As Desventuras e Romances de Percabeth
82 31 – Panos limpos
31 – Panos limpos
Crawford chamou Percy ao escritório na manhã seguinte, a pilha de papéis do dia anterior finalmente organizada numa ordem que fazia algum sentido.
— Suponho que já saiba — o reitor disse, sem cerimônia, tirando os óculos e limpando-os no lenço de sempre — mas prefiro que fique registrado formalmente, já que o senhor tem certo talento pra fingir surpresa quando convém.
— A Sra. Windsor já me contou.
— Claro que contou — Crawford revirou os olhos — Bom, então vou pular direto pro que interessa. O financiamento do Camboja está confirmado. Sem condições, sem "treinamentos de campo" adicionais, sem letras miúdas escondidas em pastas de vacina. O conselho aprovou por unanimidade, junto com a decisão da audiência.
Percy sentiu algo se acomodar no peito, um peso que ele carregava havia meses finalmente se dissolvendo.
— Obrigado, reitor.
— Não me agradeça, agradeça a burocracia britânica, que às vezes até funciona — Crawford se recostou na cadeira, o tom mudando de leve, mais sério — Vocês saem em junho. Angkor Wat, três meses de expedição, uma equipe reduzida dessa vez. Só os alunos que realmente vão precisar dos créditos pra formatura.
— A Srtª Chase está na lista?
Crawford ergueu uma sobrancelha, o tipo de olhar que Percy já tinha aprendido a temer.
— Estava — ele disse, devagar — até a semana passada, quando ela pediu formalmente pra ser removida da equipe. Alegou conflito de agenda com a apresentação em Nova York.
Percy sentiu o estômago revirar. Não era surpresa — ele já sabia, tinha visto o documento da NYU há algumas semanas, carregando o peso sozinho como quem carrega uma pedra no bolso do casaco — mas ouvir confirmado em voz alta, da boca de Crawford, doeu de um jeito diferente.
— Entendido — ele conseguiu dizer.
— Jackson — Crawford o encarou por cima dos óculos, a voz mais suave agora — Não sei exatamente o que está acontecendo entre vocês dois, e prefiro continuar sem saber, pela minha própria sanidade. Mas se o senhor tem alguma coisa pra resolver com aquela garota, sugiro fazer isso antes de partir. Expedições são péssimo lugar pra carregar assuntos pendentes.
Percy não respondeu. Só pegou a pasta que Crawford empurrou na sua direção e saiu do escritório com a sensação exata de estar adiando uma conversa que já devia ter tido há semanas.
Encontrou Annabeth no mesmo átrio interno de sempre, os arcos abertos pro jardim cercado, ela deslizava o dedo pela tela do celular e não o viu chegando.
— Preciso te contar uma coisa — ele disse, se sentando ao lado dela sem perguntar se podia.
— Se for sobre a audiência, já sei do resultado. Crawford mandou um email pra todos os envolvidos essa manhã.
— Não é sobre a audiência. Bem, é, mas não exatamente. Vamos até minha sala, as paredes tem ouvidos.
Annabeth guardou o celular na bolsa, cautelosa. Os dois foram lado a lado até a modesta sala próxima à administração do prédio.
— Percy, você está sendo estranhamente evasivo pros seus padrões.
Ele respirou fundo. Foi andando até a mesinha do lado de uma poltrona que parecia confortável e serviu pra si uma dose generosa de whisky. Annabeth negou com a cabeça quando ele balançou a garrafa e a ofereceu com um gesto.
— Mary Windsor sabia quem era sua mãe.
Annabeth ficou parada por um segundo, processando.
— Como assim, sabia?
— Elas estudaram juntas. Aqui, em Balliol, há vinte anos. Sua mãe ganhou um prêmio que disputou contra Mary, e depois, numa festa de departamento, disse na frente de todo mundo que sobrenome nunca substituiu talento de verdade — Percy escolheu as palavras com cuidado — A Mary nunca superou isso. E quando te viu, no brunch, reconheceu o mesmo jeito de ser. Decidiu que precisava impedir você de "vencer" também, do jeito que a sua mãe venceu ela.
Annabeth ficou em silêncio por um longo momento, os olhos fixos num ponto qualquer do jardim.
— Minha mãe zombou dela na frente de todo mundo — ela repetiu, devagar, quase incrédula — Minha mãe.
— Aparentemente sua mãe também tinha um lado afiado nessa idade.
— Ela nunca me contou nada disso — Annabeth balançou a cabeça, um misto de espanto e algo parecido com orgulho cruzando o rosto — Nunca. Nem uma vez mencionou ter estudado com uma Windsor.
— Talvez ela nem lembre do nome. Vinte anos é muito tempo.
— Ou talvez ela lembre perfeitamente e só nunca tenha achado importante o suficiente pra mencionar — Annabeth deu um meio sorriso, o primeiro genuíno que Percy via nela em semanas — Isso é muito a cara dela, aliás. Vencer alguém e depois nem se lembrar do nome da pessoa que perdeu.
Percy quase riu, mas o momento não durou. O rosto dela endureceu de novo, os olhos cinzentos voltando pra ele com aquela dureza específica que ele reconhecia bem demais.
— Há quanto tempo você sabe disso, Percy?
Ele hesitou, o suficiente pra que a resposta já não precisasse de palavras.
