece? — indagou sem emoção.
O burburinho que havia começado após a entrada do jovem, se encerrou.
— Uzumaki-kun? — o professor o olhou de cima a baixo e depois fez uma expressão boba.
— Posso assistir à aula? — ficou impaciente.
— Claro, sente-se... — murmurou, mas depois voltou a dar a aula como se nunca tivesse sido interrompido.
Kyuubi encaminhou-se para a única carteira vaga, ao lado da de Sasuke. O moreno o olhou de canto, intrigado. Tinha certeza que conhecia aquele rosto, apenas não se lembrava de onde. No entanto sua expressão permanecia neutra.
As aulas transcorreram quase normalmente, afinal, a maioria dos alunos não conseguia ignorar o fato de que Naruto parecia outra pessoa. Tentaram provocá-lo, empurrá-lo e até voltaram a insinuar que ele tinha um caso com o diretor, mas apenas recebiam um olhar de desprezo.
No intervalo, o jovem resolveu ficar em um lugar isolado, nos jardins da escola. Estava tentando ao máximo não perder a calma. Sentou-se encostado a uma arvore e fechou os olhos, respirando fundo.
— Naruto-kun? — a voz tímida e confusa o fez olhar para cima.
— Hinata-chan... — forçou um meio sorriso. Ele não sentia apreço nenhum por ela, mas aquela garota tratava seu pequeno com gentileza, portanto merecia sua educação.
— Você está diferente — ela sorriu, o olhando atentamente. — Posso me sentar?
Ele assentiu e ajeitou-se para a jovem ter espaço para recostar-se à árvore.
— Como me reconheceu? — ele indagou.
A jovem Hyuuga não era da mesma turma de Naruto, portanto, não o havia visto em seu novo “estilo”.
— Apenas você tem a coragem de sentar no chão, sem preocupar-se em sujar as roupas.
— Você também não parece se importar com isso — apontou, apenas para não deixá-la falando sozinha.
— Fiquei sabendo que Kiba-kun fez uma brincadeira que poderia tê-lo machucado seriamente — ela falava mais baixo que o normal. — Eu queria saber se você está bem e também pedir desculpas por ele.
— Porque se importa com aquele acéfalo? — a morena surpreendeu-se com o asco presente na voz do jovem.
— Ele é meu amigo desde o jardim de infância e eu o considero como um irmão — ela encarou o chão. — Nem sempre Kiba foi deste jeito... Na verdade, até o final do fundamental Kiba, Shino e eu éramos inseparáveis. Porém, algo aconteceu entre Kiba e Shino no período de férias. Eu havia ido viajar com minha família e, quando voltei, eles nem se falavam mais. Depois disso tudo mudou; Kiba tornou-se agressivo e Shino introspectivo — soltou um suspiro. — Hoje, nem da sala deles eu sou e, mesmo que ambos falem comigo, não é a mesma coisa.
Kyuubi percebeu que a menina chorava, mas não ligou e permaneceu em silêncio. Ficaram quietos até que Neji os encontrou e veio a passos furiosos na direção deles. Hinata ao perceber isso tentou sair de perto do loiro, mas este a manteve no lugar segurando sua mão.
— Não precisa sair daqui — a voz monótona a fez sentir-se receosa. — Não estamos fazendo nada de errado, não é? — sorriu de lado. Ela assentiu e relaxou. Kyuubi soltou mão dela.
— Hinata-sama! — o Hyuuga puxou a jovem para si e olhou o loiro de forma arrogante — O que fez para ela, seu idiota? Não pense que só porque parece gente agora, você tem o direito de destratar a Hinata-sama — ele inclinou-se sobre o outro. — Na realidade, um fracassado como você não deveria nem ao menos falar com ela.
O loiro soltou um riso debochado.
— Você é o capacho da família Hyuuga e eu que sou o fracassado? — olhou-o maldoso. — Situe-se, Hyuuga. Você não passa de um empregado consanguíneo de Hinata.
Os dois o olhavam, sem palavras. Naruto nunca havia rebatido nenhuma ofensa, muito menos de forma tão cruel. Afinal todos sabiam que Neji fora ordenado a proteger Hinata, por seu tio, em troca de moradia, após a morte de seus pais há dois anos.
— Naruto-kun... — a morena tinha os olhos marejados. Sentia-se culpada pela condição de Neji.
— Ora seu...
— Neji! — a voz forte e arrogante fez o castanho paralisar — Não dê tanta atenção a quem não a merece.
Sasuke parou ao lado dos Hyuuga, mas não encarou o loiro. Estava fazendo exatamente aquilo que mandou o outro fazer: não deu atenção a quem ele achava não merecer.
Neji assentiu e saiu, puxando Hinata. A morena olhou uma última vez para “Naruto” e este murmurou um pedido de desculpas. A jovem deu um curto sorriso.
