As Crônicas Dela

4 Ela e a Caixa de Pandora - Parte 1


Notas iniciais
Capitulo com tema sugerido pela a fofa da Berlim-chan! Mil desculpas, tá atrasadíssimo, mas foi por uma boa causa, queria que saísse o mais perfeito possível. - Só não sei se consegui isso :P - Também tive de cortar em duas partes essa crônica porque eu acabei me empolgando com o tema e escreve mais do que devia XD E acho que é só. Aproveitem a leitura!

As flores murcham, as folhas secam, os frutos apodrecem... Humanos definham. É natural. Afinal, não é assim que funciona? O mais velho se vai e abre espaço para o novo. Em minha opinião, é extremamente simples. Mas como sempre, minha opinião não é compartilhada pelo resto do mundo.

Céus... Poderia o ser humano deixar de, pelo menos uma vez, complicar as coisas triviais por natureza?

A morte é algo tão presente e tão comum que todos nós em algum momento tomamos consciência dela e da nossa própria mortalidade. Por mais novos ou ingênuos que sejamos. Uma hora ou outra nos vem a realização de que não somos eternos e que da mesma forma que viemos para esse mundo um dia iremos partir. Ainda assim o ser humano insiste em encontrar culpados. Doença, velhice, acidentes... Tudo isso é mera desculpa, não existe “E se...”, aconteceria de uma maneira ou de outra. Não estou dizendo que não seja saudável chorar a perda de um ente querido, ou mesmo do seu bichinho estimação, na verdade, te parabenizo muitíssimo se você ainda tem a capacidade de sentir dessa maneira num mundo como o nosso — afogado em interesses financeiros e egoísmo desmedido. Aliás, sendo para ser cem por cento sincera tenho que admitir, se não consigo entender o motivo pelo qual as pessoas tentam negar algo natural — ou mesmo caem em desespero — como a morte e ao mesmo tempo isso, compreendo e desprezo totalmente o falso luto. Quando vejo algo como isso, penso: “Por favor, poupe os mortos da sua hipocrisia. Eles não são mais obrigados a se submeter a esse tipo de coisa.”

A essa altura você deve estar se perguntando por que cargas d’água eu estou falando sobre isso, não? Pois bem, deixe-me dar as devidas explicações. Há algumas semanas atrás meu avô veio a falecer, ele morreu dormindo em sua cama aparentemente em sono tranquilo. Mas isso não vem ao caso. O ponto é minha família — sim, eu tenho uma — não pareceu muito comovida com a morte do nosso patriarca, na verdade tenho certeza que ouvi algum dos meus primos comentando sobre “ter sido bom o velhote ter batido logo as botas”. Pergunto-me aonde foi parar o devido respeito aos mortos que meus avós pregaram com tanta rigidez quando vivos. E pra dizer a verdade, não foi esse o ponto que me incomodou — tenha certeza que coisas assim já me eram mais que esperadas — o que me revirou mesmo o estomago foi o falso pesar. Durante todo o velório foi uma profusão de cenas dramáticas e demonstrações exageradas de tristeza. Francamente... Qual é a utilidade de se fingir quando todo mundo já sabe que é fingimento?

Enfim, eu fiz essa volta toda pra falar de apenas uma coisa. O testamento. Preciso dizer que essa coisa separou — se é que isso é possível — ainda mais meus parentes? Digo, se havia o mínimo de companheirismo que seja ali, se dissipou totalmente, na verdade creio que minha família seja ligada mais por laços de raiva e antipatia do que qualquer outra coisa.

Tudo por causa de uma chave velha.

Certo. Serei justa aqui. Não era uma chave velha qualquer, a chave supostamente abriria um cofre escondido em algum lugar da velha casa da família — casa, aliás, abandonada décadas atrás. Pra resumo da opera, o juiz, um homem muito estranho por sinal, decidiu que a chave ficaria comigo. Justo eu que nem estava interessada em toda essa disputa! Como se eu já não tivesse problemas demais com meus parentes...

