As Crônicas Dela

3 Ela e a Cesta de Maçãs


Notas iniciais
Esse ficou bem maior do que os outro porque a queridíssima Raion-chan me deu um tema. Boa Leitura!

Poucas pessoas tem o costume de acordar cedo o suficiente para testemunhar o nascer do sol, e as que têm não o fazem, certamente porque estão "ocupadas demais". Mas até ai não me diz respeito, façam eles o que quiserem de suas vidas, eu pelo menos, gosto muito de assistir o sol nascendo e o vejo todas as manhãs — fora as chuvosas, claro.

Para o bem da verdade, eu prefiro ver o sol poente. Mas na minha concepção certas coisas são belas de mais para serem ignoradas. Se um dia eu não puder mais ver o sol nascer, não terei arrependimentos porque saberei que o vi o máximo de vezes possível, e que eu o tratei como algo precioso e não um evento sem importância. Não quero que essas pequenas coisas sejam minha cesta de maçãs. Deixe-me explicar como funciona essa comparação:

Você tem uma cesta cheia de maças, elas estão ali, são suas e olha pra elas uma vez ou outra, de novo e de novo, mas por algum motivo ou outro vai acaba desistindo de comê-las. Um dia as maçãs apodrecem e são jogadas fora, e é nesse momento que você olha pra bendita cesta — agora vazia — e pensa: "Mas que vontade comer uma maçã."

Enfim, minha rotina diária consiste em acordar o mais cedo possível, — o que pra mim é por volta das quatro e pouca — tomar uma ducha, pentear o cabelo, agarrar meu casaco e sair de casa. Eu adoraria poder assistir a aurora da minha janela, mas como minha casa é de frente ao sol poente — o que não é ruim de todo, posso ver o por do sol confortavelmente do meu quarto — tenho que fazer uma caminhada de quinze minutos até o parque na rua trás pra, pelo menos, tentar enxergar alguma coisa dos raios de sol vindo à tona por entre os prédios. Vez ou outra levo meu caderno de desenhos e faço alguns esboços, ou então coloco algumas flores e folhas entre as páginas, nada muito impressionante, mas essa é minha ideia de diversão não posso fazer nada quanto a isso.

É uma rotina agradável, me é muito cômoda na verdade. Mas como sempre acontece comigo, a vida não pode simplesmente deixar tudo como está, ela tem que deixar tudo de pernas para o ar. A bagunça do coreto veio há mais ou menos uma semana, quando notei um vulto perto da árvore onde eu costumo ficar pra observar a paisagem. Uma pessoa irracional teria se assustado e corrido, alguém com um pouco mais de juízo teria verificado o que era, mas eu não faria nada disso. Tudo que fiz foi dar as costas e me sentar num banco mais adiante. Talvez fosse apenas alguém querendo cuidar de sua vida, achei melhor deixar pra lá. Ainda assim durante todo tempo em que permaneci no parque me senti vigiada.

E foi assim durante dias. Vigiada. Espionada. Observada como um animal de zoológico! Se eu estava irritada? Com certeza! Já tinha me cansado há muito quando resolvi dar fim aquela situação irritante.

Sentei-me num banco próximo ao esconderijo de meu espião e me certifiquei de que daquela distância eu seria ouvida sem esforço. Eu não gosto nem um pouco de gritar, na verdade acho algo desnecessário, mas a aquela altura do campeonato minha irritação já era tanta que mais um pouco e eu iria rever meus conceitos.

- Vai ficar aí feito um dois de paus ou vai vir aqui me dizer o que raios você quer comigo?

Poucos segundos depois ouvi passos vindo em minha direção e uma garota ruiva, não muito mais baixa que eu, surgiu na minha frente. E por Deus! Que estado deplorável em que ela se encontrava. Tinha faixas nas mãos e braços, curativos nos joelhos, um protetor ortopédico no tornozelo esquerdo e uma faixa em especial em sua cabeça passava por cima do cabelo e de um dos olhos. Tive de resistir o impulso de perguntar se ela era fugitiva da ala de acidentados de algum hospital, antes de conseguir formular algum comentário à altura da situação.

- Vai me responder ou vou ter de chamar a polícia?

O rosto da menina passou da surpresa ao desespero em alguns segundos e antes que eu pudesse me dar conta, ela já beirava o choro. Porque é que só de olhar pra cara dela eu tinha a suspeita de que a resposta era “eu não sei”? Afinal qual era a idade mental dela?

E aí vieram os soluços. “Oh, céus, porque eu?” Eu pensei a beira de um ataque de nervos.

- Olha... — eu massageie minhas têmporas — Eu vou fingir que você não estava me espionando, eu não vou chamar a polícia, eu não vou fazer absolutamente nada. — eu tive de parar pra respirar nessa parte — Mas pelo amor de Deus... Para de chorar!

Quando ela finalmente se acalmou e se sentou ao meu lado, eu fiz a pergunta da qual eu viria me arrepender pela próxima hora inteira.

- Qual é seu nome?

