Christine mal falara com a mãe desde que ela contou-lhe a verdade. Era difícil para ela saber que a mãe escondeu de sua verdadeira família, para ela de nada fazia diferença ter sido criada no palácio ou não, ela tinha orgulho de quem era e da criação recebida, também tinha orgulho da mãe, mas sentia que perdeu tanta coisa. Se ela tivesse crescido dentro daqueles muros teria um acesso maior aos estudos, teria uma irmã e não precisaria se preocupar com a sua segurança, porém o castelo foi atacado mesmo com tudo que o castelo tinha a oferecer, tão segurança não era algo realmente verdadeiro. E definitivamente, se tivesse crescido lá, não teria conhecido Josh e perderia uma das melhores pessoas que já conheceu na vida. Pesar os prós e contras da criação que teve era algo devastador, mas ela não conseguia tirar da cabeça. Agora ela tinha um pai, duas mãe, uma irmã e um primo de segundo grau, o qual estava sobre sua responsabilidade, mesmo ela não sabendo nada de cuidar de uma criança. Felizmente Miguel era do tipo independente, possuía tamanha inteligência que a deixava impressionada, ele conseguia manter um diálogo com uma criança de sua idade até o governador da cidade Quatro, ele tinha certeza disso. Ele também sabia cozinhar e assim que acordava, suas coisas ja estavam prontamente arrumadas. Fazia uma semana que eles eram três e ela já estava se acostumando com isso, mas sabia que uma hora a realidade iria lhe cair em cima sem nem ao menos avisar e ela mudaria de vida para sempre.

— Tine. — Miguel estava na porta do quarto.

— Oi meu anjo. — ela tentava manter a cabeça naquele momento.

— A minha mãe vai voltar, não vai? — ele estava visivelmente assustado.

— É claro que vai. Você é o mais importante para ela. Ela só está demorando um pouco. — fazia uma semana que ela havia partido — está com saudades não é?

— Um pouquinho… — ele abaixou os olhos, visivelmente corado — muito.

— Vem cá. — ela se sentou na cama — eu sei que ficar longe dela está sendo difícil, mas assim que ela voltar, vocês não vão mais se separar, eu prometo isso.

Nesse mesmo instante a porta da frente da casa de Christine foi transformada em cacos, os soldados do castelo interpretaram a missão de recuperação com resgate e operavam na ofensiva. bombas de luz foram jogadas na casa, o que deixou os três atordoados. Um guarda pegou Tine no colo e a levou para fora antes que ela conseguisse entender do que se tratava. Quando já estava no final da rua ela recuperou os sentidos e começou a gritar por ajuda, seus vizinhos que olhavam pelas janelas não ousaram sair de suas casas, exceto por Josh. Ele correu na sua direção e os guardas se agruparam de forma defensiva.

— Socorro. — ela gritou por cima do ombro do guarda — Nos ajudem, alguém nos ajude, por favor.

— Eu estou indo Tine.

Josh correu o mais rápido que pode, os guardas receberam ordem de neutralizar qualquer ameaça a Christine, já estava a postos, apenas esperando a ordem do sargento. Cramin não queria dar a ordem por ser apenas um jovem vindo em sua direção, mas ao observar as mãos de Josh, ele percebeu que ele carregava algo que podia ser uma ameaça eminente e deu o comando final. Todos os guardas atiraram e em seguida um silêncio enlouquecedor. Tine conseguiu se soltar a tempo de ver o corpo de Josh acertar o chão. Ela esquivou-se dos guardas e correu em direção a ele, ao perceber o erro cometido o sargento seu a ordem para que eles não interferissem.

— Josh… — ela ajoelhou ao seu lado, passando as mão pelo seu corpo na vã tentativa de achar um jeito de parar todo aquele sangramento, mas era tarde, ele tinha pouco tempo.

— Chris… tine. — ele não tinhas forças.

— Não me abandone Josh, por favor, não me abandone. Me desculpe. — ele começara a chorar.

— Eu sinto muito — ele se esforçava para conseguir falar — Eu te amo.

— Eu te amo josh. — ela disse e logo depois os olhos dele fecharam — Josh. Eu te amo, não me deixe… — ela agora abraçava seu corpo pálido.

Cramin respirou fundo e engoliu em seco, ver aquela cena partiu seu coração e ele se culparia eternamente pelo erro que cometeu, mas agora era tarde, não podia voltar atras e a princesa tinha que ser levada para o palácio. Ele foi até ela e tocou seu ombro, Tine olhou para cima, a visão embaçada por causa das lágrimas, mas não demonstrou qualquer reação de resistência.

— Precisamos ir. – foi tudo o que ele disse, na verdade, tudo que conseguiu dizer.

