As If Magic Exists
6 Chapitre ♦ 6
Notas iniciais
espero que gostem do capítulo grandinho e cheio de revelações importantes ÇÇ
agradecimentos especiais pra Mio, pra Vivi, pra Yuu e pra Aki ♥
Chapitre ♦ 6
Não muito tempo depois que eu havia corrido me esconder, Yuu voltou, me chamando. Saí de meu esconderijo e fui até ele. Eu nunca tinha visto ele com aquela cara. O moreno parecia extremamente raivoso, e ao mesmo tempo prestes a chorar.
– O que houve...? – Perguntei, assustado.
– Nada... – Ele respirou fundo. – Desculpa Kou, mas hoje vamos ter que cancelar a aula. Só vou tomar banho e ir deitar, pode ir comer se quiser.
Concordei com a cabeça sem falar nada. Depois que ele relaxasse eu perguntaria...
Eu tinha medo de falar com pessoas estressadas, melhor esperar ele se acalmar mesmo, ou eu poderia deixá-lo pior...
Jantei sozinho e voltei pro quarto. Yuu ainda não havia voltado, então peguei meus materiais e fiquei estudando sozinho. Es estava conseguindo decifrar frases agora e quase morrendo de felicidade por isso. Quando Yuu apareceu eu estava concentrado e empolgado com meus exercícios de leitura. Ele entrou silenciosamente no quarto pra não me atrapalhar e se jogou na cama, cansado. Fechei o livro e me virei pra ele.
– Se sentindo melhor...? – Perguntei, hesitante.
– Um pouco, eu acho... – Suspirou, deitado de braços abertos olhando pro teto.
Se minhas suspeitas estiverem certas e a paixão dele for o inspetor tenho certeza que é por isso que ele ficou assim, e provavelmente é por eu estar atrapalhando os dois.
– Ele sabe que você está aqui, Kou, ele sabe que eu estou mentindo, ele só está esperando conseguir uma prova pra avançar... – Enfim revelou. Senti meu sangue congelar.
– Como? Como ele sabe...?
– Ele descobriu sozinho por causa de um detalhe... e eu não consegui revidar, ele tomou meu silêncio como confirmação...
Saí da escrivaninha e sentei na cama, ao seu lado.
– Tudo bem Yuu... não foi culpa sua, não fique assim, é só nós tomarmos cuidado e não darmos chance pra ele conseguir o que quer...
– Ele disse coisas tão horríveis que eu passo mal só de pensar... – Declarou. Sua voz estava tão cansada e sofrida, queria poder consolá-lo.
Quando cheguei eu realmente não me importava com nada e achava que a morte seria uma dádiva pra mim, mas agora eu me importava, por ele, que se tornou meu único e mais importante amigo. Sabia que se eu dissesse que não me importava ele ficaria mal por isso.
– E tem outra coisa... – Ele continuou, me olhando preocupado, e se sentou na cama, de pernas cruzadas, de frente pra mim. – Eu não sei se você sabe, ou se eu posso perguntar...
– Pode perguntar qualquer coisa, eu respondo...
– Não quero te deixar mal por ter que lembrar dela...
– Tudo bem Yuu, eu estou conseguindo superar, graças a você. – Admiti, com um sorriso tímido de gratidão. – Sempre pode perguntar o que quiser, sobre qualquer coisa.
– Ok... fico feliz por estar conseguindo ajudar... então... hm, Kou... – Respirou fundo. – Qual a relação entre a sua irmã e o inspetor...?
Ah.
Ah, sim...
Claro, só podia ser isso...
Desde o choque do acidente eu havia me esquecido disso quase completamente.
E agora ele deve ter ficado sabendo e está sofrendo por isso, por seu amado Matsumoto ser doentiamente apaixonado por ela...
– É uma história complicada... – Foi minha vez de suspirar. – Tem certeza que quer ouvir isso...?
– Claro que sim! Meu deus, então é verdade...? Eu... não fazia ideia...
– É o seguinte... o inspetor sempre foi perdidamente apaixonado por ela, desde sempre. Ele não ia assistir nossos shows só pra reclamar e fazer seu trabalho, ele ia pra assisti-la. E quando reclamava da estrutura e era estúpido comigo como sempre era porque realmente se preocupava com a segurança dela... só que eu, como foi provado, não dei atenção aos avisos e ele estava certo. Então, um dia... ele juntou coragem e foi conversar com ela depois do show... ele acha que eu nunca soube de nada, mas ela me contou tudo depois. – Respirei fundo, aguentando o peso das dolorosas lembranças a cada palavra.