— Você é filho do Namikaze-sama? — Sasuke o olhou indiferente.
— Sim — o encarou e sorriu de canto, ao analisar o moreno à sua frente.
Não podia culpar seu pequeno por ter se encantado pelo Uchiha. O rosto de traços finos e elegantes, olhos negros hipnotizantes, cabelos preto-azulados revoltos, não muito mais alto que Naruto, talvez dois ou três centímetros e, para completar, um corpo definido. Resumindo, ele era lindo.
— Descobriu apenas agora? — Kyuubi indagou enquanto levantava, limpando as vestes da poeira do chão.
— Antes não tinha como ver seu rosto, mas agora é impossível não perceber a semelhança entre você e seu pai. Não sei como mais ninguém percebeu ainda — olhou em direção ao pátio do colégio onde, no mínimo, a maioria estava fofocando sobre a mudança do “bolsista”.
— Penso que seja melhor assim... — falou indiferente.
— Porque você prefere ser tratado como bolsista? — encarou os olhos azuis como se quisesse decifrar o loiro à sua frente.
— O principal não vem ao caso, mas ao menos assim eu sei quem é realmente confiável e quem só fala comigo por interesse — olhou Sasuke significativamente e, então, saiu andando com as mãos nos bolsos.
O Uchiha abriu um sorriso malicioso. Havia entendido a indireta, mas não tinha se afetado. Naruto sempre atiçara sua curiosidade de um jeito anormal e agora, esta nova faceta, apenas aumentou sua vontade de saber quem, verdadeiramente, era Uzumaki Naruto.
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O dia passou rápido. Quando percebeu, Kyuubi já estava a caminho de sua casa e, como planejado, Kiba e seus capangas o estavam seguindo.
Sabia que o Inuzuka iria até ele, afinal, fora o culpado por ele e seus amigos estarem fazendo serviços comunitários. Além disso, com certeza Neji havia contado ao outro sobre a conversa que ele teve com Hinata no intervalo e também sobre a morena ter chorado.
Caminhava a passos rápidos, fingindo medo, mas na realidade queria apenas afastar-se ao máximo das redondezas da escola e casa de Naruto.
— Hei, perdedor! — Kiba gritou. O loiro começou a correr o mais rápido que conseguia. — Você não vai conseguir fugir, bastardo! — gargalhou, sendo acompanhado por seus colegas.
Kyuubi continuou correndo até chegar a um beco sem saída, localizado em um lugar pouco movimentado de Konoha. O loiro chegou ao fim do beco e ficou encarando a parede que o impedia de continuar correndo.
— Hoje você não tem como fugir, loirinho — Sakon sorriu cruel.
— Quem vai te salvar agora, lixo? — Suigetsu ria debochado.
— Você irá nos pagar por cada hora de serviço comunitário e por ter feito a Hina-chan chorar — Kiba praticamente rosnou.
— Patéticos... — estralou o pescoço e virou a cabeça para encará-los por cima do ombro, os olhos tornando-se bizarramente vermelhos, e um sorriso insano surgiu em sua face. — Vocês pagarão por cada lágrima, grito e suplica de Naruto. Irão arrepender-se por terem tocado o corpo dele e por terem feito-o sentir medo! — a voz saiu arrastada e ameaçadora.
Os rapazes viram o loiro aproximar-se deles, paralisados. Sentiam-se acuados mesmo estando em maioria... O que era aquilo que estavam sentindo? Aquela sensação sufocante que crescia quando olhavam para aqueles olhos? Aquele garoto em frente a eles não era Naruto. Na verdade, eles duvidavam que ele fosse ao menos humano.
O desespero apoderou-se de Suigetsu e ele atacou Kyuubi, mas seu golpe foi desviado e revidado por um bem pior. Os outros dois resolveram entrar na briga para auxiliar o amigo. Kyuubi pegou uma barra de ferro que estava no chão e começou a defender-se e atacar, utilizando-a. Pouco tempo depois os três estudantes estavam caídos e o olhavam com terror.
— É agora que começa a diversão... — acertou a barra fortemente na perna do Inuzuka, que urrou de dor.
O fim de tarde foi coroado por súplicas, lágrimas e gritos.
Medo? Sim, ele pode torná-lo uma pessoa horrível.
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— Já passa das oito... Onde está Kyuubi? — Kushina olhava preocupada para a porta. — Espero que ele não esteja fazendo besteira.
— Também espero meu amor — Minato a abraçou. — Não posso negar que fiquei enfurecido ao descobrir o que fizeram com Naruto, mas espero que Kyuubi se contro...
O toque do telefone o interrompeu.
— Alô? Pai? O quê? — o Namikaze ficou pálido. — Onde?
