Notas iniciais
Final da fic. Obrigado a quem leu na época, e, se alguém aparecer perdido por aqui após esse hiato de anos, deixe um salve nos comentarios. Obrigado de coração

38 – Decisão


O quarto dele no apartamento em Chelsea, no fim de agosto, parecia esqueleto de uma vida inteira — os vidros panorâmicos vazios de qualquer coisa além de luz, as prateleiras nuas onde antes ficavam troféus de skate e discos de ouro emoldurados dos meninos da No Name, o eco estranho que ele não ouvia desde o dia que eles acharam o apartamento num site de imóveis quando se mudaram dos EUA.


Percy tinha vendido quase tudo.


O Porsche foi o mais difícil — não emocionalmente, mas logisticamente, já que Nico se recusou a aceitar qualquer desconto e insistiu em pagar o valor de mercado inteiro, "porque amizade é uma coisa, mas ficar rico às suas custas é outra completamente diferente, Jackson".


— Você vai cuidar bem dele? — Percy perguntou, entregando as chaves, um aperto estranho no peito ao ver o carro que era seu companheiro desde que havia chegado ao Reino Unido. Pelo menos ele estaria em boas mãos.



— Vou tratá-lo como um filho — Nico prometeu, solene, e depois estragou tudo imediatamente cantando pneu ao sair da garagem.


Os ternos foram embora numa consignação de luxo perto de Bond Street, os relógios — incluindo um Rolex que Scarlet tinha insistido em dar de presente no primeiro Natal deles, guardado numa gaveta havia anos, mais como lembrança do que como acessório real — vendidos num leilão discreto que rendeu uma quantia embaraçosamente alta pra algo que Percy raramente usava. Os blazers de tweed, os sapatos sociais italianos, as gravatas de seda que ele tinha acumulado ao longo de anos de jantares em Mayfair e eventos disciplinares — tudo se foi, peça por peça, até restar só o essencial: um exemplar de alta costura com valor sentimental, alguns jeans, camisetas velhas de banda, os Janoski surrados, e é claro, o skate, que nunca esteve à venda e jamais estaria.


— Sente falta de alguma coisa? — Luke perguntou, no último dia, os dois sentados no sofá da da sala, as malas gigantes de Percy já estacionadas na porta.


— De nada que valha a pena guardar — Percy respondeu, olhando ao redor — Só quero levar o que realmente importa.


Sally insistiu em levá-lo até Heathrow pessoalmente, apesar dos protestos fracos de Percy sobre não precisar se incomodar com o trânsito de sexta de manhã. Tyson e Lily estavam na escola, Percy achou melhor sair sem se despedir. Ele temeu não aguentar ver a pequena chorar pela sua partida.


— Não discuta comigo, Perseu — ela disse, o tom que não admitia negociação — Meu filho está se mudando pro outro lado do mundo. Vou levá-lo até o portão de embarque nem que precise brigar com segurança pra isso.


Luke, Nico e Grover apareceram também, sem que ninguém precisasse convidar — os três se materializando no estacionamento de Heathrow assim que viram a perua de Sally passar pela cancela.


— Vocês não precisavam vir — Percy disse, descendo do carro e indo ao encontro dos amigos.


— Precisávamos sim — Nico retrucou — Alguém tinha que garantir que você realmente embarcasse. E, além do mais, doze anos não são doze dias.


— Obrigado. De coração. Vocês são família.


No saguão de embarque, o grupo formou um círculo desajeitado, ninguém sabendo exatamente como se despedir de um jeito que não parecesse dramático demais pra um aeroporto lotado de sábado de manhã.


— Vai nos visitar — Luke disse, mais afirmação do que pergunta, dando um soquinho no ombro de Percy — E manda notícia quando o show da Califórnia começar de verdade.


— Prometo.


— E cuida bem dela — Grover acrescentou, mais sério que o normal — A Annabeth. Ela merece, depois de tudo.


— Pretendo passar o resto da vida fazendo isso.


Sally foi a última a se despedir, os olhos já marejados, as mãos segurando o rosto do filho com a mesma firmeza gentil de sempre.


— Não para de me visitar — ela disse, a voz embargada — Não importa quão longe você esteja, nem quantas responsabilidades novas apareçam. Prometa.


— Prometo, mãe. Sempre.


— E manda fotos da Califórnia. Quero ver se o sol de lá é tão bonito quanto eu lembro.


— É mais bonito ainda, provavelmente. Vou mandar fotos toda semana.


