As If Magic Exists

3 Chapitre ♣ 3


Notas iniciais
agradecimentos pra minha Aki que me ajudou com o capítulo mesmo doentinha e de cama ♥ te amo minha Kouyouya, muito obrigada pelo apoio ♥
LEIAM: POV EM ITÁLICO NO COMEÇO É DO YUU, TCHÊ -Q *tapa* pra vocês que não leem as notas depois ficam perdidas e3e ~

Eu acolhi aquele homem sem pensar duas vezes, porque mesmo que ele não soubesse, eu estava em dívida com ele. Deixava-me feliz que ele por alguma obra do destino tenha ido parar na minha porta, e eu daria tudo que ele precisasse — abrigo, comida, companhia, e mesmo isso não seria o suficiente pra quitar minha dívida. E pelo visto ter sua companhia seria agradável, por mais que eu gostasse de ficar sozinho.


Chapitre ♣ 3
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Acordei cedo, mas não encontrei Yuu na cozinha. Então voltei pro meu quarto e fiquei lá esperando ouvir algum movimento. Era difícil tentar aceitar levar uma vida “normal” a partir de agora, e com tanto conforto, e meu coração doía de saudade. Nunca seria fácil abandonar meu passado da noite pro dia, e era simplesmente impossível tentar esquecer as partes ruins. Enquanto isso, as lembranças boas de mim e minha irmã juntos, tantos momentos, tantos anos, ficavam se debatendo na minha mente, gritando pra mim sobre o quanto eu era feliz e não sabia só por ter minha irmã ao meu lado.


Fiquei por ali encolhido na cama, esperando, mas cada segundo na companhia daquelas lembranças e sentimentos durava uma eternidade. Eu só queria que Yuu aparecesse logo pra me dar algum trabalho pra fazer, assim eu manteria minha mente ocupada.


Aliás, me incomodava um pouco chamar tão intimamente um homem que eu nem conhecia direito, me incomodava a ponto de me deixar constrangido, eu queria chamá-lo de senhor Shiroyama, mas eu mesmo havia dito pra ele me chamar de Kouyou, então...


Olhando ao redor, percebi os detalhes do quarto pela primeira vez. O papel de parede antigo e bonito, cheio de detalhes, o pequeno armário de quatro gavetas, a pequena janela na parede da direita. Levantei-me e fui até a janela, afastando a cortina e espiando o lado de fora. Dava pra uma rua estreita, afinal ali eram os fundos. Não havia ninguém passando por ali àquela hora, a única forma viva era um corvo que pulava de lá pra cá catando restos de lixo no chão. Estava tão concentrado assistindo a vista que me sobressaltei quando ouvi o barulho de passos estalando o chão de madeira do corredor.
Saí do quarto rapidamente e o encontrei a caminho da cozinha.


– B-Bom dia. — Cumprimentei-o com uma reverência, nervoso de algum jeito.
– Bom dia. — Ele sorriu de volta. — Acordou cedo Kouyou.
– Sim... estou ansioso pra trabalhar, me manter ocupado. — Respondi, tentando evitar seu olhar. Por que seus olhos analíticos me deixavam inseguro?
– Mas hoje é domingo... — Ele comentou, e minha cara deve ter sido de muito desapontamento, porque ele logo mudou de expressão. — Ok, vamos tomar café da manhã primeiro, depois eu arranjo alguma coisa pra você se ocupar.
Só então reparei que ele trazia uma sacola de papel na mão, e um jornal enrolado apertado contra o corpo.


– Saí pra comprar algumas coisas e voltei agora, rrr, está bem frio lá fora. — Falou enquanto nos dirigíamos ao aposento. — Trouxe mais um par de roupas pra você e pão quentinho.


A animação que ele sempre trazia na voz era tão acolhedora que quase me dava vontade de viver. Eu tinha uma sorte desgraçada de ter ido parar nas mãos desse homem tão gentil. Lembrei sobre o fato de que ele me conhecia, mas não quis especificar nada sobre isso, e deixei minha cabeça trabalhando nesse fato, enquanto também me distraía com o vapor saindo da chaleira enquanto ele preparava chá pra nós dois.


Quem visse essa cena de fora pensaria que era só mais um dia normal na vida de alguém, mas não veria toda a insegurança que eu tinha sobre estar ali, e o medo de que algo ruim voltasse a acontecer, e aí eu não teria aconchego em lugar nenhum. Tinha medo, inclusive, que Yuu mudasse sua opinião sobre mim, de algum jeito.


