As Melhores Intenções
14 Capítulo 14 - Abraços que Curam
Notas iniciais
Elton olhou para suas fotos antigas, penduradas no varal improvisado que tinha em seu quarto. Todas as fotos lhe remetiam momentos de felicidade, ao lado de seus pais, ao lado de Helena, e por incrível que pareça, até ao lado de Eleanor, que na foto estava particularmente envergonhada, com os olhos fixos em um ponto que não era o fotógrafo.
Haviam tirado aquela foto no dia da lancha. Eleanor estava tão envergonhada, que mal deixou que registrassem o momento. Mas ele soube como convencê-la, e de resultado, ficaram com a foto em que os dois estão lado a lado, parecendo um casal apaixonado.
Elton soube a partir daquela foto que podia enganar a todas as outras pessoas, só não podia enganar a si mesmo.
Ele caminhou até a sala principal de sua casa. Seus pais assistiam algum filme de comédia na TV, enquanto os empregados discutiam a melhor forma de deixar o bolo de seu aniversário acomodado em cima da mesa. Atingir a idade de 18 anos e ainda permanecer vivendo uma mentira, não lhe parecia a melhor forma de começar uma nova era.
As últimas semanas foram tão decisivas... Havia vivido coisas que jamais imaginou viver, e agora, estava prestes a dar um passo enorme em sua vida. Ontem, tinha partido o coração de Helena com a verdade, hoje, partiria o coração de seus pais.
— Mãe? – ele a chamou, recebendo a atenção dois. – Podemos conversar?
Victória sempre foi uma mulher de muitas palavras, mas naquele momento, talvez pelo seu sexto sentido, perdeu a fala e apenas assentiu. Seu marido não podia perceber a situação em que estavam se metendo, mas ela sabia, ela sempre soube. Elton jamais falava naquele tom, um tom sério e calmo, ideal para quem está disposto a dar uma notícia, e em seu mais íntimo, ela sabia que não seria uma notícia fácil de se dar.
— O que foi garoto, por que está tão sério? – o pai de Elton indagou, observando o filho se sentar à sua frente.
Elton pegou o controle da televisão e a desligou. Lançou um olhar repreensivo aos empregados, que logo pegaram a deixa, e deixaram os três sozinhos.
Era agora ou nunca.
— Não sei por onde começar. Talvez não haja nem começo, nem como explicar... só há palavras que preciso dizer. – Elton começou a dizer.
— Seja mais claro garoto! – seu pai reclamou.
Elton ergueu os olhos aos dois, e sem pensar em quaisquer pudor ou consequência, ele sussurrou:
— Mãe, pai... eu sou gay.
§
Uma semana depois.
Fazia um bom tempo que Helena não teve mais notícias de Elton. Quando ela pediu que ele fosse embora, talvez não tenha pensado no quanto sentiria falta dele. Não estava arrependida, afinal, tudo o que aconteceu era demais para ser perdoado em questão de horas. Ela precisava daquela semana. Precisava de um tempo.
Nem ao menos mandou felicitações de aniversário a ele, e agora, se sentia uma das piores pessoas do mundo.
Não queria se sentir daquela forma, incapaz de compreender os próprios sentimentos. Podia estar dolorosamente ferida pelas coisas que Elton e Eleanor esconderam dela, mas com toda a sinceridade do mundo, Helena tinha a sensação de que o ódio havia se dissipado, e o único sentimento que restará, era a saudade.
Meu Deus, como a falta das pessoas podia ser pior que o sentimento de ódio?
Ela olhou para o computador estendido na sua mesa de refeições, e em passos lentos, obrigou o seu corpo seguir até a cadeira. Ela se sentou na mesa, e ligou o seu notebook. Com os dedos frágeis, e doloridos, Helena digitou as primeiras palavras:
“Elton,
Eu te odiei nesses últimos dias de uma forma incontrolável. Para a sua sorte, percebi que te amo mais do que te odeio. Você me faz falta, suas piadas ridículas, suas brincadeiras com a minha careca, a forma de enxergar o mundo... essas pequenas coisas fazem uma falta no dia a dia, e só fui me dar conta disso, quando não o vi por mais de uma semana. Eu sei que mentimos um ao outro, sei que magoamos um ao outro, e sei que há feridas que não se cicatrizaram tão rapidamente assim. Mas tempo não é algo que tenho, e eu estou tão cansada de pensar em tudo e em todos, que me permito ser egoísta só por hoje. Sinto a sua falta, e quero tê-lo em meus momentos finais, aqui ao meu lado, dizendo suas asneiras. Garantindo que o céu estará em festa com minha chegada. Que os anjos não fazem ideia de como eu sou boa com moda. Quero, além de tudo, o meu amigo de volta. Assim que ler, por favor, venha me fazer companhia, porque eu não posso ficar sozinha. Nunca mais. Eu te amo.
Com amor, Helena”
Depois de um apelo desesperado, ela enviou o e-mail, e torcia para que ele pudesse receber o quanto antes sua mensagem.
§
Eleanor deu três batidas na porta do quarto de Helena. Por sorte, Helena estava sozinha. Ela não sabia como encararia Esmeralda ou Alexander, depois da tamanha confusão que havia se metido, principalmente depois de enganar Helena.
