As Desventuras e Romances de Percabeth
88 37 — Califórnia
37 – Califórnia
Março chegou carregando o mesmo cinza de sempre sobre Oxford, mas Percy mal reparava mais na cidade ao redor. Desde a viagem de dezembro, ele e Annabeth não tinham se visto pessoalmente nenhuma vez — o calendário dos dois se recusando, teimosamente, a coincidir, um semestre de aulas de um lado, uma defesa de tese do outro, e o oceano continuando ali, indiferente a qualquer boa vontade.
As mensagens, que já vinham esfriando desde novembro, tinham se tornado quase esqueléticas.
"Bom dia."
"Bom dia. Como está?"
"Bem. Corrido. Você?"
"Também."
Nada além disso, na maioria dos dias. Percy sabia reconhecer o padrão — já tinha visto antes, em Angkor, quando a distância começou a se manifestar do mesmo jeito silencioso, mas dessa vez a sensação era mais pesada, mais definitiva, como se os dois estivessem se acostumando a existir separados de um jeito perigosamente confortável.
Ele passava as noites vasculhando vagas de professor nos Estados Unidos com uma desesperação que ele mesmo achava embaraçosa — departamentos de história em Boston, Chicago, Washington, qualquer lugar que aceitasse um historiador especializado em templos asiáticos e arquitetura clássica com currículo britânico. A NYU, sua primeira e óbvia escolha, não tinha nenhuma vaga aberta. Nenhuma. Ele checou o site do departamento tantas vezes que decorou o layout inteiro da página, cada botão, cada aba, na esperança irracional de que algo mudasse só de olhar com atenção suficiente.
Foi numa dessas noites frustrantes, o laptop aberto e a esperança já esfarrapada, que o celular vibrou com uma chamada de vídeo — Annabeth, pela primeira vez em duas semanas, ligando sem aviso prévio.
— Preciso te contar uma coisa — ela disse, assim que ele atendeu, os olhos brilhando de um jeito que ele não via fazia meses.
— Conta.
— Fui aceita. Berkeley. PhD completo, bolsa integral, orientação com uma das maiores referências da área. Começa no fim do verão.
Percy sentiu uma mistura estranha de orgulho genuíno e um aperto seco no peito, a ironia cruel de finalmente ouvir boas notícias que, ao mesmo tempo, pareciam empurrar tudo ainda mais pra longe.
— Isso é incrível, Annabeth. De verdade.
— Eu sei — ela riu, sem fôlego, ainda processando a própria sorte — Berkeley, Percy. Depois de tudo, depois de todos os "e se", finalmente aconteceu.
— Você merece cada centímetro dessa vaga.
— Obrigada — ela disse, e então, mais baixo, a alegria diminuindo um pouco — Califórnia é ainda mais longe de Oxford do que Nova York, sabia? Verifiquei o mapa outro dia, feito uma idiota, só pra confirmar a distância exata.
— Eu sei — ele respondeu, a voz mais controlada do que ele se sentia por dentro — Vamos dar um jeito.
— A gente sempre diz isso.
Ela sorriu, cansada, mas sem discutir, e desligaram pouco depois sem resolver nada — só mais uma conversa adiando o inevitável, exatamente como Annabeth tinha dito, meses atrás, diante da lareira em Montauk.
Foi Crawford quem, sem querer, mudou tudo.
— Você parece um zumbi, Jackson — o reitor comentou, numa manhã de meados de março, os dois no escritório de sempre — Você dormiu ou passou a noite em claro olhando classificados de emprego americano de novo?
— As duas coisas, tecnicamente.
Crawford suspirou, tirando os óculos.
— Você sabe que existe uma vaga, não sabe?
Percy ergueu a cabeça, o coração acelerando antes mesmo de entender a pergunta direito.
— Que vaga?
— Berkeley. Departamento de História Antiga. Um colega meu vai se aposentar no fim do ano acadêmico. Templos, arqueologia clássica — a área é praticamente a sua, cuspida e escarrada — Crawford falou como quem comentava sobre o clima, sem noção real do terremoto que acabava de provocar — Ele mencionou isso numa conferência que tive essa semana, reclamando de não saber quem contratariam pra substituí-lo. Falei seu nome, claro, mas não sei se ele levou a sério.
Percy ficou paralisado por um segundo inteiro.
— Berkeley — ele repetiu, a palavra saindo estranha na própria boca.
— Califórnia, Jackson. Sei que geografia americana é vasta o suficiente pra confundir qualquer um, mas sim, é do outro lado do país de onde a Srtª Chase mora agora, mas ainda assim é o mesmo país.
— Ela vai fazer doutorado lá.
Crawford ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Sério?
