Notas iniciais
Gwen e Enzo caminharam devagar até chegarem juntos a uma área exatamente igual a todas as outras da floresta, onde Gwen escolheu uma árvore e subiu nela para catar uns frutos, espantando uns macaquinhos. Enzo se admirou com a agilidade da garota. Mesmo com o braço machucado, tinha certeza que ela seria capaz de lhe dar uma surra. Logo ela voltou, com os braços repletos de frutinhas, deixando várias caírem no chão. Ela fez um montinho e voltou para buscar mais enquanto Enzo comia com voracidade. As frutas eram ligeiramente azedas, mas ele preferia assim, pois poderia comer maior quantidade sem se enjoar de doce.
Ela foi e voltou três vezes antes de começar a comer, e a essa altura Enzo já estava satisfeito e se sentindo melhor. Apoiou a mão no estômago, satisfeito.
Gwen, num lampejo de movimento, pegou-lhe a mão, sobressaltando-o.
— O que foi? – perguntou imediatamente, percebendo que a garota analisava as costas da mão dele com o cenho franzido. Ele não percebeu o que ela estava olhando até que os dedos pegajosos de frutinhas percorressem o contorno do diamante em alto relevo na pele de Enzo. Seu estômago se agitou.
— O que é isso? – Gwen perguntou. Não perguntou com um tom de curiosidade, como se fosse apenas algo intrigante a respeito dele. Não perguntou com repulsa ou espanto, como Enzo teria reagido. Não. Ela perguntou com uma intensidade que explicitava um desejo intenso de saber mais sobre aquilo. Ela o olhou de forma penetrante, seus olhos claros fazendo um contraste impressionante com a pele queimada de sol, deixando o garoto desconcertado.
— Não sei. – ele respondeu. – Apareceu nessa mão ontem.
Gwen pareceu claramente decepcionada enquanto soltava a mão dele. Ela hesitou por um instante, então virou sua mão para ele, exibindo o mesmo alto relevo de diamante, com o mesmo formato e no mesmo lugar que o de Enzo. Por um instante, nenhum deles falou, até Gwen romper o silêncio.
— Tenho esse diamante desde que me lembro. Minha mãe sempre me disse que ele seria muito importante e que me mostraria o caminho certo quando eu precisasse. Sempre acreditei que isso significava que ele me guiaria até outros como nós... mas você não é um de nós, pois aparentemente só tem o diamante por pura sorte – ela fez uma careta com a palavra.
— Um de nós? – Enzo perguntou, sem entender o que seria esse “nós”.
— Ah, você sabe. Ou pelo menos já ouviu falar. Na cidade, as pessoas nos chamam de bruxos – disse com displicência, deixando o garoto de boca aberta. Era óbvio que ele já ouvira falar dos bruxos. Quando era criança, Pablo, seu irmão mais velho, lhe contava histórias sobre como os bruxos seqüestravam crianças travessas das camas delas à noite e as levavam para serem devoradas na floresta. Agora seu irmão servia no exército, e Enzo já estava muito velho para acreditar nessas historinhas de terror. Mas estar cara a cara com uma bruxa era outra história.
Gwen riu quando viu o preconceito estampado na cara dele.
— Sei o que está pensando – ela disse. – E não, não seqüestramos crianças, não fazemos o leite azedar, não amaldiçoamos pessoas nem nada dessas lorotas absurdas que inventam. Não temos nenhum poder pra fazer essas coisas. Somos só pessoas como quaisquer outras... Pessoas que dedicaram a vida a entender os ensinamentos da Mãe e a viver como ela nos ensinou. Mas parece que isso agora é crime por essas bandas...
Enzo não sabia o que dizer.
— Quando vi seu diamante, logo pensei que poderia ter encontrado um irmão. Ah, você não sabe, é assim que nos referimos uns com os outros, pois somos todos filhos e filhas da mesma Mãe. Mas posso ver no seu rosto que você não está entendendo nada do que eu estou falando, então esse diamante deve ter outro significado. É uma pena... Faz muito tempo que não ando entre os irmãos... Mas fico pensando o que será que esse encontro significa para nós dois.
Enzo comeu mais uma frutinha para ocupar as mãos enquanto tentava alinhar os pensamentos.
— Sabe, eu não... Não acredito em deuses ou destino, isso deve ser só coincidência.
Gwen riu, o surpreendendo.
— Se fosse um machucadinho qualquer, eu concordaria com você. Mas não é qualquer um por aí que anda com um diamante incrustado no osso. É óbvio que isso significa algo. Ainda mais você dizendo que ele simplesmente apareceu aí ontem...
Enzo, intimamente, concordou. Era tudo muito estranho.
— Agora resta uma dúvida... – disse Enzo, pensativo. – Será que somos só nós dois ou tem mais como a gente por aí?
— Tenho certeza que iremos descobrir. A Mãe guiará nossos passos. – Gwen respondeu, e imediatamente notou a cara dele de descrença. – Ela te guiou até aqui, não foi? Então saberemos onde ir em seguida.
— Eu não estou sabendo aonde ir.
— A Mãe tem o tempo certo de fazer as coisas. Quando chegar a hora, saberemos.
Enzo suspirou. Não adiantava discutir com ela, tudo era Mãe pra lá e Mãe pra cá. Isso o fazia sentir falta de sua própria mãe.
— Você não pode me guiar pra fora dessa floresta, de volta pra cidade? Aí, quando a “Mãe” precisar de mim, você me busca de novo. Minha mãe e minha irmã devem estar muito preocupadas comigo.
— Não sei se isso é certo, Enzo. Pode acontecer algo que me impeça de ir atrás de você. E tenho certeza que isso que estamos vivendo é importante demais para você sair assim.
— Então a gente poderia ir só pra eu avisar minha família que eu estou bem. Posso escrever uma carta e pedir para entregarem, aí nós não perdemos muito tempo. – disse Enzo, um plano se formando na sua mente. – Você nunca foi à cidade, não é?
— Não.
— Vou te mostrar uns lugares legais lá quando a gente for.
Gwen não ficou muito entusiasmada. Lugares legais numa selva de pedra? Não acreditava naquilo. E não gostava nada da idéia de Enzo de ir deixar um recado para a família. Aquilo lhe trazia um mau pressentimento. Tentou se consolar dizendo para si mesma que se sentiria da mesma forma, se pudesse avisar a própria mãe. Se sua mãe ainda estivesse viva.
Mas ela precisava confiar em Enzo. Ele tinha o diamante, e Gwen tinha certeza de que a deusa jamais entregaria uma tarefa importante à alguém que não fosse confiável. Aquilo era a marca de algo maior, algo que eles deviam enfrentar juntos.
— Tudo bem, eu vou guiar você.
Seu estômago revirou enquanto o garoto sorria, vitorioso.
Fale com o autor