Notas iniciais
Sempre tenham em mente que todos os detalhes omitidos virão a ser revelados eventualmente.

A luz do dia estava prestes a surgir no horizonte quando finalmente a paz foi encontrada nos ombros de Vlad. Seu corpo repousava no fundo de uma caverna no meio de uma floresta, sem fogueiras ou fontes de luz. Apesar de ter deitado cedo, sua mente permanecia ativa, martelando o que havia passado, o que estava passando e o que ainda passaria.

Enquanto os deuses recompensavam a tantos com a dádiva de ter um sono fácil de ser encontrado, outros eram mergulhados pela dúvida, pela incerteza de um possível amanhã. Não era uma característica louvável, tampouco opcional para se ter, tudo que lhe restava era suportar as dores que iam muito além de lanças ou adagas; a dor da ansiedade. Não importava onde estava, o quão simples era sua tarefa caso houvesse uma, não importava o quão bom se sentia com as próprias habilidades, ainda assim ele se via obrigado a enfrentar os mesmos demônios de sempre. Depois de tanto ver a morte, não era surpreendente de supor que aquelas marcas no seu psicológico eram o seu pior fardo.

Sua mente cansada de tanto lutar se entregou aos braços do deus dos sonhos, que mergulhou no mais profundo de suas memórias até um período completamente diferente da vida do homem. Seus dedos sentiam uma grama rala por todo um vale cheio de flores. Seu estado de espírito, assim como seu corpo dentro daquela memória, era ainda de uma criança. Oito anos, olhos escuros como a noite que combinavam perfeitamente com os fios do cabelo que caía até seus ombros; suas roupas de um simples camponês davam uma própria graça ao pobre menino cujo nome ele já não se lembrava mais. Vlad via naquele cenário o fim de uma infância que ele jamais recuperaria, onde o antigo ser morreu, e um novo ressurgiria contra a sua vontade.

Naquela lembrança, o garoto observava com alegria sua mãe caminhar e recolher flores diferentes para o filho. Os cabelos loiros cacheados chegando aos quadris se moviam junto ao vento enquanto os dedos da mulher colhiam margaridas, acônito, dente-de-leão, e a última antes de tudo mudar, hibisco.

— Você se lembra do que sua avó costumava dizer? — Perguntou a mulher com um sorriso bobo.

— “Meu marido é um inútil”? — Brincou o jovem, se encolhendo e rindo baixinho.

— Não! — Repreendeu sua mãe com um sorriso doce nos lábios finos e bem desenhados. — Ela costumava me dizer, quando eu tinha sua idade, que o conhecimento é a maior força que existe nessa terra. Pensei que ela tinha tido essa conversa com você. — Deu de ombros e se aproximou, sentando-se ao lado do filho. — Consegue imaginar o motivo?

— É claro! — Disparou ansiosamente o garoto. — Azliel, o grande deus do conhecimento, tornou-se o rei entre os mais antigos através de sua imensa sabedoria e infinito conhecimento!

O orgulho faiscou nos olhos castanhos da loira. Como uma recompensa, ela beijou a testa de seu filho, mas antes que pudesse dizer algo, o som de madeira se partindo invadiu o ambiente. Distante da visão, no final do campo florido, o portão da propriedade havia sido derrubado por um cavalo, sendo montado pelo estranhamente familiar pai do pequeno garoto. Os fios negros se misturavam ao suor, a intensidade do desespero coberto em seus olhos deixava facilmente compreensível que algo estava errado.

— Qual é o problema?! — Perguntou a mãe enquanto se levantava, o olhar já exalava preocupação. O homem rapidamente a atravessou, indo na direção do interior da casa de palha há alguns metros de onde estavam.

— Peguem suas coisas, não há tempo para explicar! Temos que partir antes que eles cheguem! — Gritou o pai. No entanto, quando o cavalo repentinamente se agitou e vozes surgiram de longe, ele sabia que era tarde demais.

Pela mesma entrada usada anteriormente, agora dois homens, cada um com seu respectivo cavalo negro, avançavam na direção da família. O primeiro era claramente mais largo e forte, usando uma armadura negra e pesada de placas; sua mão direita portava uma espada bastarda enquanto a esquerda mantinha as rédeas de seu animal. Já o segundo era completamente diferente: Magro, esguio e portando armadura de couro que o fazia mais parecer uma sombra em meio ao dia. Nas suas mãos, um arco curto e a aljava nas costas. Próximo do pescoço de seu cavalo, havia um suporte que sustentava uma tocha acesa.

