As If Magic Exists
2 Chapitre ♦ 2
Notas iniciais
agradecimentos especiais pra minha equipe de assistência técnica, dona a_k_i minha namorada (leiam as fics dela também e3e), dona Yuu-sama (e as dela e3e), e dona brunny por me ajudarem e me aguentarem ♥
ps: a partir daqui possivelmente vá sempre começar com esse mini pov do Yuu em itálico
「Estava prestes a me retirar para meus aposentos quando ouvi um baque contra a porta dos fundos. Chovia forte lá fora e já era tarde da noite. Pensei em ignorar mas fiquei assustado por um momento. Fui até o corredor que dava vista pro lado de fora, espiei por uma fresta da janela e vi, sob a luz fraca da minha lamparina, sentando na frente da porta um homem encharcado, parecendo exausto, talvez desmaiado.
Ia continuar meu caminho fingindo não ter visto nada, pra não me meter em confusão, até que reconheci seu rosto.
Eu... eu conhecia aquele homem.」
Chapitre ♦ 2
Abri a tampa da caixa de madeira com medo do que veria.
– Ai... – Comecei a chamar baixinho de novo, mas emudeci.
Voltei a fechar a tampa imediatamente.
Não suportaria olhar para aquilo nem por mais um segundo.
Ela estava... morta.
Perfurada.
Lembro-me de ter entrado em estado de choque e depois desmaiado.
。。。
Não deve ter levado muito tempo pra perceberem o que tinha acontecido. Acordei no meio de um grupo de pessoas alvoroçadas. Mas nada importava, minha vida estava destruída, eu poderia morrer agora mesmo e não me importaria, ela havia se ido e levado metade de mim junto.
E a primeira coisa que ouvi não foi lá muito agradável.
– A CULPA É DELE, TODA DELE, ELE A MATOU!
Não demorei pra reconhecer a voz, era do meu velho amigo: o maldito inspetor. Não sabia dizer se ficara desacordado por tempo suficiente pra chamarem ele ou se ele já estava infiltrado na plateia durante a apresentação.
Mal consegui absorver aquelas palavras...
Como poderiam me culpar? Como!? Existe coisa mais cruel do que isso?
Eu apenas chorava agora, soluçava, e ninguém havia se dado o trabalho de me proteger da chuva, como eles mesmos estavam fazendo. Minha cabeça girava. Aquelas pessoas não paravam de discutir e eu, jogado no chão, já não entendia mais nada.
– Prendam-no!
Parecia que haviam chegado a uma conclusão. E quando mãos desceram sobre mim, tentando me agarrar, me imobilizar, reagi instantaneamente e fiz a última coisa que eu esperava que conseguisse fazer: comecei a correr.
E fugi correndo, mesmo com a perna danificada, a tontura e o buraco no meu coração. Corri por caminhos através de becos que apenas eu conhecia, e logo não havia mais ninguém correndo e gritando atrás de mim. Mas na verdade eu não sabia por que eu fugira. Devia ter ficado lá e deixado que me prendessem, me matassem, fizessem o que quisessem comigo. Por algum motivo eu me impulsionara, tirando energia sabe-se lá de onde, e correra na chuva o mais rápido possível. Talvez minha missão por aqui não estivesse cumprida ainda, alguém poderia dizer... Mas eu não sei. Apenas fugi. Talvez fugir da morte e viver sofrendo fosse o que eu merecesse por ter feito isso. Talvez a culpa realmente fosse minha. O inspetor Matsumoto havia me alertado tantas vezes sobre as condições do lugar e eu negligenciei seus avisos.
Se tivéssemos um lugar decente pra trabalhar nada disso teria acontecido.
E agora está tudo acabado, meu sonho, que era realizar o seu sonho, vê-la sorrindo, feliz, eu havia acabado com tudo isso, que era meu único motivo pra viver. Dar uma vida decente pra ela. Aiko...
A ponto de desmaiar novamente, dessa vez triplamente exausto, desabei contra o batente de uma porta em algum canto da cidade. Quanto eu havia corrido? Por quanto tempo? Não fazia ideia...
Achei que fosse apagar ali mesmo, sob a chuva cruel que já congelara meus ossos, e morrer de alguma doença que com certeza me abateria. Porém, depois de alguns minutos, a porta se abriu e eu caí pra trás, pra dentro do aposento, molhando o carpete.
