As Prattis
8 [Capítulo 7]
Jéssica amanhecera angustiada, teria acordado varias vezes durante a noite pensando em como Angelina estaria, já que a menor não teria jantado com a família na noite anterior. E não a via desde o estranho momento que compartilharam no banheiro. Estaria evitando-a? Precisavam conversar! Ela considerou ate mesmo inventar alguma desculpa para aquele comportamento bizarro, embora soubesse que não existiriam desculpas que explicasse um quase beijo. A situação era bem clara, mas Jéssica precisava ver Angelina, conversar com ela, saber o que a mais nova estaria pensando naquele momento. Aquela distância estaria matando-a.
Arrumou-se rápido, e caminhou até a cozinha, onde encontrara Gabriela tomando café, sozinha. Perguntara sobre as meninas, para disfarçar o seu real interesse, e recebera todo o relatório detalhado de onde cada uma estaria, exceto Angelina. No entanto, Gabriela comentou que Mônica haveria dito, antes de sair, que a mais nova teria despertado bem cedo, parecendo ansiosa, e que saíra apressada, dizendo estar indo "lavar a alma". Ouvindo isso, Jéssica imediatamente compreendeu aonde a amiga deveria estar. Adiantou-se a sair, sem nem mesmo tomar café, e Gabriela estranhou toda a movimentação, mas como estava com muita fome, decidiu, solenemente, ignorar esse fato.
Após alguns minutos de cavalgada, cortando caminhos, e indo o mais rápido que conseguira, Jéssica finalmente avistara Angelina na beira do lago, com os pés dentro da água rasa. Sua expressão era bastante serena, os olhos mantinham-se fechados, e sua mente parecia bastante dispersa, já que nem mesmo reparara nos passos da amiga aproximando-se.
— Eu não sei porque, mas eu sabia que te encontraria aqui. — disse, e olhos de Angelina abriram imediatamente ao reconhecimento daquela voz. Sentira Jéssica sentando do seu lado, e finalmente a olhou.
— Eu precisava pensar um pouco. E, você sabe, respirar um pouco. Tem muita coisa acontecendo...
— É, eu sei. — Concordou, suspirando em seguida. Um suspiro sofrido que Angelina facilmente conseguiu traduzir o seu significado. — Mas nós não precisamos falar nada, se você não quiser.
Angelina a olhou, de repente, em busca de alguma resposta que não saberia identificar ao certo, mas logo desistira, desviando o olhar em seguida. Jéssica, ao contrário, entendera exatamente o que estava acontecendo com Angelina. Era aquela mesma sensação de precisar de algo, ou de entender algo, mas simplesmente não saber o que dizer, ou se deveria se informar para saber.
— Eu quero que saiba que eu posso simplesmente estar aqui para você, sem que precisemos falar sobre nada. Podemos ficar em silêncio.
Angelina a olhou novamente, segurando a atenção dessa vez. A compreensão e o carinho de Jéssica presente naquelas palavras, a fizeram recordar a calidez do abraço que recebera no dia anterior, e a jovem simplesmente sorriu.
Nesse momento, Jéssica relaxou um pouco e desviou sua atenção ao lago, suspirando aliviada. Demoraram alguns instantes em silêncio, mas de repente Angelina começara a puxar assuntos bobos. Agradecera pelo conselho que recebera sobre Mônica e Henrique, e admitira que ela estava certa em tudo. Fora o momento que ambas recordaram o que mais teria acontecido na manhã anterior, e elas se olharam tímidas por um segundo.
— Eu pensei que você fosse me ignorar depois daquilo.
— Confesso que passou pela minha cabeça fazer isso. — Admitiu Angelina, respondendo a sinceridade da outra com um belo sorriso. — Mas logo eu lembrei que jamais conseguiria viver sem você na minha vida. Você sabe, implicando comigo, puxando minha orelha, me dando conselhos.
Jéssica riu, em resposta, e Angelina se pegou analisando aquele sorriso. De repente, compreendeu a que tipo de paz Mônica teria se referido. Fora a sensação que aquele simples gesto teria lhe proporcionado.
— Mas eu não me refiro somente a isso, você sabe. — acrescentou Jéssica, mostrando-se tensa mais uma vez. Aí foi a vez de Angelina suspirar pesadamente, entendendo que chegara o momento de terem aquela conversa.
— Eu sei. — disse, simplesmente, enquanto arranjava forças para continuar. — Há quanto tempo isso vem acontecendo? — Indagou, sendo propositalmente vaga, mas sabendo entretanto, que seria bem compreendida por Jéssica.
— Desde os 14 anos. Foi quando eu me inteirei. — Respondeu, tão direta que chegara a ser cortante em Angelina, que por pouco não se arrependera por perguntar aquilo. Mas naquele momento, ela sentia-se muito curiosa e necessitada de respostas, por mais que fosse constrangedor e aterrorizante falar naquele assunto. Já que conseguira essa abertura, tentaria ir até o fim, e eliminar todas as suas dúvidas.