Sem pensar duas vezes, o pai do pobre garoto saiu de dentro da casa portando uma espada curta e montou em seu cavalo, pronto para defender sua família. No entanto, o destino determinou que aquele combate ocorreria em terra rapidamente, já que o arqueiro mostrou uma mira exemplar em atingir o olho do animal que acabara de ser montado, fazendo-o relinchar, arremessando seu montador ao chão e buscando fugir desesperadamente. Nesse instante, a mulher loira abraçava com força seu filho, encolhida e claramente assustada. Ela poderia tentar se levantar e fugir, mas temia que acabaria sendo acertada pelo arqueiro.

Infelizmente, o cavaleiro com a armadura pesada determinou que não haveria nem mesmo um animal como testemunha. Quando o cavalo se aproximou dele para fugir, sua espada bastarda passou cortando um pedaço do pescoço do ser, que mesmo ainda correndo, acabou caindo alguns metros à frente, morto.

— Hora da diversão. — Murmurou o homem de armadura, descendo de seu cavalo e encarando o arqueiro. — Cuide do resto, o fazendeiro é meu.

— Já pensou que nem tudo se resume a morte, Kreatur? — O homem esguio revirou os olhos, guardando o arco nas costas e pegando a tocha na lateral de seu cavalo.

— A morte é a única coisa que torna todos nós iguais, Kieran. — Murmurou Kreatur com um sorriso diabólico.

Enquanto o pequeno diálogo ocorria, o pai do garoto se recompunha da queda. Ele se inclinou com a arma em mão, tinha claramente a vantagem da agilidade contra o homem da armadura pesada. Um choro baixo de aflição era ouvido tanto do garoto quanto de sua mãe, que permaneciam encolhidos no meio do campo florido.

Quem desferiu o primeiro golpe foi Kreatur. Uma tentativa de estocada veio com rapidez contra o peito do pai que se esquivou, batendo o cabo de sua espada na têmpora do capacete de seu adversário na tentativa de atordoa-lo e rapidamente o contornou, desferindo um arco certeiro que atingiu a parte das costas da armadura, deixando para trás apenas um leve amassado, nenhum dano no oponente.

A reação foi mais ligeira do que a anterior; a lâmina bastarda girou junto ao corpo de Kreatur, seu golpe foi diagonal e veio de baixo para cima; mesmo com seu oponente tendo a velocidade de aparar tal investida, ele não possuía força suficiente para manter o equilíbrio e recuou, caindo rolando para o meio das flores sem deixar sua espada cair. O pai da criança enquanto se recompunha conseguiu sentir um cheiro diferenciado e desagradável vindo de seu terreno. Seus olhos ligeiros deslizaram pelo campo de batalha e ele viu Kieran com a tocha espalhando o fogo por todo o campo.

— Mantenha o foco em mim, pequeno homem! — Bradou o homem com a armadura de placas de aço enquanto golpeava outra vez em um arco diagonal, atraindo a atenção do outro sem dificuldades, mas aquele havia sido seu primeiro erro e mesmo conseguindo saltar para trás e ter somente um arranhão no braço esquerdo, começaria a refletir em seu desempenho.

— Só um covarde ataca seu oponente quando ele não está olhando. — Murmurou o ferido.

— E somente um tolo desvia o olhar de seu oponente no meio de uma luta. — Nisso, Kreatur avançou e golpeou a primeira vez pela lateral, sendo aparado. Mas uma coisa um tanto quanto inusitada aconteceu. Dessa vez, o pai do garoto segurava a espada com ambas as mãos e, ao aparar, girou rapidamente os braços em uma meia-lua, lançando um impulso com sua força e desarmando seu oponente. A espada bastarda voou no ar, era a chance de vitória do homem. E ao invés disso, ele recuou, abaixando a espada.

— Eu não sou um covarde, e não atacarei um oponente desprotegido. Se devo morrer, morrerei com honra. — E aquele foi seu último erro.

E antes que pudesse ao menos dizer algo a mais, sentiu um fio percorrer em seu pescoço e uma dor estranha surgir. O grito de sua mulher se estendeu, distante e vago enquanto ele se engasgava com algum tipo de liquido.

