Notas iniciais
Samuel olhava para o quadro onde o professor escrevia, mas sua mente não conseguia se concentrar em nada do que estava escrito. Não sabia o motivo, mas seu estômago dava voltas e mais voltas e suor frio escorria por sua testa. Afonso se surpreendeu ao olhá-lo, pois Samuel estava muito pálido.
— O que você tem? – perguntou o amigo.
Samuel sacudiu a cabeça, tentando indicar ao amigo que não se preocupasse, mas tinha receio de abrir a boca e vomitar seu café da manhã. Era estranho, pois não comera nada de diferente. Era um enjôo parecido com o que sentia quando estava nervoso por causa das provas, mas hoje não era dia de prova e Samuel não tinha motivo para estar nervoso. Mesmo assim, ele se sentia angustiado, como se algo estivesse ocorrendo em outro lugar...
Por fim, ele não conseguiu aguentar mais, e levantou a mão para pedir ao professor para se retirar. Não precisou dizer uma palavra; só de olhar para o garoto pálido o professor imediatamente o mandou para a enfermaria.
Ele foi, andando devagar para não provocar seu estômago. Quando chegou, havia uma placa na porta indicando que a enfermeira estava em atendimento. Samuel se sentou em uma das cadeiras de espera e encostou a testa na cerâmica fria da parede.
Felizmente, ele não precisou aguardar muito. Logo um garoto saiu pela porta da enfermaria, e Samuel continuou sentado para que a enfermeira pudesse organizar e higienizar os equipamentos, trocar o lençol de papel e depois chamá-lo. Quando o garoto passou por Samuel, se dirigindo ao bebedouro, ele notou que a mão direita dele estava irritada e vermelha.
— O que é isso na sua mão? – Samuel perguntou, curioso, imediatamente se repreendendo por sua intromissão na vida alheia.
Ele pareceu meio incomodado, como se não quisesse partilhar aquilo, mas antes que Samuel retirasse seu pedido, o garoto se decidiu, estendendo as costas da mão irritada para que Samuel visse.
Ele levou as mãos à boca de surpresa. Era o alto relevo de um minúsculo diamante sob a pele, cada faceta detalhada com precisão cirúrgica. Um diamante idêntico e no mesmo local ao de Samuel, que o notara logo após entregar o gato para sua dona. O garoto logo percebeu a protuberância.
— Você também tem um? – perguntou, segurando a mão direita de Samuel, com os arranhões do gato, e analisando o diamante que ele tinha. – Como conseguiu o seu?
— Não sei direito. Foi depois que eu resgatei um gatinho de debaixo de uma caçamba de lixo. Acho que esse é o diamante da coleira dele. E você? Aliás, meu nome é Samuel. – Por algum motivo, ele já não se sentia enjoado.
— O meu é César. Eu acho que o meu veio do colar que minha irmã ganhou. Ela me pediu para colocá-lo pra ela e, depois disso, minha mão começou a coçar. Ela disse que os diamantes são falsos, mas acho que esse aqui não era. Ficou um buraquinho no colar dela.
Samuel balançou a cabeça, compreendendo.
— Ficou um buraco na coleira do gato também.
Os olhos de César brilharam de expectativa.
— Isso me cheira a aventura.
A enfermeira abriu a porta de repente e olhou para Samuel.
— Pode entrar. Seu professor mandou um recado.
Ele se levantou, se sentindo completamente bem.
— Não preciso mais, obrigado.
Tinha a estranha sensação de que o diamante de César o havia curado do enjoo.
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