Notas iniciais
Mais um.

34 –Dias emprestados


Abril chegou trazendo consigo uma versão de Londres que Percy quase não reconhecia — não porque a cidade tivesse mudado, mas porque ele, pela primeira vez em anos, parava pra realmente vê-la, cada esquina, cada museu, cada parque que sempre existira ali sem que ele se desse ao trabalho de aproveitar.


Foi Annabeth quem começou a lista. Rabiscada num guardanapo, num sábado de manhã preguiçosa na cobertura, os dois ainda de pijama, café esfriando entre eles na mesa da cozinha, a luz fraca de abril entrando pelos vidros panorâmicos e desenhando quadrados no chão de madeira.


— Se eu vou passar os próximos meses aqui — ela declarou, mordendo a ponta da caneta, os cabelos ainda soltos e bagunçados do sono — quero ver Londres de verdade, não só a versão de professor cansado que você me mostra entre uma aula e outra.


— Eu te mostrei o Museu Britânico.


— Você me mostrou o Museu Britânico em vinte minutos, apontando pras coisas de longe enquanto reclamava do joelho.


— Meu joelho tem motivo pra reclamar. Três cirurgias, Annabeth.


— Mesmo assim. Quero fazer isso direito. Quero ser turista com você, pelo menos uma vez antes de virar só saudade.


A última frase saiu mais pesada do que ela pretendia, e os dois ficaram em silêncio por um segundo, o peso do que vinha se aproximando pairando ali, entre o café frio e o guardanapo rabiscado. Percy esticou a mão e cobriu a dela sobre a mesa.


— Então vamos fazer isso direito.


E assim começou.


Foram à Tate Modern num domingo chuvoso, Annabeth arrastando-o por horas entre instalações que ela insistia em explicar com um entusiasmo que Percy achava contagiante, mesmo sem entender metade do que ela dizia sobre proporção e ruptura formal. Ele a observava mais do que observava as obras — o jeito como ela inclinava a cabeça diante de uma tela, o cenho franzido de concentração genuína, os dedos quase tocando a superfície de uma escultura antes de se lembrar, tarde demais, que não podia.


— Você está olhando pra mim, não pro Rothko — ela acusou, sem se virar.


— O Rothko é só um quadrado vermelho. Você é mais interessante.


— Filisteu.


— Apaixonado, na verdade.


Ela corou, mesmo depois de tudo, mesmo depois de onze anos e meses inteiros compartilhando a mesma cama, e Percy achou aquilo a coisa mais bonita que já tinha visto naquele museu inteiro.


Almoçaram depois num café minúsculo perto da Tate, sanduíches ruins e chá bom demais pra combinar com a comida, os dois discutindo sem seriedade real se Turner merecia mesmo a fama que carregava ou se era só marketing vitoriano bem executado. Annabeth defendia Turner com uma paixão que Percy suspeitava ser mais teimosia do que convicção real, só pra continuar a discussão, só pra continuar sentado ali, o cotovelo dela roçando o dele por cima da mesa pequena.


Foram também à National Gallery numa quarta à tarde, quando Percy conseguiu escapar de duas horas de aula com uma desculpa esfarrapada sobre "pesquisa de campo comparativa" que nem Crawford acreditou direito. Passearam devagar entre os Rembrandts, Annabeth parando mais tempo diante de um autorretrato do pintor idoso do que diante de qualquer coisa mais famosa na galeria.


— Ele sabia que estava ficando velho — ela comentou, a voz baixa — Dá pra ver isso no jeito como ele se pintou. Sem vaidade nenhuma.


— É meio deprimente pra um passeio de casal.


— Casal — ela repetiu, testando a palavra na boca, um sorriso pequeno aparecendo — Você nunca tinha usado essa palavra antes.


— Não?


— Não.


Percy considerou aquilo por um segundo, surpreso consigo mesmo.


— Bom. Casal, então. Oficialmente.


— Meio atrasado, considerando os últimos meses.


— Tudo entre a gente é atrasado, Annabeth. Onze anos de atraso, lembra?


Ela riu, e o eco daquele riso ecoou baixinho pela sala silenciosa da galeria, atraindo o olhar reprovador de um guarda de segurança que os dois ignoraram completamente.


Visitaram também o Victoria and Albert, perdidos por uma tarde inteira entre as galerias de moda e design, Annabeth fascinada com uma exposição temporária sobre arquitetura bizantina que fez ela ficar acordada até tarde da noite seguinte, tecendo teorias sobre influências que Percy só entendia pela metade, mas ouvia com atenção genuína, deitado ao lado dela, o quarto iluminado só pela luz do celular dela pousado entre os dois enquanto ela mostrava fotos de mosaicos e desenhava, no ar, com o dedo, os arcos que ela tentava descrever.