O corpo do homem atingiu o chão enquanto atrás dele, Kieran limpava a adaga e balançava a cabeça negativamente.

— Esses camponeses estão um porre ultimamente. — Murmurou e agarrou a espada bastarda que estava no chão, estendendo-a para o companheiro.

— Ele era meu. — Kreatur rosnou e agarrou a espada.

— Você estava demorando demais. Quero regressar antes do anoitecer, deixe seus jogos estúpidos para outro dia. — Rebateu o homem esguio. — Pega logo a criança e vamos embora.

Nisso, ambos os homens avançaram na direção dos dois encolhidos na terra, e repentinamente uma voz invadiu os sonhos repetitivamente. Tudo começou a desabar em escuridão, e de repente, uma chama surgiu no centro da visão de Vlad.

— Vlad, acorde. — Dizia um ser com capuz, seu rosto não era possível de enxergar. Apenas a tocha acesa na frente do rosto do homem o permitia perceber o que estava acontecendo.

— Argh... Merda. — Murmurou ele, colocando a mão na cabeça e fechando os olhos por conta da claridade. — Já está na hora?

— Sim, o Sol nasceu e com ele, a floresta vive novamente. — A voz extremamente grave parecia sempre falar com um tom de perigo. — Não conseguiu dormir novamente?

— Não. — Vlad se ergueu, batendo as mãos no corpo para tirar a poeira e encarou o outro. — Nada novo no horizonte. Podemos partir?

•••

O clima no território dos homens não era exatamente dos melhores, considerando o local onde Vlad estava anteriormente. Geograficamente falando, o lar do Pacto Sombrio ficava no centro da Floresta Sombria, no exato meio do continente. A cidade-foco da missão devia estar há sete dias de caminhada. Nos primeiros, com exceção dos mesmos pesadelos recorrentes, nada de diferente estava ocorrendo; exceto um dia em específico:

Os dois encapuzados encontravam-se há um dia da Cidade Real. A estrada principal ficava em um grande campo aberto, cercado por moradores e fazendeiros, ou seja, muitas testemunhas, uma péssima rota para algo discreto. Portanto, a direção seguida foi por dentro da Selva Nobre, nomeada assim por ser o local de reserva da caça entre as famílias mais ricas. O que almejavam tanto caçar ali dentro? Diziam as más línguas que os plebeus que ousassem entrar ali dentro. Apesar disso, os boatos que a floresta estaria abandonada eram verídicos; pelo povo, contavam as histórias que ela havia sido amaldiçoada e que por todo o instante, permanecia congelada; os ventos sopravam como o mais intenso inverno. Até o momento, tudo mostrava uma veracidade fora do comum, já que em pleno verão, não havia uma única criatura viva, apenas a neve e os ventos congelantes por cada galho, as terras duras e secas já não germinam mais nada. Em definição clara, a discrição necessária estava diante deles, e pelo fator da dupla citada ser cética quanto a maldições, sozinhos os dois penetravam o interior do covil do próprio inverno.

Conforme avançaram pelo interior, a noite abateu-se e ambos se viram obrigados a começar um acampamento no meio do gelo. Tinham a certeza que ninguém viria ali, portanto montaram uma fogueira, a qual foi acesa pelo misterioso acompanhante de Vlad. Ali, ao redor da chama, um olhar vermelho como sangue dentro do capuz secava a neve ao redor de ambos.

— Qual fator desencadearia isso? — Questionou o encapuzado. Sua voz grave ricocheteava firmemente no gelo das árvores, que estalavam, experimentando a suave sensação do calor após todo aquele tempo.

— Não ousarei refletir sobre isso. — Rebateu Vlad num tom firme. Ele encontrava-se sentado em um ponto cardial ao norte, em oposição ao companheiro no Sul. — Deixe a explicação e a filosofia para os que possuem o intelecto para dissertar sobre.

— Você tem razão. — Concluiu rapidamente, mas não convencido, persistiu em sua reflexão. — No entanto, caso jamais tolos como nós refletirmos sobre os ocorridos em nossa volta, toda uma geração se tornará alienada ao mundo a sua volta. O que nos garante que tais intelectuais não passarão a perna em nós para se manter no poder de todo o conhecimento?