Ela o abraçou com força, o tipo de abraço que carregava anos inteiros de orgulho e medo misturados, e sussurrou, baixinho, só pra ele ouvir.


— Sua avó dizia que a coragem de verdade é só o medo que decidiu se mover mesmo assim. Você está se movendo, Percy. Isso é coragem, não loucura, não importa o que qualquer um diga.


Percy sentiu os próprios olhos arderem, e abraçou a mãe mais uma vez antes de finalmente se afastar, pegando a mala, caminhando até o portão de segurança com o grupo inteiro acenando atrás dele, gritando despedidas exageradas o suficiente pra atrair olhares curiosos de estranhos ao redor.


Ele se virou uma última vez antes de desaparecer pela esteira de segurança, vendo Sally, Luke, Nico e Grover ainda ali, acenando, uma vida inteira construída em Londres se despedindo dele com a mesma generosidade calorosa que sempre tinha definido aquele grupo de gente improvável que ele tinha aprendido a chamar de família.


Doze anos atrás, tinha sido o pai esperando do outro lado de um saguão parecido, uma vida inteira desmontada em malas. Agora, era ele mesmo montando tudo de novo, do outro lado do mundo, por um motivo que valia cada relógio, terno e carro vendido.


***


O calor de Berkeley em setembro não tinha nada da delicadeza britânica que Percy tinha aprendido a esperar do verão inglês — era um calor seco, direto, do tipo que grudava a camisa nas costas antes mesmo das nove da manhã e fazia o asfalto tremular ao longe, como se a própria cidade estivesse derretendo devagar sob o sol da Califórnia.


Ele colocou os Wayfarer assim que saiu do apartamento novo em South Beach, ainda cheio de caixas por desfazer, a mudança inteira reduzida a um punhado de malas e uma vida inteira comprimida em contêineres que ainda demorariam semanas pra chegar de Londres. Remou de skate pelo campus com um mapa mental que ele nem sabia que ainda carregava, ruas que reconhecia de um jeito estranho, quase físico, como se o corpo lembrasse de algo que a mente tinha deixado se apagar ao longo de doze anos.


O calor daquele dia de junho, doze anos atrás, tinha sido exatamente assim — seco, implacável, o tipo de calor que fazia o skate parquinho perto de casa ficar vazio depois do meio-dia, ninguém disposto a queimar os pés no concreto quente. Percy, dezessete anos, sentado na varanda da casa onde tinha crescido, as malas já prontas, olhando pro quintal onde tinha aprendido os primeiros Ollies com o pai antes mesmo de saber o nome da manobra.


— Você não precisa ir — Sally tinha dito, parada na porta, os olhos já vermelhos de um choro que ela tentava disfarçar havia dias.


— Papai conseguiu o cargo em Nova York, mãe. É uma oportunidade enorme pra ele.


— Eu sei. Só... — ela não completou a frase, e não precisava. Os dois sabiam exatamente o que aquilo significava. O casamento tinha acabado meses antes, silenciosamente, sem gritos, só o desgaste normal de duas pessoas que já não conseguiam mais fazer sentido juntas. Poseidon tinha aceitado o cargo de CFO de uma multinacional baseada em NY, e Percy, com a teimosia de sempre, tinha decidido ir com ele — não porque amasse menos a mãe, mas porque alguma coisa nele já sabia, mesmo aos dezessete anos, que precisava daquela mudança.


— Vou visitar sempre que puder — ele tinha prometido, a voz embargada, os Ray-Ban pendurados na camisa, o mesmo par que ele usaria, com variações, pelos próximos doze anos da vida inteira.


— Eu sei que vai — Sally respondera, abraçando-o com força — E eu também vou seguir em frente, querido. Recebi uma proposta. Um cargo de professora visitante em Oxford, literatura comparada. Vou pra Inglaterra enquanto você se acostuma em Nova York com seu pai.


— Oxford — Percy tinha repetido, a palavra estranha na boca de um garoto de dezessete anos que mal sabia onde ficava a Inglaterra no mapa direito — Isso é loucura, mãe.


— Talvez seja — ela sorrira, o mesmo sorriso que ele reconheceria, anos depois, em cada decisão difícil da própria vida — Mas às vezes a loucura é exatamente o que a gente precisa.