— Você devia dormir — ele murmurou, já meio vencido pelo sono.


— Só mais cinco minutos. Isso é importante.


— Você disse isso há quarenta minutos.


— E ainda é verdade.


Ele riu, sonolento, e a puxou pra mais perto, o celular dela finalmente escorregando da mão e caindo esquecido entre os travesseiros.


Passaram sábados inteiros perdidos em Borough Market, provando queijos que nenhum dos dois conseguia pronunciar direito, comprando geleias artesanais caras demais só porque as embalagens eram bonitas, e domingos preguiçosos em Hampstead Heath, subindo até o ponto mais alto do parque só pra ver Londres inteira se espalhar lá embaixo, o skyline recortado contra um céu que raramente cooperava, mas que naquele dia específico decidiu ficar limpo o suficiente pra valer a subida.


— Um dia eu devia te trazer aqui de noite — Percy comentou, os dois sentados na grama, Annabeth encostada nele, o vento fresco de abril bagunçando os cabelos dela contra o rosto dele.


— Promete?


— Prometo.


Cumpriu, duas semanas depois, os dois embrulhados num cobertor que ele roubou do próprio quarto sem cerimônia nenhuma, uma garrafa de vinho barato comprado numa loja de esquina entre eles, vendo Londres se acender aos poucos enquanto o sol desaparecia atrás dos prédios, as luzes da cidade surgindo uma a uma como se alguém estivesse acendendo velas devagar por toda a paisagem. Ficaram até tarde, mais tarde do que qualquer pessoa sensata ficaria num parque público em maio, só conversando sobre nada — a infância dela em São Francisco antes da mudança pra Nova York, o pai dele explicando fórmulas de física que Percy nunca entendeu direito, coisas pequenas e sem importância que, mesmo assim, pareciam essenciais naquele momento.


A viagem pra Cornualha aconteceu num fim de semana longo de maio, decidida quase por impulso, depois de uma semana particularmente cansativa pros dois — Percy afogado em papelada da expedição, formulários de seguro e listas de equipamento que pareciam se multiplicar sozinhas na mesa dele, Annabeth terminando os últimos créditos do meio-mestrado, as noites em claro debruçada sobre desenhos técnicos que precisavam ser entregues antes do fim do semestre.


— A gente precisa sumir — ela decretou, numa quinta à noite, o laptop dela aberto na mesa da cozinha cheio de abas de reserva de trem, os olhos vermelhos de cansaço — Só alguns dias. Longe de Oxford, longe de Balliol, longe de qualquer coisa que pareça responsabilidade.


— Pra onde?


— Cornualha. Já pesquisei. Tem uma casinha de pedra perto de St Ives que parece saída de um cartão postal, e praticamente ninguém vai nos reconhecer lá.


— Você já reservou, não já?


— Já.


Percy riu, sem surpresa alguma, e começou a fazer as malas na mesma hora.


Foram de trem, a paisagem mudando devagar da Inglaterra cinzenta e urbana pra algo mais verde, mais selvagem, campos e cercas de pedra dando lugar, aos poucos, a penhascos que apareciam no horizonte conforme se aproximavam da costa. Annabeth passou boa parte da viagem com a testa colada na janela, encantada com cada mudança na paisagem, comentando cada detalhe com o mesmo entusiasmo genuíno que ela reservava pra ruínas antigas e museus vazios.


A casinha era exatamente como o anúncio prometia — pedra antiga, tetos baixos o suficiente pra Percy bater a cabeça duas vezes no primeiro dia, uma lareira que ele insistiu em acender mesmo sem necessidade real, só pelo clima, e janelas pequenas que emolduravam pedaços do mar como se fossem quadros pendurados de propósito.


Passaram os dias caminhando por trilhas ao longo dos penhascos, o vento do Atlântico batendo forte o suficiente pra bagunçar completamente qualquer penteado, Annabeth rindo cada vez que uma rajada mais forte a fazia se agarrar no braço dele pra não perder o equilíbrio. Numa das trilhas, perto de um farol abandonado, ela parou de repente, olhando pro mar batendo contra as pedras lá embaixo.


— Isso me lembra Lesbos — ela disse, baixinho.


— Um pouco.


— Aquela vez na muralha. Você quase me beijou.


