As Crônicas dos Defensores de Luminia
16 Trajeto
Notas iniciais
Aurora andou por quilômetros. Seus pés formaram bolhas e suas pernas criaram músculos resistentes. Aos poucos ela se desfez de seus pertences, atirando ao rio ou afundando no pântano; só manteve o arco e flecha que usou para tentar caçar. Infelizmente não era tão simples como parecera na primeira vez, pois os animais raramente ficavam parados como aquela ave estava. Logo suas flechas terminaram e o arco se tornou inútil, então ela também se desfez dele. Passou a surrupiar comida sempre que passava por uma fazenda e, quando não havia nenhuma por perto, se contentava com cogumelos e frutas das florestas que havia na região.
Das florestas e pastos de ovelhas, de repente Aurora se viu numa região árida. Não havia mais florestas aonde pudesse encontrar comida, apenas longos desfiladeiros, capim seco e rochas. Ela seguiu em frente e, mesmo apavorada por estar perdida e com receio de não encontrar nada para comer, ainda havia um parte dentro de si que agradecia por estar naquele lugar tão seco. Não havia nada que pudesse deixar um rastro de onde ela havia passado, não havia barro que deixasse pegadas ou árvores que ela precisasse quebrar os galhos para passar. O capim era alto e, quando Aurora pisava nele, se abaixava por um breve instante antes de voltar a se erguer da mesma forma, sem deixar vestígio.
O sol subiu alto no céu e depois começou a descer, e Aurora ainda não sabia como encontrar comida ou água. Para todas as direções em que se voltava, eram só mais desfiladeiros e rochas. A fome começou a cavar um buraco dentro de si.
Pela primeira vez, teve medo de morrer ali. Por muito tempo, morrer era tudo o que Aurora desejava, mas aquela fuga e os dias que passara livre mudaram um pouco sua opinião. Sentia que agora era dona do próprio destino e, por mais assustador que isso fosse, ainda era melhor do que a situação que se encontrava antes.
Ela não tinha outra escolha a não ser seguir em frente e arcar com as conseqüências de sua decisão.
Foi só quando a lua deu o ar de sua graça, que a grama verde de pasto voltou a aparecer. Aurora sentiu suas pernas fraquejarem de alívio ao ver os lampiões de uma fazenda logo à frente.
Conforme se aproximava, ia andando mais devagar, analisando o terreno para ter certeza que não encontraria ninguém. Viu o cercado onde as ovelhas dormiam, o celeiro onde guardavam os cereais, um poço artesiano próximo à entrada da casa, um galinheiro e uma vaca solitária. Tinha que ser muito silenciosa para não acordar nenhum animal e não chamar a atenção dos donos da casa. Foi circulando a casa. Encontrou uma horta, uma árvore frutífera, uma pia externa. Da horta, arrancou algumas cenouras e as lavou na pia, abrindo o mínimo possível da torneira, com receio que o barulho da água caindo atraísse alguém. Aproveitou para beber um pouco da água e também catou algumas frutas, se escondendo no celeiro em seguida.
Havia fardos amarrados de feno, sacos e mais sacos de diversos grãos, caixas repletas de diferentes tubérculos, mas nada que fosse comestível imediatamente para Aurora. Ela se contentou com as cenouras e as frutas, e se recolheu num canto bem escondido para poder dormir.
E pensar que há poucos dias atrás vestia sedas suaves, dormia em uma cama enorme e macia, e comia seis refeições ao dia, dos pratos mais refinados e caros que existiam. Sua boca salivava só de lembrar da carne de pato ao vinho, dos javalis assados, das maçãs caramelizadas no espeto... Mas, mesmo com todas as privações, Aurora não se arrependia de nada. Tinha certeza que seria capaz de reconstruir sua vida. Só precisava, primeiro, ir para o lugar mais longe que pudesse, para que jamais a encontrassem.
Com pensamentos reconfortantes sobre seu futuro, finalmente adormeceu.
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