Notas iniciais
Mais um. Ta acabando

35 – Angkor


Camboja não parecia real durante os primeiros dias — o calor era um tipo diferente de calor, úmido e pesado, colando a camisa no corpo antes mesmo das nove da manhã, e o verde da selva ao redor de Angkor era tão denso que Percy se pegava, mais de uma vez, esquecendo temporariamente que existia um mundo lá fora além daquelas ruínas cobertas de musgo e raízes de árvores centenárias que pareciam ter engolido templos inteiros ao longo dos séculos, como se a própria natureza se recusasse a deixar o passado descansar em paz.


O acampamento ficava a uma curta caminhada do templo principal, tendas reforçadas dispostas em círculo ao redor de uma clareira, o som constante de insetos noturnos substituindo qualquer silêncio que Percy pudesse esperar. A equipe era pequena dessa vez — seis alunos, dois professores auxiliares, e ele, carregando o peso extra de estar, pela primeira vez em anos, completamente responsável por uma expedição inteira sem Crawford por perto pra dividir a pressão.


Devia ser emocionante. Era, em partes. Mas havia um vazio específico que Percy carregava desde Heathrow, um vazio com o formato exato de uma garota loura que não estava ali, que nunca estaria ali naquela expedição específica, e que ele se pegava procurando, por reflexo, toda vez que encontrava algo interessante o suficiente pra querer compartilhar.


— Professor Jackson — um dos alunos, um rapaz magricela chamado Oliver que Percy reconhecia da Turquia, o chamou, a voz ecoando entre as pedras — Vem ver isso.


Percy se aproximou, agachando-se ao lado da trincheira que os alunos vinham escavando havia dias, cuidadosamente removendo camadas de terra e raízes com pincéis e espátulas pequenas demais pra parecerem úteis contra a imensidão da selva ao redor.


Era um fragmento de baixo-relevo, parcialmente coberto de musgo, mostrando o contorno de uma apsara dançante, os detalhes ainda visíveis apesar dos séculos de exposição.


— Isso é lindo — Percy murmurou, passando os dedos de leve sobre a pedra, sentindo aquela sensação específica que só a arqueologia conseguia proporcionar — o contato direto com mãos que tinham esculpido aquilo há quase mil anos, uma ponte silenciosa entre o presente e um passado que se recusava a desaparecer por completo.


Naquela noite, sentado na entrada da própria barraca, ele abriu o Instagram sem pensar muito, o hábito de rolar o feed antes de dormir já enraizado havia anos. Postou uma foto do baixo-relevo, a legenda curta — "Mil anos e ainda mais bonita que qualquer coisa nova" — e não tinha nem guardado o celular direito quando a notificação apareceu.


annabethchase curtiu sua foto.


Alguns segundos depois, um comentário:


annabethchase: isso é uma apsara?? PERCY me manda mais fotos agora


percy.jackson: de quase mil anos de idade


annabethchase: quando voltar quero saber tudo


Ele riu sozinho, deitado na barraca, e passou os vinte minutos seguintes mandando fotos por direct — o templo ao amanhecer, uma trincheira meio escavada, um lagarto enorme que tinha aparecido durante o almoço e espantado meio acampamento. Ela respondia rápido, cada mensagem carregando aquele entusiasmo genuíno que ele sempre amara nela, misturando comentários técnicos sobre estilo arquitetônico com piadas bobas sobre o lagarto ter mais personalidade que metade dos colegas de mestrado dela.


Era bom. Era fácil, naquele formato — fotos, legendas, curtidas, o tipo de proximidade que cabia dentro de uma tela pequena sem exigir nada além de atenção esporádica.


O problema era que aquilo, sozinho, não bastava.


Tentaram, num sábado, fazer um jantar de verdade — cada um preparando alguma coisa na própria cozinha, os laptops posicionados na mesa como se pudessem substituir a presença real do outro.


Percy improvisou um curry com o que conseguiu achar no mercado local perto do acampamento, a barraca de suprimentos vendendo mais coco e pimenta do que qualquer coisa reconhecível como ingrediente ocidental. Annabeth, do outro lado da tela, mostrava orgulhosa uma massa que ela jurava ter saído perfeita, embora a câmera do laptop deixasse tudo com uma tonalidade estranha, meio amarelada.


— Nós — ela disse, erguendo a taça de vinho pra câmera, o gesto ficando cômico e vazio sem nada do outro lado pra realmente brindar.


— À nós — Percy repetiu, erguendo a própria garrafa de cerveja quente, porque gelo ali era artigo de luxo.


Comeram em silêncio por um tempo, as telas lado a lado nas respectivas mesas, o som de talheres se misturando estranhamente com o delay da conexão. Era bonito, de um jeito triste. Era também, Percy percebeu no meio do segundo garfo de curry, profundamente insuficiente.


— Isso é estranho — Annabeth admitiu, colocando o garfo de lado — Sinto que estou jantando com uma televisão.


— Uma televisão bonita.