— Eu ia beijar. Seu celular vibrou antes.


— Eu sei — ela sorriu, o vento bagunçando a franja dela contra os olhos — Fiquei brava com aquele celular durante meses.


— Agora podemos consertar isso.


Ele a beijou ali mesmo, o vento salgado do Atlântico envolvendo os dois, sem nenhuma interrupção dessa vez.


Comeram peixe fresco numa taverna minúscula perto do porto, bebendo cidra local que nenhum dos dois sabia julgar direito se era boa ou ruim, só sabiam que estava gostosa o suficiente naquele momento específico, sentados numa mesa de madeira desgastada com vista pro cais, pescadores locais recolhendo redes ao longe.


De tarde eles passearam pela enseada nebulosa e não se atreveram a entrar na água gelada e escura do mar céltico. Annabeth até tentou desafiar Percy ao alegar que ele já era pelo menos metade britânico, mas nem ele se atreveu, mesmo o início do verão já se aproximando com mais rapidez do que ambos gostariam.



A pequena St Ives era charmosa e iluminada por alguns postes do modelo Vitoriano que persistiam em existir ali, apesar do avançar do tempo. Eles andaram lado a lado até um restaurante de comida francesa com mesinhas bistrô e decoração parisiense colorida e vibrante.


Percy fez questão de envergonhá-la ao abrir a porta com uma postura exagerada de deixar qualquer cavaleiro medieval no chinelo. Ela o reprovou com o olhar e entrou pisando duro.


Foi depois de servirem a entrada que Percy disparou impaciente, já que o assunto raramente era trazido à tona — E o seu… ãn noivo? Digo, ex noivo?


Annabeth tirou os olhos do cardápio e o colocou de lado com cuidado na mesa. Ela respirou fundo e deu um sorriso amarelo.


—Acho que você pode imaginar quem seja…


O homem notou o titubear na feição dela e não restou dúvidas de quem era o suspeito. Os cabelos pretos desgrenhados quase idênticos aos dele foram a única coisa a preencher a mente de Percy. Matt Miller. Ele torceu o nariz e fez sinal de reprovação quando olhou pra Annabeth.


— Mas é claro. Me diga, como está aquela minha cópia fajuta?


Annabeth devolveu o olhar de reprovação dele, como quem diz “Isso lá é hora pra piada?”


—Matt Miller. Não estou surpreso, na verdade não sei como não percebi antes. Devo ser muito lerdo, mesmo.


—Eu sabia que você ia ficar desse jeito — Annabeth ergueu a taça de vinho e tomou um gole grande.


—Em minha defesa, é meio deprimente. A cópia nunca supera o original. Aquele moreno made in china jamais teve chance, não é?


Annabeth sorriu travessa, a autoconfiança de Percy era mesmo irritante — Perseu! Vamos respeitar o finado. Coitado, ele foi a vítima. Eu saí da situação como a mulher louca, como sempre…


Percy aproveitou a deixa — Olha… normal é que você não é. Não somos, na real. E, se ficamos quites, tive uma amizade colorida com a Rachel por vários anos. Só sexo e skate, e skate e sexo.


Annabeth ficou vermelha de ódio por um instante. O olho dela chegou a dar um tic, antes de recobrar a postura — Quites — ela retorceu o nariz ao pronunciar a palavra e levantou a mão pro garçom, entornado a garrafa de vinho na própria taça, sem deixar uma gota sequer para Percy.


Mais tarde, deitados na cama estreita da casinha, a lareira ainda crepitando baixinho, Annabeth traçou distraída os contornos de uma cicatriz antiga no ombro dele — resquício de alguma queda de skate de anos atrás que ela nem sabia que existia.


— De onde veio isso?


— Queda feia. Tinha uns dezesseis anos. Tentando um Hardflip que era grande demais pras minhas habilidades na época.


— Sua mãe devia viver preocupada com você, não é?


Ela riu, baixinho, o som se perdendo contra o peito dele.


— Tem tanta coisa que eu ainda não sei sobre você.


— Temos tempo — ele disse, e a frase saiu antes que ele percebesse a ironia cruel dela, considerando tudo que os esperava em algumas semanas.


—Não o suficiente…


Annabeth ficou em silêncio por um instante, e Percy sentiu o corpo dela tensionar de leve contra o dele.


— Não vamos pensar nisso agora — ela disse, baixinho, quase um pedido.


— Não vamos.