– Ele fez uma proposta pra ela, de que se ela se casasse com ele, ele daria uma vida maravilhosa pra ela, e todos os meios para ela realizar seu sonho de ser bailarina, e garantiria um bom lugar pra eu morar também. Deu o prazo de um mês pra ela decidir se aceitava ou não. Ela me contou tudo isso desesperada, era uma proposta realmente tentadora e outra oportunidade como essa nunca apareceria na nossa frente... então ela começou a fingir que estava apaixonada por ele também enquanto decidia se valia a pena casar com alguém que ela não ama por... dinheiro. Eu disse para ela que escolhesse o que quisesse, não interferi. – Fiz uma pausa, lembrando de tudo aquilo, que parecia ter acontecido há centenas de anos. – O que foi que ele te disse?
– Que ela era noiva dele...
– Eu nunca cheguei a ficar sabendo qual foi a decisão dela... o prazo dele acabava três dias depois do dia do acidente... ele também nunca vai ficar sabendo... Claro que, eu sabia que se ela aceitasse, ele pegaria ela e sumiria do mapa. Não cumpriria a parte da promessa sobre mim. Mas não falei nada disso pra ela, pois sabia que se ela aceitasse ela finalmente teria a vida que merecia, e ver ela feliz era o meu maior sonho... independente de como eu ficaria, se ela casasse com o inspetor tudo ficaria bem. Eu estava torcendo pra que ela aceitasse, até a incentivei...
Era a primeira vez que eu colocava isso pra fora, então estava ficando um pouco abalado pela volta daqueles sentimentos. Lembrar que me menti pra ela sobre meus motivos fez eu me sentir extremamente mal e meus olhos se encheram de água.
– Ei, Kou... se quer minha opinião... – Começou, tão solidário. – Acho que não ficaria tudo bem não, ela não conseguiria ser feliz longe de você e sem saber como você está... por favor não se culpe por isso...
– Não consigo não me culpar Yuu, me desculpe... eu menti pra ela, de qualquer jeito...
– Você só queria o bem dela, não fique pensando assim... – Ele ergueu meu rosto com as pontas dos dedos e me fez olhar em seus olhos.
O puxei para um abraço porque eu realmente estava precisando de um. Meu coração doía fisicamente, apertado. E só ele me fazia melhorar.
– Obrigado Yuu... e me desculpe se eu estiver atrapalhando... – Falei com o rosto escondido no seu ombro.
– Atrapalhando o quê? Por favor Kou, não fale assim, sabe o quanto eu me preocupo com você...
– Você e o inspetor, eu quis dizer...
– Hein? – Perguntou, confuso.
– Por minha causa você tem que afastar ele...
– Kouyou você tá bem? Eu juro que não estou entendendo o que você tá falando.
– Sua paixão não é o Matsumoto?
Ele me encarou arregalando os olhos como se eu tivesse acabado de dar um tapa na cara dele.
– O QUÊ? Você tá louco Kou? – Colocou a mão na minha testa para ver se eu não estava com febre.
– Como assim? Não é?
– Mas é ÓBVIO que não! Você até me assustou com uma ideia dessas, credo... – Respirou fundo.
– Então eu não estou atrapalhando? Que bom... – Sorri, me senti mais aliviado.
– Ah Kou, se você soubesse... – Ele riu, olhando pra longe. Depois bagunçou meus cabelos com um carinho.
– Quem é então? Eu não faço ideia... – Juntei coragem pra perguntar.
– Eu não posso contar, Kou... tenho muito medo de perder essa pessoa...
– Hm, tudo bem... mas me conte um dia, talvez eu possa ajudar...
– Talvez, um dia... – Ele sorriu de leve, dando de ombros, conformista.
Realmente eu não fazia ideia de quem poderia ser.
Ficamos em silêncio por um tempo.
– Bem, acho que estou me sentindo melhor mesmo, vou comer alguma coisa, já volto... e estava estudando então? Encontrou alguma dificuldade? — O moreno falou, se levantando e se espreguiçando.
Percebi em como eu magicamente estava me sentindo melhor também, mesmo depois do dolorido desabafo.
