Notas iniciais
Enzo correu para longe da mãe, sem ao menos ter tempo de se despedir adequadamente. Correu pelos becos como um raio, voltando pelo caminho que viera. Pulou pela janela da loja de cartas, sem dar atenção à expressão de susto de vendedor, e saiu pela porta, onde deixara Gwen. Não havia sinal dela em lugar nenhum.
Seu estômago deu um aperto de pânico tão forte que ele teve que trincar os dentes para não vomitar ali mesmo. A sensação de urgência não diminuía, então Enzo simplesmente deixou seus instintos assumirem o comando, e seus pés voaram pelas ruas por conta própria.
Quando chegou na frente do palácio do governador, ele hesitou por um breve segundo. Sabia que, antes de tomar qualquer decisão de entrar ali, ele deveria analisar todas as suas opções primeiro. Era assim que ele fazia. Mas ele sentia em seu estômago, em seus ossos, em seu coração, que não havia tempo para pensar. Seus dedos se apoiaram nas mínimas frestas entre os tijolos da parede do castelo, e ele subiu.
Não demorou dois segundos para Enzo perceber que jamais conseguiria subir aquela parede de sapatos. Tirou-os e os enfiou num barril de lixo, voltando à parede.
Não havia tempo para pensar se alguém estava vendo ele. Não havia tempo parar pensar sobre o que estava lá em cima. Só o que havia era Enzo, a parede, e chegar até Gwen.
Ele escalou pela lateral menos vigiada, com tanto ímpeto que chegou a uma janela e subiu por ela antes que os guardas dessem a volta pelo perímetro. Seus dedos estavam esfolados pelas cinco vezes que escapara de cair na subida. O corredor que ele havia entrado estava vazio.
Enzo já tinha prática em andar pelas ruas sem chamar atenção, mas ali a situação era completamente diferente. Não havia muitos lugares onde pudesse se esconder. Seus pés começaram a se mexer por vontade própria, antes que ele pudesse parar para pensar em qualquer coisa que o ajudasse. Atravessou vários corredores sem encontrar alma viva, a maioria deles repletos de nichos com armaduras de aço polidas e armas apoiadas. Enzo continuou seu caminho sem dar atenção à elas, mas logo precisou correr para se esconder atrás de uma, pois um guarda vinha correndo por aquele corredor, as placas de sua armadura se chocando e fazendo estrépito enquanto se movimentava.
Enzo teve uma súbita inspiração e seguiu o guarda, aproveitando o som que a armadura dele fazia para poder manter a maior distância possível sem perder o rastro.
Ouviu o guarda virar num corredor, abrir uma porta e em seguida fechá-la. Ele olhou cautelosamente para o corredor e, constatando que não havia ninguém à vista, dirigiu-se até a única porta que havia ali, encostando-se o mais próximo possível para ouvir o que diziam.
— Senhor, a garota está no subsolo três. – disse uma voz respeitosa.
— Excelente – respondeu uma voz rouca e poderosa, que fez Enzo imaginar um homem gordo e influente. – Ela já falou alguma coisa?
— Não, senhor. Afirma ser a última bruxa e que não tem contato com nenhum outro. – O estômago de Enzo afundou ao perceber que falavam de Gwen.
— Mentira dela. É óbvio que sabe, e que estava aqui na cidade para colher informações para eles. Torture-a se for necessário! Meu mestre precisa dessas informações para acabar com essa raça maldita.
— Sim, senhor. Conforme o senhor ordenar. Mas, senhor, caso a garota não fale...? – a voz respeitosa deixou a pergunta no ar.
— Então mate-a. Menos uma para nos incomodar.
As pernas de Enzo amoleceram de terror.
— Sim, senhor. – os passos se aproximaram da porta, e Enzo se desesperou. Não havia onde se esconder. Havia apenas duas hastes afixadas na parede, acima da porta, que sustentavam as bandeiras do governador. No pânico, ele escalou a parede sem saber como e se agarrou na haste, fazendo a bandeira tremular, torcendo para que o guarda saísse e não olhasse para cima.
Ouviu quando ele se atrapalhou com a fechadura, e por fim saiu, dando as costas para Enzo sem perceber que ele estava ali. A haste rangeu, mal sustentando o peso do garoto, enquanto ele suava e rezava a todos os deuses que conhecia para que aquilo não caísse, para que o guarda não olhasse para trás, e para que o governador não saísse dos aposentos.
Quando o guarda virou no corredor, Enzo pulou da haste para o chão. Felizmente estava descalço e seu pouso não fez barulho no piso de pedra. A haste rangeu uma última vez e ficou imóvel. Enzo agradeceu fervorosamente e em silêncio à todos os deuses.
Cautelosamente, seguiu o guarda. Viu quando ele encontrou um colega de trabalho e lhe passou as instruções. Enzo continuou os seguindo em silêncio, o coração na mão, a urgência no estômago, pensando em como faria para derrotar dois adultos armados e salvar sua amiga.
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