E não pensaram, não naquela noite. Deixaram que o resto do mundo esperasse do lado de fora da casinha de pedra, o Atlântico batendo contra os penhascos lá fora, o fogo da lareira diminuindo aos poucos enquanto os dois se perdiam um no outro de um jeito que já tinha se tornado familiar, mas nunca menos intenso — cada toque carregado da urgência silenciosa de quem sabe, sem precisar dizer em voz alta, que o tempo está passando rápido demais.


Voltaram pra Londres no domingo à noite, cansados, com areia ainda grudada nos sapatos e um bronzeado leve que não duraria mais que uma semana no clima britânico, mas carregando também alguma coisa mais difícil de nomear — uma certeza tranquila de que aquele fim de semana ficaria guardado, de um jeito ou de outro, como prova de que os dois tinham conseguido, ao menos uma vez, existir juntos sem a sombra de nada pairando sobre eles.


Foi num sábado de início de junho que Percy a levou pra almoçar com um grupo de colegas do departamento de história — gente que ele conhecia havia anos, professores mais velhos que sempre perguntavam, com uma curiosidade nada discreta, quando ele finalmente ia "assentar".


O restaurante era pequeno, perto de Christ Church, mesas de madeira desgastada e um cardápio que mudava conforme o humor do chef. Percy se arrumou com mais cuidado do que qualquer almoço casual justificaria, e Annabeth notou, rindo baixinho enquanto ele ajeitava a gola da camisa pela terceira vez diante do espelho do corredor.


— Está nervoso.


— Não estou.


— Está, sim. Eu lembro de como ficou nervoso quando foi conhecer minha mãe, lembra?


— Aquele foi um jantar diferente. Parece que foi uma vida inteira atrás .Esse é só almoço com colegas. E, inclusive, quero mais convites pra jantar com minha sogra!


— Falando nela, esses dias ela praticamente adivinhou por uma ligação que você é meu orientador e que estamos juntos de novo… mães.


Ele riu, largando a gola de vez, e estendeu a mão pra ela.


Chegaram ao restaurante com os dedos entrelaçados sem qualquer hesitação, e quando um dos colegas mais velhos — o professor Aldridge, da expedição à Turquia, os óculos escorregando pelo nariz como sempre — ergueu uma sobrancelha na direção dela, Percy não hesitou.


— Essa é a Annabeth. Minha namorada.


A palavra saiu fácil, natural, sem o peso de teatro que ela sempre carregara com Scarlet. Annabeth apertou de leve a mão dele, surpresa o suficiente pra deixar transparecer, mas recompondo o sorriso rápido demais pra qualquer um perceber além dele.


— Já não era sem tempo, Jackson — Aldridge comentou, erguendo a taça — Vocês dois praticamente destruíram a reputação de discrição desse departamento inteiro. Bem-vinda oficialmente, Srtª Chase.


— Obrigada — Annabeth respondeu, o sorriso genuíno agora — Prometo tentar não destruir mais nenhuma reputação enquanto estiver aqui.


— Não prometa isso. Foi divertido de assistir.


Uma das colegas mais jovens, uma pós-doutoranda chamada Fiona que Percy mal conhecia, se inclinou pra frente com curiosidade genuína.


— Como vocês se conheceram, afinal? A versão oficial que circula pelo departamento é bem vaga.


Percy e Annabeth trocaram um olhar rápido, cúmplice, os dois calculando quanto da verdade real cabia numa mesa de almoço.


— Colégio — Annabeth respondeu, por fim, escolhendo a versão mais simples — Nova York. Fomos rivais, depois amigos, depois... isso.


— Onze anos de história, resumida em três palavras — Percy completou, e Annabeth revirou os olhos, mas sorriu.


O almoço se estendeu por horas, entre histórias de escavações antigas e piadas internas do departamento que Annabeth já conhecia bem o suficiente pra rir junto, e Percy passou boa parte do tempo só observando — a facilidade com que ela se encaixava naquele mundo, o jeito como os colegas dele já a tratavam como parte do cenário, como se ela sempre tivesse pertencido ali.


Doeu, um pouco, pensar que aquilo tinha um prazo pra acabar.


Na volta pra casa, o sol já baixo, Annabeth ficou em silêncio por um trecho longo da caminhada, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.


— Você disse "namorada" fácil demais — ela comentou, por fim.


— Você é minha namorada.


— Eu sei. Só... nunca tinha sido chamada assim, oficialmente, por você. Na frente de gente que importa pra sua vida real.


— Você importa pra minha vida real, Annabeth. Mais do que qualquer coisa naquela mesa.


