Notas iniciais
Voltamos ao Enzo.

— Um diamante?? — exclamou Sônia.

Enzo olhou. Realmente, nas costas de sua mão, havia um minúsculo alto relevo no formato exato de um diamante. No formato de um diamante que ele havia pegado com aquela mão mais cedo. Todas as palavras lhe escaparam enquanto encarava aquele estranho fenômeno.

Antes que pudesse raciocinar, ouviu o barulho da porta se abrindo, e rapidamente escondeu a mão no bolso. Não se sentia pronto para compartilhar aquilo com outra pessoa.

Sônia pensava da mesma forma. Enquanto não descobrissem o que aquele diamante significava, não achava sensato alarmar a família.

A irmã mais nova de Enzo, Beatriz, entrou na cozinha cabisbaixa.

— Cheguei atrasada! O velho Will já tinha dado todos os doces!

Enzo sorriu.

— Agora admite que você tem o melhor irmão do mundo — disse, fazendo os olhos de Bia brilharem.

— Você pegou? Você conseguiu pegar?

— Olha debaixo do seu travesseiro.

Bia correu para o quarto e voltou antes mesmo que Enzo respirasse profundamente. Deu-lhe um abraço e chapou-lhe um beijo na bochecha.

— Você é o melhor irmão do mundo! — gritou, e devorou o doce em uma dentada, fazendo o garoto rir.

—/-

Mais tarde, deitado na cama, Enzo analisava a marca em sua mão. Agora que parara de coçar, ele pode identificar que cada faceta do diamante estava gravada em sua pele e, ao apertar, era duro e não se deslocava do lugar. Como se realmente tivesse um diamante lá dentro, debaixo da pele e grudado no osso.

Mesmo que a mão houvesse parado de coçar, dentro de Enzo coçava uma necessidade implacável de sair. Sentia todo o seu ser sendo atraído para uma direção específica, e precisava de toda a sua força de vontade para ficar deitado na cama.

Sabia a loucura que era sair à noite. Não era seguro. Tentava convencer seu corpo que sairia de manhã, que era suicídio sair de casa àquela hora, mas aquele impulso era tão forte que o estava impedindo de dormir. Enzo rolava na cama de um lado para outro, exausto, mas alerta.

Podia ouvir claramente assobios e lutas na rua, e sabia que eram as gangues que estavam disputando sua guerra. Em um momento uma arma disparou, deixando Enzo sobressaltado. Armas eram raras ali.

Pode ouvir mais alguns disparos e correria e, de repente, silêncio. Ele esperou, lutou contra seu impulso, mas decidiu que só iria dar uma olhadinha da janela para ver como estavam as coisas.

A rua estava vazia.

Todo o corpo de Enzo estremeceu, e suor frio começou a escorrer de sua testa enquanto lutava contra a vontade de sair.

De repente, já estava correndo.