– Entre. – Uma voz masculina falou.
Hesitei. Devia confiar naquele homem, seja lá quem fosse? Sabia que as pessoas com mais dinheiro eram cruéis. E meu desejo não era ficar na chuva e morrer de frio, de fome, de qualquer coisa, afinal?
Mas novamente meu instinto falou mais alto e me arrastei pra dentro, a porta foi fechada em seguida. Encontrei-me esparramado num carpete antigo, estranhando o barulho abafado da chuva que agora caía lá fora, não sobre mim.
Qual fora a última vez que estivera numa casa de verdade, num lugar com paredes de tijolos, e não de madeira, cheia de goteiras?
– Você consegue se levantar? – A voz perguntou novamente, e por um momento quase havia esquecido a pessoa ali que me salvara. O homem estava ajoelhado ao meu lado, mas eu não conseguia enxergar suas feições direito, estava tonto.
– Não sei... – Respondi, mas não deve ter passado de um sussurro, minha garganta doía e eu duvidava que pudesse falar claramente.
Ele segurou meus braços e me colocou de pé, fazendo eu me apoiar nele. Gemi da dor que veio ao colocar força sobre uma das pernas.
– Você precisa de um banho quente ou vai ficar doente desse jeito. Espere aqui que vou esquentar a água. – Falou enquanto me levou até um sofá macio e me deixou ali.
Estava quase adormecendo de exaustão quando ele voltou, se oferecendo pra me levar até a banheira. Desconfiei por um momento que ele fosse me violentar ou algo do tipo, mas me deixei levar. Que acontecesse o que fosse pra acontecer, nada menos que a morte era o que eu queria, qualquer coisa que viesse depois dela não podia ser pior que viver com a culpa da morte dela e a saudade que já se abatera em mim, a perspectiva de que eu nunca mais poderia conversar com ela... só perceber isso já me fez voltar a chorar, um choro doído, que apertava minha garganta seca e torcia até a última lágrima existente em meu corpo. O homem não perguntou nada. Tirou minhas roupas encharcadas, deixando apenas minha roupa íntima, e me fez sentar na banheira de água quente.
Que sensação deliciosa...
– Meu nome é Shiroyama Yuu. – Ele disse. – Você pode passar a noite aqui, tenho um quarto sobrando. E temos que dar um jeito no estrago nessa perna.
Sim, minha perna estava ardendo muito na água, e só quando olhei pra baixo percebi o tamanho do machucado. Minha coxa esquerda estava com um corte profundo seguindo de um hematoma ao redor. O sangue agora se dissolvia na água, me deixando tonto só de olhar.
Percebi que o homem me encarava preocupado. Qual era o nome dele mesmo? Não consigo lembrar... estou tão cansado... queria só dormir e não acordar mais... aquela perna vai levar tanto tempo pra voltar ao normal, talvez amanhã eu nem consiga caminhar...
– Você sabe... quem eu sou...? – Perguntei, com a voz tão debilitada que ele teve que se aproximar pra ouvir.
Demorou a responder.
– Talvez... – Disse apenas isso e se calou. Tranquilizei-me um pouco de algum jeito. Amanhã, quando ele ficasse sabendo das notícias da cidade, isso seria um problema, talvez me entregasse pras autoridades no mesmo instante e dessa vez eu não conseguiria correr mais rápido do que eles. Olhei nos seus olhos negros, tão negros quanto seu cabelo bonito, e voltei a olhar pra baixo. Não importa Kouyou, realmente não importa. Você ganhou abrigo por pelo menos uma noite e isso já é tão mais do que você merece...
– Termine de se lavar e vemos o que podemos fazer com o esse corte.
– Onde eu estou? – Perguntei antes que ele saísse.
O moreno, que devia ser apenas um pouco mais velho que eu, me olhou curioso.
– Achei que soubesse. Nos fundos da biblioteca Gare de Lyon. Eu sou o dono daqui e estava indo pra casa quando você chegou.
Biblioteca Gare de Lyon? A maior e mais bonita biblioteca da cidade?
– Não queria atrapalhar, me desculpe...
– Shhh. – ele me calou. – Poupe as energias e amanhã conversamos.
Saí da banheira com dificuldade, e ele me deu roupas limpas e secas, suas provavelmente. Passou algum tipo de remédio na minha perna, e depois enfaixou com uma gaze. Mostrou-me um quartinho com uma cama e um pequeno armário, dizendo que eu poderia dormir ali.