— Tsc. — O homem estalou a língua no interior da boca. — Você se encontra no período errado da história. Há anos atrás, quando o imperador Henrick respirava, a prosperidade e liberdade de expressão eram sua maior chance de se tornar um intelectual. — Ao tocar no assunto, o olhar de Vlad tornou-se escuro, como se algo em seu passado viesse à tona na escuridão castanha de sua íris. — O fato de um país tornar-se próspero não significa o mesmo que a satisfação dos tolos. Não importava o quão benéfico o mundo de todos estava, quando uma sociedade busca um vilão para culpar, eles verão o caos onde há apenas paz, e enxergarão inverno onde há apenas verão. Após a Revolução Vermelha, foi garantido que seres como nós não refletíssemos mais sobre o que era melhor para o reino. Se quer saber o que penso sobre o que vivemos, os deuses não amaldiçoaram esse lugar. A natureza apenas preferiu tornar essa floresta como os bastardos que tomaram o trono viam o mundo. No meio de um intenso Sol, há um inverno para culpar. — As palavras atingiram profundamente o solo e o companheiro, para por fim, o silêncio se tornar um terrível monstro e cada segundo parecer se tornar a própria eternidade.

Continuamente se reverberou o som do vento pelas árvores congeladas, e os estalos de gelo se quebrando graças a fogueira até o momento em que o sono abraçou cada um dos presentes. E dessa vez, Vlad não teve o mesmo pesadelo.

Seus olhos se abriram lentamente. O cansaço havia desaparecido, quanto tempo havia dormido? Já não tinha certeza. As chamas da fogueira haviam se apagado, e o companheiro não parecia mais estar ali. Talvez tivesse partido em uma patrulha, portanto o homem preferiu se adiantar e começar a guardar os poucos tecidos forrando o chão, e enquanto suas mãos se moviam, seu coração dentro do peito estremecia.

“Algo está errado”, sua mente dizia. Havia uma presença rodeando o local; onde havia sombras, havia aquela energia que causava um verdadeiro vazio existencial. Se fosse possível existir um espírito, definitivamente era ele quem sentia aquele frio, a amargura e um descaso tão potente. O tempo parecia desacelerar, cada segundo tinha a sensação de uma eternidade, e por mais que outra presença apertava o coração de Vlad, uma solidão agoniante sufocava o ar em seus pulmões.

— Pare de jogos e revele seu propósito ou desapareça, criatura! — Rugiu o assassino. Para os tolos, ele estaria gritando aos ventos; já aos que possuíam um conhecimento aprofundado, era a forma de negar o abraço da presença do ser que estava ali presente.

A resposta veio em seguida: O ar voltou aos pulmões do homem e a sensação fria diminuiu, ainda se mantendo ali dentro. O forte vento que soprava entre as folhas foi intensificado de maneira brutal, criando um som constante por toda a floresta até se transformar numa risada maníaca e debochada.

— Não és um simples tolo, Sombra. — Disparou o dono da risada. Tão maliciosa, rouca e metálica era possível existir, assim era sua voz. — Tua destreza e história chamam-me a atenção desde os primórdios de vossa existência, quando foste abandonado pelos divinos.

— Não serei seduzido por palavras eloquentes. — Retrucou, percebendo a tentativa de convencê-lo a dar domínio em sua mente. — Não é bem-vindo até revelar sua identidade.

— Ora, ora. — A gargalhada se sucedeu momentaneamente. — Eis que Drasbel, a personificação da traição, divindade do ódio e assassinato, se assume diante de ti. Vejo em teu futuro um grande potencial, e uma grande onda de tortuosos caminhos que tentarão pôr em prova tudo que acreditas. — Nesse ponto, Vlad ouvia atentamente a divindade. Nenhuma criatura ousava se fingir de deus naquele mundo, pois eles não permitiriam tal coisa. — Dentro do Pacto Sombrio, peças correm desesperadamente por um tabuleiro de xadrez, na tentativa de abater o outro primeiro, sem se importar em quantos sacrificam. E tu, entre estes, encontra-se como uma peça valorosa que foi lançada de forma errônea a um local. Digo que, logo em teu caminho, lhe visitarei diversas vezes, trazendo-lhe a traição dos que julga serem aliados, e também darei a ti a mão da vingança quando lhe for possível.

