Notas iniciais
Mais um

30 – A Rixa


Scarlet não avisou que ia. Simplesmente apareceu na propriedade em Bristol, tomando cuidado para não usar um dos carros da família, optando por um táxi que ela mesma chamou, porque não queria dar à mãe o prazer de vê-la chegar num carro que qualquer pessoa poderia reconhecer de longe.


A casa estava com aquele silêncio específico de meio de semana — sem festas, sem convidados, só o vento cortando entre as árvores nuas do jardim e o eco distante de alguém tocando piano em algum cômodo do segundo andar. Scarlet conhecia aquele som. Era Chopin, e era a mãe, porque ninguém mais naquela casa tocava daquele jeito impecável e comedido.


A governanta a deixou passar sem perguntar nada — Scarlet ainda era filha da casa, apesar de tudo — e ela subiu direto para a sala de música, os saltos batendo contra o piso de mármore com uma determinação que ela vinha ensaiando durante toda a viagem de trem.


Mary parou de tocar assim que a viu na porta.


— Não esperava você hoje — ela disse, as mãos ainda pairando sobre as teclas, o tom perfeitamente composto, como sempre.


— Eu sei que foi você — Scarlet respondeu, sem preâmbulo, a voz cortando o silêncio da sala como uma lâmina — As cartas. O convite de Isabelle. A letra é idêntica, mamãe, e eu não sou idiota o suficiente pra não reconhecer a caligrafia da própria mãe depois de vinte e sete anos.


Mary fechou a tampa do piano devagar, cada movimento calculado, como se estivesse ganhando tempo pra decidir qual versão de si mesma usar naquela conversa.


— Sente-se, Scarlet.


— Não quero sentar. Quero uma explicação.


— Você vai ter uma explicação de qualquer jeito, sentada ou de pé — Mary se levantou, alisando a saia com as mãos, os olhos âmbar — os mesmos de Scarlet — Mas prefiro fazer isso como gente civilizada.


Scarlet cruzou os braços e não se sentou.


— Fale, então.


Mary caminhou até a janela alta que dava para o jardim gelado, as mãos entrelaçadas nas costas, numa pose que Scarlet reconhecia de anos de retratos de família — a baronesa em pensamento, sempre distante o suficiente para parecer inatingível.


— Você conhece a Srtª Chase — Mary começou, a voz baixa — Annabeth.


— Conheço.


— Você sabe o sobrenome de solteira da mãe dela?


Scarlet franziu a testa, pega de surpresa pela pergunta.


— Não faço ideia.


— Atena — Mary disse, o nome saindo com um peso estranho, quase físico — Atena Chase, hoje. Mas quando eu a conheci, em Oxford, ela ainda era Atena Minerva, e éramos as duas as melhores alunas de Belas Artes de toda a nossa geração em Balliol.


Scarlet ficou em silêncio, tentando reorganizar tudo que sabia dentro daquela informação nova.


— Vocês se conheciam.


— Éramos rivais — Mary corrigiu, um fantasma de sorriso amargo passando pelo rosto — Não amigas. Rivais, no sentido mais competitivo e menos generoso da palavra. Havia um prêmio, no meu último ano, o Ruskin Fellowship, dado ao melhor projeto de tese em história da arte. Eu trabalhei dois anos naquele projeto, Scarlet. Dois anos da minha vida inteira dedicados a um estudo sobre arquitetura neoclássica que eu ainda considero o trabalho mais bem feito que já produzi.


— E?


— E ela ganhou — Mary disse, simples assim, mas havia algo cortante por trás da simplicidade — Atena Minerva, americana, bolsista, sem um único ancestral que tivesse posto os pés naquela universidade antes dela, levou o prêmio que eu já tinha, nas minhas próprias palavras de vinte anos atrás, como certo.


Scarlet sentiu o estômago revirar, entendendo devagar onde aquilo ia dar.


— Você guardou rancor de uma competição acadêmica por vinte anos?


— Não é tão simples quanto isso — Mary se virou, finalmente, encarando a filha — Ela não apenas ganhou o prêmio. Ela zombou de mim depois, na frente de todo o departamento, numa festa de encerramento de ano, disse que eu era prova viva de que sobrenome nunca substituiu talento de verdade. Eu tinha vinte e um anos, Scarlet, e fiquei ali, em pé, ouvindo aquilo, sem conseguir responder uma única palavra, porque ela não estava errada.


— Isso não te dá o direito de perseguir a filha dela vinte anos depois.


— Eu sei disso — Mary respondeu, e pela primeira vez desde que Scarlet entrara na sala, a voz dela vacilou de verdade — Eu soube o nome completo da Srtª Chase naquele brunch, quando Crawford a apresentou. Annabeth Chase. E fiquei ali, com uma taça de champanhe na mão, pensando: ela é filha de Atena. Reconheci o jeito de falar antes mesmo de perguntar, aquela mesma confiança irritante, aquela mesma recusa em se encolher na frente de gente como eu.


Scarlet sentiu algo entre raiva e pena crescer no peito, uma combinação desconfortável demais para nomear direito.


— Então você decidiu descontar numa garota de vinte e dois anos uma humilhação que você levou há vinte.


— Eu decidi — Mary disse, a voz mais baixa agora, quase um sussurro — que se eu não pude vencer a mãe, talvez pudesse, de alguma forma mesquinha e que eu não me orgulho de admitir em voz alta, garantir que a filha não vencesse também. Não do jeito que ela estava vencendo. Confiante demais, talentosa demais, perto demais do Sr. Jackson de um jeito que me lembrava, de forma perturbadora, de mim mesma há vinte anos, apaixonada pelo homem errado enquanto competia pelo prêmio errado.