Deitei na cama.
E apaguei.
Sem me permitir pensar em nada nem por mais um segundo.
。。。
Não foi fácil acordar.
Minha cabeça doía e por algum motivo eu me sentia muito cansado.
E aquela cama era tão macia... talvez a cama mais fofa e com mais cobertores que eu já deitei na vida... tinha até um maravilhoso travesseiro sob minha cabeça...
Era um sonho, só podia ser, eu nunca teria uma cama dessas, muito menos pra dormir sozinho, eu e Aiko sempre dividimos uma a vida inteira, e nunca foi um colchão assim, mas uma espuma fina e cheia de calombos, um pano enrolado como travesseiro e outro como cobertor, que no inverno era simplesmente cruel, mas era o que tínhamos pra nos esquentar, já havíamos nos acostumado a passar frio, e também fome. Mesmo quando nosso pai estava vivo, nunca tivemos uma vida de conforto, mas eu não podia reclamar, tinha minha família que me amava, mesmo quando minha família virou apenas minha irmã e nossos sonhos.
Minha irmã...
Por que eu estou me sentindo tão triste assim por pensar nela? Minha cabeça... dói...
Abri os olhos.
Não estava sonhando afinal.
Mas onde eu estava? O que tinha acontecido? Porque meu coração estava apertado e parecia que um pedaço dele fora arrancado? Estava escuro então eu mal podia ver nada do quarto onde eu estivera dormindo.
Aquele quarto... o homem de cabelos bonitos...
Lentamente as imagens começaram a se reagrupar na minha mente e tudo fez sentido quando me lembrei do que havia acontecido até eu ir parar ali naquele quarto.
Minha irmã estava morta e eu estava sozinho no mundo.
Gritei inconscientemente, todo o pesar voltando mais forte do que nunca. Agora eu estava sentado na cama, em roupas que não eram minhas, as mãos cruzadas sobre o peito como em um abraço a mim mesmo, chorando. Chorando tanto que minha garganta doía, meu corpo tremia, e a escuridão da noite me mergulhava em medo e desespero.
O que seria da minha vida agora...?
Sempre disseram que gêmeos traziam azar, mas qual foi nosso erro, nascer?
Eu não sabia há quanto tempo estava naquela situação até que alguém bateu de leve na porta e a abriu.
Trazendo uma vela num suporte na mão, reconheci o homem de antes. Ele hesitou por um momento ao ver meu estado, eu que agora mal tinha lágrimas pra chorar e apenas soluçava e gemia dolorosamente, mas depois se adiantou, largando a vela em cima do pequeno armário encostado na parede.
Com o vago olhar que havia lançado pra ele, o vi se aproximar e sentar-se cautelosamente ao meu lado.
– Ouvi você acordar do meu quarto... se quiser companhia... — Falou com uma voz calma e doce, buscando meu olhar.
– E-Eu dormi tão pouco assim que a-ainda não amanheceu? — Perguntei, mas mal conseguindo falar corretamente, o choro ainda ecoava na minha voz, me fazendo gaguejar.
– Você dormiu por quase um dia na verdade... — Sorriu carinhosamente. — Acabou de escurecer e já é sábado...
Sábado...? Eu dormi quase um dia...? Então...!
– M-Mas, mas, então... você já sabe... sobre mim, o que aconteceu, e... — Mal consegui pronunciar aquilo e voltei a chorar, meu corpo estava tão fora de controle que eu achava que ia colapsar daqui um pouco.
– Sim, eu sei... — Falou, calmamente, experimentando colocar uma mão em meu ombro.
Assustei-me com o toque e me afastei bruscamente, com medo.
– Eu sei, mas não vou te denunciar nem nada do tipo. — Completou, afastando a mão de mim, hesitante. — Confio em você.
– C-Confia em mim? C-Como!? Eu nem me defendi! — Quase gritei, enquanto tremia.
– Só de olhar pra você eu tenho certeza de que não é culpado de nada, Uruha. Você pode ficar aqui pelo tempo que quiser. Está seguro, tudo bem?
E tão rápido quanto veio, o choro parou.
Eu tinha ouvido aquilo mesmo? Era verdade? Mas será que eu podia confiar nele?
