Notas iniciais
Paredes, vocês gostam de Aurora?

Acamparam para ver as estrelas. Aurora esperou silenciosamente, deitada em sua barraca, até ter certeza de que todos adormeceram. Sabia que um guarda estava lá fora de vigia, mas tinha um plano para se livrar dele. Levantou-se sem ruído, pegou a roupa de caça e a roupa reserva que havia trago e as escondeu na camisola. Pegou também uma tesoura, e saiu da barraca.

O guarda imediatamente a olhou, e Aurora manteve a postura de altivez.

— Desculpe, senhorita. Aonde vai?

Aurora fez uma expressão ofendida, para que o guarda se sentisse envergonhado por ter se dirigido a ela. Viu, pela expressão dele, que funcionou.

— Cuidar de minhas necessidades femininas – ela respondeu.

O guarda não desistiu.

— A senhorita poderia se servir de uma das criadas para acompanhá-la.

Aurora sorriu docemente, para abrandar qualquer suspeita.

— Não irei demorar.

E andou calmamente, temendo que o guarda a seguisse ou chamasse alguém, mas ele permaneceu em seu posto. Quando a princesa chegou num ponto onde tinha certeza de que o guarda não a veria, tirou a camisola e vestiu a roupa reserva, uma calça simples e uma blusa de tecido grosseiro. Já estava de sapatos. Levou consigo a roupa de caça que usara no dia e a camisola, para não deixar vestígios para trás. Seu arco e sua aljava estavam escondidos desde cedo, e ela os pegou, para se proteger. Então correu.

Esperava que o guarda dormisse. Ou que, pelo menos, não chamasse ninguém para ir atrás dela. Esperava que só notassem seu sumiço pela manhã. Esperava que sua fuga não custasse a vida do guarda. Aurora correu sem rumo, até encontrar uma estrada. Seguiu esse caminho e logo encontrou outro, e foi escolhendo aleatoriamente para onde seguir. Não viu nenhuma casa.

Mesmo cansada, continuava em marcha rápida. Tinha que abrir a maior distância possível entre ela e sua família. Sua garganta já queimava de sede e ela não havia encontrado um riacho sequer. Teve que admitir que deveria ter incluído um cantil de água em seu plano.

Quando começou a ver luzes, achou que era o sol nascendo, mas eram apenas lampiões de uma pequena vila. Não havia ninguém nas ruas, mas Aurora podia sentir que estava quase amanhecendo. Havia garrafas de leite nas soleiras das portas, e ela surrupiou uma, diminuindo sua sede e sua fome.

Durante sua vida, Aurora notara uma coisa sobre as vilas que passava com seus pais: todas tinham um rio que as abastecia com água potável e todos os rios tinham um moinho. Depois que a princesa visualizou as enormes pás do moinho se movendo acima das outras construções, foi simples chegar até a margem e poder lavar seu rosto na água fresca.

Sabia que só chegara ali por pura sorte, e que, àquela altura, todos já estavam no encalço dela. Sabia também que seus cabelos, longos, loiros e bem cuidados, eram um farol para que a localizassem. Se alguém ali a visse assim, certamente se lembraria dela e contaria os mínimos detalhes para o rei. Deu um pesado suspiro enquanto pegava a tesoura que afanara.

Depois de tudo o que já fizera, aquele passo sem dúvida parecia o mais difícil. Aurora se repreendeu internamente por pensar que eliminar uma vaidade seria seu maior ato de coragem. Mas não pode evitar que algumas lágrimas caíssem enquanto suas longas madeixas desciam rio abaixo.

Seu cabelo ficou tão curto quanto o de um garoto, e isso, somado àquelas roupas de camponês que só escondiam mais as poucas curvas que tinha, tornaram Aurora irreconhecível. Ela não olhou seu reflexo na água. Ainda carregando a camisola, a roupa de caça, o arco e a aljava, continuou seu caminho.

Notas finais
Testando novos horários para postar.