– Não, tudo certo, estou conseguindo aos poucos. Até depois Yuu.
Ele saiu e eu voltei pros livros.
Lendo aos poucos, sílaba por sílaba, eu estava conseguindo. Algumas palavras eram meio complicadas então eu as sublinhava e depois ele me ajudava a decifrá-las e entendê-las.
Estava tudo muito bem nessa minha nova vida. E a cada dia mais eu gostava de Yuu.
。。。
Quando menos percebi, mais um mês havia se passado.
Já fazia praticamente dois meses desde que minha vida virou de cabeça pra baixo e eu havia vindo parar nas mãos de Yuu.
Eu estava muito feliz, conseguindo ler direito, conseguindo escrever um pouco, me divertindo com a companhia de Yutaka quase todas as noites e muito apegado ao moreno que me acolheu. Minhas crises estavam diminuindo de frequência, mas não de intensidade. Já era um progresso, de qualquer jeito...
A única coisa particularmente ruim que estava me incomodando era: o inspetor não havia mais aparecido.
Eu ficava com medo sobre o que ele poderia estar panejando e o por que dessa ausência. Certamente era uma calmaria antes da tempestade, e eu podia ver que Yuu estava incomodado com isso também, mesmo que não tivesse falado nada. Eu continuava dormindo no quarto dele pra garantir minha segurança.
Sobre Yuu, eu ainda não tinha descoberto nada sobre quem seria a pessoa que ele amava tanto.
Se ele tinha algum outro amigo ou conhecido, nunca tinha vindo o visitar nem nada.
A não ser que fosse, sei lá, o padeiro. Afinal ele saía fazer compras todo dia e eu não podia acompanhá-lo, então não sabia o que ele fazia no mundo lá fora.
Na verdade, agora eu tinha um novo suspeito: Yutaka.
Talvez fosse por isso que ele ficava com tanto ciúmes quando eu estava com ele. É, se não era o inspetor só podia ser ele... talvez eu devesse pensar num jeito de ajudar os dois... Yuu ficaria tão feliz e eu devia tanto pra ele, ajudar nisso seria o mínimo que eu devia fazer...
Achei que Yutaka não fosse aparecer naquela noite, mas faltava menos de uma hora pra fecharmos quando ele apareceu. E fazia dias que já não vinha, eu estava até começando a ficar preocupado pelo sumiço. Vi que ele entrou e começou a procurar por mim, não por livros, então fui até ele.
– Oi- – Comecei, mas fui interrompido ao ficar surpreso por ele simplesmente me abraçar. – Meu deus, o que houve, você tá bem?
Fiquei realmente preocupado, ele nunca tinha agido assim. Acima de tudo estava sempre sorrindo, ou lendo. Nunca havia parecido tão... frágil, ou triste assim.
– Desculpa Kou, eu não estou muito bem... só queria sua companhia mesmo...
Com o canto do olho eu via Yuu nos fuzilando com o olhar, por trás de seus óculos que o deixavam tão bonitinho e inteligente.
– Vem, vamos ali naquele sofá... – Levei ele para um canto mais reservado e deixei que deitasse a cabeça no meu ombro. – O que aconteceu? Quer conversar...?
– Não... desculpa, não quero falar, realmente não estou bem, só quero... um pouco de paz... obrigado por estar aqui Kou, você é meu único amigo...
– Tudo bem ne, sem problemas, apenas respire fundo e tente descansar... – Passei a mão por seus cabelos, em um gesto de carinho. Pela sua expressão ele parecia prestes a desabar. – E não precisa agradecer, bobinho... se quiser falar, ou precisar de qualquer coisas, eu vou estar aqui pra ajudar você...
Ele concordou com a cabeça me lançando um olhar de profunda gratidão e então se aninhou em mim, fechando os olhos.
Aquele garoto era muito importante pra mim. Eu não fazia a menor de ideia de como ou porquê ele tinha acabado naquele estado hoje e estava realmente preocupado sobre isso. Não era como se ele não confiasse em mim pra contar, na verdade parecia que era alguma coisa que realmente machucava ele... assim como era com as coisas que Yuu não contava...
Cuidei dele desse jeito por um bom tempo, até que Yuu apareceu com uma cara feia me procurando e eu o mandei embora para não incomodar o menor que finalmente parecia mais calmo.