— Ainda assim, uma televisão.


— Eu queria estar sentindo o cheiro da sua comida agora — ele disse, mais sério do que pretendia — Não só vendo pela câmera.


Annabeth ficou quieta por um instante, os olhos baixando pro prato.


— Eu também queria. Isso é... mais difícil do que eu esperava, sabia? Achei que ia ser tipo mandar mensagem o dia inteiro, só que com mais vídeo. Não imaginei que ia doer tanto sentir sua falta durante um jantar sozinha na minha própria mesa.


— A gente vai encontrar o jeito.


— Vai? — ela perguntou, a voz carregando uma dúvida genuína que ela raramente deixava transparecer.


Ele não respondeu de imediato, e o silêncio pesou mais do que qualquer resposta ruim teria pesado.


***


Crawford quem recebeu a ligação, quase três semanas depois, o reitor atendendo com a voz sonolenta de quem tinha sido acordado no meio da noite britânica.


— Jackson? Sabe que horas são aqui?


— Desculpa, reitor. Perdi a conta dos fusos.


— Isso é evidente — Crawford resmungou, um barulho de cobertor sendo afastado ecoando do outro lado — O que foi? Angkor desabou?


— Não. Nada desabou. Preciso de um conselho.


Houve uma pausa, o som de Crawford provavelmente se sentando na cama, mais atento agora.


— Isso soa sério.


— É sobre a Annabeth.


— Claro que é — Crawford suspirou, mas sem irritação real na voz — Continue.


Percy respirou fundo, sentado sozinho perto da fogueira quase apagada, o resto do acampamento já dormindo.


— Acho que estou pensando em fazer uma loucura, reitor.


— Você faz loucuras regularmente, Jackson. Precisa ser mais específico.


— Estou pensando em ir atrás dela. De verdade. Não visita de férias, não mensagem de bom dia. Ir morar lá.


O silêncio do outro lado durou tempo suficiente pra Percy temer que a ligação tivesse caído.


— Está falando de deixar Balliol.


— Estou falando em considerar isso.


— Jackson, você construiu uma carreira aqui. Camboja, a Turquia, o mestrado com honras e um dos mais jovens professores de Oxford, o nome que você tem entre os colegas… — Crawford enumerou, a voz cuidadosa, nem repreensiva nem encorajadora — Isso não é pouca coisa pra jogar fora por causa de uma garota, por mais que eu, particularmente, ache aquela garota impressionante o suficiente pra justificar quase qualquer loucura.


— Eu sei o que estou arriscando.


— Sabe mesmo?


Percy ficou em silêncio, encarando as brasas quase apagadas da fogueira.


— Não completamente, talvez — ele admitiu — Mas sei o que estou arriscando ficando aqui e deixando isso morrer aos poucos por covardia. Isso eu conheço bem demais. Já fiz esse tipo de erro antes.


Crawford suspirou longamente, o tipo de suspiro que carregava anos de experiência lidando com alunos e professores igualmente teimosos.


— Não decida nada essa noite, Jackson. Decisões tomadas às três da manhã, sozinho numa selva, raramente são as melhores. Se ainda estiver pensando nisso quando pisar de volta em Heathrow, me procure. Aí sim conversamos direito, com a cabeça fria e não com fuso horário te deixando maluco.


— Justo.



Percy hesitou, a pergunta que realmente importava travando na garganta por um segundo antes de sair.


— Se eu decidir tentar alguma coisa acadêmica nos Estados Unidos. NYU, especificamente. Eu precisaria de uma carta de recomendação forte. A sua.


Outro silêncio, mais longo dessa vez.


— Está falando sério.


— Estou considerando falar sério. Ainda não decidi nada.


— Jackson — Crawford disse, por fim, a voz mais suave do que Percy esperava — Eu escrevi cartas de recomendação pra dúzias de alunos e colegas ao longo da carreira. Poucas vezes tive tanta certeza de que valeria a pena escrever quanto teria agora, pra você, pra esse motivo específico. Você é bom demais no que faz pra desperdiçar isso, mas também é péssimo demais em manter as pessoas que importam por perto pra continuar fingindo que carreira é a única coisa que conta.


— Agora me deixe dormir.


Quando a ligação se encerrou Percy ficou sentado ali, o peso da conversa se assentando devagar — não uma decisão, ainda, mas o primeiro passo real de admitir, em voz alta pra outra pessoa, que a possibilidade existia.


Foi nas semanas seguintes que Percy começou a notar a mudança — sutil no início, quase imperceptível, mas presente o suficiente pra doer cada vez mais conforme os dias passavam.


Não era mais só saudade passiva. Era aquela pergunta que se recusava a ficar quieta. E se os dois não dessem certo? E se ele arriscasse a carreira por um romance que poderia fracassar novamente?


A Drª Marín, a arqueóloga espanhola que tinha acompanhado a equipe na Turquia e agora liderava parte da documentação fotogramétrica em Angkor, percebeu a mudança antes de qualquer outra pessoa.


