Notas iniciais
Não, não é mentira!

Um carro havia derrapado, deixando marcas de pneus na pista, para desviar de um gato que atravessava a rua. Afonso gritou de susto, e o gato se eriçou todo e correu para se esconder debaixo de uma caçamba de lixo.

Samuel colocou a bicicleta no chão e se agachou na frente da caçamba, chamando o bichano e estendendo a mão para alcançá-lo, tentando acalmá-lo. Tudo o que recebeu foi uma unhada na mão que estendera, fazendo-o recuar de dor.

— Ai Samuel, deixa pra lá, esse gato vai te machucar todo! – disse Afonso. – Você pode até pegar uma doença.

Samuel não deu ouvidos. Sempre carregava um kit de emergência para animais de rua, então abriu sua mochila, pegou um pouco da ração para gatos que carregava e estendeu novamente a mão, dessa vez com os petiscos, debaixo da caçamba.

Ficou ali quase dois minutos inteiros, enquanto Afonso estalava a língua em aborrecimento e os joelhos de Samuel queimavam, mas, por fim, o gatinho veio comer na mão de Samuel. Era um filhote, tão pequeno que ele conseguiu fechar uma mão em torno do corpinho dele e trazê-lo para fora. Levou mais algumas unhadas nesse processo, mas não se importou. Manteve o gato no colo enquanto ele terminava de comer a ração, e viu, no pescoço dele, uma coleira com minúsculos diamantes.

— Esse gato tem dono – disse Samuel.

— Nós vamos nos atrasar para a aula – seu amigo replicou.

Mexendo um pouco na coleira, Samuel viu que ela tinha um pingente com o nome do gato e um telefone para contato. Imediatamente ele discou aquele número no seu celular e ligou.

A dona do gato morava na rua da escola, e Samuel teve que pedalar a bicicleta usando só uma das mãos, para poder carregar o gato na outra. Quando finalmente chegou no endereço que lhe foi passado pelo telefone, a dona já estava na soleira da porta, aguardando. O filhote miou no braço de Samuel assim que a viu. Colocou a bicicleta no chão de novo e levou o gato até a dona. Ela sorriu.

— Obrigada por resgatar meu bebê – a moça disse, enquanto pegava o bichano e afagava sua cabeça. Samuel pode ouvir o ronronar.

— Não foi nada – ele sorriu, estava satisfeito por ter feito sua boa ação do dia. A mão que o gato arranhara estava começando a coçar, e ele esfregou-a com o polegar com cuidado, para não se machucar mais. A mulher logo notou.

— Ele te arranhou? Quer entrar para lavar isso?

— Não precisa, eu tenho que ir pra aula. Lá eu lavo.

— Humm. Bom, tudo bem. Obrigada novamente.

Samuel deu as costas e já ia voltando para a bicicleta quando a moça o chamou novamente.

— Ei, garoto!

Ele se virou.

— Pois não?

— Olhe aqui – ela disse, estendendo o gato. Samuel voltou para olhar. – Está faltando um diamante na coleira dele.

Ele olhou e percebeu que realmente havia um buraco escuro onde deveria estar um diamante. Imediatamente se sentiu culpado por não ter visto antes.

— Eu não havia reparado... deve ter se soltado quando ele correu para debaixo da caçamba.

Ela não pareceu satisfeita com a resposta, mas não insistiu. Deu de ombros e voltou para dentro da casa.

Samuel voltou para sua bicicleta e logo estava pedalando com Afonso, com mais potência para compensar o tempo perdido, e em menos de um minuto estavam na porta da escola. Guardaram as bicicletas no estacionamento, trancando-as com cadeado, e entraram faltando meio minuto para tocar o sinal.

Samuel esfregou novamente a mão ferida com o polegar. Aquilo estava incomodando.

— Vou ao banheiro lavar isso – disse à Afonso, partindo em seguida.

Novamente, Samuel evitou olhar no espelho, se concentrando em molhar as mãos e depois usar o sabonete. Quando estava secando as mãos com o papel toalha, notou uma protuberância estranha nas costas da mão ferida. Samuel a virou para ver o que era e soltou uma pequena exclamação de surpresa.

Notas finais
Todos vocês já sabem o que é.