Achei que ele estivesse quase dormindo, mas então se mexeu e se sentou direito, esfregando os olhos com as mãos.
– Não quero te atrapalhar Kou, você devia estar trabalhando, e já está quase na hora de fechar mesmo, melhor eu ir... – Falou baixinho, mas parecendo mais sereno do que quando havia chegado. Realmente eu esperava que eu tivesse conseguido ajudar meu amigo com alguma coisa.
– Não está atrapalhando, oras. Mas acho melhor mesmo você ir pra casa, comer alguma coisa e tirar uma boa noite de sono. Você consegue ir sozinho? Se eu pudesse eu te acompanhava...
– Acho que sim. – Sorriu, cansado. – Você me faz sentir muito melhor, parece até... mágica. Obrigado por tudo Kou, e não fique se preocupando por favor, tá tudo bem... – Me abraçou mais uma vez se despedindo e saiu caminhando lentamente até saída.
Levantei e dei a volta na estante que ficava ao lado do sofá, sabendo que encontraria o outro moreno ali.
– Conseguiu estragar tudo né? Não viu que ele tava mal? Eu sei que você tem ciúmes, mas Yuu, por favor... – Olhei repreensivo pra ele que estava de braços cruzados encostado na estante.
– Desculpa Kou, às vezes é mais forte do que eu... – Ajeitou os óculos e olhou pra qualquer lado, me evitando. – O que houve com ele?
– Não sei, ele não quis me contar, mas foi alguma coisa muito séria pelo estado que ele chegou aqui... – Suspirei. – Vê se controla esse ciúmes, prometo ficar longe dele quando não é necessário se isso te incomoda tanto.
Ele me encarou um tanto surpreso, franzindo o cenho. Talvez tivesse percebido que eu sabia. Ah Yuu, você é sempre tão óbvio...
– Hmm... vou ali encerrar as coisas, já quer ir arrumando as coisas pra me esperar pra aula?
– Certo, de espero no sofá de sempre. – Concordei e me afastei.
Metade de mim estava preocupado com Yutaka e a outra metade sobre o ciúmes de Yuu. De qualquer jeito eu estava atrapalhando, sempre atrapalhando, Kouyou sempre atrapalhando a vida dos outros ficando parado no meio do caminho feito um babaca.
Peguei nosso livro, o livro em branco onde eu anotava as palavras difíceis que eram intricadas de ler ou escrever, e a caneta e o tinteiro que usava pra isso. Me sentei no sofá cruzando as pernas, depois de tirar os sapatos, e esperei por Yuu que estava trancando a porta de frente, depois dos últimos funcionários terem ido embora.
Agora que eu já estava conseguindo ler razoavelmente bem, Yuu escolheu um livro pequeno e de leitura fácil, e a cada noite líamos um capítulo juntos. Eu lia em voz alta até onde conseguia, e quando cansava ele continuava pra mim, e assim seguíamos nos revezando.
Era um livro diferente de todos os outros nas estantes da biblioteca, era um livro meio que especial, de capa vermelho escura com o título em dourado. Todo ele era escrito à mão com uma letra impecável e linda, e Yuu parecia ter um carinho especial por ele.
Aquele livro era uma história meio que de contos de fadas, que se passava na época de reis, rainhas e castelos. O personagem principal era um menino que fora criado como menina pela sua mãe por vários motivos, e ele não sabia nem tinha como saber que não era uma menina na verdade. Um dia o Rei morre e seu filho precisa escolher uma esposa, para casarem e serem coroados, e esse menino, que sempre foi apaixonado pelo príncipe desde pequeno, acaba sendo escolhido, por causa de sua família.
A história era engraçada em alguns pontos e triste em outros, eu estava simplesmente amando. Eles acabam casando e um longo tempo passa, só que o rei não dá atenção pra ele do jeito que nosso menino mimado quer. Porém, chega o dia em que o rei tem que ir ajudar o reino vizinho numa batalha, e aí nosso “rainho” quase entra em depressão e vira quase um alcoólatra enquanto espera ele voltar, de preferência vivo. Acaba que numa situação imprevista e até engraçada, seu amigo acaba descobrindo que a rainha na verdade é um homem, e conta isso pra ele, que entra em crise mais ainda. Começa achar que quando o rei voltasse e descobrisse que na verdade ele não era uma mulher, ia ficar com nojo dele ou alguma coisa assim. O capítulo 7 havia acabado na parte em que o rei finalmente volta pra casa, meses depois, e o outro, bêbado, o esperava na cama só de calcinha.
