As Lendas de Nex'fre: Entre Sangue e Ouro
1 Prólogo.
Em uma terra afastada das cortinas mortais que separam a realidade tangível dos mistérios divinos havia um mundo completo, mergulhado em constantes lutas e intrigas políticas. Cinco grandes continentes fundamentavam as bases desse lugar, que no idioma local mantém a tradição do nome de Nex’fre.
Nex’fre surgiu dos antigos habitantes e guias dos povos livres e apesar de não possuir uma tradução exata, seu nome remete a “Guerra constante pela liberdade”, algo popular por todas as regiões. No Sul de toda a vasta terra, há o continente gelado de Derath, pouco explorado em sua maioria, formando por quatro inexploradas ilhas imensas e duas pequenas (essas povoadas) que compõe o Arquipélago da Neblina.
Mais ao norte, existem os dois continentes de Delnër, considerados gêmeos opostos em todos os sentidos possíveis, exceto pelos grandes formatos semelhantes a um par de costelas humanas. De um lado, a terra-natal élfica, que constantemente carrega sozinha o nome de Delnër, é marcada por grande vegetação diversa e considerável desenvolvimento nos campos da magia, agricultura, artes e política, sendo um caso belo de três líderes que compõe o governo, um para cada espécie de elfo. Enquanto isso, o irmão-gêmeo continental é o lar de duas raças inimigas: Os anões e os orcs, que desde os primórdios lutam pela supremacia da própria espécie pelo continente. Esse, também chamado pelos não-elfos de Adrën, é uma terra árida com gigantescos desertos e sem estabilidade política alguma. Transitoriamente, governos autoritários de Orcs e Anões se sobrepõe sem conseguir algo muito produtivo, resultado de subsequentes guerras civis entre os dois povos.
Por fim, há o continente que mais importa: Damasco. Apesar de existir dois continentes originalmente, uma grande obra num passado distante construiu uma ponte de aço intercontinental, ligando para sempre a parte Sul ao Norte, unificando as antigas duas terras de Dam-Angnar ao Norte e Akrasco ao Sul. As Bases de Damasco, como foi chamado o tratado entre o Imperador humano Octávio — Grande imperador de Dam-Angnar que unificou os 6 reinos em um só após uma campanha de guerra que levou 20 anos — e os 7 Anciões de Akrasco, que diferente do parceiro de terra, possuía uma tradição teocrática a respeito dos Deuses Primordiais.
Quatrocentos anos depois de surgir as Bases de Damasco, a estabilidade que por muito tempo guiou os dois continentes repletos de humanos e híbridos animanos passou a se tornar cada vez mais tênue. O continente no Sul, de maioria animana e teocrática, passou a se sentir ameaçada pelo poderoso Império da Mão de Prata, cujo governo monárquico criava constantes disputas entre o Senado Imperial e o governante. A ponte, no entanto, se mostrou poderosa demais para ser derrubada por alguma magia e por isso se tornou um símbolo da força Imperial.
As constantes guerras e disputas entre o Norte e o Sul criaram em Akrasco um desejo de vingança. Desejo esse que, na comemoração dos 500 anos das Bases de Damasco, foi fundado o chamado Pacto das Sombras. Filiados não mais aos 7 deuses primordiais dos céus, mas aos 3 primordiais do submundo, a ordem surgiu como uma facção de assassinos treinados que, acima de tudo, desejavam o poder para destruir seus inimigos. Inicialmente o Império como principal inimigo, mas com o tempo, os 7 Anciões também se tornaram uma oposição. No final de 650 anos da construção da ponte, o Pacto era uma força paramilitar que se opunha aos 2 governos, vivendo escondidos na Floresta das Trevas em Dam-Angnar.