Ela não respondeu de imediato, só apertou a mão dele com mais força, e os dois continuaram andando em silêncio pelo resto do caminho, o peso das palavras dele pairando entre eles de um jeito bom, quente, mesmo com o relógio invisível continuando, implacável, sua contagem.


A "formatura" de Annabeth — se é que podia ser chamada assim — aconteceu numa sexta à noite no fim de junho, num salão pequeno reservado pelo departamento, nada da pompa e circunstância de uma cerimônia de verdade. Ela tinha completado só metade do mestrado ali; a formatura de fato, com beca e capelo e discurso de reitor, aconteceria em Nova York no ano seguinte, quando ela finalmente terminasse os créditos restantes na NYU.


Aquilo ali era só um brinde — professores que tinham se afeiçoado genuinamente a ela ao longo do ano, alguns colegas de curso, uma mesa comprida com taças de brandy e alguns aperitivos que ninguém tocou direito de tão ocupados conversando.


— Vamos sentir sua falta, Srtª Chase — o próprio Crawford declarou, erguendo a taça pro brinde final da noite — Balliol raramente produz alunos que discordam do próprio professor em plena aula inaugural e ainda saem por cima. Volte quando puder. Ou não volte, e deixe o Jackson viajar até você. Funciona dos dois jeitos.


Todos riram. Percy sentiu o rosto esquentar, mas não negou.


Depois que os colegas foram se dispersando aos poucos, Percy e Annabeth ficaram os últimos no salão, as taças vazias abandonadas pelas mesas, o silêncio confortável de sempre se instalando entre eles.


— Isso não parece um adeus de verdade — ela comentou, olhando em volta pro salão quase vazio.


— Porque não é. É só... uma pausa antes do próximo capítulo.


— Você e suas metáforas de professor de história.


— Funciona pra mim.


Ela riu, e se aproximou pra um beijo lento, sem pressa nenhuma, os dois sabendo que o tempo real de contagem regressiva só começaria de verdade quando saíssem daquele salão.


Passaram os últimos meses juntos de um jeito que nenhum dos dois queria admitir em voz alta que era temporário. Annabeth continuava indo pra cobertura em Chelsea nos fins de semana, o quarto de James — agora permanentemente vazio, já que ele tinha se mudado pra morar com a namorada nova — virando território dela de fato, cheio de livros e cadernos de campo espalhados de um jeito que Percy nunca reclamava de arrumar. Percy, por sua vez, aparecia em Greenwich mais dias da semana do que qualquer pessoa sensata julgaria razoável, considerando a distância entre os dois apartamentos.


Não conversavam sobre o futuro. Era um acordo silencioso, nunca formalizado em palavras, mas presente em cada gesto — evitar mencionar NYU, evitar mencionar Camboja, evitar qualquer coisa que fizesse o relógio invisível ficar mais alto do que já estava.


Até que já não dava mais pra evitar.


Foi só na noite anterior à partida dela que decidiram, finalmente, ter a conversa que vinham adiando havia meses.


Estavam na cobertura, as malas de Annabeth já organizadas perto da porta — a mudança pra Nova York programada pra manhã seguinte, um voo cedo demais pro gosto de qualquer um dos dois. Percy tinha cozinhado alguma coisa que nenhum dos dois comeu direito, os pratos ainda pela metade na mesa, esquecidos.


— A gente precisa falar sobre isso — Annabeth disse, por fim, sentada no sofá com as pernas dobradas sob o corpo, uma taça de vinho intocada na mão.


— Eu sei.


— Não podemos continuar fingindo que amanhã é só mais um dia qualquer.


Percy se sentou ao lado dela, o peso da conversa já pesando nos ombros antes mesmo de começar de verdade.


— Eu pensei sobre isso — ele admitiu — Muito, na verdade. Mais do que devia, provavelmente.


— E?


— E acho que sei o que você vai dizer antes de você dizer.


Annabeth deu um meio sorriso, cansado, o tipo que ele reconhecia de muitos momentos parecidos ao longo dos últimos meses.


— Diz você primeiro, então.


Percy respirou fundo, encarando o copo na própria mão em vez de olhar pra ela.


— Acho que a distância vai nos destruir — ele disse, finalmente — Não porque a gente não aguenta ficar longe. Porque a gente já provou, mais de uma vez, que sabe ficar longe. O problema é o contrário — a gente nunca soube ficar perto direito, e ficar perto à distância é ainda mais difícil do que ficar perto de verdade.