Hoje íamos ler o capítulo 8 e eu mal podia esperar pra saber o que ia acontecer. Yuu se recusava a me contar, então eu ficava muito ansioso.
Achei peculiar o fato de o livro ser um romance homossexual. São permitidos livros sobre isso? Ou existe algum mercado negro pra esse tipo de coisa proibida?
Me sentei no nosso sofá de sempre e esperei Yuu chegar para nossa aula. Pensativo, acariciei a capa macia do livro e notei uma coisa – não havia nome do autor na capa. Nem na lombada, nem nas páginas iniciais.
– Quem escreveu esse livro? – Perguntei quando ele chegou, limpando seus óculos enquanto se acomodava ao meu lado.
– Hã? Ah, hm... hm... um conhecido... – Falou, distante. E então mudou de assunto rapidamente. – Vamos começar?
Concordei com a cabeça, abrindo o livro na parte onde havíamos parado na noite anterior e me preparando para ler pra ele. Eu demorava um pouco pra ler e às vezes me enrolava, mas aquele era um ótimo exercício.
E eu sabia que eu estava gostando tanto daquela pequena história porque... hm... em algumas partes... eu... meio que... estava me identificando com o personagem principal. Ele expressava tão bem seus sentimentos, e quando descrevia o que ele sentia sobre o seu príncipe... eu... começava a perceber que... talvez, de algum jeito... eu sentia as mesmas coisas...
Como eu não sabia nada sobre paixão ou amor, aquele narrador estava me ensinando muita coisa ao descrever o que sentia.
Por exemplo, nesse trecho: “Ele, ali, vivo, na minha frente. Era só isso que eu pedia. E foi assim que eu confirmei que realmente o amava. Eu não estava apaixonado. Aquilo era amor. Eu ansiava por sua segurança, por sua vida, por sua felicidade. Nada relacionado a me satisfazer.”
Bem eu ansiava pela segurança de Yuu, mais do que a minha, por sua vida igualmente, e sua felicidade acima de tudo. Mas esse também podia ser o conceito de... amizade, não podia? E... sobre me satisfazer... bem, eu não podia negar que de vez em quando me sentia... fisicamente atraído por ele... mas isso é besteira...
Quer dizer... eu não estava sentindo nada estranho ou diferente por ele... e-eu acho...
Percebi que ele me olhava pacientemente esperando eu começar a ler, mas em vez disso eu estava encarando o livro feito um idiota e pensando nessas coisas idiotas. Acorde Kouyou. Não fique nervoso por ele estar tão perto de você ou por ele ficar tão lindo de óculos...
Respirei fundo e comecei a ler.
Consegui me esquivar daquelas ideias esquisitas até que cheguei nessa parte: “E aí vinha o verdadeiro problema. Até hoje eu não havia pensado nisso direito. Eu era um homem e amava outro homem.
E na nossa única e absoluta realidade religiosa esse era o pior pecado. Uma coisa inconcebível e digna do inferno. Se alguém descobrir isso, imediatamente sentenciarão minha morte.
Mas a culpa não era minha. Eu simplesmente o amava e desejava sua felicidade junto comigo. Por que isso é errado? Por que amar uma pessoa é tão errado quanto matar? Só porque eu não era mulher? Até agora não achei uma explicação pra isso.”
Hoje em dia as coisas não mais tão rígidas assim, mas não era tão diferente. E por Yuu já ter me falado que gostava de homens eu encarava bem mais naturalmente que o personagem. Quer dizer, se eu me apaixonasse por Yuu não teria problema... tirando o fato de ele já estar apaixonado por outra pessoa há muito tempo e que eu nunca teria uma chance...
Espera aí, se eu estou considerando essa possibilidade será que eu também gosto de homens? Mas enfim... por que eu estou pensando essas coisas idiotas mesmo?
Retomei o foco e comecei a ler, me concentrando, fingindo que nada tinha acontecido, ignorando o fato de eu ter ficado com cara de idiota por vários minutos enquanto ele esperava eu recomeçar.
Fui lendo com calma, sendo ajudado por ele em algumas partes, até que me deparei com um trecho interessante novamente.
