As Desventuras e Romances de Percabeth
83 32 – Contagem regressiva
Notas iniciais
32 – Contagem Regressiva
Fevereiro passou rápido demais para o gosto de Percy, cada semana parecendo mais curta que a anterior, como se o calendário inteiro conspirasse contra ele o empurrando pra frente sem dar tempo de decidir nada direito.
Annabeth ligou pra mãe numa terça à noite, o apartamento de Greenwich silencioso o suficiente pra que sua própria voz soasse estranha no espaço vazio.
— Mãe, preciso te perguntar uma coisa — ela disse, sem rodeios, assim que Atena atendeu.
— Isso soa sério. O que foi?
— Você conhece uma Mary Windsor?
Houve um silêncio breve, longo o suficiente pra Annabeth perceber que tinha acertado em cheio.
— Mary Swinton, você quer dizer. Faz muito tempo que ninguém fala esse nome pra mim.
— Ela é a mãe da namorada... ex-namorada do meu orientador.
Outro silêncio, esse mais longo.
— O mundo é pequeno demais pra ser justo às vezes. O que ela andou fazendo?
Annabeth contou tudo — as cartas, a audiência, a confissão, o prêmio de vinte anos atrás — e Atena ouviu quase sem interromper, só pedindo detalhes específicos aqui e ali, a voz ficando mais tensa conforme a história avançava.
— Ela nunca superou aquilo. Eu devia imaginar. Mary sempre foi do tipo que carrega mágoa como se fosse herança de família.
— Você a humilhou na frente de todo o departamento, mãe.
— Eu era jovem e arrogante. E ela merecia ouvir aquilo, mesmo que eu devesse ter escolhido um momento mais privado. Mas não imaginei que isso fosse voltar vinte anos depois pra te atingir. Sinto muito, querida. Genuinamente.
— Não é sua culpa.
— É, sim, um pouco. Rixas antigas não desaparecem só porque a gente decide seguir em frente. Elas esperam, pacientes, até encontrar outro alvo. Eu devia ter avisado você que Oxford estava cheio de gente carregando décadas de ressentimento sob camadas de educação impecável.
Annabeth riu, um som cansado.
— Você é meio assustadora quando quer, sabia?
— Aprendi com a melhor versão de mim mesma. Agora me conta o resto. Esse orientador seu. O que você vai fazer a respeito dele?
— Não sei do que você está falando.
— Annabeth Chase. Sou arquiteta, não idiota. Você não passa vinte minutos contando uma rivalidade acadêmica sem que o nome do rapaz apareça mencionado seis vezes de formas desnecessárias. Me conte tudo.
—É… o Percy.
—Jackson? — houve um silêncio, até que Annabeth só pigarreou e murmurou um arrã desajeitado.
—Depois desse tempo todo… como você está?
—Confusa. Eu retorno daqui a alguns meses, optei por fazer a metade que resta do mestrado em NY. Thalia me chamou pra morar com ela. Sera que estou fug
— As coisas complicadas geralmente são as que valem a pena. Mas você é adulta. Vai fazer o que achar certo, como sempre fez. Lembre-se, você em primeiro lugar. Não te quero como a três anos atrás, triste e sozinha.
Elas conversaram mais alguns minutos sobre coisas menores até se despedirem com a promessa vaga de se falarem de novo no fim de semana.
Annabeth ficou sentada no sofá-cama por um bom tempo depois de desligar, olhando pro teto, pensando em rivalidades que atravessavam décadas e em como ela mesma parecia repetir, sem querer, o mesmo padrão de nunca dizer as coisas na hora certa.
Percy, do outro lado de Londres, passava as noites debatendo consigo mesmo uma versão diferente do mesmo problema.
— Você devia simplesmente ir até lá — Luke disse, pela terceira vez naquela semana, jogado no sofá da cobertura com um controle de videogame esquecido na mão — Não é ciência de foguete, cara.
— Não é tão simples.
— É exatamente tão simples — Nico se intrometeu da cozinha, mastigando alguma coisa — Você complica tudo, Jackson. Sempre complicou. Lembra quando você levou três meses pra convidar ela pra sair no colégio?
— Isso foi há mais de dez anos.
— E você ainda está fazendo a mesma coisa.
Percy bufou, mas não discordou.
Foi numa sexta à noite, sem planejar direito, que ele se pegou dirigindo até Greenwich.
Não tinha decidido ir. Tinha decidido, na verdade, o oposto — passar a noite em casa, ver alguma coisa idiota na TV com Luke, ignorar o próprio celular. Mas as chaves do Porsche estavam no bolso antes que ele percebesse, e vinte minutos depois ele já estava estacionado do outro lado da rua do prédio dela, o motor desligado, as mãos ainda no volante.
A janela do segundo andar estava acesa. Uma sombra passou por ela uma vez, depois outra, e Percy ficou ali, olhando, como se aquilo fosse suficiente.
Não era.
Ele desligou o motor de vez, saiu do carro, e caminhou até a calçada em frente ao prédio. Parou diante da porta, o dedo pairando sobre o interfone com o nome dela escrito numa etiqueta pequena, meio descolada num canto.
Não tocou.
Ficou ali por um tempo que ele mesmo não soube medir direito, tentando organizar as palavras que diria assim que a porta se abrisse, e cada versão que montava na cabeça soava mais patética que a anterior. Oi, vim aqui sem motivo. Oi, só queria ver se você está bem. Oi, eu meio que amo você e não sei o que fazer com isso agora que você vai embora.
Nenhuma delas parecia certa.
Ele recuou um passo, depois outro, e voltou pro carro. Sentou no banco do motorista sem ligar o motor, o silêncio do interior do Porsche pesando de um jeito que nenhuma música conseguiria disfarçar.