A cada palavra, o coração do homem tremia. Os deuses costumavam visitar sacerdotes e paladinos, mas não assassinos de facções, mesmo que fossem os deuses do submundo. E mais que isso, Drasbel era cultuado em locais onde a mentira era lei, e assim diziam que o sangue da traição andava ao lado das mentiras. Se um deus da mentira lhe conta algo sobre seu futuro, qual é o caminho a seguir?

— É um grande conselho que entrega em minhas mãos, Drasbel. — Finalmente respondeu Vlad. — No entanto, entre nós, és conhecido como um dos deuses da mentira, você é a própria encarnação da traição. Como espera que eu confie em suas palavras?

— É uma ousadia duvidar de meus presságios. — Retrucou o deus em um tom sombrio. — Nem mesmo meus sacerdotes ou campeões ousam fazê-lo, mas você, um simples mortal ousa desafiar meu nome. — E em seguida, surgiu a risada. — Tal é o motivo de me chamar a atenção. Pois bem, Vlad, saiba que tua dúvida é o principal motivo para eu revelar teu futuro. A cada escolha, temerás se estou eu mentindo ou não, e caso eu esteja, desviará seu caminho. Caso eu não esteja, serás emboscado como uma mosca.

Subitamente, as sombras se moveram, formando o corpo de um homem deformado. Ele possuía talvez um metro e sessenta, a aparência de um idoso com o rosto completamente desfigurado. Suas mãos eram atrofiadas, com dedos esqueléticos, e um cheiro intenso de carne podre. O resto do corpo permanecia coberto por um manto tão escuro quanto a própria escuridão, e gotas de sangue pingavam deste, molhando o chão com o liquido escarlate. Diziam os livros que aquele sangue representava a morte por meio de traição, e Vlad tinha certeza da precisão das escrituras: A aparência, cheiro, presença, tudo combinava perfeitamente com quem Drasbel mostrava ser.

— E considere seu dia de sorte, mortal. Sua ousadia me entretém, portanto, receba o primeiro presente da própria traição. — Antes que pudesse ser questionado, a divindade tocou com um dos dedos esqueléticos no braço esquerdo de Vlad, e no mesmo instante, ele caiu de joelhos gritando enquanto sua pele queimava como palha, criando uma forma desconhecida em seu membro.

Num sobressalto, os olhos do assassino se abriram. Ele havia acabado de acordar e encontrava-se sentado enquanto agia sob a pressão da dor. Arrancou o mais rápido que pôde a armadura de couro e as roupas, até finalmente se deparar com a marca de Drasbel em seu braço. Ardia, era como se tivesse sido marcado semelhante a um gado, as linhas da queimadura eram escuras e revelavam com mais nitidez o que havia acontecido no sonho.

Era impossível descrever aquilo. As linhas irregulares formavam uma espécie de objeto fechado, e mesmo assim, não se assemelhava a nada que ele já tivesse visto, eram para ele apenas arcos e linhas unidas em posições diferentes.

Foi só então que Vlad reparou na ausência do parceiro. A sensação foi de reviver o sonho, só que dessa vez, ele preferia acreditar que havia acordado e se adiantou para preparar a partida assim que seu companheiro voltasse.

Não tardou para a figura misteriosa e companheira do assassino surgir, para enfim prosseguirem em mais absoluto silêncio; Vlad ia na frente com sua mania de conseguir encontrar-se sem problemas no meio de florestas, por mais “amaldiçoadas” que fossem. A relação entre os dois era completamente profissional, tornando inviável o assunto sobre Drasbel surgir.

O tempo passou. A floresta de fato parecia morta, sem traços de que algum dia existiu um ser ali. Quando eles entraram na trilha que conectava o centro da floresta, onde costumavam acontecer as caçadas, ao lado nobre da cidadela, a situação mudou. Pegadas sutis e discretas marchavam em ambas as direções, recentes e frequentes.

— Isso é estranho. — Comentou Vlad. — Se essa floresta está tão morta e congelada, qual seria o interesse ao seu núcleo?

— Isso está além da minha imaginação. — O outro respondeu. Os dois estavam prestes a seguir para o lado nobre quando a marca de Drasbel passou a queimar no braço de Vlad de forma tão intensa que o próprio couro cobrindo sua pele atingiu outra tonalidade, indicando que ela brilhava no interior. A expressão de dor vinda do assassino, junto com o grunhido baixo e a tonalidade da armadura evidenciaram ao seu companheiro que algo estava errado.