“Sem dúvidas, eu amava ele, isso não mudaria de jeito nenhum daqui pra frente. Mas e o que ele sentia? O que ele faria, como reagiria?”
Digamos que... só por uma hipótese, uma mínima e absurda hipótese, eu, bem, hm... me percebesse apaixonado por alguém. E que por um incrível acaso essa pessoa fosse o homem gentil, carinhoso, lindo e inteligente sentado ao meu lado... como ele reagiria se soubesse?
Comecei a me perguntar loucamente as mesmas coisas que o personagem. Aquilo de algum jeito mexia comigo e me deixava realmente inquieto, com o coração pulando dentro de peito de excitação. E se? E se...?
– Kouyou você está bem? – O moreno perguntou preocupado, me despertando do meu súbito caos mental. – Quer parar?
– N-não, está tudo bem, já vou continuar... – Nem me lembrava como se falar.
Aqueles pensamentos estavam me perturbando e muito. Muito mesmo.
Certo, eu não sabia o que era estar apaixonado porque eu nunca tinha estado assim antes.
Mas o personagem estava apaixonado e eu me identifiquei com ele.
Então isso significava... que eu...?
MEU DEUS ISSO NÃO PODE SER VERDADE.
Desespero.
Oh, só desespero na minha cabeça.
Yuu? É isso mesmo? Eu estava apaixonado... por ele?
Oh céus isso é errado em tantos níveis, ele já ama alguém, eu vou sofrer muito se deixar esses sentimentos se alastrarem por mim.
Por quê? Por que isso? Como eu fui deixar uma coisa dessas acontecer?
– Kou...? Tem certeza que você está bem...? – Ele me chamou de novo, preocupado com meu silêncio.
Percebi que eu estava tremendo e que minha expressão estava tomada de pavor.
– Ah Yuu, eu realmente não sei... – Gemi, a voz saindo fraca.
– O que houve...?
– Eu... ah... eu... estou me sentindo estranho, pensamentos estranhos, eu... eu não consigo nem olhar pra você... – Me desesperei escondendo o rosto nas mãos.
Então era isso, eu estava apaixonado por meu melhor amigo, pelo homem que me salvou e me deu uma nova vida... Ele era o meu príncipe, assim como o do garoto da história era pra ele...
Ele ficou em silêncio e sem se mexer. Ainda bem, porque era tudo o que eu queria.
Tentei me concentrar e colocar tudo de volta no lugar.
Impossível, muita confusão e meu cérebro discutindo com meu coração dançante.
Depois do que me pareceu um longo tempo, eu simplesmente falei sem pensar.
– Yuu... digamos que, se seu coração já não pertencesse a outra pessoa... eu teria, em alguma remota possibilidade, uma chance?
Percebi o tamanho da minha idiotice assim que aquelas palavras saíram da minha boca. Você está louco Kouyou? Quer estragar tudo se confessando sem querer? Há uma hora atrás você nem desconfiava disso.
– Hã? O que você quer dizer com isso, Kou...? – Perguntou, um tanto hesitante. Eu olhava pra baixo, sem coragem de encarar seus olhos.
– Se algum dia você desistir dessa pessoa... eu poderia ter alguma possibilidade... quer dizer... você me acha atraente ou alguma coisa assim? Ah, esquece, esquece, por favor...
Kouyou seu TREMENDO IMBECIL. Por que falou isso? POR QUÊ?
Dessa vez ele percebeu.
Olhei rapidamente pra ele e então voltei a esconder o rosto nos joelhos dobrados, completamente encolhido e com vontade de me jogar de uma ponte. Ele me olhava completamente assustado, como se tivesse acabado de levar um soco.
– Ah Kouyou, se você soubesse... – Sussurrou, ainda pasmo.
Seus dedos encontraram meu rosto e fizeram eu me virar em sua direção.
E antes que eu tivesse um segundo sequer para esquivar ou pensar, ele me beijou.
Simples assim.
Yuu me beijou e quase me matou do coração por isso.
Seus lábios fartos e macios pressionados contra os meus com o maior carinho do mundo, e eu só percebi o quanto eu ansiava por aquilo naquele momento, o quanto eu havia reprimido todos aqueles sentimentos até que descobri o nome deles.
