As Crônicas dos Defensores de Luminia
19 História
Notas iniciais
— Gwen, você precisava ter visto. – contava Enzo, enquanto a fogueira que eles montaram crepitava lentamente, iluminando os contornos das árvores ao redor. – Parecia que era a mão de um deus me guiando. – Ele não deu atenção ao olhar de raiva que a menina lhe lançou quando falou “um deus”.
Já era noite, os estômagos dos dois estavam cheios de coelho e Enzo contava sua história à uma Gwen taciturna e irritada.
— Tinha uma centena de armaduras naqueles corredores, algumas com espadas maiores que eu, outras com maças de ferro, e até algumas com arcos e flechas. Mas o que me chamou atenção foi que uma tinha uma corrente com bolas de espinhos nas pontas. Aquilo me deu uma inspiração, eu não sabia o que ia fazer, mas dei alguns segundos de dianteira para os guardas, para que eles não me ouvissem mexendo ali. Tirei a corrente e fui andando com ela, era pesada e eu tinha que tomar cuidado pra não esbarrar em nada. Quando penso que não, eles começam a descer um monte de degraus muito estreitos, eu tive que dar dianteira pra eles de novo se não eles ia ver minha sombra na escadaria. Quando eles chegaram lá no fundo e abriram a porta da masmorra que você estava, eu juntei toda a minha força e joguei a corrente nos pés dos dois, e aquela bola de espinhos enrolou nas pernas deles e furou o metal das botas! Eles ficaram todos enrolados e caíram no chão, um deles bateu a cabeça no batente da porta e ficou desacordado. O outro, quando tentou se soltar, só afundou mais a bola de espinhos na perna. Aproveitei a deixa pra pular por cima das cabeças deles e entrar na masmorra. E aí dois guardas estavam lá dentro também! Eu não estava contando com isso. Pulei na cara de um, me pendurando de qualquer jeito, socando a cara dele toda, quase quebrei minha mão! – Enzo ergueu a mão com crostas de feridas, orgulhoso, mas Gwen não olhou. Meio desapontado, ele continuou.
— Então... O outro tentou ajudar, mas não sabia direito o que fazer, e de repente eu senti na minha espinha, nos meus ossos, que ele ia pular em cima de nós dois pra me pegar. Pulei fora na mesma hora e eles se estabacaram no chão. Foi aí que eu te vi, e vi também que tinha uma abertura muito estreita que era do esgoto. Era um milagre de deus aquele buraco! Enquanto os caras se levantavam, eu chutei a grade, te peguei e te carreguei por ali. Graças a deus era estreitinho e eu tinha certeza que os guardas não cabiam ali. Nossa, foi uma aventura e tanto! Nunca senti tanta adrenalina antes.
Gwen não disse nada. Estava com um graveto na mão e mexia nas brasas da fogueira enquanto ela queimava. Por fim, ela soltou um pesado suspiro e o olhou.
— Você mentiu pra mim. Disse que só ia deixar um recado.
Enzo abaixou a cabeça, envergonhado.
— Eu precisava vê-la pessoalmente...
— Você nos colocou em risco por causa de um capricho seu. – Gwen não gritava, mas seu tom era tão desapontado e doloroso que fez ele se encolher ainda mais. – Eu não confio mais em você. Nem sei porque a Deusa— ela enfatizou o nome – escolheu você para o que quer que seja nosso destino. A partir de agora, nós iremos fazer o que eu decidir.
Dizendo isto, ela se levantou e começou a arrumar um canto para poder dormir. Enzo, internamente, concordava inteiramente com ela. Não sabia como ela havia sido torturada, mas a encontrara ao lado de um barril de água, e seu rosto e cabelo estavam encharcados. Supôs que a tortura envolveu afogamento. Sentiu-se muito mal por tê-la feito passar por isso, e prometeu para si mesmo que não questionaria as decisões dela nunca mais. Sua aventura quase custara a vida de sua amiga.
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