As Desventuras e Romances de Percabeth
79 28 – O Selo
Notas iniciais
28 – O Selo
A biblioteca de Balliol tinha aquele silêncio específico das tardes de fim de janeiro, quando o frio lá fora convencia até os alunos mais dedicados a ficarem em casa. Percy encontrou Annabeth na mesa do canto, perto da janela alta, uma pilha de livros abertos ao redor dela como uma muralha de papel.
Ela não ergueu os olhos quando ele se sentou à frente.
— Precisamos conversar sobre a audiência — ele disse, baixinho, o suficiente pra não incomodar ninguém mais no andar.
— Não precisamos de nada — ela respondeu, ainda sem olhar, a caneta correndo por uma anotação que Percy suspeitava que ela nem estava realmente fazendo.
— Annabeth.
— O quê? — ela finalmente ergueu os olhos, e havia algo neles que Percy reconhecia de longe — não raiva pura, mas o tipo de cansaço que vinha de segurar raiva por semanas demais.
— Como está?
Ela riu, um som seco, sem humor nenhum.
— Estou prestes a sentar numa sala com o conselho disciplinar de Oxford pra explicar por que meu orientador supostamente me favorece, o que, aliás, é mentira, e ainda vai destruir qualquer coisa que eu já construí aqui — quando ela subiu o olhar, parecia querer estrangular Percy — Pra ainda ter que ouvir como estou…
— Eu só...
— Você só o quê, Percy? — ela fechou o livro com mais força do que precisava, o som ecoando baixo pela sala vazia — Veio se desculpar? Um pedido de desculpas e você volta pra sua vidinha de projeto de aristocrata.
— Eu não fiz nada de errado. Não fizemos nada de errado.
— Turquia. “Encontros” disfarçados de trabalho, esbarrões pelos corredores. Aquela maldita patinação no gelo. Até na casa da sua mãe eu fui — Annabeth começou a juntar os livros e fechou o caderno de anotações — E o pior é que eu devia saber que nada de bom viria disso, e deixei acontecer mesmo assim.
Percy sentiu o estômago apertar. Não tinha resposta boa pra aquilo, porque ela não estava errada.
— Isso não justifica uma reclamação formal — ele tentou, a voz mais controlada do que se sentia — Alguém decidiu levar isso ao conselho. Isso não aconteceu sozinho.
— Não mesmo — ela concordou, amarga — E eu tenho uma ideia bem clara de quem decidiu.
— Annabeth...
— A sua namorada, Percy — ela cravou, finalmente olhando direto pra ele — Uma coisa é eu brigar com você. Outra é ela usar a vida pessoal dela, o sobrenome dela, pra me atacar profissionalmente. Isso é sujo. Isso é o tipo de coisa que só quem nasce achando que tudo se resolve com um aceno faz.
— Scarlet não faria isso — ele disse, e ouviu a própria voz soar menos convicta do que pretendia. E ele sabia que ela realmente era inocente.
Annabeth ergueu a sobrancelha e deu um sorrisinho sarcástico.
—Pelo que eu saiba, ela é a única pessoa nessa história inteira com motivo, meios e sobrenome suficiente pra fazer o conselho de Oxford dançar conforme a música dela.
Percy não respondeu. Não podia — não sem contar sobre as cartas, sobre o brasão, sobre semanas de suspeitas que ele vinha guardando sozinho como quem guarda uma ferida escondida embaixo da manga.
Ele bufou desgostoso — Eu vou resolver isso.
— Todo mundo acha que a família de alguém é melhor que isso, até descobrir que não é — Annabeth fechou o restante dos livros, guardando tudo na bolsa com movimentos bruscos demais — Vou pra audiência sozinha, Percy. Não precisa se sentir culpado. Só precisa parar de aparecer.
Ela saiu antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, e Percy ficou ali sentado, ele apertou os punhos até os nervos da mão ficarem brancos.
***
Scarlet apareceu na cobertura na terça-feira à noite, um envelope na mão e o casaco bege ainda por cima dos ombros, como se tivesse vindo direto de algum lugar sem intenção de ficar muito tempo.
