As Prattis
9 [Capítulo 8]
Nesse dia, Angelina despertara de madrugada, completamente suada e com o coração saindo pela boca. Fora uma espécie de continuação que seu subconsciente dera a experiência que vivera pela manhã. Sentira-se em êxtase, uma troca intensa de afagos e olhares, e seus corpos se tocaram, carinhosamente, mas quando estava prestes a sentir os lábios de Jéssica, voltara a si, de repente.
Estivera tão zangada com Jéssica, que ignorara sua presença por todo o dia, embora sua mente não tivesse esquecido aquele momento por um minuto sequer, e acabara por lhe pregar várias peças. Lembrou-se daquelas últimas palavras, que soaram em forma de ecos em sua cabeça:
"Você descobrir se deseja o suficiente". Prendeu os lábios, em desdém, afinal o quão óbvio não seria aquilo? Nem teria condição de rebater um argumento daqueles.
Lógico que se tratava disso! Precisava de uma resposta concreta às suas dúvidas, um entendimento legítimo sobre os seus sentimentos pela melhor amiga, já que eles teriam sofrido uma mudança muito brusca, e tão repentinamente. Tudo era muito confuso, e não se sentia segura, então como saber se poderia ser o suficiente para enfrentar um estilo de vida tão julgado, e tão diferente daquele idealizado, para si, há tantos anos? Mas, então, em que estaria pensando? Estaria considerando dar um passo tão arriscado, para tentar conseguir suas respostas tão desejadas?
De fato, seria a única forma de saber. Seria isso ou tentar esquecer, mas estava cada dia mais difícil ignorar os seus novos sentimentos. No entanto, não conseguia evitar pensar na reação das irmãs se aquele romance progredisse. Elas eram como irmãs, e mesmo que o sangue das Lopes não circulasse em suas veias, em alguns momentos parecia inevitável ter essa mesma sensação bizarra, que os outros possivelmente teriam como se estivesse nutrindo sentimentos românticos por uma irmã.
No entanto, a verdade é que elas haviam se tornado algo muito maior do que isso durante todos esses anos. O amor e a cumplicidade que sempre partilharam, de repente evoluíram em um desejo avassalador. Fora como se desde aquela manhã, no banheiro, as duas tivessem desenvolvido um elo magnético inquebrável que as atraía como ímã. Porém, dar a vida a esses sentimentos, sejam eles quais forem, poderia ter um custo muito alto. Precisava ter certeza se estaria disposta a pagar.
Semanas se passaram. Angelina e Jéssica continuavam se evitando deliberadamente. Era como se a força magnética que as unia crescesse a cada dia, então uma aproximação corpórea tornara-se algo assustador, e as irmãs começaram a estranhar o comportamento incomum.
Tudo começou quando, naquela mesma noite, ocorrera um curto circuito na saída de energia, por causa de um descuido qualquer de um bêbado fumante, e três quarteirões da cidade ficaram sem luz. Entre eles, a mansão dos Prattis e Lopes, que se transformara em breu total.
— O que será que aconteceu? — Perguntara Angelina, surpreendida, enquanto todas as meninas — exceto Luísa — se encontravam jantando.
— Parece que faltou luz. — Respondeu Mônica, atestando o óbvio.
— E parece que não foi apenas aqui. Toda a região leste de Catedral do Norte está apagada. — Confirmou Gabriela, que fora até a janela para compreender a situação.
— E agora? O que fazemos? — Perguntou Jéssica, tentando aprimorar a vista, em vão. O breu as cegava.
— Mônica, vá até a cozinha pegar uma caixa de fósforos, Jéssica e Angelina, vão até o terceiro andar. Na frente da porta do meu quarto há uma luminária. Tragam-na pra mim. E eu irei até o porão da casa, pra ver se foi o disjuntor que desligou. — explicara Gabriela, enquanto adiantava-se até a escadaria que dava acesso ao porão da casa.
— Com ela? Por quê? — Angelina reagiu, de repente, evidenciando que havia uma tensão desconhecida ali. Mônica e Gabriela, que nem imaginavam a razão, apenas pararam para encará-las surpresas. Elas sempre teriam sido tão próximas e cúmplices, que era difícil vê-las se estranhando. Sentindo a pequena tensão familiar que causara com seu comentário, Angelina acrescentou, defendendo-se por trás da covardia que lhe guiava — Q-Quero dizer... Eu posso ir sozinha. Não preciso de uma babá dentro de casa.
Jéssica suspirou incomodada, finalmente dando-se conta do que acontecera a elas. Angelina estaria com medo de ficar a sós com ela, e era péssima para disfarçar isso.
— Ok então — adiantou-se Gabriela, achando cada vez mais estranho a relutância de Angelina a ir com Jéssica. — Você vai buscar a luminária, e Jéssica vai até o portão de entrada garantir que está devidamente trancado. Afinal, se estamos sem luz, o sistema de segurança eletrônica logicamente está fora do ar.
— E se a Luísa chegar? — Perguntou Jéssica, finalmente abrindo a boca, só na tentativa de desviar o assunto delas.
Ela tem as chaves. — respondeu Gabriela, dando de ombros, e logo descera a escadaria. Mônica entrara na porta de acesso à cozinha, em seguida, deixando as duas a sós, na sala de jantar, por um instante.
— Não precisa de uma babá? Sério isso? — Perguntou Jéssica, enquanto passava, propositalmente garantindo um mínimo afastamento corporal para que a amiga não temesse que a morena fosse tocá-la na passagem. Sua voz saíra um tanto fria, e Angelina compreendeu o quanto havia sido idiota, e como sua autodefesa teria sido desnecessária. Uma mera prova de covardia.
Minutos depois, Angelina e Mônica chocavam-se no escuro, em frente à entrada do porão, enquanto Jéssica vinha com cautela, tateando por todo o caminho, para não se machucar, finalmente alcançando-as. Juntas, as
três irmãs finalmente acenderam a luminária, iluminando a antiga escadaria, que as guiaram até Gabriela. De repente, ouviram o som da tranca girando no andar de cima, e em seguida um forte estrondo de coisas sendo derrubadas. Elas se entreolharam, e riram do desastre que Luísa estaria fazendo na sala de estar.
Logo, Gabriela finalmente conseguira iluminação suficiente para saber o que estava fazendo, e religou o disjuntor, na esperança que isso trouxesse a luz de volta, mas nada aconteceu.
— Será que o velho gerador que meu pai desenvolveu ainda funciona? — Perguntou Mônica lembrando-se de repente.
— Vale a pena tentar. — Disse Gabriela passando para a mais velha a luminária, e Mônica dirigiu-se até a única porta do sótão, acompanhada de Gabriela, e enquanto uma tirava objetos da frente do enorme e secular gerador que tomava todo o espaço do recinto, a mais velha finalmente conseguira aproximar-se o suficiente para ligar a máquina, que surpreendentemente trouxe a luz de volta.
Assim que as pupilas voltaram ao normal, após segundos reacostumando-se a mudança de iluminação local, Jéssica e Angelina se entreolharam. A mais nova a encarou com carinho, sem mais evidenciar medo, e depois mordiscou sutilmente o lábio inferior, enquanto Jéssica dera um pequeno sorriso tímido como resposta.
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