29 – O Comitê



Crawford estava sentado numa das cadeiras junto à parede, fora da mesa principal, os óculos na ponta do nariz.


— Lembre-se — o reitor murmurou, sem erguer os olhos da pasta — responda ao que for perguntado. Não mais que isso. Não tente ser engraçado.


— Eu não tento.


— Você tenta o tempo inteiro, Jackson. É basicamente seu estado natural.


O comitê entrou pouco depois — três professores seniores que Percy conhecia de vista e uma mulher de Recursos Humanos que ele nunca tinha visto na vida, uma pasta grossa aberta à sua frente. Ninguém sorriu. Ninguém cumprimentou.


Foi só quando Percy virou a cabeça pra conferir as cadeiras reservadas pro público que sentiu o sangue gelar.


Mary Windsor estava sentada na terceira fileira, o casaco de lã cinza-perolado impecável, as mãos cruzadas sobre o colo com a mesma serenidade de sempre, como se estivesse numa palestra qualquer sobre arquitetura vitoriana. Ela não olhou diretamente pra ele. Não precisava. A presença ali já era mensagem suficiente.


Percy engoliu em seco e voltou a atenção pra mesa do comitê, tentando não deixar transparecer que o chão tinha acabado de ficar mais instável do que já estava.


— Sr. Jackson — o presidente do comitê começou, um homem magro de cabelos brancos ralos, a voz seca — Estamos aqui para avaliar uma denúncia de favoritismo acadêmico envolvendo a Srtª Annabeth Chase, sob sua supervisão direta. Antes de ouvirmos testemunhas, gostaríamos do seu depoimento.


Percy assentiu, ajeitando a gravata que já estava perfeitamente ajeitada.


— Consta no dossiê — a mulher de RH consultou a pasta, os óculos escorregando pelo nariz — que o senhor e a Srtª Chase foram vistos juntos, fora do horário letivo, em ao menos quatro ocasiões distintas nos últimos meses. Isso é verdade?


Houve um silêncio na sala. Crawford, na cadeira lateral, fechou os olhos brevemente, como quem já sabia o que vinha a seguir e preferia não assistir.


— É verdade — Percy respondeu, sem hesitar.


Um murmúrio baixo percorreu a mesa. Mary, na terceira fileira, não se moveu — mas Percy viu, de relance, o queixo dela se erguer um centímetro, satisfeita.


— O senhor confirma, então — o presidente insistiu, a caneta pairando — que houve convívio fora do ambiente acadêmico regular.


— Confirmo. Fomos à Turquia juntos, como parte da equipe de campo supervisionada pela própria universidade. E em algumas ocasiões fora do horário letivo, a Srtª Chase e eu cursamos o ensino médio juntos nos EUA. Somos amigos antigos — Percy fez uma pausa, a voz ganhando firmeza — Mas nada disso teve qualquer relação com notas, avaliações ou qualquer decisão acadêmica que eu tenha tomado a respeito dela.


— O senhor entende — a mulher de RH interveio, o tom mais afiado — que a linha entre convívio pessoal e favoritismo profissional pode ser tênue, especialmente numa relação de poder desigual como a de professor e aluna.


— Entendo perfeitamente — Percy respondeu — E é exatamente por isso que fiz questão de nunca deixar uma coisa influenciar a outra. A vida pessoal de um professor, dentro dos limites éticos, não é propriedade da universidade. Eu tenho amigos que também são meus alunos. Tenho uma mãe que mora aqui perto, que também é ex aluna. Tenho uma… hã… namorada — ele olhou, sem querer, na direção de onde Scarlet ainda não estava sentada — que também é aluna minha. Isso não é crime. O que seria crime é eu ter dado uma nota que ela não mereceu, ou ter fechado os olhos pra um trabalho mal feito. Isso nunca aconteceu. Revisem o histórico da Srtª Chase. Ele fala por si.


O presidente trocou um olhar rápido com o colega ao lado.


— E como o senhor descreveria, então, a natureza desse... convívio?


Percy hesitou meio segundo — o suficiente pra Crawford tensionar os ombros na cadeira lateral, esperando o pior.


— Profissionalmente inconveniente — Percy respondeu, por fim — e pessoalmente uma dor de cabeça enorme, porque tentar manter distância profissional de alguém que também é, tecnicamente, dona de metade do meu histórico de vergonha alheia desde os dezessete anos é mais difícil do que qualquer levantamento topográfico que eu já fiz na vida.


Um dos professores seniores riu, baixinho, antes de se recompor. A mulher de RH não riu, mas Percy viu o canto da boca dela tremer.


— Sr. Jackson — o presidente advertiu, sem muita convicção — Mantenhamos a seriedade que a ocasião pede.


— Peço desculpas — Percy respondeu, sem parecer nem um pouco arrependido — Só estou tentando ser honesto sobre o quanto essa situação inteira é, além de grave, extremamente cansativa.


Crawford, na cadeira lateral, cobriu os olhos com uma mão, como quem reza silenciosamente por paciência.