Completamente derretido eu aproveitei os poucos segundos que duraram o leve tocar de nossos lábios, mas em vez de deixá-lo se afastar, o puxei pra mais perto pedindo por mais (que egoísta eu, ele amava outra pessoa e eu o obrigando a fazer mais um ato de caridade por mim).
Nossas línguas se encontraram, aprofundando o beijo com calma, e parecia que meu coração ia partir meu peito e sair correndo dele gritando feito uma menininha.
Quando eu percebi, havia acabado. Eu respirava rapidamente, ainda aturdido pela experiência. Yuu olhava no fundo dos meus olhos.
– Você não sabe há quanto tempo... eu queria isso... – Sussurrou de um jeito quase inaudível, e então me abraçou.
E aquele foi um abraço completamente diferente de todos os abraços que dêmos nos últimos dois meses.
E então, como uma torneira pingando que finalmente silencia, minha mente se esclareceu e eu entendi... que o tempo todo, a pessoa sobre quem ele falava... era eu.
Não existem palavras o suficiente em nenhuma língua pra descrever esse choque.
Yuu era apaixonado por mim há anos e eu só percebi agora.
– Yuu... então... era eu? – Perguentei baixinho, quase chorando de felicidade.
– Sim, o tempo todo, sempre foi você, mesmo antes de eu te conhecer como conheço agora, você simplesmente se adonou do meu coração assim que eu coloquei os olhos em você pela primeira vez, Kouyou...
Me afastei do abraço e olhei diretamente em seus olhos. Era verdade. Tudo o que ele estava dizendo era verdade e pra mim parecia quase impossível de acreditar. O que diabos ele via em mim? Um magrelo, sem graça, cheio de problemas que mal sabe ler?
– Acho que está hora então de você me contar sobre como você me conhece... – Sugeri, sorrindo timidamente.
– Meu deus isso parece um sonho Kou, eu mal consigo respirar... – Ele sorriu também. – Teve alguma coisa a ver com o livro...?
– Sim, foi tudo graças ao livro. – Confessei. – Aquele garoto me mostrou que o que eu sentia sobre você era muito mais do que amizade e gratidão...
– Antes de tudo acho que gostaria de saber então que... o autor desse livro sou eu... – Ele riu, ficando sem jeito.
– O-O quê!? É sério! Yuu você é incrível! – Fiquei realmente surpreso.
– Sim... e agora você é a única pessoa além de mim que sabe dele e que já leu ele... – Sorriu, envergonhado. – E acho que realmente chegou a hora de contar... é tudo muito simples na verdade, mas ainda é complicado pra mim, ter que falar sobre ela...
Ela quem?
– A verdade é que minha mãe era sua fã número um. Passeando pela rua um dia ela viu de longe sua apresentação e se encantou completamente. E a partir daquele dia, em que ela descobriu que uma vez por semana você e sua gêmea faziam aquele espetáculo naquele lugar, ela me pediu pra levá-la até lá.
Foi me contando lentamente, como se pensasse muito antes de formular cada frase. Timidamente, coloquei minha mão sobre a sua, como que dando força para ele continuar.
– Ela já estava muito velhinha e doente naquela época, então eu atendi seu pedido e a levava na sua cadeira de rodas até lá. E digamos que, bem... – Ele riu baixinho. – Tal mãe, tal filho, eu também acabei me encantando por você...
– Uma senhora numa cadeira de rodas...? Sim, eu me lembro! O sorriso dela era maravilhoso... e ela sempre estava acompanhada de um homem de chapéu... meu deus era você...?
– Exatamente... ela pedia para ir todas as semanas, e eu ia com ela com muito prazer por que, como agora você já sabe, eu estava apaixonado por você... pelo jeito que você colocava mágica na vida das pessoas, em cada sorriso e olhares maravilhados que eu via ao meu redor, não apenas o da minha mãe, mas de todos... eu sempre te admirei por ter tanto poder... por deixar as pessoas felizes...
– E... – Continuou. – um dia ela estava realmente mal e o médico me disse que ela não tinha muito tempo... mas era dia de show e ela também sabia que ela não teria mais do que um dia de vida... e seu último pedido foi ver uma última apresentação sua.
Yuu se calou por um longo período de tempo. O abracei com força. Sabia como era difícil falar sobre pessoas que já não estão mais entre nós...
