As If We Never Said Goodbye
26 Nobody Said It Was Easy
Notas iniciais
Sua veia do pescoço saltava junto com suas palavras, Rachel olhou para o homem de cabelos loiros, agora quase ralos, que esbravejava na porta do fórum onde o processo de separação litigiosa de Judy e Russell Fabray perdurava por quase seis anos.
Russell era empurrado pela escadaria do prédio por sua advogada enquanto Judy exibia um sorriso sarcástico que com certeza o deixava mais transtornado.
-Então, como está se sentindo? –Rachel perguntou virando sua atenção para a mulher ao seu lado.
-Livre e rica –riu. Judy estava finalmente separada, o ar entrava por seus pulmões de uma maneira diferente, ela sentia-se de certa maneira jovem outra vez.
-Precisamos avisar a Quinn! Ela me deu ordens explicitas para que eu a ligasse para contar o veredicto!
-Ela ainda está dormindo, sabe como Quinn é, não vai entender o que está dizendo e quando acordar nem se lembrará! Odeio esse fuso horário... –Judy descia as escadas lentamente com Rachel ao seu lado.
-Então Judy, o que pretende fazer com todo esse dinheiro ganho com o processo?
-Minha querida, quero sair de Lima, isso é a primeira coisa que me vem a mente; fazer compras e quem sabe arranjar um namorado...
-Por que não vem a NY? Garanto que Quinn ficaria muito feliz! E lá é a terra das oportunidades –sorriu quando chegaram ao carro que seus pais a haviam emprestado.
-É uma ideia... mas de imediato estava pensando em fazer uma coisa bem maluca!
Rachel sorriu, sua sogra era adorável. No dia em que Judy se despediu de Quinn no aeroporto, a judia fez questão de chamar a mulher para um café, onde pôde conversar abertamente com ela sobre questões ligadas a Quinn. Para sua surpresa, Judy era uma daquelas pessoas verborrágicas, as duas passaram horas conversando e esclarecendo questões.
Judy lhe confessou que a principio não tinha gostado muito da ideia de sua filha namorando uma garota, mas que a felicidade de Quinn vinha em primeiro lugar. Não tinha absolutamente nada contra Rachel, sempre a achou adorável nas apresentações do coral e ficou encantada ao ver a maneira como as duas se despediram no aeroporto.
-Já leu aquele livro, “Comer, rezar e amar”? –perguntou aleatoriamente quando Rachel fez a curva para entrar na rua da casa de seus pais.
-Já! E vi o filme também, achei interessante!
-Acho que... queria fazer algo assim...
-Um livro? Um filme? –Rachel estava confusa até que um estalo ocorreu em sua cabeça. –Por Barbra! Você quer viajar?
-Acho que seria uma ótima ideia! –Judy riu da reação da garota. –Não sei se iria seguir os estágios do livro, mas seria algo fantástico visitar a Itália, aproveitava e matava as saudades de Quinn...
-Isso soa perfeitamente bem!
-E sabe, sempre tive vontade de viajar para lugares exóticos. Queria conhecer a Ásia e abraçar uma Secóia na Amazônia –riu.
-Você tem essa oportunidade! Vamos! –estacionou o carro na estrada da casa de seus pais. –Quando contarmos aos meus pais eles vão surtar e fazer o planejamento!
O fim de semana estava acabando e Rachel sentiu que não tinha aproveitado o tempo suficiente em Lima, ela havia vindo acompanhar Judy para a audiência e aproveitou para encontrar alguns conhecidos e principalmente ver a apresentação do Glee no domingo a noite antes de tomar um vôo para NY.
-Então me diga, como mamãe está? –Quinn perguntou enquanto assistia a morena terminar de se arrumar para assistir a apresentação das regionais que ocorreria no McKinley.
-Quinn, você acabou de falar com ela –apontou Rachel sentando-se na cadeira em frente a escrivaninha.
-O problema é que não pude avaliar o rosto dela entende? Tenho certeza que uma parte dela está fragilizada com essa história, e ficar em Lima, a mercê de comentários maldosos... me preocupo demais com ela...
-Meus dois pais gays estão com ela nesse exato momento no Breadstix, acredite, não há companhia melhor para ela nesse momento, eles a fizeram assistir Merly Streep desde ontem e comer brigadeiro como se não houvesse amanhã. Posso lhe garantir que minha sogra está muito bem!
-Eu acredito em você... e sinceramente acho extremamente lindo ouvir você chamando minha mãe de sogra –riu bobamente olhando para a tela.