— Ela mencionou em dezembro que aplicaria para o programa. E, claro, ela foi aceita. Bolsa integral, orientação renomada. Vai começar logo após o verão.
O silêncio que se seguiu carregou o peso de uma coincidência boa demais pra ser ignorada.
— Bem — Crawford disse, finalmente, um sorriso lento se formando — Isso simplifica consideravelmente as coisas, não simplifica?
Percy candidatou-se naquela mesma semana, o processo se movendo com uma velocidade estranhamente gentil depois de meses de silêncio frustrante com outras universidades — talvez porque o próprio colega de Crawford, generoso o suficiente, tivesse feito questão de recomendar pessoalmente, talvez porque o universo, raramente gentil com Percy Jackson, tivesse decidido, dessa vez, facilitar um pouco.
A confirmação chegou no início de maio, um e-mail formal e seco que Percy releu talvez dez vezes seguidas, sentado sozinho na cobertura, o coração batendo forte o suficiente pra doer.
"Prezado Dr. Jackson, temos o prazer de confirmar sua contratação como professor titular no Departamento de História Antiga e Arqueologia da Universidade da Califórnia, Berkeley..."
Ele ficou olhando pra tela por um bom tempo, sem conseguir processar completamente. Berkeley. O mesmo estado onde tinha nascido, onde tinha morado até os dezessete anos, antes da mudança pra Nova York que mudara tudo. Doze anos desde que tinha saído da Califórnia, e agora, de um jeito que ele jamais teria imaginado naquela época, estava voltando — não pra visitar, mas pra recomeçar, e pelo motivo mais improvável e ao mesmo tempo mais óbvio de todos.
Ligou pra Crawford primeiro, como sempre.
— Consegui, reitor.
— Eu sabia que ia conseguir — Crawford respondeu, o orgulho genuíno audível mesmo por telefone — Balliol vai sentir sua falta, Jackson. Mais do que você imagina.
— Obrigado por tudo. De verdade.
— Já espalhou as boas novas?
— Ainda não.
— Vai contar antes da formatura?
Percy hesitou, olhando pela janela panorâmica pra Londres, uma cidade que ele tinha aprendido a amar e que agora, pela primeira vez, parecia pequena demais pra conter tudo que ele sentia.
— Não. Quero guardar isso. Só mais um pouco. Quero ver a cara dela primeiro, sem esse peso todo em cima do reencontro.
— Uma covardia bem disfarçada de romantismo — Crawford observou, sem julgamento real na voz — Mas entendo. Boa sorte, Jackson. Com Berkeley e com o resto.
***
Junho chegou rápido demais, do jeito que os últimos meses sempre pareciam acontecer rápido demais quando algo importante se aproximava. Percy embarcou pra Nova York dois dias antes da cerimônia, o segredo do contrato assinado com Berkeley guardado com o mesmo cuidado que ele reservava pra qualquer coisa realmente preciosa. A papelada estava escondida na escrivaninha da suite a mais de seis mil quilômetros dali, esperando cuidadosamente assinada e lida um milhão de vezes para que a certeza que Percy tanto procurava no último ano não deixasse dúvida alguma.
Annabeth o esperou no aeroporto, mais magra do que ele lembrava, os olhos carregando o cansaço acumulado de meses de tese e distância mal resolvida, mas o sorriso ao vê-lo atravessar o saguão foi genuíno o suficiente pra apagar, por um instante, qualquer peso que os últimos meses tivessem deixado entre eles.
— Você veio — ela disse, simplesmente, abraçando-o com uma força que carregava tudo que nenhuma mensagem de texto tinha conseguido transmitir.
— Eu disse que viria. E, lembre-se, também sou seu orientador, Chase. E te dei só notas 10 o ano inteiro em Balliol.
— Eu sei. Só... a gente andou tão distante ultimamente que meio que não acreditei até te ver de verdade.
— Eles tentaram me demitir, eu viria nem que não fosse convidado — Percy deu um beijo na testa dela e diminuiu para zero a distância entre eles.
Passaram os dois dias seguintes numa trégua cautelosa — sem grandes conversas sobre o futuro, sem mencionar Berkeley nem Oxford nem qualquer coisa que pudesse quebrar a fragilidade daquele reencontro. Caminharam por Washington Square Park numa tarde quente demais pra ser confortável, tomaram café ruim numa lanchonete perto do campus só pra ter desculpa de ficar sentados horas conversando sobre nada, e Percy se pegou, mais de uma vez, quase confessando tudo, a informação queimando na garganta antes de ele engolir de volta, esperando o momento certo.
— Você está estranho — Annabeth comentou, na véspera da cerimônia, os dois deitados no colchão apertado do estúdio dela — Mais quieto que o normal.