– Eu sou eternamente grato a você Kouyou, por sua causa ela faleceu com um sorriso no rosto... naquele dia no final da apresentação você entregou uma rosa pra ela... eu nunca vi ela tão feliz... muito obrigado... eu devo tudo a você por isso... – Ele não chorou, apenas me olhou nos olhos do jeito mais profundo que eu já havia sentindo. De um jeito que me deixou quase me sentindo culpado por ter abandonado minha profissão. Seu olhar dizia “você pode não perceber, mas a vida das pessoas depende de você às vezes”. – E quando ela se foi, deixou a biblioteca pra mim como herança, e o resto você já sabe, dois anos de solidão até que meu anjo caiu na minha porta com as asas quebradas e eu tratei de cuidar dele...
– Eu não sei o que dizer Yuu, eu não fazia ideia... eu... – Eu estava à beira de lágrimas por ele, emocionado.
– E se eu já era apaixonado por você só de vê-lo de longe, imagina depois de te conhecer e descobrir que você é essa pessoa incrível... – Ele voltou a sorrir. – Assim como o inspetor ia lá todas as vezes pra ver a Carrie, eu ia pra ver você.
Era tanta informação que eu cheguei a ficar tonto.
Simplesmente inacreditável...
Com os dedos trêmulos, toquei seu rosto levemente, e ele fechou os olhos apreciando meu toque. O beijei novamente.
Era possível se sentir tão feliz assim?
E eu então aconteceu a última coisa que eu esperava que acontecesse: bateram na porta.
– Ah meu deus... – Gemi, desapontado por estarmos sendo interrompidos justamente naquele momento tão importante de nossas vidas.
– Sabia, tava bom demais pra ser verdade, uma hora ou outra ele ia voltar... – Yuu suspirou pesaroso também. – Espero que não tome muito tempo... aula encerrada por hoje? – Riu sem jeito, com um olhar cúmplice.
– Sim meu professor, te espero no quarto... – Sorri e selei meus lábios com os seus antes de levantar, totalmente contra minha vontade, e ir me esconder na sua casa como sempre.
。。。
Maldito Matsumoto, esse realmente sabe estragar o dia de alguém. Aparecer depois de um mês inteiro justo no momento mais importante da minha vida? Eu mal podia ficar sabendo que meu sentimento pelo loiro era correspondido e tinha que vir alguém nos atrapalhar?
Esperei que Kouyou estivesse a uma distância segura e fui até a porta, me demorando pra achar a chave, afinal eu ainda estava abalado por confessar tanta coisa de uma vez só.
– Boa noite, inspet- – Comecei, mas minha voz sumiu ao ver que não era ele, e sim um homem igualmente loiro, mas da minha altura. – Quem é você?
– Acho que gostaria de ouvir o que eu tenho pra falar, Shiroyama Yuu. E do lado de for a certamente não é o lugar certo pra isso. – O homem falou, num tom baixo, para que apenas eu ouvisse.
Quem diabos era esse sujeito misterioso se convidando pra entrar tão tarde da noite?
–Hã, hm... ok, entre. – Deixei que ele entrasse e fechei a porta.
– Eu sei quem você está escondendo aqui. – Foi direto ao ponto.
Era só o que me faltava, mais um querendo chantagear...
Antes que eu abrisse a boca pra retrucar, ele continuou.
– Não negue. Não é necessário, eu sei que sim, e sei sobre tudo. Sou Suzuki, mordomo do inspetor, e digamos que ele tem uma hóspede realmente parecida com o seu refugiado.
Um longo silêncio se estendeu. Se aquilo fosse verdade, era a segunda bofetada na consciência que eu estava levando naquela noite surreal.
– Sim, ela está viva, mas não por muito tempo, e eu quero que você me ajude a pensar num jeito de fazer os dois se reencontrarem antes que isso aconteça.
Notas finais
por favor me desculpem pela demora, eu sou uma escritora irresponsável e dessa vez fiquei realmente sem tempo e sem vontade escrever ;u; também não tive tempo de responder os reviews, me desculpem ;U;
espero que tenham gostado cap, como eu disse, daqui pra frente que a porra fica interessante... e me desculpem se esse ficou ruim mas foi realmente turbulento pra escrever ;u;
muito obrigada por todos os reviews! amei cada um deles e foram ele que me deram forças pra terminar o capítulo finalmente!
continuem comentando por favor e não desistam de mim ;u; ♥
até o próximo, começando com pov do reita e mais informações reveladas ♥
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