— Já sei a algum tempo — ele admitiu, por fim — Ela me ameacou com algumas cartas escritas à mão, coisa de vilão de novela e tudo — Annabeth esboçou um sorriso de canto — Se quiser, eu te mostro. Fiquei neurótico, pensei que estava sendo seguido em todo canto.
— Isso não é desculpa.
— Eu sei que não. Mas quando ela começou a ameacar você também, fique perdido. Se Scarlet não tivesse descoberto tudo, não sei onde estaríamos.
— Você me deixou andar por semanas achando que era alvo de alguma perseguição sem sentido, sem saber que era pessoal, e que tinha a ver com minha própria mãe — a voz dela ganhou uma aresta, embora não tivesse o mesmo peso furioso de outras brigas — Achei que fosse só coincidência azarada. Descobrir que era premeditado, e que você sabia, muda tudo.
— Você está certa — Percy disse, sem tentar suavizar — Eu devia ter contado assim que descobri. Fiquei com medo de complicar ainda mais as coisas entre a gente, e no fim só complicou de outro jeito.
Annabeth ficou em silêncio, absorvendo aquilo, a raiva visivelmente lutando contra alguma coisa mais complicada — talvez alívio, talvez só cansaço de tanto segredo acumulado.
— Ao menos agora eu sei — ela disse, por fim, a voz mais baixa — E, pra constar, fico satisfeita em saber que minha mãe humilhou uma baronesa britânica há vinte anos. Isso quase compensa o resto.
— Quase.
— Quase — ela confirmou, um fantasma de sorriso voltando, embora cauteloso.
Nenhum dos dois disse mais nada por um instante, o jardim cercado testemunhando de novo aquele tipo específico de silêncio que só existia entre os dois — cheio, mas não pesado, do jeito que Percy tinha aprendido a temer e a querer ao mesmo tempo.
— Soube que você saiu da lista do Camboja — ele arriscou, por fim.
— Soube.
— Por causa de NYU. Estou feliz por você — a voz embargada dele não convenceu — Merece todo o sucesso do mundo.
— Obrigado. Tenho certeza de que vai achar outra aluna pra paparicar lá no Camboja — Annabeth mexeu na plaquinha de ferro com o nome de Percy em cima da mesa.
— Eu passo. Depois de toda essa confusão nunca mais me envolvo com uma estudante.
Os dois conversaram mais alguns minutos até que Annabeth disse precisar sair.
***
Scarlet apareceu na cobertura naquela mesma noite, sem avisar, o casaco bege de sempre e uma expressão que Percy reconheceu como decisão já tomada antes mesmo dela abrir a boca.
— Vim aqui pra encerrar oficialmente o teatro — ela disse, sem rodeios, entrando na sala sem esperar convite — Achei que merecíamos os dois uma conversa de verdade, em vez de simplesmente parar de se falar.
Percy se sentou no braço do sofá, cauteloso.
— Achei que já tivéssemos encerrado, tecnicamente.
— Tecnicamente terminamos há semanas — Scarlet corrigiu — Mas nunca conversamos sobre o que aconteceu depois. Minha mãe. A audiência. Tudo isso.
— Sua mãe veio até aqui pedir desculpas. Pessoalmente.
— Eu sei — Scarlet assentiu, um pouco de orgulho escapando pela primeira vez desde que entrara — Ela me contou. Foi... inesperado, vindo dela.
— Você fez isso acontecer.
— Fiz — ela concordou, sem falsa modéstia — E não me arrependo, mesmo sabendo que provavelmente vou pagar caro por isso em algum jantar futuro. Minha mãe não esquece rixas facilmente, e agora ela tem mais uma comigo pra guardar na coleção.
Percy sentiu algo parecido com afeto genuíno, misturado com a tristeza específica de quem já sabia, no fundo, que aquilo era uma despedida.
— Scar.
— Não precisa dizer nada — ela levantou a mão, o gesto suave — Eu sei o que você ia dizer. E sei que não é sobre mim, nunca foi de verdade, mesmo quando eu quis muito que fosse.
— Isso não é justo com você.
— Não é — ela concordou, sem rancor na voz — Mas também não é culpa de ninguém, só de duas pessoas que se reencontraram no momento errado, tentando fingir que o momento não importava. Você gosta dela, Percy. Sempre gostou. E eu gosto de mim o suficiente, agora, pra parar de competir com um fantasma que nunca teve chance real de perder.
Percy não respondeu, porque não havia resposta boa o suficiente pra aquilo.
— O que você vai fazer agora? — ele perguntou, por fim.
— Vou pra Bristol esse fim de semana, tentar consertar uma relação com minha mãe que provavelmente vai levar mais vinte anos pra se resolver de verdade — Scarlet deu de ombros, o tom quase leve — E depois, não sei. Talvez termine o mestrado sem namorar mais nenhum professor irritante. Seria uma novidade e tanto.
Ela se aproximou e deu um beijo rápido na bochecha dele, o tipo de gesto que carregava mais despedida do que qualquer discurso longo conseguiria.
— Boa sorte, Jackson. Vá atrás dela antes que seja tarde demais de novo.
Ela saiu sem esperar resposta, os saltos ecoando pelo corredor até o elevador, e Percy ficou parado na sala vazia, sentindo pela primeira vez em meses que o caminho à sua frente, por mais complicado que ainda parecesse, finalmente estava livre de qualquer coisa que não fosse ele mesmo decidindo o que fazer com aquilo.
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