Vlad pensou no que dizer mesmo em meio a dor, porém antes que pudesse, ele sentiu a curiosidade atingir seu peito tão forte como nunca em sua vida. Algo dentro dele dizia que ele precisava adentrar o interior da floresta, e descobrir o que estava acontecendo.

— Antes que pergunte, precisamos checar o outro lado. Algo me diz que teremos uma vantagem ali. — E, mesmo com toda a dor envolvendo sua mente, ele não esperou pela aprovação aliada. Apenas se moveu para dentro das árvores, saindo da trilha, e partiu rapidamente para o núcleo da floresta.

— Que droga, o nosso prazo está acabando! O evento será hoje, próximo do pôr do Sol! — Retrucou para no fim acabar sendo obrigado a seguir Vlad, afinal foi completamente ignorado.

O assassino tinha que admitir uma coisa: Drasbel tinha acabado de ganhar um ponto. A marca lentamente foi suavizando conforme o núcleo se aproximava, e a visão de seu centro deixou tudo claro para o homem assim que ele chegou ali. Seus olhos depararam-se com uma grande circunferência aberta no meio da mata, devia ter vinte e cinco metros de comprimento. Em seu centro, apenas uma árvore, três vezes maior que qualquer outra da floresta, visivelmente uma espécie de fonte de toda a natureza ali. Ao redor, diversas jaulas mantendo cativos dezenas, talvez centenas de plebeus, que gritavam enquanto soldados lentamente abriam uma por uma, traziam um prisioneiro até um humano encapuzado portando um cajado de ouro. Este, por sua vez, ora testava algum feitiço no cativo, ora o obrigava a beber do conteúdo de um caldeirão.

— O que é tudo isso? — Sussurrou o companheiro de Vlad.

— É obra do atual Imperador. — Explicou. — Os rumores dizem que ele, impulsionado pelos ânimos da Revolução Vermelha, deseja começar uma guerra. Tomar todo o território, e aparentemente, está pretendendo usar a magia para isso. Usando seu povo como experimento, e precisou selar essa floresta para garantir que ninguém visse isso. Já imaginou a revolta popular que ocorreria?

— Agora eu entendi. — O capuz do ser balançou a cabeça negativamente. — Qual é seu plano?

— Há um total de cinco soldados, três deles eu consigo liquidar antes que percebam. Ainda não tenho certeza de suas habilidades, acha que é capaz de isolar o mago? — Vlad foi respondido com um movimento com a cabeça. Agora, era momento de agir, e o lado assassino entraria em ação.

Com um impulso simples, ele subiu em uma das árvores, ainda se mantendo bastante afastado da circunferência para então aproximar até o limite, começando a analisar como estava o cenário atual.

As gaiolas estavam rodeando as árvores, com exceção da entrada que era conectada à trilha. Depois delas, três soldados mantinham-se por perto, observando os prisioneiros e garantindo que eles não estavam fazendo nenhuma gracinha ou plano. Os outros seguravam a cobaia selecionada enquanto era testada. A ideia estava feita.

O assassino buscou com a mão destra seu dardo envenenado dentro do bolso de seu cinto de utilidades. Haviam outros quatro iguais aquele que poderiam vir a ser úteis no futuro. Com a canhota, ele puxou duas adagas de suas respectivas bainhas, mantendo-as entre os dedos pelo cabo. Na mente de Vlad, ele tinha a plena noção do vento, e principalmente, possuía um excelente conhecimento sobre o treinamento militar que costumava ocorrer naquelas regiões. Em uma situação de emboscada, eles eram instruídos quando não pudessem fazer nada, a usar seus últimos segundos para mostrar a direção aos outros, e era aquele seu possível trunfo. Bastava aguardar para uma cobaia começar a ser usado, para que fosse tudo bem.

O dardo lançado voou, rapidamente sendo afetado pelo vento e atingindo o pescoço de um dos guardas vindo do Leste, este soltou um pequeno ruído e apontou para tal direção antes que começasse a sentir o corpo paralisar e atingir o chão, os outros dois alertas buscaram um possível inimigo. Era o momento. Vlad saltou entre as árvores como um gatuno e empunhou em ambas as mãos as adagas, pousando sobre uma das gaiolas. Os gritos que vinham do cativo vieram em boa hora, e foram cruciais para que em passos rápidos, o assassino flanqueasse o segundo guarda sem ser ouvido e atravessasse seu pescoço com a lâmina, e assim, era o fim do momento furtivo, pois os guardas restantes e o mago sabiam da sua presença, e já se preparavam para atacar.

