As Prattis
7 [Capítulo 6]
Angelina passara o dia todo evitando Mônica. Sentia-se envergonhada diante do seu comportamento infantil. Fora muito agressiva, e todas aquelas palavras agora a feriam como chapa quente. Mas Mônica decidiu atrapalhar os seus planos, e eliminou a distância, batendo na porta do seu quarto às 9h da noite.
Passara todo o dia preocupada, pensando que talvez pudesse ter exagerado no que lhe disse na praça mais cedo. Ainda pensou em segui-la pela manhã, mas Jéssica teria lhe alcançado e dito que ela mesma cuidaria disso. E agora precisava desvendar como estaria o clima entre as duas, quem sabe colocar panos quentes no assunto anterior, odiava ficar em pé de guerra com suas irmãs.
— Entre. — ouvira uma voz receosa do outro lado, e abrira sem pestanejar. Não saberia dizer se Angelina estaria decepcionada ou aliviada por vê-la ali. O fato é que tivera uma recepção bem estranha, que só passou segundos depois, quando a mais nova finalmente decidiu-se pelo alívio por não ser Jéssica na porta, e lhe disse um mero "Oi". — Como você está? Não apareceu para jantar hoje. — comentou, tímida.
— Eu não estava com fome. — mentiu, e obviamente a irmã percebeu. Finalmente fechou a porta atrás de si, e aproximou-se da cama, sentando-se de frente à Angelina, usando sua antiga, e bem conhecida, expressão preocupada no rosto, que quase fez a mais nova ter vontade de rir, se não fosse a sensação traiçoeira de ser a culpada, mais uma vez, de deixar a irmã mais velha daquela forma.
— Eu vim aqui para te pedir perdão pelas coisas que eu te disse hoje, e pela forma que tratei o Henrique todos esses anos. Eu sei que decepcionei você. E, sabe, você tinha razão, por mais que eu estivesse preocupada com você, eu não tinha esse direito. Você amava o rapaz, e eu acabei prejudicando a relação não chamando ele para o evento, e...
— Não amava. — ponderou, simplesmente, atraindo um olhar confuso da mais velha. — E quem precisa pedir desculpas a você sou eu, porque eu te disse coisas horríveis. Fui intolerante com você, e com certeza te magoei, propositalmente, enquanto você só estava tentando me proteger. Evitar que eu tivesse que passar pelo que passei hoje.
— Sim, realmente foi o que eu tentei fazer.
Mônica sorriu por notar a maturidade que as palavras da mais nova inspiravam. Percebeu que a conversa com Jéssica lhe fizera bem. A amiga sempre teria sido mais madura que Angelina, desde crianças, o que é compreensível considerando a — pequena, mas existente — diferença de idade. Mas, acima de tudo, com tudo o que a família Lopes passou, quando criança, logicamente ela se tornaria madura muito mais rápido do que a loira, que sempre tivera tudo.
— Mas a verdade, irmã, é que eu, como sou a mais velha de todas nós, me sinto responsável pela sua felicidade, pela felicidade das outras garotas. Luísa mesmo, você vê o trabalho que ela me dá. — disse, trazendo as mãos à cabeça em um movimento quase teatral e Angelina soltou uma rápida gargalhada, embora seus olhos demonstrassem a emoção ao ouvir aquele amoroso discurso em andamento. — Então, o que quero dizer é que eu me sinto como se precisasse cuidar e guiar você sempre, para impedir que cometa muitos erros, para que você não envelheça como uma pessoa amargurada, e infeliz... mas parece que não estou lidando bem com tudo isso. Não aprendi ainda a ocupar essa função de "mãe" na vida de vocês, entende?
— Eu entendo isso, mas você precisa entender que eu só conseguirei aprender as coisas, e discernir o certo do errado, ou compreender o modo certo das coisas, se eu puder errar.
— Você está certa, irmã. — ponderou Mônica, atestando o quanto sua superproteção poderia ser prejudicial na vida da mais nova.