Bem, sejam quais forem seus motivos, se eu não acordei na prisão, ou queimando numa fogueira na praça, é porque eu estou seguro nas mãos dele, de qualquer jeito.
– É...? — Perguntei baixinho, a voz rouca mal saindo.
– Sim. Pode confiar em mim. Você deve estar com fome, vou preparar alguma coisa e... — Ele se levantou, mas eu o interrompi o segurando pela manga do casaco.
Não sei por que, mas meu braço simplesmente se moveu e não deixou que ele se afastasse.
Também inconscientemente, me inclinei e o abracei forte. Ele não se moveu nem tentou me afastar. Mas me abraçou de volta de um jeito que teria me feito voltar a chorar pela sua bondade se ainda houvesse alguma água disponível no meu corpo.
– Obrigado... — Falei, sem o soltar. A dor em meu coração era tão forte, mas sua presença me acalmava de algum jeito.
Parecia imprudente e até estranho abraçar de um jeito tão íntimo um estranho, mas não importava se eu podia ou não confiar nele – eu já confiava. Ele, quem eu nem lembrava o nome, era a única esperança que eu tinha agora, seja lá o que viesse pela frente. Toda minha vida, o que sobrara dela na verdade, eu depositava nele agora. E quando decidi isso foi como se um pouco do peso nas minhas costas desaparecesse. Estava tudo bem. Eu podia ficar tranquilo perto daquele homem que havia salvado minha vida. Seria eternamente grato a ele.
– Mas não me chame assim, por esse nome, nunca mais quero ouvi-lo, por favor... — Implorei, ainda o abraçando, como se quanto mais perto meu coração batesse do seu, menor seria minha dor.
– Como devo chamá-lo então? — Perguntou, na voz calma e gentil de sempre.
– Kouyou, apenas... — Respondi, respirando fundo, a tremedeira finalmente parando.
– Tudo bem Kouyou, me chame de Yuu então.
O soltei e permiti que se afastasse. Ele sorriu antes de se levantar.
– Já volto, ok? Respire fundo e tente se acalmar... eu sei que é difícil... mas você precisa ser forte. – Falou e então sumiu pela porta, mas deixou a vela comigo, talvez percebendo que se voltasse a ficar na escuridão eu me afogaria na tristeza da noite.
Fui ao banheiro e lavei o rosto, a água gelada me acordou, e consegui respirar direito, profundamente, até me acalmar na medida do possível. Percebi que estava mancando e que minha perna doía muito.
Foco, Kouyou. Você vai ter uma vida nova a partir de agora nesse lugar e não tem tempo de ficar olhando pra trás. Você deve tudo a esse homem e deve ser leal a ele enquanto sua vida miserável e não merecida durar. Sua irmã não está mais aqui e quanto mais cedo você aceitar isso melhor. Lágrimas não vão trazê-la de volta e ela certamente não gostaria de te ver nesse estado, seu imprestável.
Voltei pro quarto um pouco tonto, mas decidido do que pensar agora.
Yuu voltou depois de um tempo e me chamou, me guiando até a cozinha, me amparando quando necessário, pois eu estava vacilando ao andar.
A cozinha era pequena, pro tamanho do lugar, mas gigante e luxuosa, pro meu padrão de vida.
Havia vários armários, lotados de mantimentos, e de louças bonitas, um fogão que irradiava um calor aconchegante, e uma mesa no meio, com algumas cadeiras ao redor. A iluminação estava melhor aqui do que no quarto também, e eu podia ver seu rosto mais claramente agora.
Na mesa, estava servido um prato fumegante do que parecia ser uma sopa deliciosa, um bom pedaço de pão ao lado, mais um copo de... vinho, talvez. Não sei, nunca tive dinheiro pra comprar bebidas, apenas alguma coisa muito barata, que dividíamos, raramente.
Ele fez eu me sentar à mesa, e se sentou a minha frente. Fiquei embasbacado olhando pra toda aquela quantidade de comida.
– V-Você não vai comer...? – Perguntei, hesitando.
– Não, já comi mais cedo. – Deu um de seus sorrisos.
– Mas... – Olhei do prato, pra ele. – Tudo isso... é pra mim?
– Claro. – Ele respondeu, não entendendo o porquê da minha incredulidade.