Eu devia estar encarando o jornal em cima do balcão com tanta força que ele quase estava vindo até mim. Yuu percebeu e perguntou se eu queria dar uma olhada.
Não soube o que dizer... eu queria olhar o jornal, mas meus pensamentos sobre isso eram muito mais profundos. Eu não podia.


Balancei a cabeça, mas ele o largou na minha frente mesmo assim. Tinha um desenho de meu rosto ocupando metade da primeira página. Eu sabia que era eu porque haviam colocado um pequeno detalhe que me diferenciava de minha irmã: eu tinha um brinco na orelha direita, ela não tinha nenhum. Duvido que eles soubessem disso, mas por tê-lo colocado ali eu podia me identificar.


– Aquele inspetor está louco atrás de você. Mandando a polícia revirar a cidade até encontrá-lo. Até os trens saindo daqui foram revistados. Ele conseguiu colocar todos contra você... — Me contou, solidário, enquanto servia o chá e preparava a comida. — E não vai descansar tão fácil.


Encarei minha xícara levemente preocupado. Qual era o problema daquele homem? Por que implicava tanto comigo, desde sempre, e agora me acusava desse jeito tão feroz?


– Mas não tem problema, não tem como ninguém encontrar você aqui, não vou deixar ninguém te encontrar. — O moreno tentou me tranquilizar. Depois ficou em silêncio.


Tive uma leve desconfiança que ele estivesse escondendo alguma coisa de mim. Será?
Comemos em silêncio. Eu, novamente, agradeci mil vezes pela comida, agradeci tanto que o deixei constrangido, não importava quantas vezes ele dissesse que não era nada, eu agradecia de coração.


Ele devia ter reparado naquela noite que me levou pra banheira o quanto eu era magro, com as costelas aparecendo, cintura fina, então estava me fazendo comer bastante, sempre insistindo.


Depois de comermos, ele perguntou sobre o ferimento na minha perna, e eu percebi que tinha esquecido ele até então, e que havia me acostumado a mancar. Yuu trocou meus curativos e passou alguns remédios novamente.


Se eu estava nervoso por ele me ver sem calças, apenas com a roupa íntima da cintura pra baixo? Sim, eu estava, e muito. Da outra vez eu mal estava consciente então nem me importei, mas agora... e logo depois de nos conhecermos melhor e ele ser tão carinhoso comigo... era no mínimo constrangedor, considerando também o fato que ele estava tocando em mim. Coisa que ninguém tinha feito até hoje, além de minha irmã (e daqueles homens que me deram dinheiro por isso, é claro, mas isso não conta...).


Sim, bem isso que você estava pensando. Nunca tive um amor ou coisa do tipo, nenhum caso, nada, nunca me apaixonei. Mas não me considere uma pessoa fria por isso... O único tipo de amor que eu conheço é o de família, nada mais, nunca tive tempo pra descobrir qualquer outro tipo, estava ocupado trabalhando pra nos manter vivos.
E mesmo ele sendo outro homem... não sei, eu ficava nervoso mesmo assim, talvez mais do que se fosse uma mulher, afinal eu estava tão acostumado com Aiko que nem importaria...


– Você está bem...? — Ele perguntou, parando o que estava fazendo. Seus orbes negros e misteriosos procuram os meus, mas desviei.


–A-ham, sim, tudo bem, só não gosto de ver sangue... — Menti. Não que eu achasse sangue agradável, mas era ele e suas mãos quentes que estavam me incomodando.


Do que eu estava com medo? De que pra mim ele começasse a representar mais da “minha nova família”? De que eu acabasse descobrindo sobre aquele outro tipo de amor, que meu pai nos contava nos contos de fadas e que minha irmã ansiava tanto, só por ele ter sido gentil comigo?


Aí eu seria um tremendo idiota masoquista, isso sim. Não preciso de mais sofrimento na minha vida, obrigado Kouyou.


Esperei que ele terminasse de cuidar do meu machucado, que estava um pouco melhor desde aquela noite.


É, seria melhor eu arranjar alguma coisa pra fazer, trabalho pesado de preferência, pra afastar tanta porcaria da minha cabeça.