-Eu sei –riu. –Quinn... sei que digo isso o dia todo nas mensagens que te mando, mas estou com saudade, tem sido tão difícil sem poder te tocar... se não fosse por NYADA estaria em um avião agora rumo a Florença!
-E eu queria estar ai, a gente só se viu duas vezes nesses quase quatro anos... me sinto um tanto culpada, como se não desse a devida atenção a nossa relação...
-Mas você está dando atenção! Você está presente todos os minutos da minha vida. A gente se fala todos os dias e você ainda faz a peripécia de encomendar flores todas as semanas!
-Mas não é fácil...
-Ninguém disse que seria... mas vale a pena! –respondeu com um sorriso maroto.
-Vale a pena?
-É tanta tensão sexual acumulada que espero... –Rachel não tinha intenção de fazer sexo virtual com a namorada naquele momento, mas gostava de provocá-la, e esse era o plano para os próximos três meses até que Quinn voltasse para o país. Ela abriu lentamente o botão da camisa social de mangas ¾ que usava.
-Oh, Rachel não comece, por favor! Você só provoca! –Quinn debruçou-se sobre a mesa e bateu a cabeça na madeira.
-Espero que você me... –Rachel sorriu provocando a namorada abrindo mais dois botões deixando a mostra a curva do vale dos seios.
-Rachel...
-Que você me deixe sem and...
-Ciao Quinn! Non credere a quello che è accaduto poco fa in ... Oh... –Annita, a colega de quarto de Quinn estacou na porta ao ver as curvas do seios de Rachel na tela do computador.
-Rach... Rachel eu... eu... depois a gente se fala! –Quinn estava mais do que vermelha e sua namorada ficou com os olhos vidrados na tela sem saber realmente o que fazer até que Quinn fechou o notebook.
Rachel demorou uns segundos para sair do transe causado pelo constrangimento, tinha que se controlar, não era nada muito do seu feitio fazer algo assim, nem se sentia sexy o suficiente para o fazer. Mas Quinn gostava e ela era a única que conseguia fazer Rachel se sentir sexy ao se exibir por uma tela de computador.
Seu relógio de pulso a avisou que estava quase atrasada, não podia perder as Regionais do Glee, Sr. Schue tinha lhe reservado uma cadeira no centro da platéia.
X
Rachel já estava mais do que acostumada, chegar em casa por volta das onze da noite era como morar sozinha, exceto pelos gemidos que vinham do quarto. Santana e Brittany eram coelhos, ela não tinha duvidas.
Ao passar pela porta do apartamento foi recebida por Lucy que pulou ao redor de Rachel, ela parecia estar eufórica, algo deveria estar errado, possivelmente Lord Tubbington deveria ter tomado conta de sua casinha ou se deitado sobre seu prato de ração, aquele gato parecia ser o imperador do apartamento.
Depois que Rachel, Santana e Brittany, -que se formou há três anos e entrou em NYU para a escola de dança, não se sabe como, foi para a Big Apple a necessidade de um apartamento com dois quartos ficou ainda maior-, procuraram por toda a cidade um apartamento que atendesse as especificações básicas: espaço para animais, dois quartos e espaço suficiente para fazer sexo em todos os cômodos (especificação de Santana) as coisas mudaram de maneiras inesperadas. Agora viviam em frente ao Central Park, uma área extremamente valorizada e por conseqüência, extremamente cara, por golpe do destino. As três haviam se apaixonado pelo apartamento, mas a priori não era compatível com a renda das garotas que trabalhavam na Pet Shop de Oliver e inventaram de vender Cupcakes para incrementar a renda.
Mas o que fez o jogo virar foi uma sucessão de acontecimentos estranhos. Uma tentativa de seqüestro que ocorreu na Times Square, um homem saiu de um carro e correu em direção a uma criança que passeava com a mãe pela calçada, Santana vendo a ação do criminoso se lançou em direção aos dois, imobilizando o homem com todo seu Lima Hieghts Adjacent por quase vinte minutos enquanto a policia não chegava. Um grupo de turistas Asiáticos filmou a ação e logo virou febre na internet. Santana Lopez era famosa por sua boa ação. Mas a sorte veio mesmo quando a mãe da garotinha que tentou ser seqüestrada foi em busca de Santana, era ninguém menos que Lara Spencer, a âncora do jornal televisivo Good Moorning America, a história teve tanta repercussão que a latina foi entrevistada por diversos jornais e após tecer comentários ácidos sobre a cidade de Nova York, caiu no carinho do publico e acabou tendo um programa diário no Good Moorning America.