— Então é por isso que você nunca teve... — Tentou finalizar sua linha de pensamento, mas a voz simplesmente não saiu. Olhou para Jéssica como num pedido de socorro, e a outra se adiantou, notando a dificuldade da mais nova em concluir a frase.
— Namorados? Sim. — Respondeu, sendo novamente direta, e Angelina desviou o olhar, sentindo-se corar levemente. Estava envergonhada, mas mesmo assim intimamente agradecida, pela intervenção cirúrgica da outra.
Alguns minutos se passaram em um silêncio mortificante, até Angelina conseguir coragem para continuar seu questionário de perguntas ainda sem respostas.
— E porque você nunca me contou? Quero dizer, nós sempre fomos tão amigas, eu acho que poderia ter te ajudado de alguma forma a... — deu uma pequena pausa enquanto encontrava uma palavra, e acabou decidindo pelo óbvio — ... Passar por isso.
— Isso poderia ter te afastado de mim, e eu não podia arriscar isso.
— Mas você devia ter tentado. Imagino como deve ter sido difícil pra você. — A voz de Angelina transparecia uma legítima preocupação, e frustração por não ter reparado ou estado lá para ajudá-la, e Jéssica não pode deixar de achar muito fofo o seu gesto.
— Nada seria mais difícil para mim do que ficar sem você, Angel. — Admitiu, finalmente, e Angelina desviou o olhar do horizonte, para encarar Jéssica, mostrando seus olhos marejados pela emoção do momento. Aquelas palavras, a expressão de Jéssica, e tudo o que acontecera ontem, todos esses fatores juntos responderam outra pergunta que Angelina não teria criado coragem ainda para fazer. As mãos da mais nova buscaram as de Jéssica, e as trouxeram para si, em um entrelaço.
— Eu não vou me afastar. — Afirmou, simplesmente, tranquilizando Jéssica, que a respondeu com um meigo sorriso, embora uma inevitável lágrima insistisse em descer de seu olho direito.
— Me diga o que eu posso fazer para te ajudar. Deve haver algo que possamos fazer para ... — Fora tudo o que Angelina conseguira dizer, até ser interrompida por Jéssica, que tivera uma mudança de 360 graus em sua expressão.
— Não diga isso! Por Deus, não diga o que você estava pensando em dizer. Não ouse chamar meu sentimento por você de... doença. — A voz de Jéssica saíra tão zangada, que Angelina sentira como um tapa na cara que logo a fizera retomar a razão.
— Jéssica, desculpa, não foi isso que eu quis dizer. — Tentou se defender, mas a outra mal a encarava mais, e continuou seu argumento, com o mesmo tom de voz ferino.
— Eu não estou doente. Eu simplesmente sinto por você algo que me torna diferente das suas irmãs. Mas o sentimento é o mesmo. Não tem nada de errado comigo, se é isso que você está pensando!
Jéssica se levantou, em solavanco, e sua expressão transparecia uma imensa mágoa. O coração de Angelina se contraiu tão violentamente ao vê-la daquela forma, tão decepcionada, que não pensou duas vezes em levantar-se atrás.
— Não, não estou. Eu sei disso, desculpa. — Gritou enquanto puxava a maior pelo pulso, sentindo uma forte resistência que cortava sua alma — Por favor, Jés, me desculpa. Eu nem mesmo sei o que estava dizendo. Por favor, fica. Não vai embora! — O tom suplicante e os olhos úmidos de Angelina evidenciando seu legítimo arrependimento e até um certo desespero em sua voz, fora mais do que suficiente para Jéssica perdoa-la, e a morena imediatamente virou-se em sua direção, puxando a mais nova para um forte abraço.
Minutos se passaram, e a única coisa em que Jéssica conseguia se concentrar era nas carícias que executava nos cabelos da amiga. Naquele perfume capaz de inebriá-la, em todos os sentidos, e até mesmo promover sensações novas, que nem mesmo considerava serem possíveis, até agora.
Angelina também, só saíra do transe em que se encontrava, ao sentir os cabelos lisos e castanhos de Jéssica arrastando-se pelas suas bochechas, em um prenúncio de que ela estaria desfazendo o abraço. Ainda demorou para conseguir abrir os olhos, e forçar-se a encará-la.
— Eu não sei se eu estou alucinando, ou simplesmente me enganando, mas... — Angelina afastou os lábios ligeiramente, enquanto compreendia o que viria a seguir. Entendera perfeitamente o que Jéssica queria saber, e certamente naquele momento ela não teria mais forças para negar. — Por que eu sinto que você está sentindo o mesmo que eu?
Os ombros de Angelina pareceram um pouco tensos, mas o seu olhar permanecera sereno. Estava ciente sobre a razão da pergunta que acabara de receber, e não encontrava-se em condições de negar.