–Certo... — Ele suspirou, ao terminar. — Espero que continue cicatrizando assim... de qualquer jeito você precisa tomar isso aqui...


Entregou-me um remédio e eu tomei, franzindo o cenho ao sentir o gosto amargo, mas não reclamei.


– Sei que você está louco pra se ocupar com alguma coisa então vamos direto ao ponto. Como hoje é domingo, não abrimos, então você pode circular na biblioteca à vontade mesmo sendo dia. Acho que pode começar tirando o pó das estantes, elas estão precisando, e você é alto, só um banquinho já resolve...
– Ok. Farei tudo que precisar. — Me prontifiquei, levantando.
– Não tem pressa. Venha comigo então, vou te mostrar o caminho. — Fez um sinal para eu segui-lo.


O acompanhei feito um cachorrinho através de corredores até que chegamos a uma porta diferente das outras. Era mais bonita, entalhada na moldura, e de madeira lustrosa. Devia dar direto na biblioteca. Ele tirou uma única chave do bolso. A chave era bonita como a porta, e pendurada nela através de uma fita sedosa havia um delicado pingente no formato do naipe de espadas do baralho de cartas (♠). Forma que eu conhecia muito bem de meus muitos truques com cartas... eu era especialmente rápido com elas, e adorava deixar o público encantado com isso. Encarei aquela pequena peça (possivelmente de prata), maravilhado, era muito bonita, e parecia que tinha algum encanto que prendia meus olhos nela... de algum jeito eu sabia que ela era especial para alguém. Para Yuu. Mas por que diabos eu estava achando que tinha a ver comigo?

Balancei a cabeça jogando pro lado aqueles pensamentos inúteis antes que o moreno percebesse minha cara de idiota. Ele destrancou a porta com a chave e a abriu, me dando passagem.


Como eu imaginara, a porta dava direto pra biblioteca.
E a visão de seu interior era... estonteante.

O teto alto, as paredes decoradas, as dezenas, talvez centenas de estantes majestosas enfileiradas, sob um carpete macio. Um longo corredor se estendia a minha frente. O lugar era enorme.
Eu nunca tinha entrado ali antes, apenas admirava a famosa biblioteca de fora quando passava por ali.


– É lindo... — Falei baixinho, talvez pra mim mesmo.
– Não é? – Yuu sorriu. – Venho cuidando desse lugar desde que nasci, é realmente a minha casa... amo cada cantinho desse aposento, tudo tem que estar perfeito, é mais do que meu trabalho, é a minha paixão... tanto o lugar quanto os meus amados livros. – Falou apaixonado, olhando ao redor. – Venha.


Perguntei-me sobre como Yuu tão jovem era dono sozinho de tudo aquilo mas não comentei nada, eu não tinha intimidade pra isso. Ele não devia querer me falar sobre sua vida pessoal...


Yuu seguiu reto pelo corredor principal e me levou até a parte da frente. Quase 1/4 do lugar era um ambiente reservado à leitura e ao estudo, com diversas poltronas extremamente confortáveis, mesinhas e abajures. Do outro lado, havia um grande balcão, com lugar pra pelo menos três atendentes. Atrás desse balcão ficava um arquivo de fichas e registros. Era tudo lindo ali, maravilhoso, e tão organizado...


Havia pelo menos quatro fileiras de estantes de livros, e cada uma dessas fileiras continha pelo menos dez estantes. E cada estante comportava o que, uns 500 livros? Não saberia dizer. Mas o tamanho e a quantidade de tudo eram enormes.


O outro ia me explicando isso enquanto andava. Quando terminamos o tour, ele procurou um espanador e um banquinho e os entregou para mim.


– Bem, você sabe o que fazer. Eu vou estar lá na frente, arrumando uma papelada... assim que cansar ou ficar entediado pode parar, certo? Sabe que está fazendo isso pra mim só porque quer, não por obrigação. – Seus olhos nervosos procuraram os meus mais uma vez naquele dia. Estava hesitante, talvez não soubesse como lidar comigo. Não sabia certo o que falar, pois não sabia como eu estava me sentindo depois de toda aquela confusão.


Mas eu estava bem, na verdade. Mais do que bem.


O que simplesmente significava que não estava tudo bem, porque quando esse frágil muro que eu construí no meu coração desabasse, eu estaria mal, muito mal.