O último golpe foi então dado. Ao invés de tentar alcançar o último alvo, ele simplesmente lançou uma adaga, contou meio segundo e lançou a segunda. A primeira foi facilmente aparada pelo guarda, que usou sua força em uma investida com o escudo para cima, deixando sua guarda aberta por meio-segundo. O meio-segundo que era necessário para a segunda lâmina acertar a brecha da armadura embaixo do braço. Não era um golpe letal. Ou melhor. Não seria se as armas não estivessem com veneno. Foi questão de segundos até as convulsões começarem, e a atenção de Vlad já estava nos outros dois, que estavam lado-a-lado, com suas malhas de ferro, escudos e espadas em mãos, ignorando completamente a cobaia em seus pés, agora morta graças ao mago. Eles estavam começando a avançar juntos quando um raio atingiu um deles, mas não vindo dos céus. Este veio direto do meio das árvores, e graças ao ferro, os dois em instantes estavam no chão, com o corpo tremendo por causa da eletricidade. Foi então que o companheiro do assassino saiu de trás da escuridão. Em suas mãos corria a eletricidade pura, e pela primeira vez na viagem, ele estava sem capuz. Sua pele era verde, dois de seus dentes de baixo eram grandes e o fundo de seus olhos eram vermelhos. Agora, para Vlad, era claro a utilidade daquele ser. Era um Xamã, um da tribo dos orcs.

— Trema diante de mim, seu humano patético! — Dessa vez, era claro que o disfarce tinha se desfeito de vez, e o acompanhante agora assumiria sua verdadeira personalidade. — Trema diante de Murzuf!

Teria sido uma cena quase épica se, em seguida, o orc não tivesse sido recepcionado por uma bola de fogo que o atingiu em cheio direto do cajado do mago humano.

— Como eu odeio Orcs! — Resmungou o homem, virando-se para o ladino com um sorriso típico de feiticeiros da coorte. — O que esperava que fosse acontecer, sinceramente? Que iam chegar aqui, matar todos, libertar eles, ou alguma coisa do tipo? Eu não sou um mago qualquer, seu plebeu inútil!

De fato, Vlad imaginava que aquele homem não era um qualquer. No entanto, contava que seriam dois assassinos contra um mago, não que um xamã orc apareceria e seria derrotado por estar se vangloriando. Outro ruído chamou sua atenção, era diretamente de onde o orc havia caído; ele estava de pé, lançando uma rajada elétrica contra o adversário deles usando dessa vez um pequeno cajado de madeira bem humilde se comparado ao de ouro do humano agora se defendendo usando alguma espécie de barreira mágica. Uma troca de olhares rápida ocorreu entre Murzuf e o assassino, era uma espécie de comunicação clara que dizia: “Continue com o plano”.

Sem ter tempo a perder, foi ágil em buscar no corpo dos soldados a chave-mestra e recuperar suas adagas. O primeiro a ser libertado das jaulas foi um homem barbudo que devia ter seus quarenta anos, olhos escuros e o único a não ser desesperado em toda aquela situação onde tantos gritavam.

— Me deixe libertá-los, forasteiro. Há algo que deve saber antes de enfrentar aquele homem. — Disse assim que saiu de sua prisão.

— Quem é você? — Perguntou o assassino, erguendo as sobrancelhas.

— Rondric, ex-general dos exércitos do Imperador Henrick. — De repente, todas as peças faziam mais sentido. O atual imperador, para diminuir a influencia do antigo rival e evitar possíveis motins, devia ter prendido todos os que costumavam ser influentes. — O homem que estão enfrentando se chama Lescelov, é um mago elemental que enfeitiçou essa floresta e por isso tem pleno domínio de elementos nela. — Explicou rapidamente. — Não conseguirão vencê-lo se não destruir a Orbe de Gelo, que foi colocada na árvore central desta floresta.

As peças se encaixavam ainda mais. Vlad poderia gastar seu tempo tentando duvidar do homem, no entanto preferiu imaginar que, mesmo se estivesse mentindo sobre quem era, odiava o mago que eventualmente o mataria, o suficiente para revelar uma possível fraqueza, portanto avançou e deu uma espiada rápida na situação atual entre os usuários de magia.