Foi a vez de Annabeth depois, chamada não como testemunha secundária, mas como a própria parte afetada pela denúncia. Ela se levantou do fundo da sala com a postura mais controlada que Percy já tinha visto nela em meses — terno Taillleur azul marinho risca de giz, meias calças escuras e um salto modesto. Os cabelos presos num coque profissional e besuntados com algum óleo que não deixava a rebeldia das mechas onduladas chamar mais atenção do que devia.


— Srtª Chase — o presidente começou — a senhorita está aqui não apenas como aluna sob supervisão do Sr. Jackson, mas como a pessoa diretamente citada na denúncia. Gostaríamos de ouvir sua perspectiva.


— Com prazer — Annabeth respondeu, a voz firme, sem tremular — Porque eu sou, nessa história toda, a única pessoa cuja reputação acadêmica está de fato em risco. O Sr. Jackson pode perder um financiamento. Eu posso perder anos de trabalho reduzidos a uma nota de rodapé sobre "favorecimento", como se tudo que eu conquistei sozinha, brigando por cada crédito extra, cada nota, cada recomendação, valesse menos por eu ter, em algum momento, sido vista conversando com meu orientador fora de uma sala de aula.


Ela deu um passo à frente, os olhos cinzentos fixos no comitê.


— Eu vim de Nova York pra estudar aqui. Não tenho sobrenome que abra porta em Oxford, não tenho família que jante com reitores nos fins de semana — Percy sentiu o comentário acertar em cheio, embora soubesse que não era dirigido a ele — Tenho notas. Tenho um portfólio. Tenho um histórico que qualquer pessoa nesta sala pode conferir linha por linha, e não vai encontrar um único ponto que não tenha sido conquistado da forma mais difícil possível. Essa denúncia não me protege de nada. Ela me transforma em vítima de uma suspeita que eu nunca pedi, construída por alguém que decidiu que minha proximidade com meu orientador era mais perigosa do que qualquer mérito que eu já tenha demonstrado.


A sala ficou em silêncio. Mary, na terceira fileira, mantinha o rosto perfeitamente composto, mas Percy viu os dedos dela se apertarem, de leve, contra o próprio colo.


— A senhorita está dizendo, então — o presidente perguntou, cauteloso — que se sente prejudicada por esta investigação, independentemente do resultado.


— Estou dizendo que já fui prejudicada — Annabeth respondeu — porque, a partir de hoje, existe um registro formal no meu nome questionando minha integridade acadêmica, baseado em nada além de eu ter sido vista mais de uma vez perto de um homem que, aliás, mal consegue arredondar uma nota sem preencher formulários de justificativa antes. Se alguém aqui acha que o Sr. Jackson é hábil o suficiente pra manipular um sistema inteiro só pra me beneficiar, sugiro que assistam ele tentando preencher o próprio relatório de despesas de viagem.


Dessa vez, até o presidente teve que disfarçar um sorriso atrás da mão.


O som da porta do hall se abriu e passos ecoaram do fundo da sala.


— Peço desculpas pelo atraso — a voz cortou o silêncio antes que o comitê pudesse retomar, e Scarlet entrou pela porta do fundo, o casaco bege impecável, os saltos batendo contra o piso de madeira com aquela precisão de sempre — Scarlet Windsor. Estou aqui para depor a favor da Srtª Chase.


Percy sentiu o queixo cair de leve. Não tinha pedido isso. E, pelo canto do olho, viu Mary se recompor rápido demais, o rosto perdendo um pouco da serenidade calculada.


— A senhorita tem alguma relação com o caso? — o presidente perguntou.


— Fui namorada dele — Scarlet respondeu, sem hesitar, os olhos passando de propósito pela terceira fileira, onde a mãe estava sentada — E é exatamente por isso que minha opinião importa aqui. Porque se alguém tivesse motivo pra confirmar qualquer favoritismo, qualquer deslize, qualquer coisa que beneficiasse a Srtª Chase às custas do resto, seria eu. E não tenho nada disso pra contar.


Ela se aproximou da mesa, o tom se firmando a cada palavra.


— O que tenho pra contar é que o Sr. Jackson é o homem mais escrupuloso, chato e irritantemente correto que eu já conheci na vida. Perguntem aos alunos dele. Perguntem ao próprio reitor Crawford. Esse homem arredonda 5.5 pra baixo, com medo de que arredondar pra cima pareça generosidade demais. Se existe alguém nessa universidade genuinamente incapaz de favorecer alguém por interesse pessoal, é esse idiota aqui, que tem vergonha até de aceitar um café de aluno sem anotar o valor numa planilha de conduta ética.


Ela fez uma pausa, os olhos fixos agora diretamente na mãe.


— E, já que estamos falando de influência indevida, talvez valesse a pena o comitê perguntar quem, exatamente, motivou essa denúncia em primeiro lugar. Porque coincidências acontecem, mas raramente acontecem com esse nível de... dedicação.