Mas enquanto isso, estava tudo ótimo. Peguei o espanador de penas e o banquinho e parti pra primeira estante. Amarrei no rosto o lenço que ele me deu pra não aspirar a poeira também.


Ah, estava tudo ótimo, tudo maravilhoso, só estou fazendo meu trabalho, só tirando o pó, só tirando essa camada de pó filha da puta que se acumulou sobre a madeira, só espanando violentamente até que meu braço começou a doer, mas eu não parei, dor física era melhor que a dor se debatendo no meu coração louca pra sair e me destruir.


Espanando, espanando, espanando, espanando, espanando sem parar. Não pense em nada Uruha apenas espane esse pó. Não, Uruha não, eu não sou mais Uruha, Uruha é um assassino, sou só Kouyou agora.



A questão era: a ficha não havia caído ainda.


E eu estava segurando as pontas pra não deixá-la cair nunca. Porque quando isso acontecesse um sofrimento sem fim cairia sobre mim e a primeira coisa que eu pensaria seria em me matar.


Trabalho, biblioteca, Yuu. Vida nova. Repeti aquelas palavras como um mantra na minha cabeça e tirei o pó furiosamente, mantendo sempre a concentração nelas, não deixando meus pensamentos escorregarem para o buraco negro de dor que estava ali à espreita na minha mente. Foco no trabalho Kouyou, nada de besteiras... Se concentre...


Já devia ter passado um bom tempo desde que eu começara a limpeza. Meus olhos ardiam da poeira que eu espanava sem cuidado algum, mas eu não me importava. Meu coração fervia cada vez mais me incomodando, e eu sabia que estava sofrendo de abstinência... dela.


Como um drogado sem seu vício, eu não conseguia viver sem sua companhia. Sentia falta da sua presença a cada segundo, às vezes a chamava e começava a contar alguma coisa então percebia que estava falando sozinho e a frase ia desaparecendo no ar, inacabada. Era como se eu tivesse perdido um braço ou uma perna, era difícil aceitar que ela não estava mais ali, sempre comigo, minha companheira de nascença.


Por mais que eu não quisesse a ficha estava começando a cair e eu não poderia segurá-la sozinho.


–Yuu... – O chamado baixinho escapou de meus lábios. Um chamado de socorro, que não saíra direito, pois em meu peito eu gritava por ele, porque sabia que ficar sozinho iria me matar, ficar sozinho dentro da minha cabeça... era terrível. Eu precisava de companhia, eu precisava dele, eu não podia ficar sozinho de jeito nenhum. Precisava dele pra parar a bomba relógio de autodestruição que fazia tic-tac na minha cabeça, pra parar todas aquelas vozes que não paravam de gritar e me culpar. E antes que eu percebesse, eu caí de costas no chão, desmaiado.

。。。


– Kouyou... Kouyou, acorda!


Ouvi uma voz distante me chamar...

Quem era?

Aiko!?

Não... era uma voz masculina... então era Yuu...

Yuu? Eu precisava falar com ele...


– Kouyou!


A voz soou mais alto agora, mas eu não conseguia abrir os olhos. Mal sentia meu corpo, mas soube que ele estava me agarrando pelos ombros.


– Kouyou! Acorda! — A voz urgente parecia quase real agora. Fiz um grande esforço e consegui voltar à consciência, mas ainda parcialmente. Tentei piscar. Demorei tentando, mas consegui.

– Yuu... — Chamei, baixinho. Ele estava ajoelhado diante de mim, com um olhar apavorado.

– Meu deus Kouyou, você tá bem!? Você caiu e desmaiou? — Perguntou desesperado.

– Não, acho que eu desmaiei primeiro... não me lembro de cair... — Tentei me apoiar nos cotovelos e levantar, mas minha cabeça estava doendo bastante. Ele me ajudou até eu conseguir me sentar, apoiado na estante que antes estava limpando.


Lembrei o que eu estava pensando antes de colapsar.


– Yuu por favor não me deixe sozinho mais eu não consigo ficar sozinho não consigo ficar preso na minha cabeça comigo mesmo por favor não me deixe sozinho de novo... — Falei tudo de uma vez, agora meu próprio desespero voltando. A presença dele era a única coisa que me acalmava e fazia aquelas vozes silenciarem.


– Eei, calma! Vai ficar tudo bem.


