As Melhores Intenções
13 Capítulo 13 - Finalmente a Verdade
Notas iniciais
Eleanor sabia que as cadeiras do hospital eram os piores lugares para passar a noite, mas tanto ela como Elton, insistiram em ficar ali, até que soubessem de mais notícias sobre Helena.
O que sabiam até aquele momento não era suficiente. Sabiam que ela estava internada, e que possivelmente um dos tumores que tomava seu corpo, estava agindo de uma maneira ruim, inibindo qualquer tentativa de tratamento.
Enquanto aguardavam por notícias, ambos se encaravam, sem ao menos ter algo a dizer. Não tinham o que conversar, e sentiam-se tão culpados pelas circunstâncias, que apenas o silêncio reconfortava.
— Quando ela sair dessa situação, deixarei as coisas claras. Falaremos toda a verdade. – Elton sussurrou.
Eleanor o observou e assentiu. Já estava mais do que na hora de dizer toda a verdade.
— Vou devolver todo o dinheiro que ela me deu para esse trabalho.
— Você tem toda a quantia para devolver?
Não, ela não tinha. Mas conhecia alguém que poderia ajudá-la, mesmo que isso significasse a perda de um pouco de seu ego. Pedir dinheiro para a sua mãe era a última coisa que desejava, no entanto, não havia mais nenhuma alternativa.
— Não, mas minha mãe tem. – Eleanor respondeu, se dando conta da demora que levou para formular uma resposta.
— Parece que é difícil para você pedir dinheiro para ela... – Elton comentou, reparando no quanto Eleanor parecia desestabilizada.
— Bem, minha mãe tem uma família em Londres. Ela é bem rica, sabe? Mas desde que deixou eu e Pedro a própria sorte, nosso relacionamento é péssimo. Fora que sempre acha um jeito de nos humilhar. Então sim, é difícil pedir dinheiro para ela. – ela se explicou.
Elton balançou a cabeça, achando graça do orgulho de Eleanor.
— Então você terá que engolir o seu orgulho?
— Terei, terei sim.
§
Helena finalmente estava estável. Esmeralda e Alexander repassaram a boa notícia para a família, e para os amigos próximos, incluindo Elton e Eleanor.
Depois de ficarem quase 4 horas na sala de espera, os dois resolveram ir embora. Elton seguiu para casa, e Eleanor seguiu para o seu apartamento a pé.
Já estava de noite quando ela decidiu caminhar pela avenida, e seguir em direção a estação de metrô.
Quando atravessou a rua, sentiu os primeiros respingos de chuva atingi-la. Correu na tentativa de alcançar o quanto antes a estação, mas foi uma corrida em vão, pois assim que se aproximou da entrada, já estava praticamente toda molhada.
— Ellie!— aquela voz, fazia com o que seu coração entrasse em descompasso.
Ela olhou para Fred, que como sempre, estava deslumbrante. Mesmo correndo em meio a chuva com o cabelo e roupas ensopados.
— O que faz aqui? – ela indagou, assim que ele se aproximou.
— Bem, Pedro disse que sua amiga tinha piorado. E de todas as pessoas que sei que você conhece, e está doente, imaginei que fosse Helena Reis.
Eleanor reprimiu a vontade de ir e abraçá-lo. Ainda estavam parados em meio a calçada completamente encharcados.
— Isso não explica o motivo de estar aqui. – ela retrucou.
Fred sorriu, e então continuou:
— Percebi que não quero ficar muito tempo longe de você. Fui até o hospital, e você não estava lá. Me disseram que seguiu a pé...
— E Pedro não ficou desconfiado quando perguntou de mim?
Fred assentiu.
— Ficou, e eu contei toda a verdade para ele.
Eleanor arqueou as sobrancelhas. Toda a verdade? Qual parte?
— Toda a verdade? – ela perguntou curiosa.
— Que estou apaixonado por você.
Eleanor ficou sem fala. O seu espanto foi inexprimível. Arregalou os olhos, enrubesceu, hesitou e não disse nada. Ela olhou para a indecifrável feição de Fred, que permanecia passivo, como se o fato dele estar apaixonado por ela não fosse intrigante.
— Quando fiquei sozinho, notei que não quero ficar assim. Sei que disse que estamos nos conhecendo, mas, fala sério, eu a conheço desde que tínhamos 12 anos, não precisamos de mais tempo para que isso funcione. Posso ter dito que você era gorda e grudenta, posso ter sido um idiota há três anos atrás, mas a verdade é que agora, exatamente neste momento, estou apaixonado por você, e não consigo imaginar a hipótese de ficar com alguém que não seja você. Gosto de você quando briga comigo, quando revira os olhos, quando é sarcástica. Gosto de você e ponto final.
A chuva havia engrossado um pouco mais. Ambos estavam praticamente molhados, pingando de tanto que a água os cobria.