— E quem era esse homem misterioso?


— Não importa a quem — Mary respondeu, rápido demais, e Scarlet decidiu, por hora, não insistir naquele detalhe específico — O que importa é que eu estava errada, Scarlet. Errada em envolver você nisso. Errada em ameaçar a carreira de um homem por causa de uma rixa que não tinha nada a ver com ele. E completamente, imperdoavelmente errada em tentar destruir o nome de uma garota que não fez nada além de existir sendo boa demais no que faz — exatamente como a mãe dela fez comigo.


Scarlet ficou em silêncio por um longo momento, absorvendo aquilo, a raiva ainda ali, mas misturada agora com algo mais complicado — o reconhecimento incômodo de que sua mãe, pela primeira vez em anos, estava sendo genuinamente honesta.


— Você precisa se desculpar — Scarlet disse, finalmente — Não comigo. Com ele. Com ela, se tiver coragem.


— Eu sei.


— De verdade, mamãe. Não uma nota educada, não um gesto calculado. Uma desculpa de verdade.


Mary assentiu devagar, os olhos brilhando de um jeito que Scarlet nunca tinha visto antes — nem raiva, nem o controle de sempre, só o peso cru de alguém confrontada com os próprios erros.


— Vou fazer isso — ela disse — Mas, Scarlet — ela hesitou, a mão tocando de leve o braço da filha, um gesto raro o suficiente para fazer Scarlet prender a respiração — obrigada por vir dizer isso na minha cara. Ninguém mais nesta família teria coragem


***


Percy estava na cozinha da cobertura, tentando decifrar as instruções de uma receita de risoto que Sally jurava ser infalível, quando a campainha tocou.


Não era Scarlet — ela tinha uma chave, e Nico e Luke nunca tocavam campainha em vez de gritar da rua. Percy secou as mãos no pano de prato e foi até a porta, o coração batendo por motivos que ele não sabia identificar direito.


Mary Windsor estava parada no corredor do prédio, o casaco de lã cinza impecável, uma expressão que ele nunca tinha visto no rosto dela antes — algo próximo de vulnerabilidade, cuidadosamente contida atrás dos modos de sempre.


— Sra. Windsor — Percy conseguiu, depois de um segundo longo demais em silêncio — Não esperava vê-la aqui.


— Posso entrar? — ela perguntou, e havia algo na pergunta, no jeito educado e quase tímido como foi feita, que convenceu Percy a recuar um passo e abrir espaço.


Ela entrou, os olhos correndo brevemente pelo apartamento — os vidros panorâmicos, as guitarras encostadas na parede, o caos organizado de quatro homens jovens vivendo juntos — antes de se recompor e encará-lo diretamente.


— Vim aqui pedir desculpas, Sr. Jackson. De verdade, não do jeito que costumo fazer as coisas.


Percy cruzou os braços, cauteloso.


— Estou ouvindo.


— As cartas eram minhas — ela disse, sem rodeios, a voz firme apesar do peso óbvio das palavras — E a denúncia também, embora eu tenha usado um canal que parecia mais... impessoal. Fiz isso porque conheço a mãe da Srtª Chase. Atena. Fomos rivais em Oxford, há vinte anos, e eu nunca superei perder algo que considerava meu por direito. Quando vi a filha dela repetindo, à sua maneira, tudo que a mãe tinha sido — talentosa, confiante, perto de você de um jeito que eu reconheci antes mesmo de admitir — decidi que precisava impedir. Não por você. Nunca foi realmente sobre você, Sr. Jackson, embora eu tenha usado você como instrumento.


Percy ficou em silêncio, processando aquilo, sentindo algo entre alívio e uma raiva fria e tardia se acomodar no peito.


— A senhora colocou o financiamento de uma expedição inteira em risco por causa de uma rixa de faculdade.


— Sei que sim. E sei que isso não tem desculpa que baste — Mary respondeu, sem desviar o olhar — Mas quero que saiba que a decisão do comitê já foi tomada. Recebi a notícia antes de vir para cá, através de um contato no conselho. O senhor foi inocentado, por unanimidade. A denúncia foi arquivada, sem qualquer mancha em seu registro ou no da Srtª Chase.


Percy sentiu o peito descomprimir de um jeito que ele não esperava, o alívio chegando tão rápido que quase o deixou tonto.


— Por unanimidade — ele repetiu, precisando ouvir de novo pra acreditar.


— Por unanimidade — Mary confirmou — O comitê considerou que não havia evidência alguma de favoritismo acadêmico, e que a denúncia, nas próprias palavras do relatório final, "carecia de fundamentação além de especulação sobre convívio pessoal legítimo". Sua carreira está intacta, Sr. Jackson. E a da Srtª Chase também.


Ela ajeitou o casaco sobre os ombros, o gesto quase automático, e caminhou até a porta antes de parar mais uma vez.


— Espero, sinceramente, que consiga perdoar minha filha por qualquer coisa que ela tenha herdado de mim nessa história toda. Scarlet foi a única, nessa família inteira, com coragem de me dizer que eu estava errada.


Ela saiu sem esperar resposta, a porta se fechando atrás dela com um clique suave, e Percy ficou parado no meio da sala, o cheiro de risoto queimando esquecido na cozinha, tentando processar que, pela primeira vez em meses, não havia mais nada pairando sobre sua cabeça além do próprio coração — que ainda, teimosamente, insistia em bater mais forte por uma pessoa específica que ele tinha prometido tratar apenas como sua aluna.