A partir desse conhecimento que foi apresentado, as peças centrais dos deuses começaram a ser montadas. Agora, no ano de comemoração dos 700 anos de construção das Bases de Damasco, o Pacto das Sombras está finalmente disposto a trazer um fim ao governo do Império da Mão de Prata. O epicentro da história se inicia dentro do Salão do Conselho das Trevas no coração da Floresta Sombria. O assassino treinado por toda a infância naquele meio respondia por Vladmir nos momentos mais formais; no restante do tempo, era apenas Vlad. Não era o seu nome de verdade, mas não conseguia mais recordar qual seria, algumas partes de seu passado não podiam mais ser explorados em suas memórias, surgindo apenas em seus momentos de fraqueza nos sonhos mais profundos de sua mente perturbada.
Os passos leves ecoando por todo o salão apenas serviam para fazer o ritmo cardíaco de Vlad acelerar conforme ele se aproximava dos portões que dariam ao salão do Conselho das Sombras. Ele havia acabado de acordar e já vestia sua armadura de couro leve. Mal teve tempo de encarar seu próprio reflexo na água, pois mesmo naquela manhã onde se permitiu esquecer toda a sua vida durante uma leve inspiração matinal, encarar seus olhos completamente negros e sua pele parda não dizia mais nada a ele. Simplesmente não reconhecia aquele que encarava seu olhar de volta do reflexo. Buscou imaginar que não era um assassino na maior facção e guilda de assassinos de todo o reino. Tentou fingir que tinha um propósito, mas nada disso parecia soar verdadeiro; antes mesmo que pudesse encerrar essa reflexão, a porta do seu aposento bateu e um mensageiro adentrou apenas para avisar que o conselho o convocava imediatamente. Não havia mais o que fazer, então ele apenas voltou para sua vida, não a que ele escolheu. Apenas a que os deuses cuspiram a ele.
Quando os portões finalmente se abriram e Vlad encarou Os Três sentados num triângulo diante dele, ele teve certeza que logo teria que partir de novo.
— Ouvi dizer que vocês estavam me convocando. — Disse em voz alta enquanto se aproximava do encapuzado.
— Há uma nova tarefa que deve ser cumprida. — Respondeu um dos Três, aquele localizado no meio.
— Sempre há. Dessa vez, eu devo ir para onde, meus senhores?
— Você deve partir, com esse enviado nosso, para a Cidade Real. Prepare suas coisas e garanta que tudo esteja certo. Antes de sair, iremos fornecer seu estoque de comida e a cavalaria para o início dos dias. — Complementou.
— Se é o que as Sombras desejam, assim será feito. Apenas me diga minha tarefa e eu a cumprirei.
— Você, mais do que ninguém, deve compreender nossa história, Vladmir. Por muitos anos, o Pacto das Sombras se opôs ao Império da Mão de Prata. O Imperador anterior, Henrick, foi o primeiro a se aproximar do Pacto das Sombras. No entanto, a sua benevolência trouxe o desejo do atual imperador que eclodiu a Revolução Vermelha. — O encapuzado olhou para o outro Sábio à sua direita, dando-lhe a palavra.
— A Revolução Vermelha dizimou uma grande parte dos nobres e do Senado. Por mais interessante que pudesse ser a aliança com Henrick, a guerra civil é uma chance de ouro. O Império nunca esteve tão frágil desde que foi fundado por Octávio há mais de 720 anos atrás. Por isso, o seu plano será dividido em etapas que explicaremos gradativamente como deve ser seguido. — E por fim, a palavra foi dada para o homem da esquerda.
— Suas ordens terão como objetivo a destruição do Império como é conhecido. Vladmir, foi criado como um assassino desde sua infância e estará preparado para a tarefa que estamos prestes a entregar a ti.
— Pelo santo ódio de Drasbel, digam de uma vez o que eu devo fazer! — Protestou Vlad, claramente impaciente com tanta falação. Os Sábios não costumavam enrolar daquela forma quando queriam dar ordens. Simplesmente diziam o local e o nome da pessoa, o que diabos estava acontecendo ali?
— Certo. — Continuou o ancião à esquerda. — Suas ordens são organizadas para guiar a ti pelo caminho que trará a ruína ao Império da Mão de Prata: Você deve eliminar o atual Imperador.
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