— Talvez porque eu realmente esteja. — Confirmara, ruborizando-se violentamente. Sabia o peso daquelas palavras, por mais vagas que tentasse parecer, e sentia-se uma covarde por nem mesmo conseguir admitir sem esses artifícios estúpidos de autodefesa gratuita. Sem contar que, enquanto pronunciava aquelas palavras, não conseguira evitar virar-se, fugindo desavergonhadamente do intenso olhar de Jéssica, que instantaneamente abriu um iluminado sorriso às suas costas, ao ouvi-las.
Pena que a alegria durou pouco.
— Mas eu não posso sentir isso, Jéssica. Isso é errado, nós não deveríamos nos sentir assim.
— Angelina, eu amo você. Eu sempre amei você, e quero ficar do seu lado para sempre. Cuidar de você, te proteger, te fazer feliz. O que tem de errado nisso?
Sem palavras, Angelina parou alguns instantes para absorver tudo o que teria escutado. De fato, ouvindo assim, era tudo o que ela sempre teria procurado, tudo o que sempre desejara: uma paixão arrebatadora que mudasse sua vida para sempre. Uma pessoa que a fizesse se sentir segura, e que a fizesse se sentir bem, e feliz em ser ela mesma. Jéssica, como sua amiga, lógico que sempre conseguira fazer isso. Mas, de repente, considerar isso a nível romântico, lhe parecia tão estranho. Tão errado.
No entanto, lembrou-se que passara por algo parecido quando tentou se enganar em pensar que algum dia conseguiria ter aquela relação idealizada com Henrique. Mas dessa vez o engano lhe parecia muito maior, porque o tipo de mudança que seria necessário para que a relação delas se tornasse legalizada, não era algo realizável, simplesmente. Bom, já teria escutado casos em que fosse, mas eram sempre casos aberratórios, isolados, sem sombras de dúvidas.
— Tudo, Jéssica. A nossa religião e a sociedade determinam que as mulheres são feitas para desenvolver relações com homens. E agora você diz que quer fazer todas essas coisas comigo. Nós duas somos mulheres, isso não é o natural.
— Sabe o que é natural? Isso! — Jéssica argumentou, trazendo impulsivamente, a mão de Angelina para sentir as batidas do seu coração, que parecia completamente desgovernado. Mais uma vez, Angelina recebera uma intensa carga de força e energia, como se ondas de eletricidade percorrecem seu corpo, e reagira reativamente, puxando seu braço de volta, na inútil tentativa de diminuir as sensações que aquela proximidade gerava. Jéssica paralisou, sentindo que teria passado dos limites, mas ainda assim manteve seu argumento. — Natural é fazer o que nos faz feliz. O que nos faz sentir. O que o nosso coração e o corpo pedem. Fazer o que nos impulsiona a viver mais!
— Mesmo quando não é permitido desejar? — questionou, com os lábios visivelmente trêmulos. O nervosismo a consumia por dentro, enquanto esforçava-se para conter os seus desejos, que a cada minuto pareciam mais intensos, e arrebatadores.
— Pode parecer difícil essa resposta, Angel, mas não é. E só depende de duas coisas: Primeiro, você definir quem está dizendo isso. Se são realmente suas essas palavras, porque a sociedade não entende nossos sentimentos, como nós fazemos. E segundo... — Jéssica deu um passo à frente, recolhendo a mão de Angelina para si, em movimentos bem devagar, para não assustá-la. E dera certo, dessa vez Jéssica não recebera nenhuma objeção. A mais velha aproximara lentamente seus rostos, de modo que tudo que elas podiam ver eram a si mesmas. Angelina estremecera, e ambas se olharam em silêncio.
O intenso vínculo que as unira desde a infância até hoje, agora emergia em outra forma, em uma diferente força, que jamais teriam conhecido antes daquele momento. Angelina tocou no rosto da amiga, cúmplice à delicadeza que somente a elas àquele momento conferia, e Jéssica quase se deixara levar, mas não o faria, precisava continuar a lição que estaria prestes a dar em Angelina. Não queria que o primeiro beijo delas fosse considerado um erro, logo após acontecer.
Não queria aquilo. Preferia simplesmente nunca ter aquela experiência, se não fosse para tê-la de verdade, sem quaisquer sombras de preconceitos, dúvidas e medos.
— E segundo é... — Repetiu, afastando-se bruscamente e Angelina a encarou sem compreender a distância repentina. — Você descobrir se deseja o suficiente.
Jéssica simplesmente fora embora dali, deixando Angelina estarrecida com o absurdo do seu gesto. Como Jéssica poderia ter brincado com seus sentimentos assim? A fez superar os limites, nem que fosse por alguns instantes, para o que? Rejeitá-la daquela maneira? Por que não a beijou como pareceu que queria? Angelina ficou incrivelmente magoada com aquela atitude, e simplesmente não entendeu o que Jéssica quis dizer com aquilo tudo. Se era pra ser uma lição, claramente não estava sendo bem recebida, e muito menos bem interpretada.
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