Notas iniciais
Conheçam Aurora.

Era preciso coragem.

Em primeiro lugar, coragem para acordar, quando tudo que Aurora mais desejava era poder dormir para sempre. Todos os dias, quando abria os olhos, sentia uma nova onda de decepção. Por que os deuses não atendiam seu pedido, seu único e mais desesperado pedido... morrer?

Aurora não sabia de onde conseguia retirar coragem para levantar. Mas seu rosto era como de um cadáver, frio e sem emoções. As criadas que lhe ajudavam a se banhar e a se vestir já estavam acostumadas com aquele ar taciturno e indiferente de Aurora. E pensar que um nome lindo como aquele fora desperdiçado numa garota que mais merecia ser chamada de Crepúsculo...

Os vestidos rodados e com babados, cuidadosamente passados e penduradas, eram escolhidos diariamente pelas criadas, pois Aurora já não tinha mais nenhuma paixão por isso. Hoje era dia de seu pai passear de carruagem pela propriedade, e a princesa deveria ir e sorrir e cumprir seu papel como filha do rei. As criadas escolheram um vestido que permitia que Aurora se sentasse e se levantasse com mais tranqüilidade, com estampa floral, algo que anteriormente ela acharia maravilhoso.

Não sentia mais alegria por nada nesse mundo.

Tudo começou, ela supunha, com o noivo que seu pai lhe arranjara, um dentuço de um condado vizinho que ria igual um porco. Aurora não ficara nada feliz, e havia feito até greve de fome para que seu pai reconsiderasse o casamento, mas os planos ambiciosos do rei não poderiam ser impedidos por coisa tão pouca.

— Escute aqui, Aurora. — seu pai havia lhe dito na época. — Você irá se casar com Geraldy, e não há nada que você possa fazer para impedir isso. Se continuar com essa greve de fome idiota, mandarei as criadas a alimentaram com uma mangueira, com a lavagem dos porcos.

Desde esse dia, Aurora voltara a comer, pois sabia que o pai sempre cumpria sua palavra.

E cumpriu. A data do casamento estava marcada, e Aurora iria assumir os dois condados, o de seu pai e o de Geraldy, como rainha. Mas na verdade seu pai é quem puxaria todos os cordões por detrás dos panos.

Alguma coisa vinha morrendo dentro de seu coração conforme a data do casamento se aproximava. Só de pensar que teria que se deitar com Geraldy e ter filhos dele, Aurora sentia um desejo intenso de pegar a faca mais afiada que pudesse encontrar e enterrá-la em si própria. Era mais do que podia suportar.

Mesmo assim, ainda havia no fundo de seu coração magoado, uma coragem inexplicável para passar o dia fingindo para seu povo que estava feliz. Cada sorriso falso seu parecia, para ela, um esgar de dor. E ficava surpresa como ninguém percebia.

O rei, a rainha e a princesa caminharam alegremente até a carruagem para visitar seu povo e distribuir bênçãos. Enquanto eles passavam, acenando e sorrindo para os súditos, estes se digladiavam para poder chegar mais perto e poder tocar a abençoada família real, mas os guardas garantiam a segurança deles dentro da carruagem.

Uma garotinha corria com insistência, seguindo a carruagem mesmo após ser afastada pelos guardas. Ela erguia um mínimo embrulho nas mãos o mais alto que seus braços permitiam, e olhava fixamente para Aurora. Alguma coisa naquela cena a incomodou. Por que deveria temer o presente de uma criança? Ergueu a mão para recebê-lo, e o guarda lhe lançou um olhar de sobreaviso, que ela ignorou. A garotinha depositou cuidadosamente o embrulho na mão de Aurora. Quando ela o abriu, havia uma pulseira delicada, enfeitada com minúsculos diamantes.

Os olhos de Aurora se arregalaram. Onde aquela criança roubara aquilo? Quando voltou a olhar pela janela, já não via mais a menina em lugar algum.

Recostou-se no assento da carruagem, olhando o presente de todos os ângulos, pensando. Logo percebeu que faltava um dos diamantes, e seu rosto de retorceu de desagrado. Além de lhe dar algo provavelmente roubado, ainda estava danificado. Aurora o deu ao guarda com instruções de que encontrasse a dona daquela joia e procurou tirar aquilo da cabeça. Coçou a mão distraidamente e voltou a acenar e sorrir para o público.

Notas finais
Os mistérios começam a ter coincidências...