As Prattis
26 [Capítulo 25]
Verdade fosse dita, Angelina teria se arrependido imediatamente após o pronunciamento daquelas vagas mas substanciosas palavras, e embora no fundo de seu coração soubesse que não faziam nada errado em se amar, o sentimento de culpa da pressão social que enfrentariam por estarem juntas, que possivelmente condenaria toda a harmonia familiar do casarão das Prattis, fizera com que a mais nova não voltasse atrás em sua atitude, por mais que aquilo a devastasse por dentro. Jéssica acabara decidindo pelo mesmo, e dias se passaram após aquela triste noite no parque, em que as duas garotas decidiram submeter a vontade delas aos dogmas familiares.
Depois do inesperado flagrante no corredor, Gabriela tentara por diversas vezes aproximar-se de Jéssica e Angelina, mas ambas passaram a evita-la deliberadamente. Além disso, o casal passara a evitar-se, fazendo as refeições em horários diferentes, reduzindo ao máximo os climões nos corredores e olhares desconfortáveis de sempre que encontravam-se.
Visando esquivar-se de curiosidades ou preocupações desnecessárias por parte de suas irmãs, Jéssica e Angelina tornaram-se mestres em fornecer desculpas para não se baterem pelos corredores, e para mal ficarem em casa. Os professores da faculdade que o digam, já que jamais teriam solicitado tantos projetos, trabalhos e relatórios acadêmicos na mesma semana (leia-se, ironia).
Era sempre muito fácil enrolar suas irmãs, exceto nos jantares, tradição religiosa dos Prattis, continuada por diversas gerações, e mantida atualmente pela Mônica, que controlava a frequência à ferro e fogo da sagrada refeição familiar, onde todos os membros deveriam interagir em comunhão, contando como foram os seus dias, e agradecendo a Deus por abençoar aquela refeição e fortalecer a coesão familiar por mais um dia.
Daquilo sim era impossível fugir, então os jantares acabaram virando único ponto de encontro diário – e o mais temido –, a qual ambas as meninas não conseguiam fugir dos olhares melancólicos e constrangidos.
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Eram quase 20h de uma sexta feira, e as garotas Prattis Lopes ainda arrumavam-se em seus quartos para ir jantar. Teria se passado pouco mais de uma semana da separação de Angelina e Jéssica, e fora como se o destino resolvesse dar uma mãozinha, forçando um inusitado encontro. As duas colidiram no corredor, já que a mais velha saíra de seu quarto rapidamente, e no exato momento – cruel, mas verdade –, que a outra passara. Ambas não conseguiram acreditar em que mundo estariam para não escutarem os movimentos respectivos, da porta e dos passos, e praguejaram-se intimamente por isso.
Tensas, entreolharam em silêncio, como se esperassem um sinal de como proceder. Sequer pediram desculpas, com a súbita mudez que fora gerada.
— Ei. — Cumprimentara Jéssica, enfim, dando à Angelina obrigação de repetir o gesto, e ela assim o fez.
— Oi...
O clima aflito continuara mas as duas nem pareceram considerar formas de sair dali. Embora estivessem há dias distanciando-se para sanar as angústias provenientes daquele intenso amor proibido que sentiam, o sofrimento com a ausência uma da outra em suas vidas era tão entorpecente, que no fundo parecia até um alento, de repente elas estarem de frente uma para a outra, sozinhas, sem todas aquelas conversações animadas e barulhentas — e considerando o estado de espírito delas atual, às vezes azucrinante — à mesa de jantar.
— Você está bem? — Questionara Angelina, e a mais velha abrandou sua expressão facial ao sentir o afeto da outra. Mas o responder naquele momento? Tudo o que ela não estaria era bem. Mas também não poderia ser honesta, lembrar a razão do afastamento estragaria por completo aquele acercamento.
— Bem? – Repetira o final da pergunta baixinho em visível auto questionamento, mas logo que percebera o curioso olhar sobre si, decidira por permanecer com a resposta, mesmo sendo uma inverdade. – Bem. – concluíra, dando continuidade às regras básicas de diálogos, em que deve-se polidamente jogar a indagação de volta. – Você ?
— Bem também. — Respondera forçando um sorriso amarelo que concluíra ser o sinal que deveria cortar aquela conversa por ali.
No entanto, nesse mesmo instante abrira-se a porta do segundo quarto à esquerda, e Gabriela saíra à passos firmes sem transparecer surpresa por vê-las ali. As duas observaram-na, encabuladas, aproximar-se séria, e posicionar-se no centro de ambas.
Angelina levantara a sobrancelha esquerda para Jéssica, e fizera um gesto tenso esfregando a parte esquerda da testa, próximo da orelha, como se sentisse um comichão. Considerara imediatamente a moral da história que tiraria daquela situação imprevista: “nunca pense que um climão inesperado é muito constragimento, porque sempre pode piorar”.
Um silêncio mortificante dominou o local por pelo menos um minuto, até que Gabriela decidira cortar a agonia das jovens, rompendo subitamente com o estado de mudez generalizado:
— Vamos continuar aqui paradas ou vamos jantar, para depois vocês continuarem determinadas a me evitar? – Dissera, forçando um sorriso debochado, enquanto observara a súbita palidez nos rostos das duas, perplexas, à frente.
Antes que alguém respondesse alguma coisa, Gabriela simplesmente adiantara-se até a saída do corredor, deixando-as para trás ainda chocadas. Embora a atitude irônica, a mais velha claramente estaria magoada com o comportamento das irmãs, e em questão de segundos ambas perceberam seu erro, e sentiram um fino aperto no peito que apenas piorou quando elas se entreolharam mais uma vez.
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