Ao entrar no helicóptero junto dos guardas, Tine percebeu que tudo aquilo tinha haver com o que a mãe lhe revelara e sentiu raiva, ser quem eles diziam que ela era havia tirado dela a única pessoa que amou a vida inteira. Miguel que estava aterrorizado com a cena que presenciou, agarrou-se a Makaila o mais forte que conseguia e ela lhe fazia carinho afim de que ele dormisse, aquilo fora demais para o pobre garoto. Os guardas permaneciam em seus assentou imóveis, como se a cena que acontecera poucas horas atrás fosse comum, mas seus olhos percorriam de Tine ao sargento em pequenos intervalos, um deles vendo o estado de choque de Tine e indo completamente contra o protocolo, levantou-se e pegou um cobertor para ela. Seus olhos bondosos foram um consolo para ela e ela permitiu-se desabar em seus braços, mesmo indo contra tudo que lhe foi ensinado. O guarda sem saber exatamente como agir olhou para o sargento que assentiu e ele permaneceu ali, abraçando aquela menina suja de sangue que chorava desesperadamente. Três horas haviam se passado até o crise de choro de Tine e mais uma hora até ela estar tão esgotada que praticamente desmaiou nos braços do soldado.

A chegada no castelo foi turbulenta. Todos os moradores do palácio aguardavam na pátio central a entrada triunfal da herdeira recém descoberta, porém ao verem uma garota enrolada em um cobertor, suja de sangue e amparado por um guarda, todos ficaram assustados. Varias coisas passavam naquelas mentes, desde que ela estava vivendo em uma situação de risco até que ela podia ser um risco ao bem estar deles. A rainha Iriana que se mantinha sempre alguns passos atrás do marido desta vez estava adiante, um pouco receosa de se aproximar de Christine, ela aproximou-se devagar, não queria assustar a filha. Assim que estavam frente a frente, ela abraçou Christine com toda a sua força e ficou devastada ao perceber que o abraço não era reciproco.

— Ela está ferida? – o rei perguntou ao se aproximar.

— Não, meu senhor. – quem respondeu foi o guarda que a acompanhava.

— Então de quem é todo esse sangue?

— Josh. – foi a vez de Tine de responder – Eles mataram o Josh. – se ela ainda tivesse algum estoque de lagrimas, elas provavelmente sairiam agora, mas ela havia chorado tanto que agora os olhos apenas ardiam.

— Quem é esse Josh? – a rainha finalmente participara da conversa.

— Mãe. – Tine não se referira a rainha mais a Makaila que estava alguns passoas atrás.

— Vai ficar tudo bem, querida. – Makaila estendeu a mão e tocou-lhe o ombro.

— Leve ela para o quarto. – o rei direcionou-se para o guarda – e a senhora – agora falava com Makaila – acompanhe a rainha até a sala do trono. Logo terei uma audiência com vocês.

— Sim, meu rei. – foi a resposta de todos.

O caminho para o quarto de Tine passava por toda a ala norte e terminava em uma intercessão entre as quatro alas. O quarto em si era quase maior que a casa em que ela morava antes, possuía vidro em todas as paredes, as cortinas eram de seda branca e pendiam suavemente com a brisa que entrava no quarto. Na parede contraria a porta pela qual entraram ficava uma enorme cama redonda suspensa com uma mesinha ao lado, no centro do quarto havia uma pequena mesa de chá com duas poltronas em marfim e do lado oeste do quarto havia uma área elevada de aproximadamente cinco metros de comprimento, onde alguém projetou um mini escritório. O guarda a deixou na porta.

— Daqui alguns minutos uma criada vira ajuda-la. – ele disse antes de se afastar.

— Espere. – ela virou-se para ele – Qual é o seu nome?

— Ah... – ele não esperava por isso, a realeza geralmente não se importa em saber o nome dos soldados do baixo escalão – Me chamo Stefan, soldado Stefan Crow, ao seu dispor. – e fez uma reverencia.

— Obrigada. – ela não sabia ao certo o que estava agradecendo, mas ele a entendera.

— Sempre que precisar, princesa.

Ela demoraria para se acostumar a ser chamado por esse título. O quarto possuía mais uma porta, na parede leste. Ela dava acesso a um banheiro grande, com mais coisas que Christine achava necessário. Havia um espelho no canto e ela foi até ele. Ela nunca se viu daquele jeito, o rosto aparentava um cansaço que nunca exibiu na vida, o cabelo bagunçado e o corpo era uma mistura de lama e sangue seco. Sangue. Josh. A raiva voltou a percorrer suas veias com mais velocidade que seu próprio sangue (se é que isso era possível). Ela começou a rasgar a camisola, precisava tirar aquilo do corpo, não suportava ficar mais um segundo vendo aquelas manchas de vermelho, lembrando que o que aconteceu com Josh era culpa dela.

— Senhorita. – ela ouviu uma voz doce, porém obviamente estava carregada de pena. Era a criada que Stefan mencionou.

— Você está aí a muito tempo?

— Me desculpe. – a criada abaixou a cabeça envergonhada.

— Tudo bem... É só que... – ela não sabia por onde começar.

— Eu te entendo. – ela se aproximou e tocou o ombro de Christine de leve – Que tal te lavarmos?

Christine apenas assentiu com a cabeça. Era estranho para ela ficar nua na frente de outra pessoa, já a criada agia com naturalidade. Ela ajudou Tine a tirar o que restava da camisola e a entrar embaixo do chuveiro, Tine ficou lá até que a criada fechou o registro e a chamou para entrar na banheira.