Um sussurro percorreu a sala. Mary manteve o rosto de pedra, mas Percy viu, pela primeira vez desde que a conhecera, algo próximo do pânico atravessar os olhos dela.


O presidente pigarreou, desconfortável com o rumo que a sala tinha tomado.


— Vamos deliberar — ele disse, por fim, fechando a pasta apressado demais — O Sr. Jackson será notificado da decisão em até uma semana. Por ora, está liberado.


Percy só conseguiu se levantar quando Crawford tocou seu ombro, guiando-o pra fora da sala antes que ele dissesse qualquer coisa que estragasse o que as duas mulheres tinham acabado de construir por ele.


O corredor fora da sala estava vazio, só o eco distante de passos em algum andar de cima. Mary passou por eles sem dizer palavra, o rosto composto de novo, mas o passo mais rápido do que o de costume, o casaco cinza-perolado desaparecendo escada abaixo antes que qualquer um pudesse abordá-la.


Scarlet observou a mãe se afastar, a expressão indecifrável.


— Ela não vai esquecer isso — Scarlet murmurou, mais pra si mesma do que pra qualquer outra pessoa.


— Você está bem? — Percy perguntou, baixinho.


— Não — ela respondeu, sem se virar pra ele — Mas isso não é problema seu resolver.


Ela se recompôs e se virou então pra Annabeth, que esperava alguns passos atrás, o casaco ainda abotoado até o último botão.


— Srtª Chase — Scarlet começou, a voz mais baixa agora, sem o verniz de sala de audiência — Preciso dizer uma coisa, e prefiro dizer antes que perca a coragem.


Annabeth cruzou os braços, cautelosa.


— Meu comportamento com você, no brunch, nas farpas, em tudo — Scarlet continuou — foi inaceitável. Não condizia com a situação, nem comigo. Eu estava magoada com o homem errado e descontei na mulher errada, e isso não tem desculpa boa o suficiente.


— Você não precisa...


— Eu sei que não preciso — Scarlet a interrompeu, gentil, mas firme — Mas quero. Porque aprendi, nas últimas semanas, algo que devia ter aprendido há muito tempo: nunca mais vou deixar um homem tirar o melhor de mim. Nenhum homem. Nem o Percy, nem meu pai, nem ninguém — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro, o gesto quase automático — Você merecia coisa melhor do que o que recebeu de mim. Espero que aceite isso como um pedido de desculpas de verdade, não como teatro.


Annabeth ficou em silêncio por um segundo longo demais, avaliando.


— Aceito — ela disse, por fim — E, pro que valer, você foi bem lá dentro.


— Eu sei — Scarlet respondeu, um fantasma de sorriso escapando — Costumo ser.


Ela se afastou pelo corredor sem se despedir de Percy, os saltos ecoando contra a pedra, e algo naquilo doeu mais do que qualquer grito teria doído.


Crawford encontrou Annabeth alguns minutos depois, perto da saída, ainda com a pasta debaixo do braço.


— Bem — o reitor disse, ajeitando os óculos — Isso foi mais dramático do que qualquer audiência disciplinar que já presenciei em vinte anos de carreira, e olha que já vi coisa. Inclusive a piadinha sobre formulários de despesa, essa realmente foi engraçada.


— E verdadeira — Percy aceitou o leve abraço do reitor enquanto esboçou um sorriso tênue.


Crawford suspirou, mas havia um traço de riso escondido no cansaço — Deixa eu ver se entendi direito. O senhor namorava, ou ainda namora, uma das suas alunas. E tem, digamos, um envolvimento bastante suspeito com outra. E as duas apareceram na mesma sala pra defender o senhor, com um entusiasmo que eu classificaria de comovente.


— Não é bem assim...


— Sr. Jackson — Crawford deu um tapinha no ombro dele, o riso finalmente escapando — Seu malandrão!


Ele se afastou rindo sozinho pelo corredor, deixando Percy parado ali, meio sem chão, meio aliviado.


Annabeth passou por ele pouco depois, a bolsa no ombro, o casaco já vestido por cima do blazer contra o frio de fevereiro.


— Obrigado — ele disse, simples.


— Não fiz por você — ela respondeu, sem parar de andar — Fiz porque era verdade. E porque estou cansada de ser tratada como suspeita por existir perto de você.


— Ainda assim.


Ela parou, só por um instante, e olhou pra ele com algo que não era raiva nem era o calor de antes — era só cansaço, e uma cautela nova que Percy reconheceu, incomodado, como sendo justificada.


— A gente continua como estava, Percy. Formal. Orientador e aluna. Nada mais. Não quero ter que depor novamente frente a todos esses britânicos zangados.


— Eu sei.


— Ótimo.


Ela saiu pelo corredor sem olhar pra trás, e Percy ficou ali, sozinho, com a sensação estranha de ter sobrevivido a alguma coisa sem ter, de fato, ganho nada com isso — e com a certeza incômoda de que Mary Windsor não tinha dito sua última palavra.