O xamã acabara de desviar uma bola de fogo com o que parecia uma aura que surgia quando ele estava em perigo. Visualmente o orc parecia conversar com alguém, e Vlad entendia que muitos dos xamãs das tribos orcs eram conectados a espíritos, alguns cediam lugar em seu corpo como habitat espiritual, e assim adquiriam conhecimento e até mesmo poderes, como o caso dos raios que Murzuf conjurava.

O mago elemental atacou novamente, estendendo o cajado de ouro em frente ao corpo e arremessando uma grande esfera de gelo na direção do orc. O mesmo sussurrou algo, e antes que fosse atingido, a mesma aura surgiu, dividindo o ataque inimigo em duas esferas passando direto por Murzuf. O impacto nas árvores mostrou o poder de Lescelov quando, atingidas, caíram cinco de cada lado. Apesar de ter uma vista incrível, Vlad não podia perder tempo assistindo e rapidamente partiu para a árvore gigante no centro da circunferência. Começou a observar toda a extensão e com facilidade encontrou algo diferente. Há quatro metros do chão havia um espaço diferente do relevo da madeira, onde algo parecia estar encaixado à árvore. Para um assassino como ele escalar algo era como pedir para um cão faminto se alimentar de um pedaço de carne.

Foi questão de instantes, e o homem já se encontrava apoiado em um dos galhos, encarando uma esfera grande e branca que emanava uma forte energia fria. Era a sensação semelhante ao que ele havia sentido ao ser visitado por Drasbel.

“Como será que eu devo parar ele?”, pensou. “Algum ritual, palavras mágicas, ou então...”

Crack!

Foi o único som evidenciando que Vlad havia simplesmente batido o cabo de uma das suas adagas na Orbe e ela havia se quebrado. Em toda floresta, a pressão do vento se tornou imensa. Era como se um tornado estivesse sendo formado, e um ruído grave ia se espalhando até o que parecia ser um campo de energia recuar ao centro da circunferência. Por fim, a orbe explodiu num imenso flash de luz, ofuscando o assassino.

Ao se recuperar, ele olhou ao redor e toda a floresta estava viva novamente. Onde antes havia somente o frio de um inverno, agora era verde e vivo, diversos animais faziam altos barulhos, pássaros cantavam, uma diferença alarmante.

— NÃO! — Gritou o humano abaixo agora furioso por ter visto sua invencibilidade ruir, e agindo por toda a sua cólera virou a atenção ao assassino pendurado numa árvore e totalmente vulnerável. — COMO VOCÊ SE ATREVE?! — Sem hesitar, uma bola de fogo imensa foi arremessada contra Vlad, indicando o que poderia ser seu fim.

Mas não foi.

Quando a esfera de chamas estava pronta para atingi-lo, o assassino sentiu o braço esquerdo novamente arder e a luz dessa vez foi muito mais forte. A bola de fogo acertou o que parecia ser uma barreira vermelha e a alta gargalhada de Drasbel foi ouvida por toda a floresta. As chamas simplesmente desapareceram sufocadas e quaisquer animais ao arredor passaram a fugir. O olhar espantado e arregalado de Lescelov foi evidente.

— O que...? — Antes que pudesse terminar a perguntar, um raio vindo do Xamã atingiu o peito do mago. Dessa vez, ela não foi rápida como nos soldados, era como se alguma energia fosse acumulada, a própria magia dos espíritos estivessem o devorando junto ao seu grito. E assim, se sucedeu o fim de Lascelov em uma explosão pequena de chamas azuis, deixando para trás apenas seu cajado dourado e uma tênue sensação de silêncio após o grito de dor ser apagado junto a sua existência.

Vlad desceu com velocidade da árvore e encarou o orc agora em solo firme. O mesmo estava com uma expressão séria e preocupada.

— Acho que precisamos conversar. — Indagou ao assassino.

— Eu não poderia concordar mais. — Respondeu, apontando para trás do orc, onde agora haviam dezenas de prisioneiros livres encarando os dois enquanto o suposto ex-general, Rondric, se aproximava com os braços cruzados. Em sua expressão, um sorriso malicioso. Por fim, pronunciou:

— Então vamos conversar, forasteiros.