Percy piscou, voltando ao presente, o calor de Berkeley batendo diferente, mas familiar o suficiente pra doer de um jeito específico. Doze anos. Doze anos desde que tinha saído daquele estado pra virar o garoto de skate patrocinado em Nova York, o namorado atormentado de Annabeth Chase, o professor de Oxford, o homem que tinha construído e desmanchado uma dúzia de versões diferentes de si mesmo ao longo do caminho.


E agora, sem que ninguém além de Crawford e o próprio departamento soubesse, estava de volta.


O campus da Berkeley se estendia enorme, prédios de tijolo vermelho misturados com arquitetura mais moderna, árvores altas oferecendo sombra escassa contra o sol implacável do meio-dia. Percy caminhou até o prédio de História Antiga com uma pasta de couro debaixo do braço — a mesma que usava em Oxford, surrada o suficiente pra parecer deslocada naquele campus americano tão diferente das pedras antigas de Balliol.


Tinha combinado com o departamento manter sua contratação em sigilo absoluto até o primeiro dia de aula — um pedido estranho, ele sabia, mas o reitor de Berkeley, um homem pragmático chamado Dr. Alderman, tinha achado a ideia até divertida.


— Um professor misterioso — ele comentara, durante a única ligação que os dois tiveram antes da mudança — Os alunos vão adorar o drama, Dr. Jackson. Berkeley aprecia um pouco de teatro acadêmico de vez em quando.


Percy não tinha contado o motivo real. Não tinha contado que precisava daquele sigilo pra proteger um momento específico — o momento em que Annabeth, sentada na primeira aula do próprio doutorado, veria a porta se abrir e descobriria, sem aviso nenhum, que o homem que ela amava tinha atravessado um oceano inteiro em segredo só pra estar ali, ao lado dela, sem que ela precisasse escolher entre a carreira e o coração nunca mais.


Sally tinha ligado, na noite anterior ao dia da mudança de Percy pra Nova York, doze anos atrás, contando sobre Oxford com um entusiasmo nervoso que ele reconheceria, anos depois, como exatamente igual ao próprio entusiasmo dele agora.


— Você está com medo? — ele tinha perguntado, dezessete anos, tentando entender como a própria mãe conseguia parecer tão corajosa.


— Estou apavorada — ela respondera, rindo baixinho — Mas às vezes o medo é só a prova de que a gente está fazendo alguma coisa que realmente importa, Percy. Lembra disso. Sempre que sentir medo de verdade, é porque provavelmente vale a pena.


Ele tinha guardado aquela frase, sem saber, na época, o quanto precisaria dela exatamente doze anos depois.


Foi dois dias antes do início oficial das aulas que aconteceu o quase-desastre.


Percy estava sentado numa cafeteria pequena perto do apartamento novo, o laptop aberto, tentando revisar o plano de aula pela décima vez, quando o celular vibrou com uma chamada de vídeo — Annabeth, algo raro o suficiente ultimamente pra fazer ele derrubar quase a caneca inteira de café em cima do próprio colo na pressa de atender.


Ele hesitou meio segundo, olhando ao redor da cafeteria — as paredes de tijolo aparente, os letreiros de neon vintage, a decoração toda inspirada nos speakeasies americanos dos anos vinte, um detalhe completamente deslocado de qualquer coisa que existisse em Oxford — antes de atender, torcendo desesperadamente pra câmera não revelar demais do fundo.


— Oi! — ele disse, talvez animado demais, a tela travando por um segundo antes de estabilizar.


— Oi — Annabeth respondeu, sorrindo, o quarto dela ao fundo, prateleiras já organizadas de livros — Faz tempo que a gente não faz isso direito. Senti sua falta.


— Também senti.


Ela franziu a testa, os olhos percorrendo o fundo da tela atrás dele.


— Onde você está? Isso não parece nem um pouco britânico.


Percy sentiu o coração acelerar, o pânico chegando rápido demais pra qualquer resposta bem pensada.


— Ah, isso — ele disse, forçando um tom casual — É um lugar novo aqui perto. Um café temático, imitando aqueles bares americanos dos anos vinte. Tijolo aparente, neon, esse tipo de coisa.


— Por que você estaria numa cafeteria com tema americano em pleno Oxford?


— Porque sinto sua falta — ele respondeu, rápido, quase verdadeiro demais pra soar como desculpa — E esse lugar meio que me lembra casa. O seu tipo de casa, quero dizer. América. Você. As duas coisas meio que viraram sinônimos pra mim, ultimamente.


Annabeth ficou em silêncio por um segundo, a desconfiança suavizando aos poucos diante da sinceridade inesperada da resposta..