– Sério...? – Eu quase pude sentir as lágrimas vindo de novo. Aquilo era mais comida do que eu havia comido nos últimos três dias. Não me lembrava da última vez que tive tanta comida à disposição numa refeição só.
E isso só me lembrava do fato de quão longe eu estivera do meu sonho, se não tinha dinheiro nem pra trazer pra casa uma refeição decente.
– Ora, Kouyou, mas é claro! Pode comer, e se quiser tem mais. – Sorriu novamente, me incentivando. Eu ainda estava bobo com aquilo. Nunca seria grato o suficiente a ele.
– M-Mas, eu não tenho como pagar, tudo isso, eu nunca tive tanto, e-eu... – Gaguejei novamente.
– Já falamos disso, não falamos? Vá comendo. Sério, coma logo, ou eu vou ter que fazer você comer. — Riu baixinho, brincando.
Achei que eu fosse estar enjoado ainda, mas ao sentir de perto o cheirinho maravilhoso daquele prato enorme de sopa, percebi o tamanho da fome que eu estava. Comecei a comer e quase chorei de felicidade novamente, porque a comida era maravilhosa, e comi tão rápido que em poucos minutos os pratos estavam vazios e minha barriga cheia por um bom tempo.
– Certo. — Yuu falou. – Agora podemos conversar mais decentemente. Você pode ficar aqui se quiser, aquele quarto será seu, pode comer o que quiser dessa cozinha, e pode me ajudar trabalhando na biblioteca, se quiser tanto “me pagar”. – Comentou.
Biblioteca? Ah, é mesmo, esqueci que aqui são os fundos da biblioteca. Mas... trabalhar... numa biblioteca...?
Ah, isso seria um problema. Ah, seria. Mas fica pra depois. Talvez eu só tivesse que varrer o chão ou tirar o pó mesmo...
– Vou trabalhar sim! Começo amanhã mesmo! Nunca vou poder pagar o suficiente por tudo que o senhor está fazendo por mim...
– Yuu. — Corrigiu. – E, ah, tome o vinho.
Encarei a taça cheia que eu havia ignorado até agora.
Por um momento me ocorreu se ele não estaria tentando se aproveitar de mim, mas cheguei a conclusão que se ele quisesse eu deixaria.
– Posso mesmo...? – Perguntei, hesitando. Ele balançou a cabeça concordando. Tomei, enfim, o líquido de cor escura, e senti meu peito se aquecer, e, aos poucos, a dor diminuir. Não sei se eu estava mais leve ou o que, mas havia ajudado, de algum jeito.
– Se sentindo melhor, não é?
Concordei, em silêncio. Uma pergunta voltou a minha mente e eu a fiz.
– Hnn... Yuu... então... você sabia quem eu era, ontem...?
Ele ficou em silêncio. Pensou longamente, até que falou.
– Sim.
Senti em seu tom um aviso pra não fazer mais perguntas, e obedeci. Eu obedeceria qualquer coisa que ele me mandasse fazer ou não fazer. Apenas saber que ele sabia quem eu era, seja lá por qual motivo (como alguém tão rico assim me conheceria? Pessoas daquela classe social não faziam parte do meu público) já me tranquilizava.
– Mas vai ser melhor trabalhar só a partir do anoitecer, pra não correr o risco de te reconhecerem, afinal seu rosto está na capa do jornal de hoje, como procurado. – Ele voltou a falar, um pouco preocupado agora.
Não me choquei com a notícia. Era o mínimo que eu esperava.
– Tudo bem. — Concordei com a cabeça. – Não quero causar mais problemas pra você, não sairei em público nem nada do tipo.
– Será melhor fazer isso mesmo, por um tempo, até se esquecerem e desistirem de procurar... e de qualquer jeito, com roupas “normais” assim e sem maquiagem você já fica bem diferente. Se mudar um pouco o cabelo fica mais difícil ainda de te reconhecerem. – Voltou a sorrir do seu jeito absurdamente gentil.
Ficamos em silêncio por um tempo.
– Você dormiu bastante hoje, então se quiser passar o tempo, pode pegar um livro pra ler. — Comentou.
– Um... um livro? – Me assustei e então emudeci. Ele me encarou. Juntei forças e consegui terminar de responder, constrangido. – N-não, obrigado...
– Ah é, esqueci que deve estar bastante cansado... se quiser eu leio pra você, não tenho mais nada pra fazer hoje mesmo...