Eu realmente não esperava pelo abraço que recebi, mas soube que era exatamente o que estava precisando. O abracei de volta com força, mas não chorei. Eu prometi que não choraria mais... ela não ia gostar, já chega esse fiasco... não sou capaz de ser nem mentalmente estável.


– Não vou te deixar sozinho. — Completou o mais velho, enquanto eu o mantinha agarrado contra mim.


Sentir seu coração contra o meu, seu calor, era o que eu precisava pra me acalmar.


– É insportável... a dor... – Suspirei em seu ouvido, baixinho, com o que me restara das forças. – A perda... não tem nada... nada... pior... do que isso...

– Eu sei... — Ele respondeu. – Eu sei que é horrível Kou... mas vai passar, tem que passar, você precisa aceitar, e depois disso precisa continuar vivendo... e não ouse pensar que a culpa foi sua...


Kou... ele me chamara por meu apelido... de um jeito tão íntimo e reconfortante... na segurança de seus braços... ele era simplesmente um anjo pra mim, perfeito demais pra ser verdade...


Não disse mais nada e apenas fiquei quieto por longos minutos até que o soltei. Ele se afastou um pouco e se sentou ao meu lado.


– Chega de trabalho por hoje você precisa descansar. Tem poltronas ótimas ali na frente, se quiser ficar lendo ali comigo...

– Não, eu não quero ler... — Respondi rápido. – Só quero você por perto, só isso.


Alguma coisa mudou em seus olhos quando eu disse aquilo, ele pareceu tocado por aquelas palavras, mas eu não via nada demais nelas.


– Você está pálido, precisa comer alguma coisa. Fiquei tão concentrado antes que nem percebi que já havia passado a hora do almoço há muito tempo, foi quando vim te procurar e te encontrei no chão desacordado... vamos voltar pra dentro.


Ele me ajudou a levantar.

Eu estava meio tonto e meio perdido de novo. O outro deve ter percebido minha desorientação, tanto física quanto psicológica, e então me surpreendeu de novo.

Segurou minha mão e foi me levando de volta para os fundos, deixando a magnífica biblioteca pra trás.


E eu não recusei seu toque, muito pelo contrário, de novo, era exatamente... o que eu precisava...


Segurei sua mão com força, como uma criança insegura, e andei ao seu lado, sendo guiado por ele.

。。。


Voltamos pra cozinha e ele fez eu me sentar e respirar fundo enquanto cozinhava pra nós. Meu coração voltava aos poucos a bater dolorosamente como antes, e eu sentia que a única coisa que fazia isso passar era seus abraços. Mas eu não podia ficar agarrado nele o tempo todo, se ele não quisesse...


Comemos em absoluto silêncio. Eu estava meio nauseado e tonto ainda então não comi muito. Depois ele serviu chá pra nós e nos acomodamos no sofá em que ele havia me deixado na noite em que cheguei. Encostei-me timidamente nele enquanto encarava a xícara, como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Como se lesse meus pensamentos, ele falou:


– Pode me abraçar se quiser, quando quiser, não tem problema.

– Posso mesmo? — Perguntei, ainda encarando a xícara.

– Claro, Kou... e eu também gosto, sabe? — Comentou e acabou me deixando mais nervoso do que deveria.


Terminei o chá e ele tirou a xícara de minhas mãos, deixando ela e a sua em cima da mesa, e voltou pro sofá.


Pronto, pode me abraçar, eu sei que você quer, que você precisa” seu olhar dizia pra mim.


Hesitei por um momento, e então, timidamente, o abracei, deitando a cabeça em seu peito. Ele passou seus braços em volta de mim, e eu me derreti naquele calor tão reconfortante. Realmente, Yuu, aquele homem misterioso de quem eu não sabia quase nada, era a única coisa que fazia meu sofrimento diminuir um pouquinho que fosse. Respirei fundo várias vezes tentando relaxar, me acalmar, enquanto a dor de cabeça depois do surto de antes diminuía também.


Yuu era a resposta, pra todos meus problemas, e ponto final.


Continuei ali apenas abraçado nele, imóvel, ouvindo seu coração bater e sua respiração perto de meu rosto. Estava em paz novamente, finalmente, e me acalmei tanto que estava quase pegando no sono.