Ela riu, balançando a cabeça, a suspeita esquecida por trás de um sorriso genuíno, e os dois conversaram por quase quarenta minutos — sobre o apartamento novo dela perto do campus de Berkeley, sobre a ansiedade dela pro início do doutorado, sobre absolutamente nada específico que realmente importasse, exceto o fato de estarem, finalmente, depois de semanas de mensagens curtas, conversando de verdade outra vez.


Quando finalmente desligaram, Percy ficou sentado ali, o coração ainda acelerado, olhando ao redor da cafeteria americana disfarçada de segredo quase revelado, e riu sozinho, baixinho, da proximidade ridícula daquele desastre evitado por pouco.


Guardaria aquele momento — o coração acelerado, a mentira nascida de pura sinceridade disfarçada, o quase desastre completo do plano inteiro — como uma das histórias que contaria, anos depois, rindo, sempre que alguém perguntasse como tinha sido aquele verão de segredo em Berkeley.


A última imagem que Percy guardava da Califórnia, doze anos atrás, antes de embarcar pro voo que o levaria pra Nova York, era do próprio pai, Poseidon, esperando do lado de dentro do saguão de embarque, os olhos cansados mas o sorriso genuíno — o mesmo sorriso que Percy reconheceria, anos depois, cada vez que voltasse pra visitar Rotherhithe e encontrasse a mãe esperando na porta com Lilian agarrada na perna dela.


— Vai ser diferente — Poseidon tinha dito, no carro, os dois em silêncio pela primeira parte da viagem — Nova York. Um pai que trabalha demais. Você vai sentir falta daqui.


— Vou sentir falta de tudo — Percy tinha admitido, dezessete anos, olhando pela janela pra paisagem que já começava a desaparecer atrás deles — Mas acho que também preciso disso. De algo diferente.


— Isso é bem maduro pra um garoto de dezessete anos.


— Aprendi com a mamãe.


Poseidon tinha rido, o som genuíno o suficiente pra aliviar um pouco o peso do momento, e continuara dirigindo, os dois sabendo, sem precisar dizer em voz alta, que aquela viagem representava o fim de uma versão inteira das próprias vidas — e o início incerto de outra, que nenhum dos dois conseguia prever direito na época.


Percy nunca teria imaginado, naquele carro, doze anos atrás, que a vida o traria de volta exatamente àquele estado — não como o garoto que tinha saído, mas como um homem completamente diferente, carregando uma carreira construída em três continentes diferentes, um coração partido e remontado várias vezes, e agora, finalmente, uma certeza que ele jamais teria conseguido articular aos dezessete anos: que existia, sim, uma pessoa por quem valia a pena atravessar qualquer oceano, recomeçar qualquer carreira, arriscar qualquer coisa.


A manhã do primeiro dia de aula chegou quente demais pra qualquer roupa formal ser confortável, mas Percy vestiu o terno leve de linho assim mesmo, a gravata frouxa o suficiente pra parecer despretensiosa, os Wayfarer cobrindo os olhos verdes do sol escaldante, mesmo sabendo que precisaria tirá-los assim que entrasse no auditório.


Ele chegou de propósito atrasado — quinze minutos, tempo suficiente pra garantir que a turma inteira já estivesse reunida, ansiosa, provavelmente já comentando sobre o misterioso professor substituto cuja identidade o departamento se recusava a revelar.


Ficou parado do lado de fora da porta por um momento longo demais, o coração batendo com uma força que nenhuma audiência disciplinar, nenhuma entrevista de emprego, nenhum discurso de formatura na frente de três mil pessoas jamais tinha conseguido provocar.


Lembrou, de repente, do dia em que tinha subido ao palco pela primeira vez em Balliol, atrasado, gaguejando desculpas sobre o trem, o coração acelerado de um jeito parecido — só que aquele medo, comparado a esse, parecia ridiculamente pequeno.


Ele respirou fundo, ajeitou a pasta debaixo do braço, e abriu a porta.


O auditório estava cheio — trinta e poucos alunos de doutorado espalhados pelas cadeiras escalonadas, o burburinho nervoso de sempre preenchendo o ar antes do início de qualquer semestre novo. Percy entrou carregando a pilha de papéis contra o peito, o rosto parcialmente escondido atrás dela, o mesmo truque velho que usava desde os tempos de aluno atrasado tentando passar despercebido.