Ficou ali por quase uma hora, olhando pra janela acesa, o coração batendo com a mesma insistência idiota de sempre, sem nunca sair do carro de novo.
Quando finalmente ligou o motor e foi embora, a luz do segundo andar ainda estava acesa, e Percy se odiou um pouco por toda a covardia que aquilo representava — a mesma covardia que Annabeth já tinha apontado nele mais de uma vez, e que ele continuava, teimosamente, confirmando.
***
O encontro aconteceu por acidente puro, o tipo de coincidência que nenhum dos dois teria planejado nem em sonho.
Percy corria no Hyde Park num domingo de manhã, os fones no talo, tentando gastar a inquietação que vinha acumulando havia dias. Cortou pela trilha perto da Serpentine, o lago cinzento refletindo um céu igualmente cinzento, e foi só ao dobrar uma curva que quase esbarrou nela.
Annabeth estava parada, as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego, o moletom cinza encharcado de suor apesar do frio.
— Você — ela disse, entre respirações, mais surpresa do que qualquer outra coisa.
— Eu — Percy confirmou, tirando um fone do ouvido — Você corre aqui?
— Às vezes. Preciso pensar longe de Oxford de vez em quando.
— Idem.
Eles ficaram parados um instante, sem saber bem o que fazer com a coincidência, até que Annabeth, ainda ofegante, apontou pro banco mais próximo.
— Vamos parar um pouco. Minhas pernas estão me odiando.
Sentaram-se lado a lado, o suor esfriando aos poucos no vento que vinha do lago, nenhum dos dois falando por um tempo.
— Como você está? — ele perguntou, por fim.
— Cansada. De correr, de formulários, de fingir que sei o que estou fazendo — ela respondeu, olhando pra água — E você?
— Também cansado. Ansioso pela expedição, nunca fui pra essa parte da Ásia. Alguma chance de te convencer a ir junto?
Ela virou a cabeça, encarando-o com algo que não era raiva nem era o calor de antes — só uma exaustão sincera demais pra disfarçar — Infelizmente, não. E não por falta de vontade, só é impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo.
— Vai fazer falta. Os melhores sempre fazem.
— Você dá conta. Todos os alunos são ótimos, eles tem um professor brilhante.
Ficaram em silêncio por um instante, o lago batendo de leve contra as pedras da margem, um casal de patos deslizando displicente na água escura. Foi Percy quem quebrou o silêncio primeiro, a voz mais séria do que pretendia.
— Eu queria ter dito isso antes, mas nunca achei o momento certo — ele começou, olhando pra frente, não pra ela — Fico feliz por você. Genuinamente. NYU é uma escola incrível, e você merece terminar isso do jeito que sempre quis, sem ninguém te fazendo sentir que precisa escolher entre uma coisa e outra.
Annabeth não respondeu, só continuou olhando pra água, mas Percy viu, pelo canto do olho, o jeito como os ombros dela relaxaram um pouco.
— E também fico triste — ele continuou, a voz baixando — Porque isso significa que você vai embora, e eu não sei bem o que fazer com essa informação além de sentir ela toda de uma vez, o que é uma péssima estratégia, mas é a única que eu tenho no momento.
— Percy...
— Deixa eu terminar — ele pediu, e ela fechou a boca, cautelosa — Sinto muito de novo. Pela audiência, pela burocracia toda, por você ter passado semanas carregando um peso que nem era seu pra carregar. Eu devia ter protegido você disso de algum jeito, e não consegui.
— Você não podia ter previsto que a mãe da sua namorada ia armar uma campanha inteira contra mim por causa de uma rivalidade de vinte anos atrás — Annabeth respondeu, um fantasma de sorriso aparecendo — Isso nem no seu histórico de desastres cabia.
— Ainda assim.
— Ainda assim — ela concordou, mais suave agora.
Percy respirou fundo, reunindo coragem pro que vinha a seguir.
— E quero que você saiba de uma coisa, porque acho que nunca deixei claro o suficiente — ele disse, finalmente olhando pra ela — Eu nunca precisaria te favorecer em nada. Nunca. Você é a aluna mais talentosa que eu já orientei, de longe, e isso não tem nada a ver com o que quer que exista entre a gente. Eu teria te levado mil vezes pra catalogar aquelas muralhas em Mitilene de novo, só pelo trabalho que você fez lá. E todo o resto, a nossa aventura no gelo, nossos encontros nada casuais. Tudo.
Annabeth sentiu os olhos arderem, um calor inesperado subindo pelo peito.
— Percy...
— Você vai brilhar em Nova York — ele continuou, sem deixar ela interromper — Vai chegar lá e em seis meses vai estar corrigindo os professores de novo, do jeito que fez com a arquitetura dórica na primeira aula que assistiu minha. E eu vou estar aqui, provavelmente ainda errando a soma dos meus relatórios de despesa, tentando aceitar que fui sortudo o suficiente de te ter orientado, mesmo que só por um ano.
Ela riu, um som que era metade riso, metade soluço contido, e limpou os olhos com as costas da mão antes que qualquer lágrima decidisse cair de verdade.
— Você escolheu um péssimo momento pra ser gentil, Jackson. Estou suada e sem fôlego, não dá pra chorar direito assim.
— Desculpa. Posso esperar você recuperar o fôlego, se preferir.
— Não precisa — ela respondeu, a voz ainda tremendo de leve — Já é tarde demais, de qualquer jeito.
Ficaram sentados ali por mais um tempo, o lago continuando cinzento, o vento continuando frio, nenhum dos dois com pressa de quebrar aquele silêncio específico que parecia, pela primeira vez em semanas, mais leve do que pesado.
— Obrigada — ela disse, por fim, baixinho — Por dizer isso tudo.
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