Eleanor não estava preparada para aquele tipo de declaração. Tinha evitado tanto que alguém se declarasse para ela, que quando isso finalmente ocorreu, estava sem palavras. Mal conseguia balbuciar sequer uma palavra.
— Pegajosa... – ela sussurrou.
Atônito, Fred piscou.
— O que disse?
— Pegajosa. – ela o encarou e prosseguiu: – Você disse que eu era pegajosa, e não grudenta.
— Não é possível que de tudo o que eu disse você apenas abstraiu essa parte! – exclamou Fred, que parecia confuso com a reação de Eleanor.
— Eu não abstraio só essa parte. Ouvi muito bem o que você disse, mas Fred, eu acho que não podemos fazer isso dar certo.
Ele franziu as sobrancelhas, e permitiu que ela continuasse a explicar.
— Olha, você vai me machucar como fez há três anos e eu sinceramente não estou disposta a isso. Eu tenho medo.
— Então, simplesmente irá desistir de tudo, por que tem medo? – ele indagou incrédulo. – Ellie, pare de temer o futuro, ok? Eu não sei o que nos aguarda amanhã, mas quero realmente fazer dar certo.
Eleanor balançou a cabeça.
— Fred, nós não podemos ficar juntos.
— Porque você tem medo. – ele concluiu antes que ela respondesse.
— Sim, mas principalmente porque eu não o mereço.
Eleanor correu para dentro da estação. Ignorou os protestos das pessoas, e correu o quanto podia para alcançar o vagão, que já dava os sinais de fechamento das portas. Ela se espremeu entre as pessoas, as molhando, e conseguiu entrar.
Assim que as portas se fecharam, ela olhou para o outro lado, e lá estava Fred, a olhando com um olhar duro e magoado.
Não podia esperar nada ao contrário daquilo, afinal, ela havia acabado de rejeitá-lo.
Não foi por mal, não foi por orgulho. Foi por puro medo, mas, assim como acentuou para Fred, ela sabia que não o merecia. Não vivendo uma mentira.
Se ela o queria, teria que deixar todos os seus erros para trás.
§
No dia seguinte, assim que comprou mais uma leva de churros, Eleanor seguiu direto ao hospital, mesmo ouvindo os protestos veemente de Pedro.
Assim que cruzou a recepção, e alcançou o quarto de Helena, notou que ela não estava mais sozinha. Elton estava sentado ao lado da cama dela, cheio de lágrimas nos olhos. Ele segurava suas mãos e mantinha uma expressão plácida. Já Helena, mantinha o olhar vago, mas atento ao que Elton lhe dizia.
O brilho essencial que reluzia dela, não estava mais ali.
Eleanor entrou dentro do quarto, e esperou até que os dois percebessem sua presença.
— Nesse tempo todo pensei que nosso amor não fosse correspondido. Na verdade, você não gosta de meninas... – Helena sussurrou para Elton, sem notar a presença de Eleanor ali.
Ela tossiu, e finalmente conseguiu a atenção que desejava. Ou ao menos pensou que desejasse, pois assim que os olhos de Helena a fitaram, ela percebeu a decepção e a tristeza instaurar ali. Havia levado uma facada em seu peito, uma facada funda, que talvez jamais fosse capaz de se recuperar.
— E você é uma mentirosa. – Helena declarou.
— E-eu... – Eleanor gaguejou. Não tinha o que se explicar. De fato, era uma mentirosa.
— Helena, apesar de tudo, eu sou o maior culpado. Eleanor queria que eu lhe contasse a verdade desde o começo. – Elton olhou para Eleanor, e continuou: – Ela não teve culpa. Ela apenas aceitou o dinheiro porque precisava.
Helena balançou a cabeça.
— Não quero falar com vocês. – ela declarou, com a voz embargada.
Elton se levantou e seguiu na direção de Eleanor, que ainda parecia estática no mesmo lugar.
— Apesar de tudo, quando você se for, Elton não estará sozinho. Eu ficarei ao lado dele, e serei uma boa amiga, eu juro. – ela disse, recebendo o olhar duro e amargo de Helena.
— Sabe, eu fiz isso tudo porque amo muito você Elton! Queria vê-lo feliz! Queria que tivesse me contado tudo sobre sua sexualidade, e que não me enganasse. Não sou nenhuma santa, mas esperava mais de você.
Elton não disse mais nada, assim como Eleanor, os dois se calaram, e seguiram para fora do quarto. Talvez Helena precisasse de um tempo para processar todas as informações que tinha recebido, mesmo tempo não sendo algo que tenha para dispor.
Eleanor não pode evitar de olhar para os olhos amarelados, a boca seca, e a tristeza na áurea dela que perambulou todo o quarto enquanto estiveram lá. Helena não voltaria mais ser a mesma que era, e isso entristecia seu coração ainda mais.
Ela e Elton deixaram o hospital em silêncio, e seguiram caminhando pela avenida.
Quatro corações partidos se fizeram naqueles dias.
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