— Desculpem o atraso — ele disse, a voz ecoando pelo auditório antes mesmo de baixar os papéis o suficiente pra revelar o próprio rosto — Fiquei preso no trânsito de San Francisco. Aparentemente isso nunca muda, não importa quantos anos a gente passe longe.


Ele baixou os papéis, finalmente, os olhos correndo pela plateia até encontrarem exatamente o rosto que ele estava procurando.


Annabeth estava sentada na terceira fileira, o queixo caindo devagar, os olhos arregalados numa mistura de choque, confusão e algo que se transformava, segundo a segundo, em pura incredulidade.


— Percy? — ela sussurrou, alto o suficiente pra algumas cabeças ao redor se virarem, confusas.


— Bom dia — ele disse, a voz falhando de leve, incapaz de conter completamente o sorriso que insistia em aparecer — Sou o Dr. Jackson. Serei o professor de vocês esse semestre.


O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo, mas pareceu esticar-se por uma eternidade inteira, Percy sentindo cada olhar da sala, mas só realmente enxergando um.


— Você... — Annabeth começou, ainda sem conseguir formular a frase completa, as mãos cobrindo a boca devagar.


— Vim aceitar uma vaga aqui em Berkeley — ele explicou, ainda olhando só pra ela, o resto da turma esquecido por um instante — Consegui a confirmação em maio. Guardei segredo esse tempo todo porque queria ver sua cara exatamente nesse momento, sem nenhum peso de expectativa em cima do nosso reencontro.


— Aquela ligação — ela disse, devagar, a memória se encaixando — A cafeteria estranha. Você já estava aqui.


— Já estava.


— Eu sabia! — ela admitiu, um sorriso incrédulo começando a se formar — Devia ter confiado no meu instinto.


A turma inteira riu, o clima leve o suficiente pra quebrar de vez qualquer formalidade acadêmica que ainda restasse na sala.


— Você... vai morar aqui? De verdade?


— De verdade. Contrato assinado, apartamento comprado, e uma cidade inteira de memórias esperando pra eu reaprender a gostar delas de novo.


A turma inteira parecia ter esquecido completamente que assistia uma aula, os olhares alternando entre Percy e Annabeth com uma curiosidade que nenhum protocolo acadêmico jamais teria conseguido conter.


Annabeth se levantou, devagar, os livros esquecidos na cadeira, e caminhou até a frente do auditório sem se importar nem um pouco com as regras não ditas sobre comportamento apropriado numa sala de aula. Parou bem na frente dele, os olhos brilhando de lágrimas contidas, a mesma incredulidade genuína estampada no rosto que Percy reconhecia de um JFK de Natal, anos atrás, quando ela tinha aparecido de surpresa usando aquela touca rosa ridícula.


— Você atravessou o país inteiro. Em segredo. Só pra estar aqui.


— Atravessei o país, o oceano, e anos de covardia acumulada — ele respondeu, a voz baixa agora, só pra ela — Mas cheguei. Finalmente.


Ela o abraçou ali mesmo, na frente da turma inteira, com uma força que carregava tudo que nenhuma mensagem de texto, nenhuma chamada de vídeo espaçada, nenhum mês de distância mal resolvida jamais tinha conseguido transmitir. Percy fechou os olhos, o rosto enterrado nos cabelos dela, o cheiro de sempre — limão e hortelã — inalterado depois de doze anos inteiros, e sentiu, com uma clareza absoluta, que finalmente tinha chegado exatamente onde precisava estar.


O auditório aplaudiu, alguns alunos rindo, emocionados sem nem saber direito por quê, e quando finalmente se separaram, Percy passou os dedos de leve pela mecha de cabelo que caía no rosto dela, o mesmo gesto que fazia desde os dezessete anos.


— Bem-vinda de volta à Califórnia, Srtª Chase — ele disse, baixinho.


— Bem-vindo de volta você, Dr. Jackson — ela respondeu, ainda sorrindo, ainda incrédula, as mãos permanecendo nos ombros dele.


Nunca, em nenhum momento daquela viagem de carro silenciosa até o aeroporto, doze anos atrás, Percy Jackson teria imaginado que construiria a própria vida ali de novo — não como fuga, não como recomeço forçado por circunstâncias alheias, mas como escolha, deliberada e corajosa, ao lado exatamente da pessoa certa.


Quando Annabeth retornou até seu lugar no auditório ele se virou pra turma e pigarreou.


— Bem — ele disse, sorrindo — Onde estávamos? Ah, sim. Arqueologia Clássica e suas Interseções Asiáticas. Vamos começar.


FIM


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!