As Tontas não vão ao céu

3 Capítulo 2 – Erva Venenosa


Eva desfilava sob seus saltos Armani pelo escritório, pensativa e um tanto irritada. Passou boa parte do dia enfurnada dentro da sala de fotografias, procurando por uma modelo tão incrível e fantasmagoricamente foda quanto uma das Victoria’s secrets. Mas descobriu, nos primeiros dez segundos que tudo aquilo não passava de desperdício de seu tempo. Algumas garotas eram gordas demais, outras magras demais e tinha as sem sal. As que seus agentes consideravam bonitas, eram simplesmente estúpidas demais. Até um macaco era mais inteligente que aquelas ridículas siliconadas – uma copia patética da própria Eva Sabatelle.

– Deus! – bradou, jogando os braços para cima. – Eu te peço, traga-me uma modelo sensacional. Estou farta das raquíticas!

A loira era multifuncional: empresária, agente de modelos, CEO de uma das maiores empresas do país, nas horas vagas brincava de publicitária. Tinha sua própria grife intitulada como Poison of Love e ainda trabalhava com outdoors. Ninguém nunca poderia dizer que ela era incompetente ou burra, vencendo os estereótipos e a inveja alheia, ascendeu social e financeiramente mais rápido do que os críticos poderiam esperar. Era a garota de ouro dos Estados Unidos...

Também conhecida como Erva Venenosa por seus subalternos. Ela era odiada por todos os seus funcionários, com exceção de Sydnéia – antes desta ser demitida injustamente. – e cobiçada por homens tão importantes quanto lindos. Enfim, era uma espécie de lenda viva.

– Será que eu vou ter de posar de modelo para a minha própria grife? – bradou, estupidamente aborrecida. As modelos que passaram por seu escritório eram tudo aquilo que não deveriam ser, se realmente quisessem ser modelos. E seus cabelos eram tão oleosos quanto mal-cuidados. Eva jamais admitira que uma daquelas fosse escolhida para a importantíssima campanha que planejou tão duramente.

Mas então, surgiu uma mulher aparentemente qualificada. Morena, olhos castanhos e absurdamente magra. Sabia como se portar em cima de um salto de 17 cm e não parecia, de maneira alguma retardada... Era a escolha perfeita. A escolha óbvia, segundo seus funcionários.

Eva sentiu um gosto amargo invadir sua boca e, baixou os óculos de sol para fitar aquela desconhecida tão deslumbrante quanto seus produtores haviam afirmado que era.

– Quem é essa? – indagou acidamente, adentrando pela terceira vez a sala onde aconteceriam as sessões de foto.

– Essa é Mary Anderson, Srta. – respondeu hesitantemente um de seus funcionários. Todos, sem exceção, morriam de medo da loira.

– Mary Anderson Who? – o veneno escorria livremente pelas palavras proferidas pela loira. Seus cabelos dourados como o sol estavam presos em um rabo de cavalo alto, ela trajava calça social preta e blusa de mangas cumpridas brancas. Seu uniforme predileto.

– Ela veio para o teste... – respondeu sem jeito, Steve.

Eva arqueou a sobrancelha, um sorriso brincou em seus lábios perfeitamente tingidos de vermelho.

– Interessante. – ela rodeou a mais nova, como um urubu prestes a devorar a carniça. – Corpo bonito, cabelos bem tratados... – ela se interrompeu, parando de andar subitamente. Os demais presentes se entreolharam, nervosamente. – Porém longos demais. – suspirou e voltou a colocar os óculos de sol. – Está familiarizada com a câmera, querida?

– Sim, Srta. Sabatelle. – Mary Anderson apressou-se em garantir. Pensou em acrescentar, dizendo que já apareceu em comerciais de televisão mas por algum motivo, preferiu calar-se. Eva era uma pessoa bastante intimidadora.

– Que bom! – Eva sorriu gelidamente. – Será o mais novo rosto da minha campanha. – olhou de soslaio para os fotógrafos e colunistas ali presentes. – Quero que ela tenha um tratamento de rainha, garantindo fotos impecáveis para o meu outdoor. – anunciou em tom imperativo. –E – acrescentou, prestes a sair da sala. – Eu quero ela em todas as revistas, assegurem-se disso.

Mary Anderson podia não saber, mas seria o brinquedinho particular de Eva. Havia algo naquela maldita morena que realmente incomodava a poderosa. Era perturbadoramente familiar, constatou, enquanto atravessava o corredor com sua típica expressão de desdém. Aquele dia seria longo.

Os estagiários, seguranças e desavisados iam empurrando uns aos outros, abrindo espaço para ela passar. Todos sempre tomavam muito cuidado para não atravessar o caminho dela. Qualquer deslize e timbum! Estariam debaixo da ponte, demitidos por justa causa.

Ela parou subitamente, girando o calcanhar para analisar com cuidado seu novo assistente. O rapaz não deveria ter mais que vinte e dois anos. Era bonito e aparentemente inteligente.

