Notas iniciais
Estava com saudades dela. Aurora.

Antes da oficialização do casamento, os pais de Aurora acreditaram que seria válido fazer uma viagem de barco para conhecer os arredores do condado que eles iriam controlar. O novo condado era uma região muito rica e bonita, repleta de praias e fiordes maravilhosos, onde seus habitantes, em sua maioria, eram pastores de ovelhas ou produtores de azeite e vinhos. Era uma região propícia para isso.

O rei e a rainha do condado de Todamanhã eram grandes apreciadores das belezas naturais de seu reino, e agora que estavam prestes a estender seus domínios com a união de Aurora e Geraldy, não poderiam estar mais ansiosos em conhecer tudo o que pudessem. Quando o enorme barco parou no píer improvisado, os aldeões vieram correndo conhecer sua nova rainha e seus pais. O rei Tom e o príncipe Geraldy também aguardavam na costa.

Aurora desceu do barco com dignidade, como todos esperavam. Não olhou para a praia simples, para as montanhas ao fundo, para o enorme céu azul ou para a vila rústica que se acomodava entre as rochas. Estava concentrada em seu plano e em sua mente não havia lugar para mais nada.

Ao chegar em terra, Geraldy estendeu-lhe o braço, e Aurora reprimiu a vontade de esganá-lo enquanto sorria docemente e lhe dava o braço para que andassem juntos. Os pais olharam o comportamento dela com aprovação.

Logo todos estavam com roupas de caça, até mesmo as mulheres da comitiva. Naquela região, a caça era um esporte digno que não distinguia sexo. Aurora se sentiu surpreendentemente confortável com calças, coisa que ela jamais havia usado. Permitia-lhe tanta liberdade de movimento que ela quase se sentiu nua.

Cavalgaram, Aurora montada em seu próprio cavalo. Para a caçada, vieram Geraldy; seu pai, Tom, um rei já idoso e viúvo; a irmã mais nova de Geraldy, Miquéia, que claramente não estava contente por ter ido; Aurora; seus pais, Marina e Marley, encantados com tudo; duas criadas e seis guardas. Era uma cena impressionante tantas pessoas com roupas de caças, tantos arcos, espadas e facas.

Aurora carregava um arco tímido nas costas e uma pequena aljava com flechas. Também carregava secretamente um conjunto de roupa que lhe permitiria sair dali. Seu estômago revirava sem parar ao pensar em seu plano. Seria difícil, quase impossível, mesmo que estivesse numa região que conhecesse bem. Ali, naquele lugar novo e sozinha, Aurora temia não ser capaz de fugir.

Geraldy cavalgava bem ao seu lado, mas Aurora olhava diretamente para frente, sem lhe dar atenção. Quando começaram a se aproximar da área onde os ursos viviam, ele se aproximou mais, como se tencionasse protegê-la.

De repente ele lhe parou, puxando a rédea do cavalo, forçando Aurora a olhá-lo. Discretamente, Geraldy apontou para uma ave grande, quase da altura do cavalo, que estava parada distraidamente bicando insetos de uma árvore. Aurora sabia o que fazer.

Lentamente, puxou seu arco e uma flecha, posicionando da forma como seu pai lhe ensinara hoje cedo. Geraldy mexeu levemente na posição de seus ombros e cotovelos, e Aurora inspirou profundamente, e então expirou, soltando a flecha com suavidade.

O impacto cravou o pescoço da ave no tronco da madeira, o som chamando a atenção de sua família, que já estava mais à frente. Todos comemoraram a primeira caça de Aurora, exceto Miquéia, que a olhava com um misto de inveja e desprezo.

Aurora se sentiu forte. Se havia conseguido fazer aquilo, conseguiria fazer qualquer coisa. Encontrou dentro de si a coragem que precisava para levar seu plano adiante.