As Prattis
10 [Capítulo 9]
Finalmente havia chegado a segunda feira. Jéssica acordara ansiosa para ir à faculdade de Direito, onde estaria terminando o quarto ano, e fora até o quarto de Luísa, acordá-la, como sempre fazia. A jovem Prattis, que estava no segundo ano de Arquitetura, e já prestes a desistir de sua segunda tentativa de encontrar um curso que a interessasse — o primeiro foi Letras -, a levaria em seu carro como sempre fazia, e elas sempre se atrasariam se não fosse a pontualidade extremista de Jéssica.
Três horas mais tarde, Angelina finalmente acordara, de um sono tranquilo, livre de responsabilidades e preocupações. Tudo o que faria naquele dia era ser voluntária para cuidar de uma das barracas da Semana da Criança, evento que a irmã estaria produzindo na sua Igreja, onde certamente se entediaria muito. Adorava crianças, mas sempre achara que juntá-las, em excesso, num mesmo cômodo, era um desastre eminente anunciado — Mas, como fora a própria Mônica que lhe fizera o convite, não teve como negar.
Chegara à cozinha, onde apenas Gabriela estava e já terminando a apreciação do cuscuz que fizera para tomar com seu precioso café com leite matinal. Sentara-se à mesa ao seu lado, e observara que a mais velha já estava pronta para ir ao seu trabalho como técnica de enfermagem.
Gabriela a encarou de forma estranha, intensificada, e logo Angelina conseguira entender porque. Não tivera a chance de perguntar antes, mas a curiosa da família Lopes jamais deixaria passar algo do tipo.
— E então, como você e Jéssica estão? — Perguntou Gabriela, de supetão, provocando um pequeno acidente no talher de Angelina, que não estava esperando, e o deixara cair no chão, visivelmente nervosa diante da pergunta repentina.
— Como assim? — Disse, limitando-se ao básico, na clara tentativa de disfarçar a sua ansiedade.
— Não sei, eu só senti uma certa "tensão" em vocês na hora do apagão. E desde então não as vi mais juntas. — Perguntou, fazendo as caretas teatrais de costume, e acrescentando um desnecessário gesto de aspas no ar, que dava uma ênfase a mais na palavra tensão que só deixara Angelina mais desconfortável. — Já fizeram as pazes?
— Ah. Sim, claro. — Respondeu, tentando mostrar-se indiferente. No entanto, apenas em julgar pela reação de Angelina à sua pergunta, logicamente não havia sequer a possibilidade de Gabriela acreditar naquela resposta.
— Tem alguma coisa a ver com o seu rompimento com Henrique? — Indagou, novamente, levando a mais nova a engasgar com o sanduíche dessa vez. Enquanto isso, tranquila, Gabriela continuou.
— Espero que você não esteja culpando-a pelo término também.
Angelina a olhou, incrivelmente aliviada. Então era só isso. Por alguns minutos, realmente acreditara que Gabriela estaria desconfiando de algo.
— Mônica me contou a discussão de vocês na frente da igreja.
— Sim, e eu estou bem arrependida. — Admitiu, baixando os olhos em constrangimento.
— Pois espero que isso se aplique a Jéssica também, porque você sabe como ela te ama.
— Se aplica sim, Gaby. Você sabe que eu jamais consegui ficar muito tempo zangada com a Jés. — Disse, com um sorriso maroto, tranquilizando a expressão de Gabriela, que pegou em sua mão, com suavidade.
— Nós somos uma família, uma família grande, diferente, e um pouco barulhenta, confesso — Brincou Gabriela, fazendo Angelina rir — ... e convivência demais sempre gera desentendimentos, conflitos. Mas nunca deixe que outra pessoa interfira na relação que você tem com sua família, porque no final das contas, na vida nós só podemos contar com nossa família e Deus. Nenhum homem vale isso.
Angelina a encarou, consciente da verdade traduzida naquelas palavras. Gabriela era uma mulher bem sábia, tanto quanto Mônica, e teria lhe dado um ótimo conselho. Precisava preservar aquele ambiente, a todo custo.
— Obrigada pelo conselho. De verdade, eu sei que posso contar com vocês, e não deixarei que nada ou ninguém nos afaste.
— Eu tenho certeza que você encontrará alguém melhor que o Henrique para amar. Alguém que realmente corresponda aos seus sentimentos. — Disse, enquanto tocava carinhosamente no rosto de Angelina, que não conseguira deixar de pensar que ja poderia ter encontrado.
Pouco depois, Gabriela saíra e Angelina terminara seu café, sentindo a enorme tranquilidade por estar sozinha em casa. Naquele momento, Luísa e Jéssica certamente estariam estudando, Mônica na igreja ajudando na organização do evento, e Gabriela teria acabado de sair para ir à clínica em que trabalha.
Após o desjejum, fora até o banheiro arrumar-se para o banho quando se dera conta que estava sem condicionador. Esquecera-se de comprar no dia anterior. Merda! Olhou para o relógio, faltava pouco mais de uma hora para meio dia, horário que Mônica teria ficado de buscá-la. Pediria para passar no mercado quando estivessem a caminho. Refletira, e acabara decidindo pegar emprestado o de Jéssica, que usava a mesma marca que ela.
Fora até o quarto de Jéssica despreocupada, mas logo que abriu a porta percebera a presença da jovem, que estava trocando-se na frente do espelho.
