Abri os olhos e ergui a cabeça, não havia vida alguma além da grande árvore à minha frente, esperava estar morta, mas tudo parecia tão sólido e vivo que não precisei duvidar de quão viva e intacta eu estava. Ainda conseguia sentir o cheiro do sangue da minha mão e a dor da minha costela quebrada, provavelmente eu não morri.

Olhei a minha volta e nada vi, nada tinha me atacado... Onde estaria a criatura que estava atrás da árvore? Será que ela teria desistido de me atacar e fugido? Ou estava apenas esperando uma hora melhor para atacar? Assim que eu estivesse indefesa, sem o punhal que meu pai me dera em minhas mãos...

Lentamente, fui me recuperando do susto, aquilo devia ter sido tudo a minha imaginação, ou eu realmente não estava bem. Agora tudo parecia mais confuso ainda, eu realmente estava precisando descansar a minha mente.

Fui me aproximando da árvore, sorrateiramente, colocando um pé após o outro, só para me certificar de que não teria nenhuma armadilha e nada me impediria de chegar perto dela.

Dessa vez nada me impediu, assim que estava perto o suficiente pude ver melhor suas raízes, elas podiam servir como berço para um filhote de rinoceronte de tão grande que eram. Fui chegando mais perto, me sentei nas raízes, eram confortáveis e quentes. Me ajeite melhor até ficar numa posição agradável e acabei adormecendo rapidamente de tão exausta e esgotada eu estava.

Dormi tão bem quanto poderia, me senti como um gato que dorme no tapete em frente à um lareira em uma noite de natal, aquela árvore era envolvida por uma aura muito agradável e me senti aconchegada demais perto dela.

Mas então porque algo tinha me impedido de me aproximar dela? Seria aquilo uma pegadinha bem bolada dos meninos da aldeia tentando me assustar? Acho que não, até eles tinham uma certa noção do perigo de se aventurar floresta adentro.

Uma vez o antigo lenhador da vila, Sr. Pattinson, teve que entrar na floresta pois seu cachorro tinha se perdido enquanto corria atrás de um esquilo. O cachorro voltou com o esquilo na boca, porém ninguém sabe o que aconteceu com o lenhador, assim como aconteceu com minha irmã.

Acordei com o sol em meu rosto e o canto dos pássaros em meus ouvidos, tudo parecia tão feliz e inocente que quase esqueci pelo que tinha passado na noite anterior. Me sentia renovada, não sentia mais a dor da costela quebrada nem via mais o corte na palma de minhas mãos. Tudo aquilo era estro e confuso demais para eu entender.

Algo fazia sombra à minha frente, me espreguicei e ainda sonolenta fui acordando.

- Bom dia, Bela Adormecida, dormiu bem!?!?!- disse uma voz meio esganiçada e um pouco estranha logo à minha frente.

Levantei em um salto! Bem na minha frente estava parado um enorme e forte cavalo, tão branco como a neve e com um longo chifre prateado em sua testa.

- Vo...vo...você é um u...unicórnio? — gaguejei assustada -Vo...você fala ?

- Desculpe pelo susto de ontem, prazer, meu nome é Pérola, eu vim te levar para o lugar de onde você nunca deveria ter saído.- disse calmamente o simpático unicórnio.

- Sou Ivy- eu disse ainda desconfiada. – E como assim me levar para onde eu nunca deveria ter saído?

- Isso é uma longa história, tudo será explicado em breve, pequena heroína – disse ele. – Venha comigo!

Eu não podia deixar um cavalo falante com um chifre que mais parecia uma chapéu de festa no meio da testa me levar para onde bem entendia. Se bem que eu queria mesmo ir embora daqui, mas nunca tive nenhuma opção como agora... Mas primeiro ele teria que me dar ao menos uma explicação razoável de toda essa confusão.

- Você não me levará para lugar algum sem ao menos me dizer o porquê! – eu disse

- Pequena Heroína, se acalme, não tenha medo, estou te levando de volta para casa, onde todos ainda se lembram de sua história. – disse Pérola impacientemente. – Vamos logo, bem ou mal te levarei, e gostaria que não fosse do pior modo... Achei que você estivesse entediada dessa sua vida nessa aldeia sem graça....

- Você não sabe de nada da minha vida! – protestei. – Quero saber para onde você me levará, ou não vou!

Já estava começando a ficar irritada, por que todos sempre escondiam as coisas de mim?

Eu tinha que arranjar um jeito de fugir mas era isso que eu realmente queria, passar a vida inteira aqui, limpando estábulos, sem fazer nada de útil, sem saber quem realmente eu sou? Mesmo assim não tinham nenhum jeito de fugir, não achei o punhal em meus bolsos, provavelmente o unicórnio roubou de mim...

- Onde está meu punhal ? – perguntei irritada.

- Eu o tirei de você enquanto dormia, Pequena Heroína. E só o devolverei quando chegarmos ao nosso destino.- disse Pérola tentando manter a maior calma possível.

Me senti como se uma parte de mim não estivesse presente, me sentia totalmente indefesa sem meu punhal. Só me restava duas opções: eu poderia ir na paz com cavalo chifrudo e falante, tentar fugir mas o unicórnio que era bem mais veloz e forte do que eu provavelmente me acharia e me levaria à força. Sendo assim, eu fico com a primeira opção.

