As Prattis
27 [Capítulo 26]
Uma hora e meia depois, de dentro do cômodo de Gabriela, novamente ocupado, ouvira-se duas baixas batidas, indicando alguém à porta. Logo em seguida ouvira a voz de Angelina do outro lado, chamando seu nome. Segundos depois, abrira a porta, dando espaço para que a menor adentrasse.
Depois que fechara a porta por trás de si, Angelina acompanhara os passos de Gabriela que já havia sentado na ponta da cama encarando-a em silêncio. De tão nervosa que se encontrava, a menor começara seu discurso arrependido ainda de pé.
— Depois que você nos deixou no corredor nós conversamos sobre o que você disse sobre estarmos te evitando, e eu falei com ela e pedi para falar primeiro com você... porque eu me comportei muito mal com você, e me arrependo disso.
— Então você admite que estava me evitando? — Perguntou como se testasse o nível de sinceridade da jovem no momento.
— Sim. – confirmara, tímida, sabendo que isso abriria portas para outras perguntas.
— E você sabe que eu irei te fazer perguntas. Mas mesmo assim está aqui agora. Por que? — Perguntara séria, e Angelina finalmente sentara-se, suspirando pesadamente o pronunciamento daquelas palavras.
Nos últimos dias a sensação de exaustão emocional era tão grande que evitara qualquer tipo de confronto, por qualquer razão que fosse. Assim sendo, evitara até mesmo colegas da faculdade, e qualquer conversação casual e desnecessária com familiares.
Contudo, aquilo não servia de justificativa para o ato deliberado de evitar Gabriela, porque essa fuga nada teria a ver com isso. Bom, de certa forma, fora o que gerara tudo isso, mesmo que indiretamente. Mas o fato é que Angelina era a única e verdadeira culpada de tudo que estaria sentindo por ser uma covarde, incapaz de lutar pela pessoa que ama. E Angelina estava muito cansada de ter que esconder seus sentimentos pessoais em prol de valores aprendidos, de varre-los para debaixo dos móveis por temer que eles acabassem por estragar a beleza padrão da mobília. Ou ainda, de simplesmente fingir que nada de ruim lhe acontecia. Era tudo isso que lhe deixava com essa sensação de esgotamento e apatia afetiva.
Uma lágrima descera de seu olho, recordando os momentos que vivera com Jéssica no último mês. Gabriela reparara preocupada na mudança de comportamento da jovem. Teria escutado do quarto a atípica conversa no corredor mais cedo, e sabia que tinha algo errado entre elas novamente, mas a reação que observava à sua frente, e a maneira que ela estaria claramente retendo os sentimentos para si mesmo, preocupara a mais velha. Angelina parecia que ia explodir a qualquer momento, e isso não poderia ser saudável.
Carinhosamente, Gabriela estendeu sua mão até o rosto de Angelina, e limpara a umidade de sua pele.
— Você sempre será minha irmã como a Jéssica é. Você sabe disso não sabe? — Perguntara, recebendo um fardo desolado em lágrimas no seu ombro direito, que jogara-se sobre si de forma intempestiva. Acariciara os cabelos da menor, tentando conforta-la em sua dor, seja ela qual fosse. Precisava fazer ela falar, tirar aquela toxinas emocionais de si mesmo porque aquilo parecia estar lhe fazendo muito mal.
— Eu quero que saiba que nada que você fizesse no mundo poderia mudar o meu sentimento por você. — Continuara, sentindo Angelina cada vez mais chorosa, e a tomara nos braços, protetoramente, fazendo com que a jovem finalmente colocasse para fora todo o estado de embotamento em que se encontrava.
Ficaram assim por vários minutos até que Angelina abrandara o choro, e levantou a cabeça do ombro confortador de irmã mais velha, separando-se do abraço, após um suave beijo no rosto que dera em Gabriela.
— Por favor me explica o que está acontecendo entre vocês. Eu prometo que não irei fazer juízo de valores. — Perguntou cuidadosamente, tentando não assusta-la, afinal já sabia o quanto o assunto Jéssica mexia com a menor.