Kushina começou a ficar ansiosa.
— Estou indo pra aí! — desligou.
— O que houve?
— Três alunos do Instituto foram encontrados desacordados e gravemente feridos em um beco. Meu pai pediu para que eu fosse até o hospital onde eles estão internados — pegou as chaves do carro.
— Eu vou com você — a ruiva pegou sua bolsa.
— Não vai...
— Não pedi sua permissão! — disse e saiu de casa.
O loiro apenas suspirou e a seguiu.
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Após ver o casal sair, Kyuubi entrou na casa e correu para o quarto.
— Acho que estou perdendo a prática... — resmungou indo rumo ao banheiro, retirando as roupas impregnadas de sangue e suor. — Devia tê-los matado! — disse entredentes, entrando embaixo do chuveiro.
Quinze minutos depois o rapaz saía de casa com uma mochila nas costas.
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Minato e Kushina chegaram rapidamente ao hospital, que estava cercado por repórteres, seguranças particulares e policiais. Quando entraram, foram guiados até a sala de espera.
— Finalmente chegaram... — Jiraya caminhou até os dois, sendo seguido por sua esposa, Tsunade.
— Onde ele está? — a loira indagou baixo.
Kushina olhou para o chão e Minato apenas negou com a cabeça.
— Você já avisou aos pais dos meninos, pai?
— Eles já estão junto dos filhos — o Namikaze mais velho, passou a mão nervosamente pelos cabelos brancos.
— E qual o estado deles? — Kushina sentou-se.
— O Inuzuka chegou em estado grave. Os médicos o estabilizaram, mas ele está em coma — a ruiva ficou pálida e, mesmo preocupada, Tsunade prosseguiu: — Os outros dois, apesar de muito machucados, não correm risco de vida. Deverão receber alta dentro de duas semanas — concluiu.
— A polícia tem alguma pista sobre quem fez isso com eles? — Minato indagou, enquanto acariciava as costas da esposa tentando acalmá-la.
— Não sei ao certo, nenhum policial se dispôs a me esclarecer nada... — Jiraya parecia irritado. — No entanto eu tenho minhas fontes. Pelo que entendi, acham que o crime foi cometido por mais de uma pessoa, mas os motivos foram pessoais.
— Entendo... — Minato suspirou.
— Kyuubi, onde você está? — a Uzumaki murmurou.
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— Como não há pistas?! — Ibiki gritou socando a mesa. — É impossível alguém cometer um crime deste tipo sem deixar nem ao menos um fio de cabelo. Ainda mais sendo mais de um!
— Não há nada lá, além dos indícios deixados pelas próprias vitimas — Tenzou nem se abalou com a fúria de seu superior.
— Então investigue a vida dos três fedelhos e descubra tudo sobre eles, até mesmo o dia do 1° beijo de cada um, se for necessário! Eu quero saber tudo sobre eles, cada amizade e inimizade. Tenho certeza que o que fizeram com eles foi um acerto de contas.
— Ok — Tenzou saiu.
— Izumo, Kotetsu! — os dois investigadores entraram quase correndo. — Amanhã vocês irão até o Instituto Namikaze interrogar os alunos. Não sejam ofensivos ou agressivos. Não quero problemas com nenhum burguês.
— Mas, chefe, não acho que Namikaze-sama irá liberar isso — Kotetsu falou receoso.
— Não se preocupe com isso. Eu me viro com Minato — pegou o telefone e discou o número do celular do loiro.
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Kyuubi observava o brilho das chamas que consumiam rapidamente os únicos objetos que poderiam condená-lo. Ele admitia ser bom no que fazia, no entanto, esta era a primeira vez que deixava suas vítimas vivas e isso não era nada bom. Não sabia o que o havia impedido e isso o deixava muito irritado e com... Medo!
Suspirou e começou a se afastar rapidamente daquele lugar, porém, após uns vinte minutos de caminhada sentiu tontura. Cambaleou e teve que apoiar-se em um muro. Tentou voltar a caminhar, mas a tontura veio mais forte e ele perdeu a consciência.
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Estava voltando para casa praticamente correndo. Sua mãe havia ligado desesperada dizendo que um maníaco tinha atacado alguns garotos de sua escola e ordenou que ele voltasse imediatamente para casa.
Ele se sentia sufocado naquela casa, então quis apenas dar umas voltas para espairecer, mas pelo visto nem isso podia mais. Trincou os dentes, irritado.
Parou de correr ao reconhecer um jovem loiro que andava trôpego do outro lado da rua. Franziu o cenho e atravessou rapidamente a via ao ver o outro se apoiar no muro e, antes de “Naruto” atingir o chão, Sasuke o segurou.
— Merda, Uzumaki — resmungou, pegando-o no colo e indo o mais rápido possível para a casa.
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