Não deveria ser tão ruim assim o lugar para onde Pérola me levaria, na verdade qualquer coisa é melhor do que continuar nessa mesma aldeia com essa mesma vida chata e monótona... Ia quase me esquecendo de meus pais, mesmo eles sempre me trocando por minha irmã que era recém nascida uma hora eles dariam minha falta, e mesmo assim eu sentiria muitas saudades deles. Tudo bem, uma hora eu teria mesmo que larga-los, que seja agora que eu tenho a oportunidade de ir para outro lugar, mesmo assim eu teria que avisa-los.

Minha mente devia estar tão embolada como um carretel de linha, acho que eu deveria realmente confiar no unicórnio, além de não ter outra opção, ele era um ser místico que já deveria estar extinto e se algo conseguiu o trazer de volta provavelmente não era maligno, se bem que já ouvi muitas histórias de que só com magia negra que se pode ressuscitar os mortos. Mas aquele unicórnio não parecia estar morto...

Fiquei um grande tempo encarando o unicórnio, tentando detectar algum tipo de maldade ou sinais de que estava morto, ele o tempo todo me fitou com um vívido olhar de criança esperançosa. Tenho que admitir, aquele parecia ser a criatura mais pura que poderia existir no mundo, era impossível encontrar algum tipo de maldade ou malícia naqueles vivos olhos azul safira com um leve toque de prata. Até que enfim tinha decidido confiar nele, mas é claro que eu estaria sempre alerta.

- Pelo menos dessa vez está sendo mais fácil. – comentou ele quebrando o silêncio.

- Como assim dessa vez !?!? – perguntei confusa e ainda um pouco desconfiada.

- Pobre criança, vejo que todos sempre esconderam a verdade de você, venha comigo e saberá de tudo em breve.- disse ele. – Somente em breve.

- Não sou criança nenhuma ! – protestei – Está bem, irei com você, mas primeiro eu queria avisar meus pais e dar ao menos uma desculpa de que estou indo morar em uma outra cidade com a tia de uma amiga minha ou algo do tipo... Mas não sei nem como irei avisa-los, já que não sei o caminho para casa...

- Não se preocupe, Pequena Heroína, seus pais já deviam estar esperando isso acontecer, pelo menos dessa vez eles aceitaram. Pode-se considerar que já foram avisados de que um dia isso iria ter de acontecer à muito tempo atrás.- disse Pérola- Vamos logo, não temos tempo a perder.

Pérola se aproximou de mim sorrindo da forma mais engraçada possível que um unicórnio poderia sorrir.

- Sabe montar? – perguntou ele.

- Sei. – respondi, nunca tive nenhum cavalo mas as vezes depois de limpar os estábulos e alimentar os cavalos do Sr. Hayley, ele sempre deixava eu dar uma voltinha neles. Sr. Hayley sempre foi um patrão rigoroso, porém era legal quando o serviço era bem feito.

- Tá esperando o que !?!? Um convite formal !?!? – disse Pérola brincando – Suba logo em minhas costas !

- Está bem – eu disse.

Mas minhas tentativas de montar sem cela foram em vão, os pelos de Pérola era oleosos, e eu tinha medo de machuca-lo (mesmo isso sendo impossível).

- Tudo bem, eu te ajudo. – disse Pérola, dando uma risada digna de um unicórnio, enquanto me segurava pela camisa com a boca e se virava, me jogando em suas costas.

Pronto, até que enfim eu tinha conseguido montar.

Pérola se aproximou da árvore, marchando rapidamente e levantando terra e folhas secas do chão. Ele parou em frente à árvore, a rodeou até um ponto e parou novamente, se aproximou das raízes e em uma delas começou se formar um verdadeiro arco-íris, as cores dançavam entre si e iam se entrelaçando e se dissolvendo uma nas outras, formando novas cores, era um lindo espetáculo de se ver. E assim que ele a tocou com seus cascos a dança das cores foi se espalhando por todas as raízes da árvore. Era mágico demais para um simples ser humano que nem eu estar presenciando aquilo.

Pérola olhou para trás para ver minha expressão de deslumbrada e sorriu, aquilo tudo parecia normal para ele, como se fosse algo que fizesse sempre em seu cotidiano à anos.

Ele bateu com o casco prateado cinco vezes nas raízes e disse:

- Ó, mãe árvore, me aceite em seu reino como seu servo e dobrarei meus joelhos a você, me aceite em sua casa que serei o melhor dos hóspedes, me aceite como seu filho e sempre que precisar voltarei ao ventre materno para protege-lo, me aceite como vigia e guardarei as suas portas, me aceite em sua irmandade que erguerei a prata quando as trevas chegarem.

E assim as raízes coloridas mudaram para um prata brilhante e se uniram formando uma porta que instantaneamente se abriu, dando para um enorme cômodo.

Pérola entrou na porta, o cômoda na verdade era um enorme elevador de prata.

- Seja bem vinda Árvore da Vida. – ele disse — -10º andar, lá vamos nós!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.