— E eu sei que você jamais faria algo para me magoar. — continuou Angelina, ansiosa para tirar aquela tensão corporal de Mônica, que ainda parecia incomodada com alguma coisa. — Não se preocupe comigo, eu ficarei bem.
— Angel, eu só quero que você saiba que eu jamais tentaria prejudicar um relacionamento seu, se não tivesse motivos muito fortes para desconfiar do caráter e do sentimento daquele rapaz. Eu juro a você, e que Deus me puna se eu estiver mentindo! Eu não quero que você seja igual a mim, só quero que você encontre alguém que te ame e possa te fazer feliz de verdade. Que você encontre alguém que te traga paz e consolo, como eu encontrei Deus.
Angelina paralisou, percebendo que, naquele instante, tudo em que ela não estaria pensando, era no Henrique. Se pegou lembrando de Jéssica, e como sempre sentira-se feliz, admirada, e completa com ela. Como sempre adorava o sorriso maroto, quando a morena resolvia invadir seu quarto e a acordar de madrugada, fazendo cócegas, e em como desejava matar Jéssica quando isso acontecia, mas acima de tudo, como adorava vê-la apagar do seu lado, depois de passarem horas papeando sobre tudo o que lhes aconteciam durante o dia.
De repente, Angelina notara a presença de Mônica, que ainda continuava falando, sem perceber a momentânea distração da outra. Como a mais velha reagiria se soubesse das suas dúvidas a respeito de Jéssica? Como reagiria se algo de concreto acontecesse entre elas? Se aquele beijo não tivesse sido interrompido, ou se não conseguisse evitar um próximo.
— E se fosse uma pessoa diferente? — indagou, Angelina, sem conseguir disfarçar sua curiosidade.
— Como assim diferente? Diferente em que sentido? — perguntou Mônica, sem entender.
— De Henrique. — respondeu, em disfarce. Não teria coragem de dizer a verdade na lata. — Sei lá, se fosse uma pessoa diferente, em princípios e caráter, que realmente me amasse, e me fizesse muito feliz... — parou alguns instantes, cautelosamente considerando como poderia falar — Mas, e se mesmo assim fosse diferente do que você espera pra mim?
Mônica continuou sem compreender o que Angelina queria dizer, mas talvez fosse melhor assim. Desse modo, ela simplesmente respondeu, considerando um contexto geral:
— O importante não é o que nós esperamos para você. O importante é que seja alguém honesto, e que vocês se amem. Eu quero que seja feliz, irmã, e não quero que importe os meios para que você consiga isso, contanto que você escolha com o coração. Acho que você já tem discernimento crítico suficiente para saber o que é melhor pra você.
Mônica aproximou-se para dar um beijo na testa da mais nova, que retribuiu o gesto com um sorriso. Sabia que provavelmente o conselho não teria sido o mesmo, se a mais velha soubesse a real inspiração daquele questionamento, mas mesmo assim gostara muito da resposta, e sentira um pequeno alívio por notar a mais velha tão compreensiva.
— Me perdoa por ter descontado minha frustração em você? Eu precisei conversar com a Jés hoje de manhã para compreender isso. A verdade é que você nunca esteve errada sobre o Henrique, ele não era mesmo pra mim. — Os olhos de Angelina marejaram levemente, e provocou na mais velha um sorriso acompanhado de olhos igualmente úmidos — Eu só me iludi nessa ideia de criar uma família perfeita, mas realmente não escolhi bem o parceiro pra isso.
— Família não se procura, irmã, se acha. Como nós não procuramos e as Lopes chegaram à nossa casa, e mudaram nossa vida para melhor. Quando menos esperar, você irá encontrar alguém que te inspire confiança e sentimento suficiente para fazer isso. Constituir uma família.
Angelina puxou a irmã para um abraço carinhoso. Não estava segura ainda sobre o que deveria fazer, mas sabia que não poderia evitar Jéssica pelo resto da vida. Algo haveria de ser feito, e um diálogo teria de ser iniciado, mas primeiro teria de criar coragem para enfrentar aquela situação de frente.
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