Seu salário era alto e o dinheiro passou a entrar mais ainda quando a sex tape feita por Brittany no ultimo ano da escola veio a tona e ela foi chamada para fazer ensaios sensuais. O sonho dela estava feito, era famosa e rica.
Assim, depois de muita insistência, a latina convenceu a Rachel a alugar o apartamento dos sonhos em frente ao Central Park.
Rachel suspirou ao ver que aquele gato gordo estava em cima da comida de Lucy, ela o pegou e colocou em uma das plataformas de sua árvore de escalar, a cadela correu para a comida devorando a ração sem dó nem piedade.
A morena caminhou até seu quarto e largou a mala ao lado do guarda-roupa, estranhamente não ouviu nenhum barulho vindo do quarto de Santana e Brittany, pelo jeito as duas tinham ido para algum encontro romântico. Naquele momento sentiu-se sozinha como nunca tinha experimentado, tinha a sensação de pertencer a alguém presente em si, mas pensar que a ultima vez que tinha beijado a namorada fora há mais de seis meses lhe fez o estomago revirar.
Sentia falta dos olhos castanho-esverdeados que perfuravam sua alma quando compartilhavam um contato mais intimo, sentia falta da pele leitosa que a envolveu pouquíssimas vezes durante a noite. Sentia falta de quem realmente fazia tudo fazer sentido.
Queria espantar o vazio, mas assistir televisão tinha se tornado deprimente, ver Funny Girl ia ser a mesma coisa, sabia que no final das contas ficaria cantando My Man, pensando em Quinn e dormiria chorando como fez algumas vezes ao longo desses anos. Doía tanto que sentia vontade de nada, muito pensativa para dormir, muito desanimada para assistir algo, muito triste para tudo.
Pensou em ligar para os pais, para Kurt e Blaine (que estavam na cidade, Kurt em NYADA e Blaine em Juliard), Oliver, mas este deveria estar com Ben; e até Carmen... Mas não sentia-se no direito de ligar para algum deles aquela hora, não sentia-se no direito de nada. Só se sentia machucada demais para pensar, então simplesmente deitou-se na cama, olhando para o teto, Lucy entrou no cômodo e subiu na cama da dona no lugar onde supostamente Quinn deveria dormir e ficou ali, fazendo companhia a Rachel que deixou as lágrimas escorrerem livremente pelo rosto sem se preocupar em enxugá-las. Lucy bufou se aproximando da dona e ficando quietinha no seu canto olhando-a com preocupação muda.
Precisava agüentar mais três meses, só mais três meses sem seu amor.
X
Ela já deveria estar acostumada, mas era algo impossível, sempre parecia que estava no meio de uma briga quando ia ao centro da cidade e todos aqueles italianos começavam a conversar alto. No começo as coisas eram mais difíceis, quando só sabia falar uma palavra ou outra na língua local e na maioria das vezes que tentava se comunicar com alguém a pessoa acabava frustrada ou ria de sua tentativa de comunicação rudimentar.
Suas aulas ainda eram ministradas em inglês, mas algumas optativas eram em italiano, o que a fez procurar um curso rápido para aprender o idioma. Atualmente se comunicar não era mais um fardo, era prazeroso conversar e entender que todas aquelas pessoas não brigavam com você.
— Un caffè decaffeinato e una fetta di torta di mele con cannella? –Annita perguntou anotando o pedido antes mesmo de Quinn lhe dizer. Já se conheciam há bastante tempo e a garota sabia que todas as segundas, quartas e sextas, Quinn fazia o mesmo pedido (café descafeinado e uma fatia de torta de mação com canela)
— Sì, tu mi conosci bene -sorriu ligando o notebook sobre a mesa.
-Já sei, vai conversar com Rachel, não é mesmo? –perguntou falando em inglês enquanto terminava de anotar o pedido.
-Vou sim...
-Diga a ela que tem peitos ótimos... –brincou indo em direção ao balcão preparar o pedido.
Quinn esperou que o notebook captasse a rede wi-fi e se conectou ao Skype, enquanto esperava o site carregar, olhou para o relógio de pulso que marcava cinco da tarde, deveriam ser onze da manhã em NY.
Annita deixou o pedido de Quinn sobre a mesa e voltou para a cozinha deixando a loira esperando Rachel atender a chamada, não demorou muito e a morena apareceu na tela, sorridente como sempre.