Teria dormido ali por cima dele se alguém não tivesse batido repetidamente na porta dos fundos com força e me assustado. Afastei-me do moreno e ele levantou e foi até a porta, a mesma porta pela qual eu havia chegado naquela noite de tempestade, e espiou quem era pelo olho mágico. Vi seus músculos congelarem e tive um péssimo pressentimento na mesma hora.


Yuu voltou rapidamente pra mim sem fazer barulho e segurou meu braço, me levando dali, quase me arrastando, sem dizer uma palavra. Só parou quando estávamos na porta que dava pra sua casa.


– Entre aí, suba a escada e se esconda embaixo da minha cama. — Sussurrou, urgente. – É o inspetor.


Exatamente o que eu suspeitei. Concordei com a cabeça, mas sabia que estava morrendo de medo, e que não queria ficar sozinho de novo também. Tinha medo que as vozes voltassem e explodissem minha cabeça de novo.


– Duvido que ele demore muito, fique calmo, por favor. Vai ficar tudo bem, ok, Kou? Já volto pra você.


Deu as costas pra mim e tratei de passar logo pela porta.

Estava dentro da casa dele agora. Mas não consegui me mover, fiquei ali grudado de costas na porta. Dali eu poderia ouvir a conversa deles. Se soubesse que iriam entrar, aí eu correria pra cima como ele mandou. Mas por enquanto ficaria ali.


Shiroyama! Há quanto tempo, meu velho amigo! — Ouvi a voz conhecida.

Olá Matsumoto, entre!

Estava passando por aqui e resolvi fazer uma visita... tem sido um stress gigantesco esse trabalho nos últimos dias... ainda não o encontramos, aquele rato miserável...


Ouvi o arrastar de cadeiras e soube que estavam ao redor da mesa da cozinha.


Ora, eu ia lhe pedir uma xícara de café mas vejo que estava tendo companhia! — O inspetor exclamou.


Ah... nossas duas xícaras haviam ficado em cima da mesa... ele reparou... Comecei a ficar nervoso com medo de que o loiro desconfiasse de alguma coisa.


Sim... — Yuu respondeu apenas. Devia estar nervoso também.

Faz muito tempo que te vejo sem companhia nenhuma meu caro, quem andou por aqui, hein?

Hmm... eu estava num encontro na verdade...

Eh!? Não estou atrapalhando então?


Parei de prestar atenção depois de ouvir a última coisa que Yuu havia falado...

Eu estava num encontro...


Encontro... isso é o que as pessoas apaixonadas fazem, certo? E ele havia falado isso sobre estar comigo...?


Quer dizer, eu sabia que era só uma mentira... mas... lá no fundo, comecei a desejar que fosse verdade... sem saber exatamente porque, mas aquilo acendia uma pequena faísca quentinha e agradável no meu coração.


Pensar em Yuu apaixonado por mim (mesmo que eu não soubesse por experiência própria o que exatamente era aquilo) era uma ideia agradável, e era de ideias agradáveis que eu precisava pra afastar as sombras do meu coração, por mais estranhas que parecessem.


Então era isso, só queria avisar que amanhã meus guardas vão dar uma passada aqui. Sabe como é, lugar público, aquele assassino pode estar escondido em qualquer lugar, e já olhamos por quase toda a cidade.


O tom de encerramento do outro homem voltou a me chamar a atenção e colei o ouvido na porta novamente.


Tudo bem, mas sejam breves a presença deles assusta meus clientes e não é apropriada numa biblioteca... e obviamente não vão achar nada aqui.

Ah Shiroyama, se você estiver escondendo alguma coisa, qualquer coisa, eles vão achar, pode ter certeza. Quer dizer, se tiver alguém se escondendo por aqui, foi o que eu quis dizer. E boa sorte com a sua garota, não a deixe esperando nua na sua cama por muito mais tempo. — Riu. — Ah que inveja...


Ouvi ambos se levantarem e me afastei da porta.

Não cheguei a ouvir a resposta de Yuu porque fui em direção à escada que ele havia falado e entrei em seu quarto depois de achá-lo.

O esperei lá, mas sem me enfiar embaixo da cama, pois eu sabia que o baixinho já havia ido embora.


Poucos instantes depois ele subiu a escada apressado e surgiu na porta do quarto.


– Tudo certo. Ahn- – Parou o que estava dizendo ao me encarar. – Kouyou você está vermelho, tá sentindo bem? Será que está com febre?