Enfim, é aqui que você me encontra. Parada na porta da antiga casa do meu avô em Oía. E se você não sabe, Oía fica em Santorini, e Santorini é uma ilha Grega. — Mas deixemos a lição de geografia pra depois. A tal casa era um pouco maior do que as outras casas da ilha, no geral. Também estava bem afastada da costa, o que é no mínimo estranho se você pensar que toda a atividade da cidade se passa na enseada. Mas acho que entendo o construtor, talvez ele só quisesse um lugar pra ficar afastado e pensar sozinho.

Entrei pelo o que parecia ser a única entrada do lugar e deixei minha mala ao lado da porta, fechando-a logo depois e soltando Tebas.

– Não exageraram quando disseram que esse lugar era antigo, não é Tebas? — Eu disse olhando ao meu redor.

A casa estava quase vazia se não fosse por alguns velhos móveis de madeira cobertos por lençóis brancos. As paredes brancas já estavam um tanto gastas pelo tempo ao passo que o chão de pedra polido parecia ter se aproveitado muito bem dos anos em que não viu uma sola se quer. No meu campo de visão havia uma mesa, um relógio, uma cristaleira e uma escadaria de pedra para o andar de cima, apenas isso. Não aparentava nem de longe o lugar onde diziam ter um cofre escondido.

– Ainda não acredito nisso tudo, mas já que estou aqui... — Falei tirando do bolso a chave que me foi dada. Nada muito impressionante, apenas uma chave comum de metal.

Já que seria infernizada pelo resto da vida por causa dessa bendita chave, pelo menos que eu provasse que não existia nada naquela casa que fosse motivo de mais uma rixa familiar. Não que eu me importe que eles se digladiem todos os dias, mas quando resolvem me colocar no meio disso tudo eu sou obrigada a fazer algo.

Procurei por todo o lugar e adivinhe. Nada. Paredes sólidas, chão firme e na cristaleira a única coisa que encontrei foram alguns cacos de vidro e um envelope selado já amarelado pelo tempo. Dentro dele uma carta, do tipo que não se vê mais, escrita com tinta e à mão firme. Nela estava escrito:


Seja você quem for, se estiver lendo isso, eu estou morto.

Provavelmente você tem em mãos a chave do meu precioso pequeno tesouro e nesse caso, ele é seu agora. Só peço que cuide bem dele, por favor.

Procure no jardim debaixo da oliveira e encontrará o que procura.

Ário


Aquilo me poupava tempo, pelo menos. Guardei a carta no bolso e segui pelo corredor em direção aos fundos sendo seguida por Tebas.

Naquele momento eu me toquei que até aquele momento eu não tinha parado pra pensar numa coisa. Eu não me lembrava do meu avô.

A única memória que tenho é de um dia no aeroporto. Eu devia ser muito pequena porque a memória confusa, tudo que sei foi que naquele dia, eu o perdi pra sempre da minha vista. Tudo que sei sobre ele é que ele foi um avô ausente, que não ligava ou escrevia, que não vinha aos meus aniversários. Um homem que eu mal podia chamar de avô ou lembrar o nome. Mas eu sei que existiu um antes... Eu sinto que havia algo, algo que eu devia desesperadamente lembrar, algo importante. Era como se tivesse uma vida inteira antes daquele dia no aeroporto e eu não conseguia lembrar. Mas eu queria... Queria muito.

Cheguei a porta e respirei fundo como se girar uma maçaneta fosse algo complicado a se fazer. Eu definitivamente não estava no meu normal.

– Eu queria lembrar poder me lembrar de você. — eu disse abrindo a porta — Pappoús*...



Continua...

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui! E um Obrigada especial a Berlim-chan que sugeriu esse tema fantástico! Obrigada, Berlim-chan, eu me diverti muito escrevendo essa crônica :3 Amanhã de tarde eu posto a segunda parte. Até lá!

*Pappoús - Avô em grego
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.