Fazia uma semana que ela não ia ao hospital. Uma semana de tortura e raiva, já que ela não conseguia se conformar com todas as ações que havia tomado. Como uma menina prática que era, jamais permitiria que as coisas terminassem daquele jeito, com exclamações ao invés de pontos finais.
Ela não teve mais notícias de Elton, e torcia profundamente que ele tenha sido sincero com os pais.
Ela entrou no quarto, e assim que esbarrou de leve com o soro de Helena, ela conseguiu chamar a devida atenção:
— Sempre uma entrada triunfal... – Helena sussurrou. Ela fitou Eleanor por um tempo, e apontou para a poltrona ao seu lado na cama. – Pode se sentar.
Eleanor se sentou, aliviada pelo primeiro momento não ter sido recebida com hostilidade. Bem, já era algo, ponderou enquanto se arrumava na poltrona.
— Veio se desculpar? – Helena perguntou. Sua voz havia soado triste e cansada.
O brilho que deixava Eleanor impressionada, não estava mais ali.
— Não.
— Não?
Agora os olhos de Helena estavam curiosos. Eleanor não estava ali para pedir desculpas, afinal, não havia desculpas que pudessem curar as feridas de Helena, e por saber exatamente disso, ela só estava ali para se redimir, ou tentar.
— Não. – afirmou, encarando Helena. – Bem, acho que não importa quantas vezes eu peça desculpas, nenhuma delas será suficiente. Então, eu vim me redimir. Trouxe bolinhos de chocolate e churros. Além de que vou cantar uma canção para você, está disposta a ouvir?
Definitivamente, Helena a achava louca, mas se achava ou não, não disse nada, apenas assentiu, aguardando os próximos passos de Eleanor, que se levantou disposta a cantar:
Eu continuo esperando que nós encontremos,
Outra razão para se comprometer.
Mas desta vez eu vou quebrar por dentro.
Eu continuo olhando para o passado
E todos aqueles sentimentos que comprometemos,
E desta vez vamos quebrar por dentro.
Não vá,
Não sinta que precisa,
Só se você quiser,
Encha meu mundo com esperança novamente, esperança novamente...
Eleanor cantou até chegar ao ápice da música. Os olhos de Helena estavam marejados, prestes a cair lágrimas, e foi o que aconteceu quando ela os fechou. As bochechas ficaram repletas de lágrima, enquanto ela soluçava fortemente.
— Sei que devia ter te contado tudo do início, eu sinto muito mesmo por ter achado que a mentira era o melhor caminho. Gosto de ser a senhorita perfeita, mas nem sempre isso é possível, por isso, erro mais do que acerto. Desta vez, espero ter acertado, pois não quero perder uma das melhores pessoas que já conheci na vida. – Eleanor disse.
Helena balançou a cabeça. O sorriso amarelo e singelo no canto da boca se formou, e com tamanha emoção, ela não pode deixar de dizer:
— Você não canta nada bem. Mas eu agradeço a tentativa, foi válida. – ela fitou Eleanor, e sorriu, irradiando um pouco de sua luz quase apagada. – Eu te perdoo.
Eleanor se aproximou da cama de Helena, e a abraçou, como jamais havia abraçado alguém na vida.
Ela sentiu as frágeis mãos dela se perderem em suas costas, e finalmente, suspirou aliviada. Tinha recuperado sua amiga, tinha feito o pouco de luz que habitava o corpo de Helena pular para fora.
— Eleanor?
— Sim?
— Eu não quero morrer, eu não quero morrer!
Eleanor apenas apertou mais os braços ao redor de Helena. Se havia alguma coisa que podia fazer, era consolá-la, permitir que seu abraço fosse o acalanto dela.
Precisava manter a calma, especialmente naquele momento mais difícil na vida de uma pessoa.
Ninguém consegue ser forte o tempo todo, não, ninguém consegue...
§
Elton leu o e-mail de Helena, e correu, como nunca havia corrido em toda a sua vida.
Depois de revelar na noite de seu aniversário toda a verdade para os seus pais, Elton ficou recluso em seu quarto por dias. Não sabia exatamente o que a reação de seu pai significava. O homem não disse nada. Ficou surpreso, chocado, inexprimível. Já Victória, sua mãe, disse que aceitava e que na verdade, sempre soube de toda a verdade.
Isso não o deixava surpreso, afinal, explicava a implicância estranha que ela tinha por Eleanor.
É, não estava nada fácil ser ele naqueles últimos dias, ainda mais estando sozinho, sem ninguém para poder compartilhar todas as suas dores. A não ser Helena, que havia lhe mandado o e-mail mais emocionado que Elton tinha recebido em toda a sua vida.
Assim que ele alcançou ao hospital, encontrou Helena e Eleanor juntas, abraçadas na cama. Enquanto Eleanor consolava Helena, ela chorava todas as suas dores, e ao ver aquela cena, Elton sentiu que seu coração se despedaçava em mil pedaços.
Ele se aproximou e não disse mais nada. Abraçou as duas por trás, e recebeu uma leva elevação de surpresa de Helena, que logo ignorou e permitiu que o abraço triplo continuasse.
Às vezes, nenhuma palavra pode conter a dor, apenas um bom abraço amigo.
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