Angelina lembrou-se de sua exaustão e sentira-se impossibilitada de empurrar seus sentimentos novamente para debaixo dos móveis. Simplesmente suspirara profundamente, e lhe respondera baixinho, olhando por alguma razão inexplicada para sua sandália no pé.
— Eu amo a Jéssica. — Fora tudo o que disse, e é claro que essa declaração de amor normalmente não significaria nada considerando todo o histórico delas de amizade e laço familiar, mas diante do tom que fora usado, a expressão envergonhada da mais nova, e as últimas vezes que flagara situações no mínimo excêntricas suficiente para por em dúvida a verdadeira natureza daquela relação, Gabriela compreendera exatamente o que Angelina lhe quisera dizer: A que tipo de amor ela referira-se.
— E ela ama você? — Embora perguntasse visivelmente constrangida, e com a voz baixa, soara de forma natural a percepção que tudo pareceria mais fácil no caso do sentimento ser mútuo, e Angelina repentinamente considerara o quão idiota teria sido de nem mesmo perguntar a Jéssica se ela estaria disposta a enfrentar sua família e a sociedade pelo amor delas. Além de covarde teria sido egoísta, haja vista que simplesmente terminara a relação sem dar o direito de voto ou de resposta à Jéssica. Talvez Gabriela teria razão, e tudo seria mais fácil de enfrentar quando bem acompanhada, até mesmo se resultasse na pior das tormentas – uma possível separação familiar.
— Sim, mas nós terminamos. — Concluira, atropelando palavras, mas Gabriela sentira a falha na voz, que evidenciava uma frustrada tentativa de disfarce dos verdadeiros sentimentos.
— Por causa de mim? — Dissera em súbita autocompreensão dos fatos. – Você pensou que eu fosse ficar contra vocês ou contar a Mônica, e terminou, foi isso?
— Sim. — Respondera, sentindo-se mais estúpida do que pretendera.
Seja dito de passagem, Gabriela não poderia dizer que ficara feliz e saltitante com as suspeitas confirmarem-se verdade... não ficara. Até porque ela tinha receio da reação da Mônica, afinal o que seria da honra da família, que a mais velha tanto preocupava-se em cuidar? Acima de tudo, preocupava-se com tudo de ruim que as mais novas – e possivelmente o restante da família – teriam que enfrentar naquela cidadezinha que adorava escândalos e boatos.
Contudo, fora capaz de sentir a cortante dor que Angelina estaria sentindo, aquilo era real, e por mais caótico que lhe parecesse, acreditara na intensidade do sentimento que ambas desenvolveram uma pela outra. E agora, com tudo consumado, como poderia querer que elas evitassem isso, vivendo sob o mesmo teto? Ainda mais sendo algo que teria deixado-as mais felizes do que nunca teria visto – mesmo sem imaginar a razão da mudança, já teria reparado que depois que Jessica e Henrique terminaram, e as melhores amigas teriam tido aquele desentendimento, elas mostravam-se mais felizes. Deduzira assim, que nesse período teria ocorrido o princípio de tudo.
Voltando à realidade, Gabriela ficara em silêncio por alguns instantes como se decidisse o que fazer a seguir. Queria ajudar Angelina de alguma forma. Alguns segundos depois, tivera uma ideia, e levantara da cama, caminhando pelo quarto na direção do seu guarda roupa. Vasculhara algo na bandeja de cima, da porta de lado esquerdo. Encontrara uma caixa de madeira revestida internamente de veludo vermelho, e finalmente tirara o que parecera ser uma foto antiga, e aproximara-se de Angelina, que a observava ligeiramente confusa.
A mais velha então, entregara o item para Angelina, que analisara atentamente as pessoas na imagem. Eram a Dona Celeste – matriarca da família Lopes –, seu pai Frederico – patriarca da família Prattis, que já mostrava-se abatido pela esclerose múltipla que o atormentara e teria levado-o à morte cedo –, sua mãe Aparecida, e as cinco meninas. Juntos.