— A senhorita precisa descansar e um tempo na banheira vai ajudá-la.

— Obrigada. Qual é o seu nome mesmo? Desculpe ter demorado tanto para perguntar.

— A senhorita não precisa se importar com essas coisas.

— Com o seu nome?

— Digamos que quando a senhorita precisar eu vou estar aqui e quando não precisar eu não estarei.

— Deixe disso. Olha, eu me chamo Christine, meus amigos me chamam de Tine e você é?

— Eu me chamo Maxine.

— Posso chama-la de Max?

— Como desejar senhorita.

— Me chame de Tine e eu te chamarei de Max. Eu quero ser sua amiga Max. Preciso de uma amiga aqui.

— Posso te fazer uma pergunta pessoal?

— Pode.

— Quem é Josh?

— Ah... – ela ficou surpresa, tinha imaginado que seria algo sobre ela e a família, não algo sobre ele – Joshua é... era um amigo íntimo. Ele é... era meu melhor amigo. O rei aparentemente ordenou que o matassem. – mais uma vez a raiva estava ali e era quase palpável.

— Eu sinto muito, não devia ter perguntado. – na verdade ela já desconfiava o que tinha acontecido, mas precisava saber se podia mesmo confiar em Christina e que jeito melhor do que perguntando sobre todo aquele sangue.

— Eu posso fazer uma pergunta agora?

— Claro. – ela sorriu.

— Por que você trabalha no palácio, não me leve a mal, acontece que você parece muito jovem para isso?

— Eu cresci nesses corredores. A minha mãe trabalhou aqui a vida inteira e eu ajudava ela com algumas coisas... Quando ela faleceu eu acabei ficando, todo mundo que conheço mora aqui.

— Eu lamento. Ei que não é a mesma coisa, mas entendo sua dor.

— Obrigada, significa muito. Agora, que tal você ir descansar?

— Ótima ideia.

Max ajudou Tine a escolher algo para vestir, o escolhido foi uma camisola de tule por ser a de aparência mais simples do closet. Christine dormiu por horas varias horas seguidas, mas quando acordou era como se não tivesse dormido mais que minutos. Ainda deitada de barriga para cima, olhando o teto, ela não percebeu que havia alguém sentada na cama até sentir algo se mexer, ao olhar na direção ela viu uma garota jovem, reconheceu como sendo a princesa Anna, ela aparecera poucas vezes na televisão e pouco se sabia sobre ela, além de que ela era linda. Em parte ela lembrava Tine mais nova, os mesmos olhos curiosos castanhos e o nariz levemente arrebitado, o cabelo preto descendo ondulado até a cintura, o sorriso era o mesmo da rainha, disso ela não tinha dúvida, a postura completamente ereta digna da princesa que era. Anna vestia um vestido longo com um decote cavado que descia a partir dos ombros como uma cascada, um pouco decotado demais para alguém da sua idade.

— Alteza. – Tine não conseguiria se direcionar a Anna de outra forma.

— Sério Christine? – Anna revirou os olhos – Vamos tentar de novo, tudo bem?

— Você deve ser a Anna, pressuponho.

— Exatamente. – ela esboçava um enorme sorriso, claramente feliz de Christine ter dito seu nome – Então... É verdade que você foi criada pela sua babá?

— Makaila é minha mãe. – Tine ficou um pouco brava, estava visivelmente na defensiva.

— E ela era legal? – Anna realmente estava interessada.

— Não consigo imaginar mãe melhor.

— É porque você ainda não conheceu a nossa. – ela suspirou – E como é lá fora?

— Não entendi... – Tine a observava levantar da cama e ir em direção a uma das janelas.

— Acho que você não sabe muito sobre a gente. – ela olhava pela janela, os dedos passeando pelo vidro – Depois daquele ataque, a segurança foi reforçada e eu nunca sai daqui. Papai tem medo que algo aconteça.

— Você nunca saiu do castelo? – ela não acreditava no que ouvia, por sua causa Anna vivia trancada.

— Eu basicamente não saio nem do palácio. – ela voltou para a cama e se jogou – Mas não é tão ruim assim... o palácio tem muito espaço, as vezes acho que eu nem conheço ele todo. – era mentira, ela tinha certeza que conhecia cada canto do castelo. Na verdade, graças as aulas de cartografia e arquitetura, ela criara dezenas de mapas e plantas do castelo.

— Me desculpe.

— Não é culpa sua. – ela virara para olhar a irmã – Atacaram a gente, quer dizer, vocês. Ninguém aqui teve culpa do que aconteceu.

Agora Christine entendeu o porque de Anna usar uma roupa tão pouco condizente com a sua idade. Ela foi educada para se tornar rainha, precisava parecer mais velha, mais experiente... precisava parecer adulta.

— Sabe, eu estou feliz de você existir... – continuou Anna – Não me leve a mal, mas é um alivio saber que não vou ser rainha.

— Você seria uma rainha maravilhosa.

— Mas não fui destinada a ser. Eu fui educada para isso, mas não nasci. Já você, esse é seu destino Christine. Confie em mim, você será grandiosa.