— Estou nervoso pelo seu grande dia.
— É meu grande dia, não o seu — ela brincou, vendo uma gotícula de suor brotar na testa dele.
— Ainda assim posso ficar nervoso por você.
Ela riu, encostando a cabeça no peito dele, sem insistir mais, e Percy passou a noite acordado, o coração acelerado, ensaiando mentalmente palavras que ele sabia, no fundo, que sairiam completamente diferentes assim que precisasse dizê-las de verdade.
A cerimônia de formatura aconteceu num auditório imenso da NYU, mais de três mil pessoas espalhadas pelas arquibancadas — famílias inteiras, becas pretas e capelos em fileiras intermináveis, o zumbido nervoso de sempre preenchendo o ar antes do início oficial. Percy encontrou Thalia sentada perto da fileira reservada pros formandos de Arquitetura, acenando animadamente, um cartaz caseiro erguido com o nome de Annabeth escrito em letras exageradas.
Percy tinha sido convidado a discursar como parte de um painel de "mentores internacionais" — um gesto de cortesia do departamento de Arquitetura pra reconhecer a colaboração entre Oxford e NYU ao longo do ano, algo que Crawford tinha arranjado meses atrás sem que Percy imaginasse, na época, o peso que aquilo carregaria quando finalmente chegasse o momento.
Ele subiu ao palco quando chamado, o terno bem cortado, o coração acelerado de um jeito que nenhuma audiência disciplinar nem entrevista de emprego jamais tinha conseguido provocar.
— Muitos de vocês não me conhecem — ele começou, a voz ecoando pelo auditório enorme — Sou professor visitante de Oxford, e vim aqui hoje, oficialmente, pra falar sobre parcerias acadêmicas internacionais. Mas vou ser sincero com vocês: isso é só a desculpa formal.
Um riso baixo percorreu a plateia. Percy encontrou os olhos de Annabeth, sentada na fileira reservada pros formandos, o capelo levemente torto, os olhos já brilhando de expectativa.
— A verdade — ele continuou — é que uma aluna específica dessa turma mudou completamente a trajetória da minha vida, e eu não conseguiria deixar essa cerimônia passar sem dizer isso em voz alta, na frente de todo mundo, já que sou péssimo demais em dizer esse tipo de coisa em particular.
O auditório ficou mais atento agora, o burburinho baixando.
— Ela é a pessoa mais inteligente que eu já conheci — ele disse, a voz falhando de leve, sem se importar em disfarçar — Corrigiu meus alunos, corrigiu a mim mesmo, mais vezes do que eu gostaria de admitir publicamente. Ela construiu uma carreira inteira sozinha, se formou com honras em Stanford. Atravessou dez mil quilômetros de água pra se especializar ainda mais, e tudo isso num país onde não conhecia ninguém. E ainda assim, aqui está ela, se formando com honra, prestes a fazer doutorado numa das melhores universidades do mundo, exatamente como sempre mereceu.
Ele fez uma pausa, respirando fundo, encarando diretamente Annabeth, que já não escondia mais as lágrimas.
— Annabeth Chase é a mulher mais importante da minha vida — ele disse, a voz agora firme, sem nenhum tremor — E eu sei que isso provavelmente não era parte do discurso oficial sobre parcerias internacionais, mas achei que ela merecia ouvir isso na frente de três mil pessoas, já que eu demorei tempo demais pra dizer isso só pra ela, em particular.
O auditório inteiro explodiu em aplausos, alguns assobios espalhados, Thalia gritando algo que Percy não conseguiu distinguir de tão alto, e Annabeth, no meio de tudo aquilo, chorando e rindo ao mesmo tempo, incapaz de fazer qualquer coisa além de levar a mão à boca, completamente atordoada.
Percy desceu do palco pouco depois, encontrando-a assim que a cerimônia formal terminou, os dois se abraçando com uma intensidade que fez algumas pessoas ao redor aplaudirem de novo, como se aquilo fosse parte do espetáculo.
— Isso foi a coisa mais embaraçosa e mais linda que você já fez — ela disse, entre risos e lágrimas, o capelo completamente torto agora.
— Eu quis dizer cada palavra.
— Eu sei que quis. Por isso mesmo.
Ela o beijou ali, no meio do corredor lotado de famílias orgulhosas e becas pretas, sem se importar com quem estivesse olhando, e Percy a segurou como se pudesse, só por aquele instante, esquecer completamente que carregava um segredo inteiro guardado no bolso — um contrato assinado, uma mudança de vida inteira, uma Califórnia esperando por ele em setembro, a poucos quilômetros de onde ela mesma estaria começando o próprio doutorado, sem fazer a menor ideia disso ainda.
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