– Srta. Sabatelle. – exclamou Tom, que fazia estagio de administração. Ainda estava em semana teste. – O presidente do marketing de comunicação informou que o lançamento...

Com um gesto, ela o interrompeu.

– Ligue para Estevão e diga que eu adiei o lançamento para o dia 15. E também informe ao Heitor e ao Jackson que eu estou oficialmente cancelando as reuniões do dia. Não quero saber de ninguém indo até minha casa, capiche? Diga a todos eles que podem arder no inferno. Estou de folga. – e tão rápido como surgiu, tão logo se foi.

Adentrou o elevador, ainda mantendo a pose de empresária indestrutível e, quando as portas se fecharam, permitiu-se um suspiro aliviado. Pegou o isqueiro dentro de sua bolsa, um cigarro e ascendeu-o ali mesmo, enquanto esperava pacientemente para chegar ao térreo.

–--x--

Londres era uma cidade indescritivelmente bonita. Mas, para o azar de Pietro, aquele não era o seu destino final. Aparentemente sua mãe havia se descuidado quanto as informações passadas por telefone e agora, ele estava esperando um de seus colegas arrumar aquela confusão para enfim embarcar para Chicago.

Todavia, o francês não estava disposto a permanecer mais seis horas dentro de um estúpido aeroporto e por esse motivo, resolveu vaguear pelas ruas da badalada e cobiçada Londres. Inglaterra era um país impressionante. Deixou sua mala em um lugar que considerou seguro e, então, se fora com um sorriso bobo estampado nos lábios.

Londres, saboreou o nome, falando-o bem devagar. Ajeitou a mochila em suas costas e pusera-se a caminhar por todo o canto. Tirou sua máquina digital e começou a registrar as ruas, os monumentos que encontrava e as estatuas. Acabou parando, eventualmente na frente de Big Bang e não pôde deixar de expressar sua surpresa.

Era uma das coisas mais fodas que já vira na vida. Sem perder tempo, resolveu tirar algumas fotos. Sua mãe ficaria orgulhosa, com toda a certeza.

Esse lugar é tão incrível! Pensou deslumbrado. A verdade é que ele já não ansiava mais ir trabalhar na tal empresa. Cogitou a possibilidade de ficar ali para sempre e conhecer as ruas misteriosas. Cada preciosa curva da cidade encantada.

Por volta das cinco e meia, ele resolveu tomar um café em um pequeno pub que encontrou.

– Olá estranho. – uma voz ecoou atrás de si, despertando ele de seus devaneios ilusórios e sonhadores.

– Olá. – respondeu com um sorriso maroto. A garota era ruiva, tinha olhos verdes e um sorriso incrível.

– É novo por aqui, não? – e ousadamente, ela sentou-se em uma cadeira que ficava de frente para a dele.

– Sim. – ele confirmou com a cabeça. – Na verdade, estou de passagem. – esclareceu. – Houve um engano quanto a minha passagem de avião e acabei parando por aqui.

Aquilo fez com que o sorriso nos lábios da garota murchasse, mas, ela logo reencontrou o bom humor.

– Que pena. – disse, fitando um garçom que se aproximava. Ao terminar de fazer seu pedido, voltou-se para o estranho. – Está indo para onde, garanhão? – seus olhos esverdeados brilhavam com curiosidade.

– New Eden. – ele respondeu pausadamente. Já não estava mais ansioso para chegar aos E.U.A não quando a Inglaterra parecia ainda mais suculenta e impressionante.

– Ew, Estados Unidos. – a ruiva fez uma cara de nojo. Ele sorriu. – Por que você não fica aqui? Te garanto que a Inglaterra é melhor.

Quando seus cafés chegaram, passaram a conversar menos e a trocar olhares bastante sugestivos. Apesar de encantando com a beleza da garota, Pietro não era tonto para se deixar enganar. Ela estava querendo alguma coisa dele, com toda a certeza. Caso contrário, por que todo aquele interrogatório e interesse tão repentino num estrangeiro?

A tarde foi melhor do que ele poderia prever. Mas, ainda sim tinha seus enigmas. E aquela garota era um deles. Ela havia surgido literalmente do nada, mostrado-se solidária (até demais) para o gosto dele. E não pediu nada, durante os minutos em que conversaram.

– Tenho de ir. – ele disse apressadamente. Detestava fazer aquilo, estava gostando muito da companhia da ruiva. Mas ele tinha deveres a cumprir e infelizmente, em outro continente.

– Ah. – ela fez beicinho. – Foi bom conversar com você, Pietro. – ela sorriu. – Espero podê-lo ver qualquer dia desses.

– Eu também. – exclamou. Pagou seu café e o dela e, então afastou-se daquele lugar. Pediu orientações aos britânicos que passavam pela rua, e alguns moradores de rua. Até retornar para o aeroporto. Seu vôo embarcaria duas horas depois.

Bufou, passando a mão pelo rosto, completamente frustrado.