As Prattis
11 [Capítulo 10]
Horas mais tarde.
Ouvira duas batidas de leves na porta, e Jéssica suspirou em resposta à presença desconhecida já considerada incômoda. Virou-se na cama em direção da porta, enquanto observava a entrada de quem a incomodava.
— Posso entrar? — Indagou Luísa, após abrir uma pequena greta da porta, que estava fechada. Sua expressão transparecia preocupação, e Jéssica sentou-se na cama — Claro. Entre. — Respondeu, e a irmã de coração prontamente adentrou o cômodo. — O que houve?
— Nada demais, só queria saber de você. Tenho te achado muito pra baixo ultimamente.
—Ah, sim, mas não é nada. Só estou com alguns problemas.
— Parece que temos muitos “nadas” nessa conversa. — Comentou, levando a mais nova a sorrir, embora fosse um sorriso essencialmente triste.
Angelina estava passando pelo quarto de Jéssica quando escutara a voz de Luísa dizendo algo que imediatamente lhe roubara toda a atenção. Se aproximara da porta, na intenção de ouvir melhor.
— Sabe, eu conheço um rapaz muito simpático. Ele trabalha com um amigo meu no escritório. É jovem, atraente, e também está estudando pra ser advogado. É um bom rapaz. Você gostaria de conhecê-lo?
— Não. — Respondeu, seca. Angelina suspirou, aliviada, ao mesmo tempo em que sentia sua pele queimar em irritação por ouvir Luísa pronunciando aquelas palavras.
— Por que Jés? Você já tem 22 anos, em algum momento terá que pensar em casar, ter filhos.
— Em algum momento, mas não agora.
Angelina estava revoltada. Se a menina queria estar sozinha, que estivesse. Não fazia o menor sentido aquela pressão toda. Era só o que faltava! Aquela situação lhe parecia completamente fora de limite, e Angelina chegara até a considerar entrar no quarto pra desviar o assunto. Fora quando ouvira novamente a voz da mais velha.
— Jés, o que está havendo? Você tá gostando de alguém, não está? E eu sinto que não é correspondida. Por isso você tem andado tão infeliz ultimamente.
A postura de Jéssica mudou da água para o vinho, e a tensão ficara mais evidente sob seus ombros. Luísa observou toda a mudança da menor ao pronunciamento das suas próprias palavras. Aquilo respondia mais do que qualquer afirmativa da outra. Ela tinha uma suspeita, há algum tempo, mas recentemente teve mais provas de que poderia ser mesmo verdade.
— Jés, você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? Que eu jamais iria lhe julgar. Não sabe?
— Sim. — Respondeu a mais nova, abaixando a cabeça em seguida. Não poderia encara-la naquele momento. Sentia como se Luísa analisasse cada gesto dela, e não estava errada. Aquilo a incomodava profundamente.
— Apenas deixe-me oferecer esse jantar. Eu chamo ele, vocês se conhecem, e depois se você não gostar, tudo permanecerá igual. — Disse, displicentemente, fazendo com que Jéssica a olhasse mais uma vez.
Dessa vez, a mais nova a olhou com uma sombra de irritação nos olhos, mas logo notara na mais velha um estranho brilho no olhar como se estivesse aprontando. Estava tentando tirar informação dela, e usando esse tal rapaz para isso. Talvez ele nem mesmo existisse. Luísa parecia estar desconfiada... Mas de quem? E a quem Jéssica queria enganar? Se houvesse alguém a quem ela pudesse desabafar seus sentimentos, ela se sentiria muito menos só... Seria bem menos pior.
Enquanto isso, Angelina já não tinha mais onde pressionar a orelha na porta, na ínfima tentativa de ouvir tudo o que elas diziam. Sentia-se estúpida. Seu coração parecia que ia sair pela boca. De repente a ideia de ver Jéssica namorando alguém lhe pareceu um pesadelo.
— Não posso. Não seria justo nem com ele, nem comigo. — Admitiu Jéssica, e Luísa sorriu ao obter a informação que desejava. Estava cada vez mais certa sobre o que Jéssica estaria sentindo, e isso estava preocupando-a demais ultimamente. Algo lhe dizia que a família Prattis Lopes iria enfrentar uma bomba que cairia avalassaladora contra o tradicionalismo daquele leito familiar, e temia o pior. Especialmente com relação à Mônica.
— Tudo bem, já entendi que você não quer falar sobre o assunto ... Se você cansar de esperar por esse “príncipe encantado” a qual não fui apresentada, você me avisa. — Luísa sorriu no final, e levou a mais nova a rir também, da ironia que sentira nas palavras da outra.
Como admitir que é lésbica? Luísa sempre fora uma irmã para Jéssica, mas acima de tudo, uma grande amiga. Talvez pela proximidade de idade, elas sempre foram muito próximas. Entendia que a mais velha sabia o que estava acontecendo, mas ainda assim lhe faltava coragem pra admitir em voz alta. Sabe, quando admitimos as coisas em voz alta, é como se as tornasse mais verdadeiras e profundas. E Jéssica temia seus sentimentos, e todas as consequências que eles poderiam lhe trazer. Além do mais, tudo o que ela não queria era dar mais razões para Angelina fugir dela.
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Enquanto isso, percebendo a movimentação, Angelina afastara- se da porta de supetão, entrando em seu quarto correndo. Seu receio de que alguém a visse espiando-as levou quase que literalmente o seu coração à boca, no forte pulsar e arfar do seu peito em chamas.
Jéssica ficara calada. Por que Jéssica ficara calada? Teria ela considerado, por fim, as palavras de Luísa? Estaria ela considerando conhecer esse tal rapaz de que falara? Seria capaz de namorar esse rapaz, mesmo sentindo o que sente por Angelina? Sentimentos... Difícil entender sentimentos, quando nada conhece ou entende sobre eles. Afinal, o que Jéssica sente por Angelina era tudo o que a mais nova precisava saber.
Essa história já estaria indo longe de mais. Acabara de sentir o coração partido apenas à possibilidade de ver Jéssica com outra pessoa. Não podia mais simplesmente negar o que estava acontecendo. Haviam sérias faíscas ali, que certamente incendiariam aquela casa, e destruiriam toda a harmonia familiar, reconhecida há gerações por seu tradicionalismo, e ao bom cumprimento das ideologias moralistas que fundamentam cultural e historicamente a cidade Catedral do Norte. Fiéis cumpridores da moral e dos bons costumes.
Em pensar que, por anos, Luísa teria sido a ovelha negra da família Prattis, com todo aquele drama familiar envolvendo sua história de amor interrompida com Mário Pontes. Seu nome ficara na boca do povo por anos. E agora, Angelina poderia ser a próxima das Prattis a encabeçar as fofocas daquele bando de desocupados daquela cidade interiorana. E resulta que, no fim, Angelina descobrira-se como sendo a mais imoral de todas. Precisava reagir enquanto era tempo, tomar a direção disso tudo, e proteger sua família a todo custo.
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