– Estou vermelho? Nem percebi. — Fiquei mais nervoso ainda. – Tá tudo bem, que foi que ele disse?

– Vão vir revistar a biblioteca amanhã... o que significa que você precisa trazer suas coisas pra cá porque certamente vão fuçar cada centímetro lá dos fundos.

– Hmm... — Concordei com a cabeça, pensativo.


O que estava me deixando nervoso é claro foi o que eu entreouvira sem permissão da conversa deles... primeiro Yuu falando sobre um encontro, e depois o outro falando sobre... uma mulher nua o esperando na cama...


Primeira coisa que eu pensei foi que eu não aprovava nem um pouco esse pensamento. Deixava-me até com ciúmes do Yuu, talvez.


Segunda coisa é que era eu quem estava sentado na sua cama e fiquei pensando se ele gostaria de me ver nu.


E de novo aquela ideia agradável sobre Yuu gostar de mim por mais do que piedade e seja lá o que fosse toda essa gentileza, bondade e carinho dele para comigo.


– Pode dormir na minha cama hoje, eu fico no sofá... – Ele disse.

– Não Yuu! Não vou ficar com a sua cama e te deixar desconfortável... eu pego um cobertor e durmo no chão aqui do lado mesmo... s-sabe que não quero ficar sozinho... muito menos de noite...

– Dormir no chão você tá louco? Faça o seguinte então, durma comigo.


Eu devo ter virado um pimentão de um segundo pro outro porque senti meu rosto queimando e Yuu tentando se consertar.


– Não, não é isso! Se quiser durma na minha cama, mas não comigo, quer dizer, eu vou dormir no mesmo colchão, mas, ok, você entendeu, né...?! Não quis dizer isso me desculpe, errei as palavras!


– C-Claro! Eu entendi, tudo bem. — Queria apenas me esconder pro resto da vida por ficado vermelho por levar o convite a terceiras intenções.


E ficar pensando sobre isso me deixava mais nervoso ainda.


– Vou lá buscar suas coisas no quarto e apagar os rastros. Fique apenas na minha casa até amanhã de noite, não quero que sintam nem seu cheiro lá nos fundos... volto logo. – Se retirou, visivelmente constrangido também pelo que falou sem querer.


Mas e agora depois desse momento constrangedor, será que eu ainda poderia abraçá-lo sem problemas?


Eu só queria ficar perto dele o maior tempo possível, só isso...


Foi pensando nisso que percebi que ele teria de trabalhar todos os dias e eu não poderia acompanhá-lo. Fiquei com medo, assustado, só de pensar que teria que passar o dia todo sozinho comigo. Eu mesmo era minha companhia mais desagradável. O único jeito de me evitar era passar o dia dormindo. É, certamente eu teria de trocar o dia pela noite feito um vampiro pra poder ficar junto com Yuu e me evitar o máximo possível. Mesmo que eu fosse ter pesadelos, ainda assim não era tão ruim quanto ficar acordado.


A falta que eu sentia da minha irmã só podia ser suprimida unicamente por ele. Eu não sabia por quê, mas apenas sabia. Quando ele estava por perto eu podia esquecer as coisas ruins... quando ele sorria pra mim e era gentil a dor desaparecia um pouquinho...


E quando eu deixava minha mente se perder naqueles pensamentos idiotas eu também me sentia um pouquinho melhor, então eles me atraíram. Pensar em Yuu de um jeito diferente, ficar nervoso por causa dele, tudo isso aquecia meu coração e afastava as trevas. Por mais que fosse idiota, funcionava. E me mantinha seguro também de ficar com medo da vinda do inspetor amanhã e sua revista.


E essa segurança que era ter Yuu por perto era tudo que eu precisava por agora pra não enlouquecer...

Notas finais
me perguntaram sobre a época, eu digo: 1910 mais ou menos, por aí, mas não exatamente
muito obrigada pelos reviews e comentários de quem está acompanhando s2 espero que continuem gostando ♥ *U*
prazo de 5 dias de novo, então até sábado se eu conseguir ficar na linha -q *vivendo no limite sempre*
ps: lembrem-se de copiar o review antes de clicar enviar porque anda dando erro pra todo mundo e meus reviews lindos se perdendo no universo por causa desse nyah malvado ;u;
e essa formatação acaba com o meu dia, da metade pra frente ficou com parágrafo e o começo não, pqp...