– Não! Quer dizer, não precisa...! Não quero te incomodar mais, imagina... – Balancei as mãos, envergonhado.
–Não é um incômodo. – Ele riu do meu jeito abobalhado. – Mas tudo bem se quiser ficar sozinho, eu vou me retirar então...
– Você não mora aqui? – Perguntei antes que ele se levantasse. Por um momento fiquei com medo de ficar sozinho ali naquele lugar tão grande e escuro.
– Minha casa é aqui atrás, mas tem ligação direta. – Me indicou um corredor onde disse que ficava a tal porta. – Qualquer coisa é só me chamar ali.
– Não quero atrapalhar. – Balancei a cabeça novamente. – Sua família...
– Não tenho família, moro sozinho, tudo bem...
O silêncio voltou a pesar. Ele mesmo se perdeu em pensamentos depois de dizer aquilo. Talvez sua vida fosse bem solitária, mesmo trabalhando numa biblioteca sempre cheia de gente, talvez ele não tivesse ninguém pra conversar.
Ele se levantou em silêncio e pegou um copo pra si mesmo, o servindo de vinho, e voltou a encher o meu. Bebemos em silêncio. Sua companhia me fazia bem, mesmo em silêncio. Voltei a me preocupar com preços, dívidas e dinheiro.
– Yuu, eu realmente não tenho como te pagar por tantas regalias, nem trabalhando mil anos... sabe... se você quiser... eu faço qualquer coisa, sabe... m-meu c-corpo... – Minhas bochechas queimavam mas eu simplesmente precisava colocar aquilo pra fora. – Se você quiser... pode f-fazer o que quiser comigo, como pa-pagamento... e... e...
– Ei, ei, ei, Kouyou! – Ele riu. – Tudo isso é o vinho fazendo efeito? Não pense besteiras assim, que absurdo. Sinceramente, você não precisa me pagar por nada, só vai me ajudar pra ter o que fazer e não ficar entediado, ok.
– Já tive que fazer isso antes... por comida... é mais comum do que parece... – Suspirei, pesaroso, evitando lembrar daquele tempo pra não voltar a chorar. Foi antes de eu começar a fazer mágica na rua, estávamos numa situação crítica, sem comer há dois dias, e eu nunca deixaria minha irmã fazer aquilo, então fui eu.
Percebi Yuu analisando meu rosto e sua expressão dizia que ele entendia e tinha pena de mim pelo que tinha acontecido, mas não disse nada, apenas abaixou a cabeça também.
Ficamos ali por mais algum tempo, um pouco em silêncio, um pouco falando sobre qualquer coisa que me distraísse de pensamentos ruins e lembranças cruéis. Já devia ser bem tarde quando ele decidiu ir dormir e se despediu de mim, perguntando se eu ficaria bem sozinho. Respondi que sim e também fui pro meu novo quarto, pensativo.
“Acho que vamos nos dar bem, não é” Ele havia dito. Sim, eu realmente acho e espero que sim... Yuu era a única pessoa que eu tinha pra chamar de família agora, minha única âncora.
O resto eu deixara pra trás, e prometi a mim mesmo nunca fazer magia novamente. Nunca colocar em risco a vida de uma pessoa novamente. Nunca... mais....
Uruha, O Ilusionista, havia morrido junto com sua fiel assistente. Agora eu era apenas Kouyou, e Kouyou apenas. O trabalho que antes eu amava agora me causava náuseas e repúdio.
O que seria de mim eu não sei, mas eu tentaria seguir em frente mesmo sem a companhia da minha gêmea, porque é o que ela gostaria que eu fizesse, se soubesse o que aconteceria com ela. Kouyou se esforçaria por ela, e que acontecesse o que fosse pra acontecer, nada seria mais devastador do que a perda que eu sofrera.
Encolhido na cama, comecei a chorar novamente, baixinho dessa vez. Mas prometi que seria a última vez. A partir de amanhã eu não choraria mais. Ergueria a cabeça e tentaria encontrar um novo motivo pra sorrir. Por ela. Agora eu viveria por nós dois.
。。。
Notas finais
o próximo capítulo sai segunda ou terça ♥ *U*
comentem o que acharam por favor, preciso saber! qualquer coisa tá valendo, sinal de fumaça pelo twitter também~
ps: não consigo centralizar as capas de capítulo ;u;
Fale com o autor