Mais uma vez, uma alarde de sem tamanho pra uma pergunta simples. Só perguntei pelo nome dela e em sessenta minutos, — não é possível isso, ela deve ter batido algum recorde ou coisa do tipo — ela me contou uma nada breve história de sua vida. Mas para o bem da verdade tudo que me dei ao trabalho de ouvir foi: “Meu nome é Catleia.”. (Isso não era um nome de orquídea?) E só. Depois disso tudo foi um emaranhado de informações sem sentido. Vez ou outra eu entendia algumas palavras soltas em meio a fala rápida carregada de sotaque, — provavelmente ela era colombiana ou argentina, algo assim — mas não é como se eu estivesse empenhada em entende-la.

Não entendi muito bem o porquê dos machucados, — algo sobre manteiga e caminhões de mudança, me parece — ouvi algo sobre ela ter se mudado recentemente e não conhecer ninguém na cidade e... Cruzes... Alguém precisa dizer urgentemente a essa garota que ela fala rápido demais. Mas eu não.

A conversa, ou melhor, o monologo dela (eu não conseguiria falar mesmo que quisesse) já rumava para assuntos relacionados ao clima tropical quando a começou a ficar difícil ignorar a dor de cabeça que me assolava desde que a menina começara a tagarelar. Hora de ir.

Levantei-me de automático, e por um segundo quase me esqueci de que tinha companhia, mesmo segundo em que Catleia se calou.

- Já vai?

- Sim.

- Ah...

Não é possível. Ela ficou... Triste? Não. Ninguém fica triste quando eu vou embora. Eu não sou amigável, nem simpática, nem o mínimo gentil. Eu sei disso, não sou alguém que se queira por perto. — E não, eu não tenho nenhum problema quanto a isso. — E ainda assim, a garota veio até aqui a procura da minha campainha, sentou-se ao meu lado e se propôs a contar toda sua vida, ao passo que eu mal lhe tinha dito algumas palavras ou me mostrado interessada em ouvir. Olhando bem... Analisando direito... É triste. Triste, para ela. Alguém que queira minha presença, ou mesmo que fique feliz nela, deve ser no mínimo solitário.

Balancei minha cabeça e afastei esses pensamentos. Eu não me envolveria.

- Como você disse mesmo que se chamava? — ela me perguntou se levantando também

- Não disse.

Afastei-me alguns passos antes que eu ouvisse sua voz estridente novamente.

- H-Hei! Nos vemos amanhã?

Virei-me em sua direção e antes de responder o “não” que eu pretendia, fui impedida. Algo caiu entre nós, causando um baque surdo quando bateu contra o chão. Catleia deu um gritinho assustado e deu um passo pra trás quase que de imediato. Visualizei o causador do susto e meus olhos focalizaram uma bela fruta vermelho brilhante, depois a peguei do chão. Catleia ainda permanecia assustada, e olhava nervosamente para os galhos acima como se temesse ser atingida por outra daquelas.

Olhei pra ela em descrença. Francamente... Precisa fazer tanto alarde por uma maçã que caiu do pé? Eu nem se quer havia notada que estava aquele tempo todo embaixo de uma macieira. A propósito, era época de maçã?

Espere.

Do nada caiu a ficha, acendeu-se uma lâmpada na minha cabeça. Será que foi assim que Newton se sentiu quando descobriu a gravidade?

- Meu nome é Ela.

- C-Como?

- Ela. Meu nome é Ela.

E aí eu joguei a maçã pra ela. Por pouco não a deixa cair.

- Espera. Eu não gosto de maçã...

- Então me faça o favor de me devolve-la amanhã, então.

Ela sorriu, parecia genuinamente feliz. E isso foi a última coisa que eu vi e falei antes de me virar e ir embora.

- Tudo bem! Até amanhã, então! — ela gritou pra mim quando eu já estava longe

Tagarela, hiperativa, irrequieta, estabanada, e também muito irritante, meu completo oposto, mas ainda assim não tem incomodativa quando eu poderia ser. Até um pouco divertida, só que não. Certo, admito, embora nunca vá dizer isso em voz alta, que talvez — só talvez- seja bom ter companhia. Pelo menos é mais agradável do que ficar sozinha, é diferente no mínimo.

Talvez você não tenha entendido o porquê da minha mudança brusca de opinião, mas na verdade, é muito simples. Creio que se lembre da cesta de maçãs do início, se não se lembra é sinal de que não prestou muita atenção a coisa toda, mas isso não vem ao caso. Sabe, eu sempre falo sobre as pessoas e suas cestas de maçãs e sobre como elas não dão valor ao que tem até que o percam, pra dizer a verdade, muitas vezes vi isso de perto e achei muito bem feito. Mas... Nesse tempo todo, minha cesta esteve vazia e por isso nunca tive que me preocupar com maçãs, mas como eu disse no começo a vida gosta de sacudir a minha vida de vez em quando.

Pode ser que esta seja a primeira maçã da minha cesta, mas eu não vou deixar que apodreça, muito menos vou come-la, — o sabor da fruta se esvairia logo — farei algo racional como me é de costume. Vou pegar as sementes e as plantarei. Eu posso estar pronta pra uma colheita inteira algumdia... É, quem sabe?

E quanto a você? Como é que vai a sua cesta de maçãs?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Deixem reviews, criticas, sugestões, mandem um tema se quiserem! Estou esperando ansiosamente!