Na imensidão da floresta, caminhava sem rumo nem dever, queria apenas espairecer minha mente depois de mais um dia de trabalho duro e pesado limpando os estábulos e cuidando dos cavalos do senhor Hayley.

Era uma noite quente de verão, o céu estava limpo, com apenas algumas nuvens permitindo observar livremente as estrelas, e a lua pairava lá, iluminando a noite, banhando a floresta e o lago com seu vívidos raios prateados.

O ar tinha um leve aroma de cerejas e grama molhada, isso me deixava alegre por um lado e por outro irritada, pois me lembrava a noite em que o urso pardo entrara na nossa aldeia e devastara várias casas, inclusive a minha. Não satisfeito com a destruição causada, a fera levara minha irmã mais velha, Violet, junto com ela para a mesma floresta da qual estou caminhando agora. Ninguém sabe o que o urso fez à minha irmã, muitos dizem que ele a comeu, outros dizem que ela roubou a lança de um pescador, matou o urso e fugiu, outros tem até a imprudência de dizer que ela se apaixonou pelo urso e foi viver além da floresta, em terras desconhecidas com ele...

Eu não lembro direito dela porém meus pais dizem que ela era muito diferente de mim, elegante, sensível, dizia-se que ela se parecia muito com a minha avó que era também muito bela, coisa que eu não sou.

Quanto mais escurecia mais a lua brilhava no céu, devia faltar apenas uma hora para o meu aniversário de quatorze anos e queria passar aqui, na floresta, longe de tudo e de todos, apenas em contato com a natureza local. Desde criança nunca fui muito sociável e sempre preferi a companhia de animais do que a de seres humanos, meus pais nunca deixaram eu ter animais em casa então sempre vinha para cá para observa-los e ter o prazer de estar em contato com eles.

Parecia que a cada hora que se passa estava ficando mais quente, me aproximei do lago, a água estava cristalina e com um leve brilho da lua, nadavam carpas e outros tipos de peixe coloridos, nadavam despreocupadamente como se não tivessem mais nada para fazer da vida, me aproximei e sentei na beirada do lago, afundando minha pernas nuas na água, assustando a maioria dos peixes, a água estava tão fria que tive a sensação de queimadura porém me dava um ar de refrescancia e liberdade, que eu gostava, e fui me acostumando durante o tempo que fiquei ali sentada, olhando pro céu e observando as estrelas, pensando no vazio da vida, enquanto pequenos pequenos peixes voltavam para perto de mim e mordiscavam meus pés dentro d’água.

Ouvi os sinos da prefeitura, tocando em um longo e melancólico badalar de 12 vezes, era meia noite.

Parabéns para mim, acabava de fazer quatorze anos, mesma idade com que minha irmã fora levada pelo urso à dez anos atrás.

Se eu desse sorte, quem sabe um dia quando eu estivesse andando por essa floresta esse maldito urso voltasse e me levasse para algum lugar bem distante, onde nem todos tivessem pena de mim somente porque a estúpida da minha irmã, que eu nem cheguei a conhecer direito e nem me lembro muito fora raptada por um mamífero mais estúpido ainda.

Continuei pensando em um dia ir viver em outro lugar, viver uma vida menos monótona, me aventurar... Quem sabe, sortuda era minha irmã, que não precisou continuar vivendo anos e mais anos, até sua vida acabar e não ter feito nada aqui.

Estava quase dormindo, a floresta continuava silenciosa, dava apenas para ouvir os pios de algumas corujas e cricrilar dos grilos, foi quando algo despertou minha atenção, se mexia rapidamente, era algo forte, porem gracioso.

Tirei minhas pernas do lago, espantando os peixes que mordiscavam meus pés e rapidamente me levantei e segui floresta adentro, no impulso de querer saber o que era aquela coisa. Os sons as vezes cessavam por um tempo mas logo depois eu os achava, tropecei uma ou duas vezes nas raízes, várias pedras estavam cheias de musgos e precisei ter muito cuidado. Cada vez adentrava mais na floresta, e cada vez parecia mais que o barulho se distanciava, como se estivesse fugindo de mim, ou apenas pedindo para eu segui-lo, estava ciente de que provavelmente não teria mais volta, mas não me importei, só estava em busca de aventura, meus pais nem se importariam se eu sumisse por algum tempo já que estavam sempre ocupados demais cuidando da minha irmã recém nascida, Sandy, e quando minha curiosidade era despertada nada mais podia adormece-la.

Já estava cansada e empapada de suor, minhas roupas grudavam em meu corpo e meu cabelo em minha testa e em meu pescoço, o rio ou lago mais perto devia estar a quilômetros de distância, mas não estava com planos de descansar, não enquanto minha curiosidade for saciada.

Consegui novamente captar a trilha dos sons, agora jaziam leves e calmos, porém mais altos e impactantes. Agora quanto mais eu seguia, mais parecia perto, o barulho ia aumentando cada vez mais, até que parou.

Dava para perceber que agora tinha parado de vez, eu estava quase no meio de um grande círculos de árvores com apenas uma árvore no meio, uma árvore enorme, tanto na sua altura como espessura, parecia ter milhares de anos, seus galhos tinham uma longa extensão e cobriam todo o círculo como um teto de uma casa, nem sei como nunca consegui avista-la lá da aldeia.

Fiquei meio confusa, agora não sabia o que fazer já que o som tinha parado, nem para onde ir, já que devia estar a quilômetros de distancia de minha casa, estava totalmente perdida.

Estava em pânico, não sabia onde eu estava, nem como voltar para casa. A coisa mais sensata a fazer era deitar nas raízes daquela grande árvore e esperar amanhecer para tentar retomar a trilha de volta para casa.

Quando estava me aproximando da grande e sinuosa árvore, uma rajada de vento me empurrou e caí nos pés de uma das árvores que formavam o círculo, tive a sensação de ter quebrado uma costela, mas agora que eu queria mesmo é chegar no centro do círculo e ver aquela misteriosa árvore. Algo molhado caiu em minha testa, olhei para o alto e não consegui ver o céu, a água caia das folhas das árvores, tentei me aproximar novamente mas quando estava quase chegando senti um calafrio e percebi que algo estava me rodeando, algo que estava em uma velocidade tão alta que o máximo que consegui ver foi um simples vislumbre branco e com pequenos tons de prata. Me senti como se estivesse sendo caçada, como um pintinho que tem gaviões sobrevoando sobre sua cabeça, prontos para atacar ao menor movimento brusco da presa.

Apalpei meu cinto onde sempre guardava o punhal que meu pai me dera de presente no aniversário do ano retrasado, já que eu sempre vivia na floresta ele achava melhor eu ter algum tipo de auto-defesa caso algo me atacasse como agora. Embainhei o punhal e o segurei tão forte que cheguei a cortar levemente as palmas de minhas mãos e senti o sangue quente e meloso escorrendo lentamente dentre meus dedos e levemente respingando no chão de terra batida e folhas secas. Ótimo, agora é que eu estava ferrada, seja o que quer que fosse aquela criatura, sentiria o aroma doce, enferrujado e um pouco enjoativo do sangue, que até eu estava sentido.

Tinha me distraído com o punhal e perdi o foco, a criatura se deslocara para atrás da grande árvore central, o chão começou a tremer, a criatura provavelmente vinha em minha direção, de vislumbre algo saiu de trás da arvore pulando em minha direção e apenas segurei o punhal na minha frente, como uma posição de defesa, fechando os olhos e esperando que o pior acontecesse.