Notas iniciais
Já estou agendando todos os capítulos que tenho prontos, um pra cada dia. E voltamos ao Enzo. Gosto desse garoto. Espero que vocês também gostem!

Enzo encontrou o diamante no mesmo segundo que um dos guardas o pegou pela camisa e o ergueu. Um enorme cassetete de madeira polida o cutucou no estômago.

— Ei — falou o guarda com um olhar atravessado. — Cê sabe que sua ralé não é permitida aqui, não sabe? Ou precisamos te dar uma surra procê se lembrar?

Enzo sabia que não devia desviar o olhar nesse tipo de situação, mas não pode evitar olhar pra baixo, procurando o minúsculo diamante. Tinha certeza que havia pegado ele, mas agora já não estava com o dito cujo nas mãos.

— Eu sei sim, muito obrigado por me relembrar tão educadamente — replicou Enzo, se esforçando para não ser sarcástico. O guarda não se deixou convencer.

— Tô achando que você tá mesmo precisando de uma surra. Que que cê tá olhando pra chão, garoto? Tava roubando, é? — O guarda lhe deu uma dolorosa sacudida.

— Eu... perdi meu doce — disse Enzo, inventando na hora.

— Perdeu seu doce. Quando um garoto de rua franzino igual ocê ia ter um doce? Me fala?

— Por favor — Enzo estava começando a se desesperar. Essa não era uma situação comum na sua vida. — Eu juro que nunca mais volto a pôr os pés aqui!

— E como ocê vai se lembrar que não é pra voltar? Vai precisar de uma marca bem feita pra não esquecer...

O estômago de Enzo deu um nó de pânico.

— O que está acontecendo aqui? — disse uma voz tão rígida e tão autoritária por trás do guarda que só poderia pertencer a um general. O guarda soltou Enzo no susto ao se virar para prestar continência, e, naquele segundo de distração, o garoto aproveitou a oportunidade e fugiu pelo caminho que viera. Só ouviu os apitos atrás dele, mas logo estava nos telhados e fora de alcance.

Sentiu pena ter perdido o diamante. Mas sua vida com certeza valeria mais do que aquilo.

Quando chegou em casa, vulgo barraco com telhado de zinco, sua mão estava coçando, mas ele não deu muita atenção. Sua irmã mais nova não estava, e ele supôs que estivesse na rua brincando com os amiguinhos, então ele escondeu a metade do doce debaixo do travesseiro dela.

Sua mãe estava lavando roupa no tanque do lado de fora da casa. Enzo foi até lá abraçar a mãe e comunicar que havia chegado.

Sônia sempre admirava no filho o quanto ele era amoroso. E além de tudo, era um rapaz de 14 anos muito bonito... com certeza puxara o pai nesse aspecto. A pele azeitonada, os olhos pretos e brilhantes, o sorriso capaz de fazer um coração desavisado amá-lo.

Enquanto pensava tão bem do filho, Sônia se considerava um amontoado de pele e rugas, de cara e nariz achatado e cabelos tão crespos e ressecados que ela os mantinha curtos para não ter trabalho. Enzo, entretanto, a olhava como se fosse uma rainha.

Ele decidiu não lhe contar sobre a aventura que vivenciara hoje, pois a mãe morria de medo dos guardas e certamente ficaria abalada pelo risco que Enzo correra.

Sua mão continuava coçando. Aquilo estava começando a incomodar. Sônia logo notou.

— O que você arrumou com essa mão? — perguntou, enquanto enxaguava o sabão para poder analisar a coceira do filho.

— Não sei — respondeu ele, sinceramente. — Acho que alguma coisa me picou.

— Então para de coçar. Deixa eu ver. — Sônia secou as mãos no avental e pegou a mão de Enzo, olhando atentamente para o ponto vermelho e irritado nas costas da mão.

— Isso não pode ser o que está parecendo!