Uma lágrima caíra emocionada por ver-se abraçada de lado à Jéssica na lateral direita da imagem, enquanto pousara com uma antiga boneca que tivera quando criança, nomeada Hilda, em suas mãos. Mudara a atenção para Gabriela, que estava de mãos dadas com Mônica e Luísa, que além do toque da irmã, recebia também o afago da mãe biológica, que parecia acariciando-a na cabeça.
De repente, desviara-se para uma mulher no canto esquerdo do retrato, um pouco distante do grupo, que logo reconhecera como sendo a Sra. Perez bem mais nova, e Angelina sorriu divertindo-se com a descoberta, e por dar-se conta que aquela foto possuía todos os Prattis e agregados que ela sempre amara.
— O que você vê nessa foto? — Perguntou, séria, observando a emoção estampada na face da outra.
— Nossa família... todos juntos. — Respondera, arrancando um sorriso de boca fechada da mais velha, que transparecera o orgulho em ouvir aquelas palavras.
— Isso é o que a nossa família faz. Ficamos juntos, não importa o que aconteça. — Profetizara, tentando atenuar as dúvidas e receios da outra, que a encarara em visível incredulidade.
— Você não sabe disso... — Pausou o discurso por um momento sentindo os olhos lacrimejarem à mera lembrança. – A Mônica... — Tentara explicar a sua apreensão e certo pavor de ser descoberta pela mais velha, mas a mulher Lopes não mostrara-se interessada em ouvir mais uma pessoa considerando Mônica a pior pessoa do mundo, então interrompeu-a educadamente, não deixando que a mesma continuasse. Gabriela possuía uma visão da mais velha totalmente diferente das outras irmãs.
— Eu sei que vocês duas se preocupam com a Mônica ficar sabendo a verdade, mas ela ama vocês, e não importa o que, da mesma forma que eu. Pode ter um período de difícil adaptação, algumas discussões, até porque ela tem uma visão de mundo diferente da de vocês, mas eu acho que ela acabaria entendendo. Porque ela só quer a sua felicidade. A felicidade de todas nós.
— E se ela nunca entender? — Perguntara, triste, após um momento de silêncio profundo, e enquanto sentia uma lágrima escorrer dos olhos castanhos escuros.
— Não sei, Angi. Nem mesmo eu sei dizer se entendo. — Admitira, seguido de uma mudez frustrante, a medida que Angelina encarara Gabriela com a expressão desapontada, e a outra reparava sua reação com certa tristeza – Isso só o tempo vai dizer. Eu prefiro acreditar em um final feliz para todos nós, e se sua felicidade é nos braços da Jéssica eu procurarei entender. E respeitar. — Concluira, acariciando os macios cabelos loiros lisos da mais nova, que agora possuía um brilho nos olhos de alegria com o que teria ouvido.
— Mas aí é que está o meu medo, Gabi. Eu acho que meu final feliz só será verdadeiramente feliz se nossa família permanecer junta.
— Angelina, entende uma coisa. — Dissera, olhando-a intensamente e tocara na mão da mais nova que a encarou em repentina curiosidade. — Não é a gente morar nessa casa que faz de você e eu uma família. É o que nós temos aqui, e sentimos uma pela outra. — Dissera, apontando para o coração da irmã de criação, dando-lhe um beijo no rosto em seguida. — E tudo o que nós vivemos por todos esses anos, criadas como irmãs, sem distinção de biologia ou genética. – Continuara, e a irmã compreendera a veracidade daquelas palavras, e o que a mais velha estaria tentando concluir naquele momento. — Entendeu agora? Que não importa aonde eu, você, ou qualquer uma de nós formos morar, que você não irá perder a gente? Nenhuma de vocês. Os Prattis serão minha família para sempre. — Finalizara o discurso, tocando na foto com carinho, melancólica, e em seguida, guardando-na caixa, e carregando a relíquia antiga e valiosa de volta ao lugar original.
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