As Prattis
12 [Capítulo 11]
Um dia se passara, e Angelina acordara cedo. Estava ansiosa. Depois de muito pensar e se martirizar na noite anterior, Angelina finalmente criara coragem pra conversar com Jéssica. Uma conversa definitiva.
Passara um papel por baixo da porta de Jéssica, com a seguinte mensagem:
“Precisamos conversar. Me encontre as 9h na lagoa. — Angelina“
Estava decidida a esquecer toda essa insanidade de virar lésbica naquela altura da vida. Tinha a honra da família pra zelar, jamais seria capaz de magoar Mônica. Especialmente ela. Isso a destruiria. Não era capaz de enfrentar toda a sociedade pelo que estava sentindo. Fosse isso o que fosse. Se nem mesmo ela entendia seus sentimentos, imagine os outros.
De pé na beira do lago, a certeza de Angelina se dissipara, grão por grão. Teria escolhido um péssimo lugar para ter uma conversa daquelas. Logo ali, onde possuíam tantas boas lembranças. Por tantas vezes fugiram do colégio ou simplesmente passaram a tarde ali jogando conversa a fora — em uma época que viver era tão mais simples e sem expectativas sobre o que deveria ser ou fazer. Elas simplesmente eram o que eram. Carne e unha, melhores amigas. Sempre fora mais íntima de Jéssica do que de suas irmãs. Por anos, ambas acreditaram na ideia delas serem almas gêmeas, mesmo sem maturidade suficiente para entender as implicações disso. Então, de repente, tudo se transformou. Jéssica se afastou e anos se passaram até Angelina conseguir compreender a razão disso.
A distração de Angelina era tanta, que a impediu de notar uma aproximação às suas costas. Um rapaz bem apessoado, de cabelos e olhos castanhos, que estava cavalgando, ao vê-la, desviou-se de seu percurso e fora em sua direção.
— Angelina. — Disse uma voz que Angelina conhecia muito bem, e a jovem virou-se em impulso. — Estava dando um passeio... Não imaginei que te encontraria por aqui. — Disse, forjando um sorriso, embora não disfarçasse o súbito nervosismo. — Tudo bem?
— Bem. — Respondeu seca, e o rapaz soltou um inaudível suspiro. — Por que a pergunta? Se eu me lembro bem, da última vez que nos falamos você não parecia muito interessado no meu bem estar.
— Eu sei que você está zangada comigo. — Henrique tocara de leve no rosto da ex, que se afastou automaticamente. De repente aquela presença se tornara repulsiva. — Você parece bem diferente da última vez que nos vimos. — Afirmou Henrique, gerando em Angelina um riso irônico.
— Menos besta, talvez. — Atestou a garota, com sarcasmo na voz. Henrique lhe encarou de maneira confusa. Estaria preocupado e ao mesmo tempo atraído pela nova atitude de Angelina perante ele. — E, não sei se você sabe, mas aquele dia no casarão não foi a última vez que nos vimos.
— Não? — Perguntou ele, deixando transparecer certa tensão pelos seus ombros.
— Eu te vi na missa do sétimo dia da mulher do prefeito.
A expressão do rapaz finalmente pareceu clarear, ao lembrar-se de com quem estava, e o que fazia naquele dia em particular. Agora compreendia toda a mudança de Angelina.
Angelina sabia que era dar muita ousadia a ele, comentar sobre a tal acompanhante, mas a raiva que ela sentia era tanta, que acabou metendo os pés pelas mãos.
— Eu sinto muito, Angelina. Imagino que você deve estar pensando que... — Henrique tentou desculpar-se e Angelina riu em claro desprezo. As atitudes da garota realmente lhe pareciam cortantes e incômodas, mas por alguma razão, bastante interessantes. Fez com que ele recordasse o que vira na garota anos atrás.
— Será que algum dia você poderá me perdoar por ter destruído os nossos sonhos?
Pela primeira vez na conversa, Angelina sentiu-se abalar pelo ex-namorado. Talvez porque era possível sentir a veracidade naquelas palavras.
— Eu não preciso perdoar você por nada Henrique. O que aconteceu foi o melhor para nós dois.
É incrível como de um momento para o outro até o ser mais desprezível do mundo, pode arrepender-se. Ele podia não valer muita coisa, mas realmente percebera seu erro. Sentira saudade da mulher que por dois anos fora dele, mas talvez agora fosse tarde.
— Não tenho certeza se foi o melhor para mim, Angelina. — Disse, em voz baixa, e a jovem tivera certeza que ele falava a verdade. Isso a tocou um pouco, de modo que ela baixou a guarda por alguns segundos, o suficiente para o rapaz aproveitar e pegar em suas mãos.
Angelina manteve-se imóvel por alguns segundos, enquanto recebia confusa o toque do rapaz, até que uma lembrança invadiu sua mente, e lhe deu força para dizer o que precisava. Aquela história precisava de uma conclusão. Mesmo que sua história com Jéssica jamais pudesse se realizar, ela não poderia voltar com Henrique. Seja por tudo o que ele fez, ou porque a verdade é que nunca sentira por ele o que sentiu por Jéssica em apenas alguns minutos dentro daquele banheiro.
— Lamento, Henrique, mas você terminar comigo foi a melhor coisa que já me aconteceu. — Disse, embora Henrique ainda estivesse segurando suas mãos.
Uma lágrima descera dos olhos do rapaz. Estava claro que a perdera realmente. Ali nem mesmo havia raiva mais, apenas mágoa e desprezo. Duas combinações essencialmente corrosivas para qualquer tipo de relação. Angelina era uma mulher fantástica, e a única que realmente o fez sentir algo na vida, mas por caprichos havia deixado ela ir. Já teria feito muita bobagem na vida, mas larga-la sem dúvida, teria sido a pior.
Fora quando Angelina escutara o barulho de uma folha sendo pisada, e compreendera a presença de mais alguém ali. Assustada, olhara para o lugar de onde teria vindo o som na esperança de que não fosse Jéssica, mas o destino não a ajudou. Ao ver o rapaz segurando as mãos de Angelina, em tal momento de intimidade, Jéssica a encarou em choque. Teria sido isso tudo uma armação? Angelina havia lhe chamado ali para presenciar aquilo? Uma reconciliação? Um cruel choque de realidade para que Jéssica entendesse de uma vez por todas que a amiga nunca ficaria com ela? Não podia acreditar no que os seus olhos viam. A decepção tomou conta de seu ser, e com os olhos marejados, Jéssica subiu novamente no seu cavalo e saiu em disparada dali, desaparecendo por entre as árvores.
Angelina sentira uma dor tão forte no peito, que sentira como se não pudesse respirar. Abriu a boca, em desespero, como se quisesse gritar o nome de Jéssica, e dizer qualquer coisa que a impedisse de sair dali, naquele estado, mas simplesmente não conseguira pronunciar nenhuma palavra.
Precisava que Jéssica a esquecesse, mas jamais faria qualquer coisa para magoa-la. Ainda mais com um engano, algo que não passara de uma infeliz coincidência e de uma terrível confusão.
— JÉSSICA! Espera. — Gritou, finalmente, embora não houvesse mais nenhum sinal da jovem ali.
Sem sequer olhar para Henrique, que parecia em completo estado de aturdimento, Angelina subiu em seu pônei, e cavalgou em disparada pelo corredor de árvores no qual Jéssica teria passado. Ela estava fazendo o caminho de casa, e Angelina sabia. E tinha que alcança-la. Não podia deixar Jéssica pensando aquelas coisas dela. Não podia magoar Jéssica.
Fale com o autor