— Ia te mandar por mensagem, mas resolvi passar aqui — ela disse, entrando sem esperar convite, o salto batendo firme contra o piso de madeira — Convite de casamento da minha prima Isabelle. Julho, em Bristol. Minha mãe insistiu em escrever à mão pra cada convidado, porque aparentemente convite impresso é coisa de gente sem educação.
Percy pegou o envelope, o papel grosso e cor de marfim entre os dedos, o mesmo peso exato que ele reconhecia de memória agora. Abriu, mais por reflexo do que por real interesse no conteúdo, e foi aí que viu.
A letra.
Cada curva, cada inclinação, o jeito específico como o "S" de "Scarlet" se fechava — idêntico, traço por traço, ao "Sr. Jackson" que abria cada uma das três cartas guardadas na gaveta da escrivaninha do quarto.
O sangue gelou de um jeito que ele já conhecia bem demais.
— Percy? — Scarlet notou o silêncio, tirando o casaco e jogando-o sobre o braço do sofá — Você ficou branco. Tudo bem?
— Tudo — ele forçou um sorriso, guardando o convite em cima da mesinha com mais cuidado do que qualquer convite de casamento merecia — Só lembrei de uma coisa que preciso resolver amanhã.
Ela não insistiu, já andando na direção do quarto dele.
— Ah, falando nisso — ela disse, por cima do ombro — Acho que deixei um brinco aqui semana passada. Pérola pequena, da minha avó. Vou ficar impossível de conviver se não achar.
O estômago de Percy revirou de um jeito completamente diferente.
— Scarlet, espera...
Ela já tinha entrado no quarto. Percy a seguiu rápido demais, tarde demais, e chegou bem a tempo de ver ela abrindo a gaveta da escrivaninha, os dedos procurando entre os objetos pequenos que costumavam se acumular ali.
Percy tinha tomado o cuidado de deixar as cartas embaixo de alguns outros papéis e livros.
— Scarlet.
— O quê? — ela perguntou, distraída, e então parou.
As três cartas estavam espalhadas exatamente onde ele as tinha deixado, junto com a fotografia da pista de gelo. Ela segurou uma delas entre os dedos, o lacre de cera já quebrado há semanas, o brasão do leão e das espadas cruzadas virado pra cima como uma acusação silenciosa.
— O que é isso? — ela perguntou, a voz baixa demais pra ser calma de verdade.
— Scarlet...
— O que. É. Isso, Percy — ela repetiu, cada palavra separada, cortante.
Percy engoliu em seco, não adiantava nem tentar mentir. Por fim, ele fez o que devia ter feito semanas antes.
— Cartas anônimas — ele admitiu — Ameaças. Sobre... sobre nós, sobre Annabeth, sobre meu financiamento, minha carreira.
— E você não me contou.
— Eu ia contar.
— Ia — ela repetiu, o tom afiado o suficiente pra cortar — Quando, exatamente? Hoje? Amanhã? Seu covarde.
— Eu não sabia como.
Scarlet olhou pra carta na própria mão, os olhos correndo pelo brasão, e Percy viu o exato instante em que ela reconheceu.
— Isso é... — ela engoliu em seco — Esse é o brasão da minha família.
— Eu sei.
Ela ergueu os olhos, e havia algo ali que não era mais só raiva — era o começo de um cálculo, rápido e terrível.
— Você achou que fosse meu pai — ela disse, devagar — Não achou?
Percy não respondeu.
— Percy.
— No começo, sim.
— E agora?
O silêncio dele durou tempo demais.
— Agora eu sei que não é ele — ele disse, finalmente, a voz baixa.
Scarlet ficou parada por um momento tão longo que Percy quase preferiria que ela gritasse.
— É minha mãe — ela disse, não como pergunta.
— Scarlet...
— HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ SABE? — a voz dela finalmente quebrou o controle, ecoando pelo quarto inteiro.