— Você está distraído — ela comentou, uma tarde, os dois sentados na tenda-laboratório improvisada, catalogando fragmentos sob a luz de lâmpadas alimentadas por gerador — Mais do que o normal pra alguém no meio de uma expedição importante.


— Estou bem.


— Não perguntei se você estava bem. Disse que está distraído.


Percy suspirou, largando o pincel que usava pra limpar um pedaço de cerâmica.


— Tem uma pessoa. Em Nova York.


— Ah — Marín sorriu, o tipo de sorriso que carregava anos de experiência observando pesquisadores apaixonados negligenciarem o próprio trabalho — A famosa Srtª Chase, presumo. Os alunos comentam.


— Os alunos comentam demais.


— Os alunos sempre comentam demais. É basicamente função deles — ela voltou a atenção pro próprio trabalho, mas continuou falando, casual — Meu marido e eu ficamos oito anos morando em países diferentes antes de decidirmos que já bastava. Oito anos, Jackson. Sabe o que eu aprendi nesse tempo todo?


— O quê?


— Que a distância não testa o amor. Isso é romantismo de filme ruim. A distância só testa a paciência de duas pessoas com a própria solidão. O amor, esse continua exatamente do mesmo tamanho, só fica mais difícil de alcançar.


Percy ficou em silêncio, absorvendo aquilo, as mãos paradas sobre o fragmento de cerâmica esquecido.


— Você acha que eu devia fazer alguma coisa a respeito?


— Acho que você já sabe a resposta, e só está catalogando cerâmica pra não precisar dizer em voz alta — Marín respondeu, sem erguer os olhos do próprio trabalho, um sorriso pequeno escondido no canto da boca.


As mensagens de Annabeth, que costumavam chegar cheias de detalhes, de piadas, de fotos aleatórias do dia dela, foram ficando mais curtas. Mais espaçadas. O "bom dia" que antes vinha acompanhado de alguma observação específica sobre o clima de Nova York ou sobre algo estranho que tinha visto no metrô virou, aos poucos, só "bom dia", sem mais nada.


"Como foi seu dia?", ele perguntava.


"Cansativo. E o seu?", ela respondia, horas depois, curto, sem a curiosidade genuína de antes.


Ele tentou não ler demais naquilo. Ela estava sobrecarregada com o mestrado, a orientadora exigente, os prazos apertados — havia explicação suficiente pra justificar mensagens mais curtas sem precisar assumir o pior. Mas o medo, uma vez plantado, não desaparecia fácil.


Uma noite, depois de mandar três mensagens seguidas sem resposta durante horas, Percy se pegou olhando pro próprio celular com uma ansiedade que ele não sentia desde os tempos de adolescente esperando resposta de alguma garota do colégio.


"Você está bem?", ele mandou, por fim, incapaz de continuar fingindo que não tinha notado.


A resposta veio quase uma hora depois.


"Estou. Só cansada. Desculpa, não quis te preocupar."


Percy não respondeu aquela mensagem. Ele só mandou um emoji de carinha preocupada e deixou o celular de lado.


***


A expedição terminou quase em outubro, alguns dias após o previsto. O sítio inteiro documentado, catalogado e fotografado com um rigor que rendeu elogios entusiasmados de Aldridge por telefone e uma promessa de publicação conjunta no relatório final da universidade. Os alunos comemoraram na última noite com uma fogueira maior que o normal, alguém tinha conseguido contrabandear uma garrafa de whisky pro meio da selva, e Percy brindou junto com todos, sentindo o alívio genuíno de ter concluído um trabalho difícil sem nenhum incidente sério.


Voltou pra Londres num voo longo demais, o corpo ainda ajustando o fuso horário quando pousou em Heathrow, a mala cheirando a poeira de templo e protetor solar vencido.


A cobertura em Chelsea o recebeu com o silêncio de sempre — a banda estava em turnê. Ele sentiu o peso da solidão bater ainda mais forte ao entrar naquele mausoléu de 300 metros quadrados gelado sem a falação tradicional que já era ouvida desde que as portas do elevador se abriam no hall.


Desfez as malas devagar, lavou a roupa suja acumulada de semanas, e voltou pra rotina antiga com uma facilidade estranha, quase mecânica — as aulas em Balliol recomeçando, o escritório de Crawford voltando a cheirar a couro velho e café requentado, os corredores de sempre, os alunos de sempre, a vida de sempre esperando por ele exatamente onde tinha parado.


Só que nada daquilo parecia mais suficiente do jeito que costumava ser.


As mensagens com Annabeth continuaram chegando, mais espaçadas do que ele gostaria, mais curtas do que costumavam ser, e Percy passou os primeiros dias de volta em Londres carregando a mesma pergunta que tinha levado embora de Camboja, ainda sem resposta, ainda pesando, esperando o momento — que ele sabia, incomodamente, estar cada vez mais perto — de finalmente precisar ser respondida.