-Oi meu amor, como está seu dia? –Rachel parecia estar eufórica.
-Está ótimo! Como está sendo o seu? Deve ter sido animado...
-Foi mesmo! Você não sabe o que aconteceu! –antes que Quinn pudesse pedir para que ela contasse a morena o fez. –Sabe, o fim do meu curso de teatro musical no NYADA já está no fim, e bem Carmen Tibideaux me chamou a sua sala e começou a falar sobre como os melhores alunos recebem indicações em diversas áreas de atuação, para peças teatrais e com meu currículo perfeito dentro da Academia durante esses quatro anos, ela disse que me indicou ao Joe Montello, o diretor que fez Wicked e que me escolheu para a montagem na academia!
-Você está dizendo que vai fazer um musical com Joe Montello? –Quinn sorriu para a tela que exibia sua namorada com um sorriso capaz de iluminar toda Manhattan.
-Não posso dizer com certeza, mas avaliando todas as possibilidades e os rumores... eu posso estar sendo cotada para fazer a proxima pessa de Montello, Spring Awakenin que está em fase se pré produção! Quinn! Sabe o que isso significa?
-Significa que você deu um grande passo para ser a estrela da Broadway! –Quinn queria tanto estar ao lado dela neste exato momento.
-Mas quero saber uma coisa Quinn, quando voe volta? –perguntou fazendo cara de cachorro que caiu da mudança.
-Só mais algumas semanas, Rach, ainda tenho que finalizar alguns trabalhos. Logo, logo estarei com você pra podermos começar nossa vida juntar!
-Quando você fala assim me enche de esperança...
-E antes não tinha esperança nisso?
-É que nesses últimos meses eu andei surtando... realmente senti sua falta como nunca e me fez pensar que você agora está trilhando um caminho longe do meu, e que talvez não queria compartilhar os mesmos sonhos que eu...
-Certo, pare de falar bobagens, meu amor –Quinn mantinha-se calma, mas ouvir aquilo doía, Rachel parecia estar abrindo mão de dar seu amor a ela. –Você sabe bem meus sonhos, sabe que você é um deles. Quero ter uma vida contigo e é isso que estou fazendo exatamente agora, vim para a Itália por diversos motivos e um deles é para poder ter um futuro realmente bom com você! Quero ter meus quadros expostos, poder levar nossos filhos para uma exposição e mostrar a eles o quadro que pintei pensando em você... Rachel, minha vida é você e vai ser você para sempre, não há outra maneira para eu viver.
-Okay... agora estou pensando como nossos filhos vão se parecer! –brincou com um sorriso tímido.
-Eu quero uma mini-Rachel –riu sentindo-se leve por ter dissolvido o clima tenso.
-Vocês são melosas demais! –a voz de Santana se fez presente na sala do apartamento de Rachel, Quinn observou a amiga colocar sobre a mesa os pacotes para o almoço.
-Quinn, espero que você tenha aprendido a cozinhar comida italiana, estou cansada de comida de restaurante –resmungou a latina.
-Então, vou deixar vocês almoçarem...
-Ei, Quinn, antes de ir, me dê noticias de sua mãe! Ela só deu noticias há três dias atrás, o que ela está aprontando na Itália? –perguntou a morena.
-Bem, ela deixou Florença há três dias exatamente, e está em Milão, vai voltar para Lima e depois disse que vai para a Ásia, dá pra acreditar nisso? Depois que ela ganhou a disputa judicial... perdi minha mãe para o consumismo –revirou os olhos.
-Ah, ela está mais do que certa, acho que chegou a hora dela ser livre... –sorriu olhando para o relógio do computador. –Amor, tenho que almoçar logo, tenho aula agora a tarde e se me atrasar...
-Vá lá, hoje a noite eu te ligo, certo?
-Hm, hoje vai ser difícil, Quinn... tenho uma palestra importante e...
-Tudo bem... e amanhã? –perguntou ansiosa, fazia tempo que não tinham certa intimidade e liberdade.
-Amanhã só chego por volta da meia noite... –Rachel mordeu o lábio preocupada. –Olha, tenho que ir, se der eu te ligo, beijo, eu te amo!
Quinn não teve sequer a chance de dizer que a amava, Rachel havia desconectado. Era essa uma das horas que mais odiava no fato de estar tão longe, falta de contato humano. Falta de olho no olho. Falta de poder sentir de verdade.
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