— Concordo — ela respondeu, a voz mais baixa agora — E odeio concordar, porque significa admitir que a gente vai desperdiçar de novo alguma coisa que finalmente deu certo.


— Não vai ser desperdício — ele disse, virando-se pra encará-la — Vai ser só... pausado. Diferente.


— Isso soa como a versão bonita de "terminando".


— Talvez seja — Percy admitiu — Ou talvez seja só honestidade. Eu não quero namorar você à distância só pra descobrir, daqui a um ano, que viramos dois estranhos mandando mensagem de bom dia por hábito, sem sentir nada de verdade por trás disso.


Annabeth ficou em silêncio por um longo momento, girando a taça entre os dedos, os olhos brilhando de um jeito que ela claramente tentava controlar.


— Então o que a gente faz? Só... para? Fingimos que os últimos meses não aconteceram?


— Não — ele respondeu, rápido o suficiente pra ela perceber que aquilo já tinha sido pensado, remoído, decidido — A gente mantém contato. De verdade, não só por educação. Mensagem, chamada de vídeo, o que der. E a gente se vê nas férias — Ação de Graças, Natal, o que fizer sentido pro calendário de cada um. Sem pressão de namoro formal, sem cobrança de exclusividade que nenhum dos dois vai conseguir cumprir de verdade a essa distância. Só... a gente, existindo na vida um do outro, do jeito que der.


— Isso é uma versão bem elaborada de "vamos ser amigos", Percy.


— Não é bem isso — ele insistiu, pegando a mão dela — É uma versão honesta de "eu não quero te perder de vez, mas também não quero mentir pra nenhum de nós dois sobre o que uma relação à distância geralmente vira".


Annabeth ficou olhando pras mãos entrelaçadas, o silêncio se estendendo, pesado mas não hostil — só triste, do jeito específico que só existia entre duas pessoas concordando com algo que nenhuma das duas realmente queria.


— Eu odeio que isso faça sentido — ela disse, por fim, a voz embargada.


— Eu também odeio.


— Mas faz.


— Faz.


Ela se aproximou, encostando a cabeça no ombro dele, e ficaram assim por um bom tempo, o vinho esquecido, o jantar frio, o relógio na parede marcando cada minuto que restava antes do voo da manhã seguinte.


— Promete uma coisa — ela disse, baixinho.


— O quê?


— Promete que não vai ser só mensagem de bom dia por hábito. Promete que, se algum dia a gente sentir que virou isso, um de nós vai ter coragem de dizer, em vez de deixar morrer aos poucos.


— Prometo — Percy respondeu, e beijou o topo da cabeça dela — E promete você também. Se aparecer alguém aí, alguém que faça sentido de verdade pra sua vida, você me conta. Não desaparece sem dizer nada.


— Prometo.


Na manhã seguinte, Percy insistiu em levá-la até o aeroporto, apesar dos protestos fracos dela sobre não precisar se incomodar. Heathrow estava cheio do jeito de sempre, o saguão de embarque zumbindo com o caos de sempre, e os dois ficaram parados perto do portão de segurança por mais tempo do que qualquer despedida educada exigiria.


— Bom, lá vou eu — ela disse, ajeitando a mochila no ombro, a voz tentando soar mais leve do que o resto dela parecia.


— Lá vai você.


— Você vai ficar bem?


— Vou. Tenho uma expedição pra organizar, um reitor pra aturar, e provavelmente um recorde pessoal de solidão pra bater nos próximos meses.


Ela riu, um som pequeno e triste, e se aproximou pra um último abraço, o rosto enterrado no peito dele por um momento longo demais pra ser só cortesia.


— Manda mensagem quando pousar — ele murmurou contra o cabelo dela.


— Mando.


— E não desaparece.


— Não vou.


Ela se afastou, os olhos marejados que ela claramente tentava disfarçar, e caminhou até a fila de segurança sem olhar pra trás — não porque não quisesse, Percy sabia, mas porque olhar pra trás teria tornado tudo impossível de suportar.


Ele ficou parado ali, vendo-a desaparecer entre a multidão, sentindo o peso exato de uma despedida que os dois tinham escolhido conscientemente, sabendo que era a decisão certa e ainda assim sentindo como se fosse a pior coisa que já tinha feito na vida.


O celular vibrou no bolso horas depois, já durante a noite.


"Pousei. Já sinto sua falta. Isso é ridículo, faz oito horas."


Percy sorriu, sozinho na cobertura parado, e digitou de volta antes de sair com o skate na mão.


"Bem-vinda à parte ridícula. Eu também."