— Desde agora mesmo. O convite. A letra é idêntica.
Ela olhou pra mesinha da sala, onde o envelope ainda estava, e depois pra Percy, e alguma coisa no rosto dela desmoronou um pouco mais.
— Você viu na hora — ela disse, incrédula — Ficou parado aqui, sabendo, e não disse nada. De novo.
— Eu não sabia como te contar isso, Scar, é sua mãe...
— NÃO ME CHAME DE SCAR — ela deu um passo pra trás, como se a proximidade dele fosse física demais pra suportar — Minha própria mãe. Me espionando. Espionando você. Ameaçando sua carreira, o financiamento, a Annabeth — ela parou, a respiração descompassada — E você sabia há tempo. E ficou quieto mesmo assim.
— Eu ia contar, só estava tentando entender o motivo antes de...
— Não interessa o motivo, Percy! — ela gritou, e pela primeira vez desde que Percy a conhecia, a compostura britânica impecável simplesmente desmoronou por completo — O que interessa é que minha família me traiu, e o homem que eu escolhi, mesmo sabendo que era mentira pra todo mundo, decidiu que eu não merecia saber disso também.
Ela pegou a fotografia da mesa antes que Percy pudesse impedir — ele e Annabeth, parados no meio do gelo, as luzes de Natal borradas ao fundo, os dois se olhando do jeito que só se olha quando ninguém mais importa naquele instante.
— Não houve nada entre a gente. Nem nesse dia, nem em nenhum outro. Eu mudei.
Ela riu, um som quebrado, nada parecido com riso de verdade.
— Você mudou — ela repetiu, guardando a fotografia na bolsa com mãos trêmulas — Mas não por minha causa, Percy. Nunca foi por minha causa.
— Isso não é totalmente…
— A "parte antiga da sua vida" — a voz carregada de um desprezo que ele nunca tinha ouvido dela antes — Não era tão antiga assim, era? Ela nunca foi antiga. Ela sempre esteve bem aqui, debaixo do seu nariz, enquanto você fingia namorar comigo pros meus pais, enquanto eu defendia você na frente de sessenta convidados, enquanto eu brigava com minha própria família por sua causa.
— Scarlet, por favor...
— Eu vou embora — ela pegou o casaco de volta do braço do sofá, a bolsa, os movimentos rápidos demais pra ele fazer qualquer objeção — E vou levar isso comigo — ela bateu de leve na bolsa, onde a fotografia agora estava guardada — Porque acho que minha mãe devia ver exatamente o que ela achava que estava protegendo.
Ela saiu sem esperar resposta, os saltos batendo firmes contra o piso do corredor, a porta do elevador se fechando antes que Percy conseguisse formular qualquer coisa que não soasse como desculpa vazia.
Percy ficou parado no meio do quarto, as duas cartas restantes ainda espalhadas sobre a escrivaninha, o silêncio da cobertura de repente enorme demais pra qualquer pessoa suportar sozinha.
A semana que restava até a audiência passou devagar, cada dia carregando o peso extra de ligações não atendidas e mensagens que Scarlet simplesmente não respondia. Percy tentou duas vezes, desistiu na terceira, e passou a se concentrar no único problema que ainda parecia ter alguma solução prática — Crawford tinha marcado uma reunião preparatória pra sexta-feira, "só pra alinhar o que será dito, Jackson, porque pelo jeito você tem talento raro pra piorar situações já ruins" —, e havia documentos pra revisar, testemunhas pra confirmar, uma defesa inteira pra construir antes que a primeira semana de fevereiro chegasse.
Ele guardou as duas cartas restantes de volta na gaveta, junto com o espaço vazio onde a fotografia costumava estar, e se sentou à escrivaninha com a pilha de papéis que Crawford tinha mandado adiantar.
Faltava uma semana. E, pela primeira vez em meses, Percy não tinha ideia de qual das batalhas — a audiência, Scarlet, ou tudo que ainda não tinha coragem de dizer pra Annabeth — seria a mais difícil de vencer.
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