— Eu pensei que você não estivesse em casa. — Fora tudo o que disse, e Jéssica a encarou incrédula. Esperava um pouco mais de detalhes sobre o que a mais nova estava fazendo ali. Mas Angelina parecia perdida analisando as curvas perfeitamente delineadas da jovem à mostra pelo espelho.
— Não tive a última aula hoje, e voltei um pouco mais cedo. Acabei de passar pela porta.
— Ah... — Suspirou, deixando o silêncio dominar o ambiente, enquanto amaldiçoava baixinho cada passo que a trouxera àquele quarto. Que ideia mais brilhante! Mas, afinal, como não escutara Jéssica chegando? Estivera tão distraída assim?
Embora não soubesse ainda o que trouxera Angelina ali, fosse o que fosse, Jéssica decidira terminar o que estava fazendo, e ignorar a presença emudecida. Quando estava prestes a retirar seu sutiã, Angelina desviara o olhar bruscamente. Como uma coisa antes tão banal, agora lhes provocava tanto constrangimento?
As duas permaneceram ali, naquele momento bizarro, e enquanto Angelina desviava seu olhar deliberadamente, mas sem conseguir forças para sair daquela situação embaraçosa, Jéssica já havia retirado a parte de cima por completo, e partia para a de baixo. De repente, Angelina nem mesmo se lembrava o que teria ido fazer ali, quanto mais lembrar-se de explicar sua estranha presença — e permanência, diga-se de passagem -, ali. Alguns segundos depois, e já cansada de esperar por uma resposta que claramente não viria tão cedo, Jéssica a indagou:
— Mas diga-me, você está precisando de alguma coisa?
— Oh, sim! — Angelina se lembrou, retomando a consciência lentamente, e soltou um breve riso que de certo teria origem puramente nervosa. — Fui tomar banho e notei que estava sem condicionador. Pensei em... -Angelina não conseguira concluir a frase, ao acidentalmente encarar Jéssica que estava agora ajeitando uma blusa azul de alças por cima do short que acabara de colocar — Mas, eu acho que vou... voltar outra hora... — Considerou, FINALMENTE ouvindo a razão, adiantando-se de volta à porta, em visível fuga, mas Jéssica logo a interrompeu.
— Não, de jeito nenhum. Deixe que eu pego pra você. — Falou, enquanto caminhava até o banheiro à passos firmes, retornando instantes depois, com o produto em mãos.
Angelina se aproximou incrivelmente tensa, e pegara no condicionador, sem conseguir tira-lo das mãos da maior. Por acidente, seu dedo indicador tocara de leve nos dedos de Jéssica, que lhe pareceram mais mornos que o normal. Sentira um pequeno arrepio que viera da região do toque, que a fizera suspirar, incomodada. A cada encontro parecia mais difícil controlar as faíscas, que a atrapalhava de raciocinar e manter sua decisão de não render-se àqueles desejos impróprios, e não incendiar tudo de uma vez.
— Obrigada. — Agradeceu, em sussurros, ainda segurando o objeto que permanecia estendido nas mãos de Jéssica.
— Nem precisa se preocupar em devolver. Vou abrir o novo que tenho guardado.
— Ok. — respondeu Angelina, com a voz baixa, tentando recompor-se para finalmente sair dali. Sentira-se intimamente agradecida por não precisar voltar.
— Ok. — Repetiu Jéssica, com o tom de voz ainda mais baixo, aparentemente ansiosa pelo fim daquele martírio em que se encontravam.
Jéssica transparecia sua mágoa com aquela situação. Como uma relação tão longa e bonita como a delas, tornou-se algo tão superficial, e uma fonte inesgotável de constrangimento? Jéssica sequer possuía outro condicionador para colocar no lugar daquele, mas a convencera que sim, para liberar-se de passar pelo mesmo climão novamente. Preferia encarar as filas dos mercados, ao encarar aquela expressão de medo que vinha do rosto de Angelina. Aquela era a mulher da sua vida, e jamais faria algo contra a sua vontade, mas por alguma razão a mais nova não conseguia perceber isso, e a tensão nos ombros dela atormentavam Jéssica.
Após alguns segundos, no mesmo lugar, Angelina finalmente caminhara até a porta do quarto, mas visivelmente indecisa sobre o que deveria fazer. Encostou sua mão, agora trêmula, na fechadura da porta, mas simplesmente não a girou. Considerou o quanto aquela porta fechada poderia ser funcional para elas, naquele momento. Lhes dava uma coisa que era difícil de obter naquela casa, a qual elas realmente precisavam: privacidade.
Elas poderiam continuar aquela conversa do parque, e quem sabe, se entender? Sentira um arrepio na espinha, e as mãos suarem em excesso, ao lembrar-se do que estiveram a ponto de fazer dias atrás. Sabia que se desse aquele passo, estaria dando uma boa oportunidade para algo assim acontecer, e possivelmente aquele seria um passo sem volta. No entanto, a verdade é que Angelina é uma covarde, quando se trata daqueles novos sentimentos por Jéssica, e ela não se sentia pronta para enfrentar aquela situação de frente. Fechou os olhos, abriu a porta, e saiu de uma vez.
No entanto, para Jéssica, todo aquele momento só havia servido para deixar claro o quanto Angelina estava mexida por ela. Seu nervosismo, suas fugas, seu jeito de olhar admirando-a em silêncio, sua resistência a sair do quarto. Tudo aquilo corroborara para dar a mais velha a certeza de que Angelina estaria se apaixonando por ela. Suas chances eram mais do que nunca reais, e talvez estivesse na hora de mudar a postura diante da mais nova.
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